sábado, 3 de julho de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 14)



COMO UM ARCO de fogo puro, John R. Isidore cruzou o céu de final da tarde a caminho de casa, terminado seu dia de trabalho. Será que ela ainda está lá? pensou.

Lá naquele velho apartamento cheio de entulho, assistindo ao programa de Buster Amigão na TV, tremendo de medo toda vez que imagina que alguém vem pelo corredor. Incluindo, acho, eu mesmo.

Parara antes num armazém de secos e molhados do mercado negro. No assento ao seu lado, balançava para a frente e para trás uma sacola na qual havia guloseimas como pasta de feijão de soja, pêssegos maduros e um bom e macio queijo de cheiro forte, enquanto ele, alternativamente, acelerava e reduzia a velocidade do carro.

Tenso naquela noite, dirigia algo erraticamente. E seu supostamente consertado carro tossia e rateava, como andara fazendo durante meses, antes da revisão.
Safados, pensou Isidore.

O cheiro dos pêssegos e do queijo saturava o carro, enchendo-lhe as narinas de prazer. Só raridades, pelas quais desperdiçara o salário de duas semanas — tomado por conta ao Sr. Sloat. E, além disso, sob o assento, onde não podia rolar ou quebrar, uma garrafa de vinho Chablis oscilava de um lado para o outro: a maior de todas as raridades! Guardara-a num cofre de segurança no Bank of America, conservando-a como um tesouro, recusando-se a vendê-la por mais que lhe oferecessem, para o caso de, em algum distante, tardio, último momento, aparecer uma mulher.
Isto não acontecera, não até este momento.

Como sempre, o telhado morto, juncado de lixo de seu prédio de apartamentos deprimiu-o. Indo do carro até a porta do elevador, reduziu sua visão periférica: concentrou-se no valioso saco e na garrafa que levava, tomando todo o cuidado para não tropeçar num entulho qualquer e esborrachar-se numa ignominiosa ruína econômica. Ao chegar o elevador, rangendo, entrou e apertou o botão — não do seu andar — mas do andar mais baixo, onde naquele momento residia a nova moradora, Pris Stratton.
Logo depois, estava à frente da porta dela, batendo com a borda da garrafa, seu coração despedaçando-se dentro do peito.

— Quem é? — perguntou uma voz, abafada pela porta, mas ainda clara. Um tom amedrontado, mas afiado como uma lâmina.
— Sou eu, J. R. Isidore — respondeu vivamente, adotando a nova autoridade que tão recentemente adquirira graças ao videofone do Sr. Sloat. — Trouxe algumas coisas boas e acho que podemos fazer um jantar mais do que razoável.
A porta foi aberta, até certo ponto. Pris, luz alguma na sala às suas costas, olhou para o corredor às escuras.

— Você parece diferente — comentou ela. — Mais adulto.
— Nós tivemos algumas questões de rotina a tratar durante o expediente, hoje. O habitual. Se você me d-d-deixasse entrar...
— Você falaria sobre elas. — Não obstante, abriu a porta o suficiente para que ele entrasse. Em seguida, vendo o que ele trazia, soltou uma exclamação, sua face iluminada por um exuberante júbilo de elfo.
Mas, quase no mesmo instante, sem aviso algum, uma amargura letal cobriu-lhe a face, acomodou-se nela como se fosse concreto. O júbilo desaparecera.
— O que é? — perguntou ele.
Colocou o embrulho e a garrafa na cozinha e voltou apressado para a sala.
Numa voz sem expressão, Pris respondeu:
— Para mim são um desperdício.
— Por quê?
— Oh... — Encolheu os ombros, afastou-se, sem direção fixa, as mãos profundamente enterradas nos bolsos da saia pesada, um tanto antiquada. — Algum dia, eu lhe direi. —

Ergueu a vista. — De qualquer modo, foi muita bondade sua. Agora, gostaria que fosse embora. Não sinto vontade de conversar com ninguém. — De modo vago, dirigiu-se para a porta que dava para o corredor. Arrastando os pés; parecia esgotada, sua reserva de energia quase extinta.
— Eu sei o que é que há com você — disse ele.
— Oh? — A voz dela, quando reabriu a porta do corredor, caiu ainda mais para um tom desalentado, abatido, estéril.
— Você não tem amigos. Você está muito pior do que quando a vi esta manhã.Acontece isto porque...
— Eu tenho amigos. — Uma autoridade inesperada endureceu-lhe a voz e, palpavelmente, ela recuperou forças. — Ou tinha. Sete deles. Isso era para começar, mas agora os caçadores de cabeças já tiveram tempo de trabalhar. Assim, alguns deles, talvez todos, estão mortos. — Foi devagar até a janela, olhou para a escuridão e para as poucas luzes, aqui e ali. — Eu talvez seja a única dos oito que sobrou. Assim, você talvez tenha razão.
— O que é um caçador de cabeças?
— Pessoas como você não devem saber. Um caçador de cabeças é um assassino profissional, a quem se fornece uma lista de pessoas que deve matar. Ele recebe uma soma — mil dólares é a taxa atual, segundo sei — por cabeça que elimina. Geralmente, ele tem também contrato com a municipalidade e recebe um salário. Mas o mantêm baixo para que ele sinta incentivo.
— Tem certeza? — perguntou Isidore.
— Tenho. — Inclinou a cabeça. — Você quer dizer, se tenho certeza do incentivo? Sim, ele tem um incentivo. Ele gosta de fazer isso.
— Eu acho — retrucou Isidore — que você está enganada. — Nunca, em toda sua vida, ouvira falar em tal coisa. Buster Amigão, por exemplo, jamais a mencionara. — Isso não está de acordo com a atual ética merceriana — observou ele. — Toda a vida é uma: "homem algum é uma ilha", como disse Shakespeare nos velhos tempos.
— John Donne.

Isidore gesticulou, agitado.
— Isso é a pior coisa que ouvi até hoje. Você não podia chamar a polícia?
— Não.
— E eles estão atrás de você? É possível que eles venham aqui e matem você? — Compreendia, nesse momento, porque a moça agia de forma tão furtiva. — Não é de espantar que você esteja com medo e não queira falar com pessoa alguma. — Mas, pensou, isso deve ser uma desilusão. A moça deve ser psicótica. Com mania de perseguição. Talvez devido a dano cerebral provocado pela poeira. Talvez seja uma especial. — Antes disso, eu pego eles — prometeu.
— Com o quê? — Levemente ela sorriu, mostrando dentes pequeninos, regulares, brancos.
— Vou pedir licença para portar um tubo de laser. É fácil de conseguir, por aqui, onde não há quase ninguém. A polícia não faz ronda... A pessoa deve cuidar de si mesma.
— E quando você estiver no trabalho?
— Eu peço uma licença.
— Isso é muita bondade sua, J. R. Isidore — disse Pris. — Mas se os caçadores de cabeças pegaram Max Polokov, Garland, Luba, Hasking e Roy Baty... — Interrompeu-se por um momento. — Roy e Irmgard Baty. Se estão mortos, então nada mais realmente importa. São meus melhores amigos. Por que diabos não tenho notícias deles? — praguejou, zangada.
Indo até a cozinha, Isidore apanhou pratos, terrinas e copos empoeirados, há muito tempo sem uso. Antes de começar a lavá-los, deixou correr, até clarear, a água quente enferrujada. Logo depois, Pris apareceu, sentou-se à mesa. Isidore abriu a garrafa de Chablis e dividiu os pêssegos, o queijo e a pasta de feijão.

— O que é essa coisa branca aí? Não o queijo — disse ela, apontando.
— É feita de feijão de soja. Eu gostaria de ter um pouco... — Interrompeu-se, enrubescendo. — Antigamente, era comido com caldo de carne.
— Um andróide... — murmurou para si mesma Pris.
— Este é o tipo de lapso que um andróide comete. É isto o que os desmascara.

Aproximou-se, parou ao seu lado e, em seguida, para sua completa certeza enlaçou-o pela cintura e, por um instante, apertou-o. — Vou experimentar uma fatia de pêssego — disse ela e, com todo o cuidado, apanhou uma escorregadia fatia rosa-alaranjada, sedosa, com seus longos dedos. Mas, quando comeu a fatia, começou a chorar.

Lágrimas frias desceram-lhe pelo rosto e molharam o peito do vestido. Isidore não sabia o que fazer, de modo que continuou a dividir a comida. — Droga — disse ela, furiosa. — Bem... — Afastou-se dele e andou de um lado para o outro, vagarosamente, em passos medidos, em volta da sala. — ... compreenda, nós vivíamos em Marte. É por esse motivo que conheço andróides. — A voz dela tremia, mas ela conseguiu continuar. Obviamente, significava muito para ela ter alguém com quem falar.

— E as únicas pessoas na Terra que você conhece — disse Isidore — são seus companheiros ex-emigrantes.
— Nós nos conhecíamos de antes da viagem. De uma colônia próxima a Nova Nova York. Roy Baty e Irmgard tinham uma farmácia. Ele era farmacêutico e ela cuidava dos cosméticos, cremes, ungüentos. Em Marte, as pessoas usam um bocado de preparados para a pele. Eu... — Hesitou. — Eu comprei várias drogas de Roy... Eu precisava delas no princípio, porque... bem, de qualquer modo, aquilo é um lugar horrível. Isto — com um único e violento gesto varreu a sala, o apartamento — isto nada é. Você pensa que estou sofrendo porque me sinto solitária. Droga, Marte toda é solitária. Muito pior do que isto aqui.
— Os andróides não fazem companhia a vocês? Eu ouvi um comercial sobre... — Sentando-se, começou a comer. Ela, também, apanhou um copo de vinho e bebeu, sua fisionomia sem expressão. — Eu entendi que os andróides ajudavam.
— Os andróides também se sentem solitários — disse ela.
— Gostou do vinho?
Ela pôs o copo na mesa.
— É bom.
— É a primeira garrafa que vejo em três anos.
— Nós voltamos — disse Pris — porque ninguém deve ser obrigado a morar lá. O planeta não foi concebido para ser habitado, pelo menos não no último bilhão de anos. Ele é tão velho. A gente sente isso nas pedras, a terrível antiguidade. De qualquer modo, no princípio, consegui drogas com Roy. Eu vivia para aquele novo analgésico sintético, a silenizina. E então conheci Horst Hartman, que tinha uma loja de filatelia, de selos raros do correio. Lá a gente tem tanto tempo que é obrigada a escolher um hobby, alguma coisa a que possamos nos dedicar interminavelmente. E Horst despertou meu interesse pela ficção pré-colonial.
— Você quer dizer velhos livros?
— Histórias escritas sobre viagens espaciais, mas antes das viagens espaciais.
— Como era que podia haver histórias sobre viagens espaciais antes...
— Os autores — explicou Pris — inventavam essas histórias.
— Baseados em quê?
— Em imaginação. Verificou-se depois que muitas delas estavam totalmente erradas. Por exemplo, escreviam sobre Vênus como se fosse um paraíso selvagem, com monstros enormes e mulheres usando peitorais faiscantes. — Olhou-o, atenta. — Isto o interessa? Mulheres grandalhonas com longos cabelos louros amarrados em tranças e peitorais faiscantes, do tamanho de melões?
— Não — retrucou ele.
— Irmgard é loura — disse Pris — mas baixinha. De qualquer modo, pode-se ganhar uma fortuna contrabandeando ficção pré-colonial, velhas revistas, livros e filmes para Marte. Nada é tão excitante como isso. Oh, ler sobre cidades e enormes empresas industriais e colonização realmente bem-sucedida. Você pode imaginar o que poderia ter sido. O que Marte devia ser. Canais.
— Canais? — Obscuramente, lembrou-se de ter lido alguma coisa sobre o assunto. Nos velhos dias, acreditava-se que havia canais em Marte.
— Cruzando o planeta todo — continuou Pris. — E seres vindos das estrelas. Com sabedoria infinita. E histórias sobre a Terra, com cenário em nosso tempo e mesmo depois. Onde não há poeira radiativa.
— Eu pensaria — disse Isidore — que isto faria as pessoas se sentirem ainda piores.
— Não faz — respondeu seca Pris.
— Você trouxe consigo alguma coisa desse material de leitura pré-colonial? — Ocorreu-lhe que devia experimentar um pouco disso.
— Não vale nada aqui porque na Terra a moda nunca pegou. De qualquer modo, por aqui há bastante, nas bibliotecas. É onde conseguimos todo o nosso... roubado de bibliotecas aqui na Terra e enviado por foguete automático a Marte. A gente está bobeando pelos espaços vazios à noite quando, de repente, vemos um clarão, e lá está um foguete, rachado, e velhas revistas de ficção pré-coloniais derramando-se por toda parte. Uma fortuna. Mas, claro, a gente as lê antes de vendê-las. — O assunto começou a entusiasmá-la. — Entre todos...

Nesse momento, uma batida à porta que dava para o corredor,
Lívida, Pris murmurou:
— Não posso atender. Não faça nenhum barulho. Simplesmente fique sentado aí. — Fez força para escutar. — Será que a porta está fechada à chave — disse em voz quase inaudível. — Deus, tomara que esteja. — Seus olhos, alucinados e poderosos, fixaram-se implorantes nele, como se rezando para que ele transformasse aquilo em verdade.
Uma voz distante chamou do corredor:
— Pris, você está aí?

Uma voz de homem:
— Somos nós, Roy e Irmgard. Recebemos seu cartão.
Levantando-se e indo até o quarto, Pris reapareceu logo depois, trazendo uma caneta e um pedaço de papel Voltou a sentar-se e rabiscou uma apressada mensagem:
VÁ ATÉ A PORTA.
Nervoso, Isidore tomou-lhe a caneta e escreveu:
E DIGO O QUÊ?
Com raiva, Pris escreveu:
VEJA SE SÃO REALMENTE ELES.

Levantando-se, entrou sombrio na sala de estar. Como é que eu sei se são eles ? perguntou a si mesmo. Abriu a porta.
No corredor escuro havia duas pessoas, uma mulher pequenina, bonita à maneira de Greta Garbo, com olhos azuis e cabelos louros; e um homem, mais alto, com olhos inteligentes, mas sem expressão, e feições mongóis que lhe davam um aspecto brutal.

A mulher usava um casaco na moda, botas lustrosas de cano alto, e calça comprida afilando nos tornozelos; o homem vestia camisa amarrotada e calças manchadas, o que lhe dava um ar de vulgaridade quase proposital. Ele sorriu para Isidore, mas seus olhos brilhantes e pequeninos permaneceram evasivos.
— Nós estamos procurando... — começou a loura baixa, mas, nesse momento, seus olhos ultrapassaram a figura de Isidore, suas feições se dissolveram em enlevo e ela passou rápida por ele, gritando:
— Pris! Como vai?

Isidore virou-se. As duas mulheres se abraçavam nesse momento. Deu um passo para o lado e Roy Baty entrou, sombrio e grande, sorrindo seu sorriso torto e mudo.



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