sábado, 7 de agosto de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 19)



— TRAGA AQUI pra cima o resto de minhas coisas — ordenou Pris a R. J. Isidore. — Em particular, o aparelho de TV. Para que a gente possa ouvir o anúncio de Buster.
— Isso mesmo — concordou Irmgard Baty, olhos brilhantes saltando de um lado para outro. — Precisamos de um aparelho de TV. Já estamos há muito tempo esperando e a coisa vai começar logo.
— Meu próprio aparelho pega o canal do governo — disse Isidore.
Num canto da sala de estar, sentado numa poltrona funda, como se tencionasse permanecer ali para sempre, como se houvesse decidido fazer da cadeira seu lugar de moradia, Roy Baty arrotou e disse paciente:
— É o programa de Buster Amigão e seus Amicíssimos Amigos que queremos assistir Isi. Ou prefere que eu o chame de J. R.? De qualquer modo, compreendeu? Assim, quer ir buscar o aparelho?

Sozinho, Isidore desceu o corredor ecoante e vazio a caminho da escada. Dele desprendia-se ainda a potência forte, fragrante da felicidade, a sensação de ser, pela primeira vez em sua monótona vida, útil a alguém. Outras pessoas dependem de mim agora, exultou, enquanto descia os degraus cobertos de poeira até o andar embaixo.

E, pensou, será bom ver Buster Amigão novamente na TV, em vez de simplesmente escutá-lo no rádio do caminhão da loja. E assim é que deve ser, compreendeu. Hoje à noite, Buster Amigão vai fazer a sua cuidadosamente documentada e sensacional denúncia. Assim, graças a Pris, Roy e Irmgard, vou assistir ao que será provavelmente a mais importante notícia divulgada em anos. O que é que você acha disto? Perguntou a si mesmo.

A vida, para J. R. Isidore, tomara, teria uma direção ascendente.
Entrou no antigo apartamento de Pris, desligou a tomada do aparelho de TV e soltou a antena. O silêncio, bruscamente penetrou. Sentiu os braços se tornarem imponderáveis. Na ausência dos Batys e de Pris, descobria-se como que desaparecendo, tornando-se estranhamente inerte como o aparelho de televisão que acabara de desligar. A pessoa tem que conviver com outras, pensou. Para viver, absolutamente. Quero dizer, antes deles chegarem, eu podia suportar isto, viver sozinho no prédio. Você não pode voltar, pensou. Não pode partir de pessoas para não-pessoas. Em pânico, pensou, sou dependente deles. Graças a Deus, eles ficaram.

Seriam necessárias duas viagens para levar as coisas de Pris para o apartamento do andar superior. Levantando o aparelho de TV, resolveu levá-lo primeiro e, em seguida, voltar a apanhar as valises e roupas restantes. Minutos depois, consegui levá-lo para cima.
Os dedos doendo, conseguiu colocá-lo numa mesinha de café na sala de estar.
Os Batys e Pris observavam-no impassíveis.
— Nós pegamos um bom sinal neste prédio — arquejou ele, enquanto ligava a tomada e prendia a antena.
— No tempo em que eu assistia a Buster Amigão e seus...
— Simplesmente, ligue o aparelho — disse Roy Baty. — E cale a boca.
Ele fez o que lhe mandavam e correu para a porta.
— Mais uma viagem — disse — e tudo estará aqui.
Demorou-se um pouco ali, aquecendo-se no calor da presença deles.
— Ótimo — disse Pris, voz distante.

Isidore saiu, mais uma vez. Eu acho, pensou, que eles estão me explorando, de alguma maneira. Mas não se importou. Eles ainda são bons amigos para uma pessoa ter, disse a si mesmo.
No apartamento embaixo, reuniu e enfiou em valises as peças de roupa da moça. Pesadamente carregado, percorreu com esforço o corredor e começou a subir a escada.

Num degrau à sua frente, alguma coisa pequenina movia-se na poeira.
No mesmo instante, deixou cair as valises, tirou do bolso uma garrafa de remédio, de plástico, que, como todo mundo, levava consigo justamente para uma ocasião como essa. Uma aranha, que mal conseguia ver, mas viva. Com todo o cuidado, colocou-a na garrafa e fechou bem a tampa — que fora perfurada com uma agulha.

No andar superior, à porta do apartamento, parou para recuperar o fôlego.
" ...sim, senhor, pessoal, a ocasião é agora. Aqui, Buster Amigão, esperançoso e confiante em que vocês estão tão ansiosos como eu para compartilhar da descoberta que fiz e que, por falar nisto, foi confirmada por pessoal de pesquisa de alta classe, que trabalhou horas extras para tanto na última semana. Hei, hei, pessoal, é o seguinte!”
— Eu achei uma aranha — disse John Isidore.
Os três andróides levantaram os olhos, desviando por um momento a atenção da tela de TV.
— Mostre-me — disse Pris, estendendo a mão.
— Não fale enquanto Buster está falando — disse Roy Baty.
— Eu nunca vi uma aranha — retrucou Pris. Colocou a garrafa de remédio na mão e examinou a criatura em seu interior. — Tantas pernas. Por que ela precisa de tantas pernas, J. R.?
— É assim que as aranhas são — explicou ele, o coração batendo forte. Tinha dificuldade em respirar. — Oito pernas.
Levantando-se, disse Pris:
— Sabe o que é que eu penso J. R.? Acho que ela não precisa dessas pernas todas.
— Oito? — repetiu Irmgard Baty. — Por que não poderia passar com quatro? Corte quatro e vamos ver.
— Impulsiva, abriu a bolsa e tirou uma tesoura nova e afiada, que entregou a Pris.
J. R. Isidore sentiu um profundo terror.

Levando a garrafa para a cozinha, Pris sentou-se à mesa de café de J. R, Isidore. Tirou a tampa da garrafa e deixou sair a aranha.
— Provavelmente, ela não vai poder correr tão depressa — observou — mas, de qualquer modo, não há aqui nada para ela pegar. Ela vai morrer, de qualquer jeito.
Pegou a tesoura.
— Por favor — disse Isidore.
Pris olhou curiosa para ele:
— Ela vale alguma coisa?
— Não a mutile — pediu ele, ofegante. Implorante.
Usando a tesoura, Pris cortou uma das pernas da aranha.

Na sala de estar, na TV, Buster Amigão dizia:
"Dêem uma olhada nesta ampliação de uma seção do fundo de cena. Este é o céu que vocês vêem usualmente. Espere. Espere, este aqui é Earl Parameter, chefe de minha equipe de produção, que vai explicar a vocês a descoberta que fizeram e que, virtualmente, abalará o mundo."

Pris amputou outra perna, segurando a aranha com a borda da mão. Sorria.
"Ampliações das imagens de vídeo — dizia nesse momento uma voz na TV —, quando sujeitas a rigoroso exame de laboratório, revelam que o pano de fundo cinza do céu e a lua durante o dia. em frente aos quais move-se Mercer, são não apenas terrestres, mas artificiais."
— Você está perdendo a denúncia! — gritou nervosa Irmgard. Correu até a porta da cozinha e viu o que Pris fazia nesse momento. — Oh, deixe isso para depois — insistiu; adulando-a. — É muito importante o que eles estão dizendo. Prova que tudo aquilo em que acreditávamos.
— Cale a boca — ordenou Roy Baty.
— ... é verdade — terminou Irmgard.
Continuava através do aparelho de televisão:
"A lua é pintada. Nas ampliações, uma das quais vocês estão vendo agora na tela, aparecem as pinceladas. E há mesmo alguma evidência de que as ervas raquíticas e espalhadas e o solo desolador e estéril — talvez mesmo as pedras atiradas em Mercer por supostas entidades ocultas — são igualmente falsas. É bem possível, na verdade, que as 'pedras' sejam feitas de plástico mole e que não ocasionem ferimentos autênticos."

"Em outras palavras"  interrompeu-o Buster Amigão "Wilbur Mercer não está sofrendo, absolutamente."
O pesquisador-chefe dizia nesse momento:
"Nós finalmente conseguimos, Sr. Amigão, localizar o antigo especialista em efeitos especiais de Hollywood, Sr. Wade Cortot, que declara categoricamente, baseado em anos de experiência, que a figura de 'Mercer5 bem pode ser simplesmente um figurante cruzando um estúdio de áudio. Cortot chegou a ponto de dizer que reconhece o estúdio como um que foi usado por um pequeno cineasta, hoje desempregado, com o qual teve vários negócios há algumas décadas."
"Segundo Cortot" garantiu Buster Amigão  "não pode haver virtualmente dúvida alguma".
Pris já cortara três pernas da aranha, que se arrastava infeliz sobre a mesa da cozinha, procurando uma maneira de escapar, um caminho para a liberdade. Não encontrou nenhum.

"Para sermos absolutamente francos, acreditamos em Cortot" prosseguia em uma voz seca e potente o chefe de pesquisas "e passamos um bocado de tempo examinando filmes de publicidade de figurantes outrora empregados pela agora defunta indústria cinematográfica de Hollywood".
"E você descobriu que..."
— Escutem isso — disse Roy Baty. Irmgard olhou fixamente para a tela da TV e mesmo Pris interrompeu a mutilação da aranha.
"Localizamos, após o exame de milhares e milhares de fotografias, um homem muito velho, chamado Al Jarry, que fez algumas pontas em filmes de antes da guerra. De nosso laboratório, enviamos uma equipe à casa de Jarry, em East Harmony, Indiana. Vou deixar que um dos membros dessa equipe revele o que encontrou.”

Silêncio e, em seguida, uma nova voz, igualmente banal.
"A casa na Lark Avenue, em East Harmony, esquálida, caindo aos pedaços, situa-se nos arrabaldes da cidade, onde ninguém vive mais, com exceção de Al Jarry. Cordialmente convidado a entrar e sentado na sala de estar cheirando a velhice, mofo, cheia de entulho, vasculhei, por meios telepáticos, a mente apagada, cheia de destroços, nebulosa, de Al Jarry, sentado à minha frente."
“Escutem” disse Roy Baty, à beira da cadeira, como prestes para saltar.
“Descobri" continuou o técnico "que o velho realmente fez uma série de filmes curtos para o vídeo, de quinze minutos, por conta de um empregador que jamais conheceu. E, conforme havíamos teorizado, as 'pedras' eram de plástico esponjoso. O 'sangue' era ketchup e..."  o técnico soltou uma risadinha. "O único sofrimento que o Sr. Jarry suportou foi ter que passar um dia inteiro sem um trago de uísque."
"Al Jarry"  disse Buster voltando à tela. "Bem, bem. Um velho que, mesmo na flor da idade, jamais chegou a ser coisa alguma que ele mesmo ou nós pudéssemos respeitar. Al Jarry fez um filme repetitivo e monótono, uma série deles, na verdade, para uma pessoa cujo nome não soube... e não sabe ainda hoje. Com freqüência, os adeptos da experiência do mercerismo têm dito que Wilbur Mercer não é um ser humano, que é, na verdade, uma entidade superior arquetípica, talvez vinda de outra estrela. Bem, em certo sentido, esta alegação revelou-se correta. Wilbur Mercer não é humano, na verdade não existe. O mundo que ele escala é um barato, comum estúdio de áudio de Hollywood, que se transformou em entulho há anos. E quem perpetrou essa fraude contra o sistema solar? Pense nisso por algum tempo, pessoal,"
— Talvez jamais venhamos a saber — murmurou Irmgard.
"Talvez jamais venhamos a saber"  disse Buster Amigão.  "Tampouco podemos sondar a finalidade estranha que se escondeu por trás dessa mentira. Sim, pessoal, mentira. O mercerismo é uma impostura!"
— Acho que nós sabemos — disse Roy Baty. — É óbvio. O mercerismo surgiu...
“Mas pensem no seguinte"  continuou Buster Amigão. "Perguntem a vocês mesmos o que é que o mercerismo faz. Bem, se queremos acreditar em seus muitos praticantes, a experiência funde..."
— É essa a empatia que os humanos têm — observou Irmgard.
"...homens e mulheres, em todo o sistema solar, numa única entidade. Mas uma entidade que é controlável pela chamada voz telepática de 'Mercer'. Notem isso. Um falso e politicamente inclinado Hitler poderia..."
— Não, é aquela empatia — disse vigorosamente Irmgard. Punhos cerrados, dirigiu-se para a cozinha e confrontou Isidore. — Isso não é uma maneira de provar que os humanos podem fazer uma coisa que nós não podemos? Isto porque, sem a experiência de Mercer, temos simplesmente a palavra de vocês de que sentem esse negócio de empatia, essa coisa compartilhada, coletiva. Como é que vai a aranha? — Debruçou-se sobre o ombro de Pris.

Usando novamente a tesoura, Pris amputou outra perna da aranha.
— Quatro agora — disse. Catucou a aranha. — Ela não quer andar, mas pode.
Roy Baty apareceu à porta, respirando fundo, uma expressão de pessoa realizada no rosto.
— Está feito. Buster disse alto e bom som, e quase todos os humanos no sistema ouviram-no dizer: "O mercerismo é uma impostura." A experiência toda de empatia é uma impostura. — Aproximou-se e olhou curioso para a aranha.
— Ela não quer tentar andar — disse Irmgard.
— Eu posso fazé-lo andar — Roy Baty tirou uma caixa de fósforos do bolso, acendeu um deles, aproximou-o da aranha, cada vez mais, até que ela debilmente se moveu para longe.
— Eu estava certa — disse Irmgard. — Eu não disse que ela podia andar só com quatro pernas? — Olhou expectante para Isidore. — O que é que há? — Tocando-lhe o braço, disse: — Você não perdeu coisa alguma. Nós lhe pagaremos o que — como é que é chamado? — o preço que consta do católogo da Sidney's No fique tão triste assim. Não foi importante isso sobre Mercer, o que eles descobriram? Toda aquela pesquisa? Hei, responda. — Catucou-o, ansiosa.
— Ele está abalado — disse Pris. — Porque tem uma caixa de empatia. No outro cômodo. Você a usa J.R.? — perguntou-lhe.
— Claro que ele usa isso — disse Roy Baty. — Todos a usam, ou usavam. Talvez, agora, eles comecem a pensar nisso.
— Eu não acho que isso acabe com o culto de Mercer — opinou Prist. — Mas, exatamente neste minuto, há por ai um bocado de seres humanos infelizes. — A Isidore, disse: — Esperamos, durante meses. Nós todos sabíamos que ia acontecer. — Hesitou e disse em seguida: — Bem, por que não? Buster é um dos nossos.
— Um andróide — explicou Irmgard. — E ninguém sabe. Nenhum humano, quero dizer.
Usando a tesoura, Pris cortou mais uma perna da aranha.

De repente, John Isidore empurrou-a para um lado e levantou a criatura mutilada. Levou-a até a pia e afogou-a. Nele, sua mente, suas esperanças, afogaram-se também. Com tanta rapidez como a aranha.
— Ele está realmente abalado — disse nervosa Irmgard. — Não fique assim, J. R. Por que não diz alguma coisa? — Voltou-se para Pris e para o marido. — Isso me deixa também terrivelmente abalada, ele ali junto à pia, sem dizer uma palavra. Não disse coisa alguma desde que ligamos a TV.
— Não foi a TV — corrigiu-a Pris. — Foi a aranha. Não foi, John R. Isidore? Mas ele sobreviverá a isso — disse a Irmgard, que nesse momento se dirigia para a outra sala a fim de desligar a TV.
Olhando divertido para Isidore, disse Roy Baty:
— Está tudo acabado agora. Is. Para o mercerismo, quero dizer. — Usando as unhas, levantou da pia o cadáver da aranha. — Talvez esta tenha sido a última aranha — disse ele, — A última aranha viva na Terra. — Refletiu por um momento. — Nesse caso, acabou tudo para as aranhas, também.
— Eu... eu não me sinto bem — disse Isidore.

Do armário da cozinha, tirou uma xícara. Ficou com ela na mão durante algum tempo, não sabia exatamente por quanto tempo. Em seguida, disse a Roy Baty:
— O céu que vemos por trás de Mercer é simplesmente pintado? Não é real?
— Você viu as ampliações na tela da TV — disse Roy Baty. — As pinceladas.
— O mercerismo não acabou — disse Isidore. Alguma coisa atormentava os andróides, alguma coisa terrível. A aranha, pensou. Talvez tenha sido a última aranha na Terra, como disse Roy Baty. E a aranha morreu; Mercer morreu: notou a poeira e a ruína do apartamento, espalhando-se e por toda parte — ouviu o entulho chegando, a desordem final de todas as formas, a ausência que, no fim, venceria.

Crescia em volta dele, ali, segurando na mão a xícara vazia de cerâmica; os armários da cozinha estalaram e se partiram e ele sentiu ceder o chão sob os pés.
Estendeu a mão e tocou a parede. A mão quebrou a superfície; partículas cinzentas escorregaram e desceram céleres, os fragmentos de reboco, lembrando a poeira radiativa do lado de fora. Sentou-se à mesa e, como se fossem tubos podres, vazios, as pernas da cadeira se dobraram; levantando-se rápido, pôs de lado a xícara e tentou consertar a cadeira, tentou devolver-lhe a forma certa. A cadeira se desfez em suas mãos, soltando-se e soltando os parafusos que antes haviam mantido num todo suas várias partes.
Viu na mesa que se rachava, a xícara de cerâmica, que uma teia de linhas finas crescia como as lianas de uma videira e, em seguida, uma lasca soltou-se da borda, e apareceu a parte interna bruta, não vidrada.
— O que é que ele está fazendo? — ouviu distante a voz de Irmgard Baty. — Ele está quebrando tudo! Isidore, pare... Eu não estou fazendo isso... — disse ele.

Trôpego, foi até a sala de estar para ficar sozinho. Ao lado do sofá esmolambado olhou para a parede amarela, manchada, que insetos mortos, que outrora rastejavam, haviam deixado, e mais uma vez pensou no corpo da aranha, com suas quatro pernas restantes. Tudo aqui é velho, compreendeu. Há muito tempo começou a apodrecer e não vai parar. O cadáver da aranha tomou conta de tudo.

Na depressão causada pelo afundamento do assoalho, pedaços de animais apareceram, a cabeça de um corvo, mãos mumificadas que poderiam ter sido uma vez partes de macacos. Viu um jumento um pouco afastado, imóvel e ainda aparentemente vivo.
Pelo menos, não começara ainda a apodrecer.

Dirigiu-se para ele, sentindo-se como se seus ossos fossem gravetos, secos como ervas, lascas sob seus pés. Mas antes de chegar ao jumento — uma das criaturas que mais amava — um lustroso corvo azul desceu do alto e pousou no insensível focinho do jumento Não faça isso, disse em voz alta, mas o corvo, rápido, bicou os olhos do jumento. Mais uma vez, pensou. Está acontecendo comigo outra vez. Ficarei aqui embaixo durante um longo tempo, compreendeu.

Como antes. Sempre demora muito porque aqui coisa alguma jamais muda; chega um momento em que não ocorre nem mesmo apodrecimento.
Soprou um vento seco e em volta deles desfizeram-se os montes de ossos. Até o vento os destrói, percebeu. Neste estagio. Pouco antes de o tempo cessar. Eu gostaria de me lembrar de como subir para fora daqui, pensou.

Olhando para cima, nada viu a que pudesse se agarrar.
— Mercer — disse em voz alta, — Onde está você agora? Esta é a sepultura do mundo e estou nela mais uma vez, mas desta vez você não está aqui também.

Alguma coisa rastejou por cima de seu pé. Ajoelhou-se e procurou-a, e encontrou-a, pois ela se movia tão lentamente, a aranha mutilada, andando e parando com as pernas que lhe restavam.
Apanhou-a e segurou-a na palma da mão. Os ossos, compreendeu, reverteram-se, a aranha está viva outra vez.

O vento soprou, partindo, lascando os ossos restantes, mas ele sentiu a presença de Mercer. Venha, disse a Mercer. Rasteje por cima de meu pé e descubra alguma outra maneira de me alcançar. Está bem? Mercer, pensou. Em voz alta disse:
— Mercer!

Por toda a paisagem à frente as ervas avançaram, contorceram-se e penetraram nas paredes em volta dele e nela trabalharam até que elas, as ervas daninhas, transformaram-se em seus próprios esporos. Os esporos expandiram-se, dividiram-se, explodiram dentro do aço podre e cacos de concreto que antes haviam sido paredes. Mas a desolação persistiu depois que as paredes desapareceram, continuou depois de tudo mais. Exceto a frágil e obscura figura de Mercer. O rosto do velho virado para ele, com uma plácida expressão.
— O céu é pintado? — perguntou Isidore. — Há. realmente as pinceladas que aparecem na ampliação?
— Há — confirmou Mercer.
— Mas eu não posso vê-las.
— Você está perto demais — respondeu Mercer. — Você tem que ficar bem distante, como ficam os andróides. Eles têm uma perspectiva melhor.
— E por isso que eles dizem que você é um impostor?
— Eu sou um impostor — confirmou Mercer. — Eles são sinceros. A pesquisa deles é autêntica. Do ponto de vista deles, eu sou um velho figurante aposentado, chamado Al Jarry. Tudo aquilo, a denúncia, é verdade. Eles entrevistaram em casa, como dizem. Disse a eles tudo o que queriam saber, que foi tudo.
—Incluindo aquilo sobre o uísque?

Mercer sorriu.
— Foi verdade. Eles fizeram um bom trabalho e, do ponto de vista deles, a denúncia de Buster Amigão foi convincente. Mas terão problema para compreender por que coisa alguma mudou. Porque você está ainda aqui e eu estou ainda aqui. — Como um gesto da mão, Mercer indicou a colina desolada, o lugar conhecido. — Eu o tirei a pouco do ventre do mundo e continuarei a erguê-lo até que você perca o interesse e queira desistir. Mas terá que deixar de me procurar por que eu nunca deixarei de procurá-lo.
— Eu não gostei daquilo sobre o uísque — disse Isidore. — Aquilo foi aviltante.
— Isso acontece porque você é uma pessoa altamente moral. Eu não sou. Não julgo, nem mesmo a mim mesmo.

Mercer estendeu uma das mãos fechada, a palma para cima. — Antes que eu esqueça, tenho aqui uma coisa para você. Abriu os dedos. Na mão descansava a aranha mutilada, mas restauradas as pernas que haviam sido cortadas.
— Obrigado — disse Isidore, aceitando a aranha. Começou a dizer mais alguma coisa quando ouviu o som da campainha de alarme.
— Há um caçador de cabeças no prédio! — rosnou Roy Baty. — Apaguem todas as luzes. Tirem-no da caixa de empatia. Ele tem que ficar em posição à porta. Vamos...empurrem-no!



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