sábado, 14 de agosto de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 20)



OLHANDO PARA baixo, John Isidore viu as próprias mãos, agarradas aos punhos duplos da caixa de empatia. Enquanto continuava ali, fitando-as boquiaberto, as luzes da sala de estar de seu apartamento morreram de súbito. Viu, na cozinha, Pris correr para apagar o abajur que havia lá.

— Escute aqui, J. R. — murmurou áspera em seu ouvido Irmgard. Agarrara-o pelo ombro e suas unhas cravavam-se nele com frenética intensidade. Mas ela parecia estar inconsciente do que fazia nesse instante. À obscura luz noturna que se filtrava vinda de fora, o rosto de Irmgard se tornara distorcido, astigmático.

— Você — sussurrou — vai ter que ir até a porta, quando ele bater, se bater. Tem que mostrar sua carteira de identidade e dizer que é seu apartamento e que não existe mais ninguém aqui. E peça para ver o mandado de busca.

Pris, do outro lado dele, corpo arqueado, murmurou:
— Não o deixe entrar, J. R. Diga qualquer coisa, faça o que puder para detê-lo. Sabe o que é que um caçador de cabeças faria solto aqui? Compreende o que é que ele faria conosco?

Afastando-se das duas andróides, Isidore foi às apalpadelas até a porta. Tateando com os dedos, localizou a maçaneta e ficou à escuta. Sentiu o corredor do outro lado, como sempre acontecia: vazio e reverberante, e destituído de vida.

— Está ouvindo alguma coisa? — perguntou Roy Baty, curvando-se perto dele.

Isidore sentiu o odor rançoso do corpo acovardado, inalou o medo que dele se desprendia, medo evolando-se, formando um nevoeiro.

— Saia e dê uma olhada.

Abrindo a porta, Isidore olhou para um lado e para o outro do corredor escuro.
O ar ali fora tinha um cheiro limpo, a despeito do peso da poeira.
Em sua mão, conservava ainda a aranha que Mercer lhe dera. Seria realmente a mesma aranha que Pris esquartejara com a tesoura de Irmgard Baty? Provavelmente, não. Nunca saberia. Mas, de qualquer modo, ela estava viva; rastejava dentro de sua mão fechada, mas sem picá-lo, como no caso da maioria das aranhas pequenas, suas mandíbulas não podiam perfurar a pele humana.

Chegou ao fim do corredor, desceu os degraus e saiu para o que antes tinha sido um caminho, com um jardim interno. O jardim morrera durante a guerra e o caminho se fraturara em milhares de frações. Mas ele conhecia sua superfície; sob os pés o caminho conhecido produzia uma sensação agradável, e o seguiu, passou pelo lado mais comprido do prédio, chegando finalmente ao único lugar verde nas vizinhanças, um trecho de um metro quadrado de ervas daninhas semimortas, saturadas pela poeira.

Aí depositou a aranha. Sentiu-lhe os movimentos hesitantes quando ela deixou sua mão. Bem, isto era tudo. Espigou-se.

Um feixe de lanterna focalizou as ervas e, em seu brilho, os talos meio mortos apareceram nus, ameaçadores. Nesse momento, pôde ver a aranha, descansando sobre uma folha serrilhada. Assim, ela conseguiria mesmo fugir.

— O que foi que você fez? — perguntou o homem que segurava a lanterna.
— Coloquei uma aranha no chão — respondeu, perguntando-se por que o homem não a estava vendo: no feixe de luz amarela a aranha inchava, maior do que o normal, para que ela pudesse fugir.
— Por que não a leva para seu apartamento? Deve conservá-la numa jarra. De acordo com a edição de janeiro da Sidney's, a maioria das aranhas teve um aumento de dez por cento no preço de varejo. Você poderia ter ganho cento e tantos dólares com ela.
— Se eu a levasse de volta para lá, ela a esquartejaria novamente. Pedaço a pedaço, para ver o que a aranha fazia.
— Andróides fazem isso — disse o homem.

Enfiando a mão no casaco, tirou alguma coisa que abriu e estendeu a Isidore.
À luz irregular, o caçador de cabeças parecia um homem de estatura média, nada de impressionante. Rosto redondo e sem barba, feições lisas, como um empregado de escritório. Metódico, mas informal. Não com a forma de um semideus, não absolutamente como Isidore o imaginara.

— Eu sou investigador do Departamento de Polícia de São Francisco, Deckard, Rick Deckard. 
O homem fechou outra vez a lanterna e enfiou-a de volta no bolso do casaco.
— Eles estão lá em cima agora? O três?
— Bem, a coisa é a seguinte — disse Isidore —, eu estou cuidando deles. Há duas mulheres. São os últimos do grupo, o resto morreu. Levei o aparelho de TV para meu apartamento, de modo que eles pudessem assistir a Buster Amigão na televisão. Buster provou, acima de qualquer dúvida, que Mercer não existe. 

Isidore sentia-se animado, sabendo algo de tanta importância, uma notícia que o caçador de cabeças evidentemente ainda não ouvira.
— Vamos até lá em cima — disse Deckard.
De repente, apontou um tubo de laser para Isidore. Depois, indeciso, guardou-o.
— Você é um especial, não? Um debilóide.
— Mas eu tenho emprego. Dirijo o caminhão do — horrorizado, descobriu que se esquecera do nome — de um hospital de animais de estimação — disse. — Do Hospital Van Ness de Animais — continuou. — De p-p-propriedade de Hannibal Sloat.
— Pode fazer o favor de me levar até lá em cima e me mostrar em que apartamento eles estão? — pediu Deckard. — Há mais de mil apartamentos neste prédio. Você pode me economizar um bocado de tempo.
A voz dele como que gotejava de fadiga.

— Se matá-los, você não poderá fundir-se novamente com Mercer — lembrou Isidore.
— Não quer me levar lá em cima? Mostrar o andar? Simplesmente, diga o andar. Eu descobrirei, no andar, onde fica o apartamento.
— Não — respondeu Isidore.
— De acordo com a lei estadual e federal... — começou Deckard. Mas se interrompeu, desistindo do interrogatório. — Boa noite — disse e afastou-se, subindo o caminho e entrando no edifício, a lanterna traçando um caminho amarelado, difuso, à sua frente.

Dentro do prédio, Rick Deckard apagou a lanterna. Orientado pelas lâmpadas apagadas, em seus escaninhos, espaçadas à frente, começou a andar pelo corredor, pensando. O debilóide sabe que eles são andróides; já sabia, antes que eu lhe dissesse. Mas não compreende. Por outro lado, quem compreende? Eu? Compreendi? E uma delas será a cópia exata de Rachael, refletiu. Talvez o especial tenha vindo com ela. Será que gostou? perguntou a si mesmo. Talvez ela fosse aquela que ele achava que ia esquartejar sua aranha. Eu poderia voltar e pegar a aranha, refletiu.

Nunca encontrei um animal vivo, selvagem. Deve ser uma experiência fantástica olhar para baixo e ver uma coisa viva, correndo pelo chão. Talvez isso me aconteça algum dia como aconteceu ao especial.
Trouxera do carro aparelhagem de escuta. Instalou-a nesse momento, um cabeçote-detector giratório, com uma tela de blip. No silêncio do corredor, a tela nada indicou. Não neste andar, disse para si mesmo. Virou para escuta vertical e o cabeçote acusou um sinal fraco. Lá em cima. Reuniu o equipamento e a pasta e subiu a escada para o andar superior.

Uma figura esperava nas sombras.
— Se fizer um movimento, eu o aposento — disse Rick ao andróide à sua espera.
Sentiu duro entre os dedos cerrados o tubo de laser, mas não conseguiu erguê-lo e apontá-lo. Fora o primeiro a ser surpreendido, surpreendido cedo demais.

— Eu não sou um andróide — disse a figura. — Meu nome é Mercer. — Deu um passo para a área iluminada. — Moro neste prédio por causa do Sr. Isidore, O especial que tinha a aranha. Você falou com ele há pouco, lá fora.
— Estou, agora, como disse o debilóide, excluído do mercerismo? — perguntou — Por causa do que vou fazer nos próximos três minutos?
Mercer respondeu:
— O Sr. Isidore falou por si mesmo, não por mim. O que você anda fazendo tem que ser feito. Eu já disse isso.
Erguendo o braço, apontou para as estrelas às costas de Rick.
— Vim para lhe dizer que um deles está atrás de você e embaixo, não no apartamento. Será o difícil dos três e você terá que aposentá-lo em primeiro lugar. 
A voz rachada, antiga, ganhou inesperada urgência.
— Depressa, Sr. Deckard. Nos degraus.

Tubo de laser na mão, Rick girou sobre si mesmo, agachado, de frente para o lance de degraus. Por ele subia uma mulher, vinha na sua direção e sabia quem era, reconheceu-a e baixou o laser.
—Rachael — disse, perplexo.
Tê-lo-ia acompanhado em seu próprio hovercar, seguindo-o até ali? E por quê?
— Volte para Seattle — disse. — Deixe-me em paz. Mercer me disse que tenho que fazer isto. — E neste momento viu que a coisa não era exatamente Rachael.
— Pelo que significamos um para o outro — disse a andróide ao aproximar-se dele, os braços estendidos como se para abraçá-lo.
As roupas, pensou ele, estão erradas. Mas os olhos, os mesmos olhos. E há mais outras como esta, pode haver uma legião delas, cada uma com seu próprio nome, mas todas Rachael Rosen — Rachael, o protótipo, usado pelo fabricante para proteger as demais.

Atirou no momento em que, implorante, ela corria para ele.
A andróide explodiu e partes dela voaram.
Cobriu o rosto e olhou novamente, olhou e viu o tubo de laser que a coisa conduzia rolar para longe, de volta, pelas escadas; o tubo de metal saltou de degrau em degrau, o som ecoando e diminuindo.
O difícil dos três, dissera Mercer.

Olhou em volta, procurando-o. O velho desaparecera. Eles podem me seguir, usando outras Rachael Rosens até que eu morra, pensou, ou até que o tipo se torne obsoleto, o que quer que aconteça em primeiro lugar.
E, agora, os outros dois, pensou. Um deles não está no apartamento, dissera Mercer. Ele me protegeu, deu-se conta. Manifestou-se e ofereceu ajuda. Ela — a coisa — teria me pegado, disse a si mesmo, não tivesse Mercer me avisado. Eu posso fazer o resto, teve certeza. Aquela era a impossível; tinha certeza de que eu não poderia ter feito isto. Mas acabou. Num instante. Eu fiz o que não podia fazer. Quanto aos Batys, posso localizá-los utilizando os métodos habituais; serão duros, mas não como esta.

Estava sozinho no corredor vazio; Mercer fora embora depois de feito o que viera fazer; Rachael — ou melhor. Pris Stratton — fora desmembrada, e isto nada deixara ali, naquele momento, exceto ele. Mas em alguma outra parte do prédio os Batys esperavam e sabiam. Haviam percebido o que ele fizera. Provavelmente, a esta altura, estavam com medo. Esta fora a reação deles à sua presença no prédio. A tentativa feita por eles. Sem Mercer, teria dado certo. Para eles, chegara o inverno.

Isto tem que ser feito rapidamente. O que tenho que fazer agora, compreendeu. Desceu apressado o corredor e imediatamente sua aparelhagem de detecção registrou a presença de atividade cefálica. Descobrira o apartamento deles. Não havia mais necessidade da aparelhagem. Abandonou-a e bateu à porta do apartamento. De dentro, veio a voz de um homem:

— Quem é?
— Eu, o Sr. Isidore — disse Rick. — Deixe-me entrar porque estou cuidando de vocês e d-d-dois de vocês são mulheres.
— Nós não vamos abrir a porta — declarou uma voz de mulher.
— Eu quero ver Buster Amigão no aparelho de TV de Pris — insistiu Rick. — Agora que ele provou que Mercer não existe, é muito importante vê-lo. Eu guio o caminhão do Hospital Van Ness de Pequenos Animais cujo dono é o Sr. Hannibal S-S-Sloat. — Obrigou-se a gaguejar. — A-assim, por que vocês não abre ma p-p-porta? É o meu apartamento. 
Esperou, e a porta foi aberta.
Dentro do apartamento viu escuridão e formas indistintas, duas formas.
A forma menor, a mulher, disse:
— Você tem que aplicar os testes.
— Tarde demais — disse Rick.

A figura mais alta tentou fechar a porta e ligar algum tipo de equipamento eletrônico.
— Não — disse Rick. — Vou ter que entrar,
Deixou que Roy Baty atirasse uma vez; segurou o próprio fogo até que o feixe de laser passou por ele, tendo se esquivado com uma torção do corpo.
— Você perdeu sua base legal — explicou Rick — disparando contra mim. Devia ter-me forçado a lhe aplicar o Teste Voigt-Kampff. Mas agora não importa mais.
Mais uma vez, Roy disparou um feixe contra ele, errou, deixou cair o tubo e correu para dentro do apartamento, para outro cômodo, talvez para a aparelhagem eletrônica abandonada.
— Por que foi que Pris não o pegou? — perguntou a Sra. Baty.
— Não há Pris alguma — retrucou ele. — Apenas Rachael Rosen, repetida indefinidamente.

Viu o tubo de laser na mão mal delineada dela na escuridão; Roy Baty lhe passara a arma, quisera atraí-lo para dentro do apartamento, bem dentro, de modo que Irmgard Baty pudesse pegá-lo por trás, atingi-lo pelas costas.
— Sinto muito, Sra. Baty — disse Rick, e fuzilou-a.
Roy Baty, no outro cômodo, soltou um grito de angústia.
— Muito bem, você a amava — disse Rick. — E eu amava Rachael. E o especial amava a outra Rachael.

Atirou nele. O cadáver do homenzarrão sacudiu-se violentamente de um lado para o outro e desmoronou como uma coletânea de entidades separadas, quebradiças, excessivamente empilhadas umas sobre as outras, chocou-se com a mesa da cozinha e com ele arrastou pratos e talheres. Circuitos de reflexo no corpo fizeram-no contorcer-se e palpitar, mas estava morto. Rick ignorou-o, não o vendo nem vendo Irmgard Baty junto à porta da frente.

Peguei o último, compreendeu. Seis, hoje, quase um recorde. Agora está tudo acabado e posso voltar para casa, para Iran e para a cabra. E, pelo menos por uma vez na vida, teremos um bocado de dinheiro.

Sentou-se no sofá, e logo depois, no silêncio do apartamento, entre os objetos imóveis, apareceu à porta o especial, Sr. Isidore.

— É melhor não olhar — avisou Rick.
— Eu vi Pris na escada.
O especial chorava.
— Não se deixe abater tanto — consolou-o Rick. Levantou-se tonto, com um grande esforço. — Onde fica seu telefone?

O especial não respondeu, coisa alguma fez, senão permanecer no mesmo lugar.
Assim, o próprio Rick procurou-o, conseguiu localizá-la e discou para o escritório de Harry Bryant.



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