terça-feira, 27 de julho de 2010

Apocalipse 2000 - Guy Snyder



Era um deserto.

Na verdade, não se tratava bem de um deserto, mas sim de um descampado - e não muito descampado.

Os habitantes da região, na falta de melhor nome, chamavam-lhe um deserto.
Durante o dia, abutres voavam sobre ele. Sob o calor, vários pequenos répteis, muitos deles sugerindo estranhas mutações do camaleão, esgueiravam-se graças ao que Deus lhes dera como meio de propulsão primitiva. O ar fremia sob o calor, em direção ao céu, no Verão. De vez em quando aparecia um veado em busca de uma floresta. Os animais da próxima, e por vezes normal, "boa" terra, tinham uma tendência
muito pronunciada para se perderem no deserto, isolando-se dos seus grupos.

Eventualmente, acabavam por cair mortas - o clima não os tolerava: era... pouco hospitaleiro para eles. Morriam, ou de envenenamento local ou de sede, conforme as suas capacidades individuais. Os abutres, adaptáveis como eram, cuidavam-lhe da carne.
Os abutres.
Os abutres eram sempre muito magros.
Os abutres passaram um mau bocado. Eram os pássaros mais odiados, ainda que fossem muito necessários. Por vezes, quando as condições do tempo estavam a seu favor, comiam muito bem. Na realidade não eram nativos daquela área - ninguém sabia de onde eles tinham vindo. Subitamente tinham aparecido ali, a deslizar sobre as correntes aéreas. Talvez alguém se tivesse esquecido de fechar uma cova perto dali, e eles tivessem vindo por ela do Inferno.

Por vezes, no Verão, o solo do deserto estava muito quente, mas nunca mais de 38 graus.

O deserto era uma zona queimada com cerca de seis mil metros quadrados.
Durante o Inverno o deserto era razoavelmente frio. Não havia muitas coisas que nascessem no seu solo. Quando a chuva ou a neve caiam, resíduos corriam para um rio que divida o espaço quase ao meio. O rio estava abrindo uma garganta. A erosão era terrível. O ar não podia ser respirado por períodos longos sem modificação - alguns minutos já eram um risco.

O deserto, mesmo quando visto do conforto da redoma de observação, deitava uma tremenda sensação de nada - uma sensação deslavada de monotonia.
O céu tinha perpetuamente a cor do aço ao lume - um azul intenso e sólido.
Ocasionalmente, encontrava-se a ruína de uma árvore, de pé ou caída.
As árvores eram mais comuns para além do centro do deserto - na direção das "boas terras" ainda com relvas e florestas que rodeavam a zona, mas nenhuma terra era boa. Muitas das árvores tinham, noutros tempos, sido bem tratadas. Mas que ainda estavam de pé. A maioria eram carvalhos, porque não apodreciam muito depressa.

Ainda estavam vivas? Parecia surpreendente que mesmo os carvalhos tivessem sobrevivido por tanto tempo.
Havia um próximo que ainda estava vivo. Estava perto do rio e as suas raízes bebiam a água corrente. Tinha folhas estranhas, de formas invulgares. Sem bagas. Fornecia alguma sombra aos animais deformados que eram suficientemente espertos para irem obter água em outros lugares, e não no rio. Não tardaria que a corrente que abria a garganta minasse as raízes do carvalho e então ele também cairia.

Havia muitos ossos abandonados no deserto e nas ruínas, branqueados pelo sol - muito bem limpos.
As noites eram melhores. As estrelas surgiam e o céu tornava-se negro e sempre extremamente límpido. Não havia nada que perturbasse a visão da Via Láctea.

No solo do deserto havia alguns trilhos; viam-se melhor dos poucos aparelhos que voavam. Para os lagartos que tomavam sol nos fragmentos e nas pedras arrancadas aos antigos leitos das estradas, pareciam formações muito naturais.

A maior parte dos lagartos tinham o tamanho de um bom rato da Republica. A pele era cor de areia e tinha a textura dos pedaços do pavimento. Integravam-se bem no ambiente e tinham uma tendência para procriar em excesso. Alguns mostravam um terceiro olho, ainda que cego.

As super-autoestradas tinham sido destruídas - eram pesadelos contorcidos e tinham morrido de choque.
...Não quero memórias; não quero memórias...
Havia algumas ervas que quase formavam um relvado, aqui e ali. Nenhum cacto, nada como aqueles que constavam dos arquivos de recursos constituídos para os inteligentes filhos do Rei, da Rainha e da Igreja.
No meio daquilo que era virtualmente nada, cresceria um dente-de-leão com uma flor de um metro de diâmetro; estava sempre florido e não dava sementes. Era muito bonito.

violação
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Havia uma estrada bem reparada. Estava no alto de um monte de concreto com seis metros de altura - era uma estrada toda negra com a forma de um círculo de vinte metros de diâmetro e quatro e meio de largura. Dentro dela havia um quadrado de quatro metros e meio de lado, feito de um material metálico qualquer, e esse quadrado podia ser descido na terra, muito abaixo do nível da superfície. Tinha pintado nele um alvo negro.

Havia quatro arcadas brilhantes no monte e, a cerca de sete metros da encosta inclinada, uma redoma de observação ao nível do solo, colocada ao lado de uma estrada que levava a cada uma das arcadas, a partir de um segundo círculo pavimentado que rodeava o monte.

O círculo exterior do pavimento estava a trinta metros das arcadas. A estrada que partia da arcada virada para leste tinha nove metros de largura e não acabava no círculo pavimentado exterior. Continuava por mais cem metros, para além de um perímetro muito ferrugento de arame farpado, e então desfazia-se em pedaços e lajes, um pouco mais além. Nos mapas a estrada acabava por ligar à Interestadual 96, que para todos os efeitos práticos era um cemitério.

Os postos de observação eram feitos de um vidro especial, blindado, de cor verde baço. Assentavam em bases de aço brilhante, inoxidável. Um cano negro, curto, de um negro baço, saía de cada redoma. O aparelho inteiro poda rodar 360 graus e os canos podiam elevar-se de quarenta graus.
No papel, tudo podia existir.

Alguns animais tinham observado ocasionalmente a BiaMa de vários estranhos e muito misteriosos objetos da terra entre o monte de concreto e o perímetro de arame farpado. Um lagarto em particular - um tipo pequenino, com perto de quarenta e cinco centímetros e talvez uns quatro quilos e meio de gordura - fora uma vez muito perturbado por isso. Estava ele absorvendo inocentemente o bom sol de Junho, num da particularmente belo para os lagartos, sobre uma rocha particularmente boa para os lagartos (ele era muito racista), quando muito subitamente (sem qualquer aviso, calculem!), a terra começou a inclinar-se!

A princípio ele percebeu a coisa como uma miragem surrealista - o resultado de qualquer coisa que ele comera. Mas então a terra inclinou-se ao ponto de o atirar de cabeça sobre a cauda enrolada para a base da perpendicular que se formava rapidamente.
Pela atitude que o lagarto tomou depois de se endireitar e verificar que estava inteiramente em ordem, pareceu que ele considerava aquela coisa absolutamente indesejável!

Um objeto de forma estranha subiu então lentamente acima da terra tornada perpendicular e eu estou muito certo de que os sinais que nele se viam não satisfizeram o lagarto, considerando que o lagarto não os leu, provavelmente não os quis ler e, na verdade, nunca pensou em tal coisa.

QUADRANTE NORTE: C-42, ANTENA DE RADIO - PARABÓLICA - diziam os sinais.

O lagarto decidiu que era melhor ir para qualquer outro lado e pôs-se a andar.
Aparentemente ele não gostava de estar em lugares onde não apreciavam os banhos de sol, onde isso era negado por terras que se inclinavam, esmagado por forças invisíveis, e ameaçado por fantasmas metálicos de gigantes que o lagarto poda considerar serem os seus antepassados. O lagarto vira muitos esqueletos na sua vida limitada. Não se preocupava muito por aquele ser de alumínio, que não era um material orgânico - eram todos iguais aos olhos dele.

Havia ruínas naquele deserto, além das árvores. Eu as tinha visto. A trinta e três quilômetros a sul-sudeste do monte de concreto, havia a periferia do que fora uma das grandes cidades humanas.
Os abutres andavam agora pelas ruas. Ou voavam através delas.
Do ar podiam ver-se muitas paredes reforçadas com aço que permaneciam de pé dentro da cidade como se fossem estátuas, e estavam completamente mortas. Os abutres empoleiravam-se nelas. Faziam os seus ninhos no cimo delas.

O mundo? É muito estranho agora, de certo modo re-naturalizado. Seria verdade que, em algumas regiões, as florestas, ainda que tendo sofrido mutações, estavam a cobrir as cidades? Mas não será isso comum? Admito que se trate de um fenômeno que exige muito tempo.

Um segundo é um ano e depois um ano é um segundo.

(...)


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