sábado, 21 de agosto de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 21)



ÓTIMO — DISSE HARRY BRYANT ao ser informado. — Bem, agora vá descansar um pouco. Vamos mandar um carro de patrulha apanhar os três corpos.

Rick Deckard desligou.

— Andróides são estúpidos — disse selvagemente ao especial. — Roy Baty não conseguiu me distinguir de você. Pensou que era você que estava à porta. A polícia fará uma limpeza geral aqui. Por que não fica em outro apartamento até que termine tudo? Você não vai querer ficar aqui com o que sobrou.
— Eu vou deixar este p-p-prédio — respondeu Isidore. — Vou morar m-m-ais no centro da cidade, onde há m-m-mais gente.
— Eu acho que há um apartamento vago no meu prédio — lembrou Rick.
— Eu não q-q-quero morar perto de você — gaguejou Isidore.
— Vá lá para fora ou para cima — recomendou Rick. —Não fique aqui.

O especial permaneceu hesitante, sem saber o que fazer; uma grande variedade de expressões mudas cruzaram-lhe a face. Em seguida, voltando-se, saiu arrastando os pés do apartamento, deixando Rick sozinho.

Que trabalho este que faço, pensou Rick. Eu sou uma praga, como a fome ou a peste. Aonde quer que eu vá, acompanha-me a antiga maldição. Como disse Mercer, sou obrigado a proceder mal. Tudo o que fiz, desde o inicio, foi o mal. De qualquer modo, é tempo de voltar para casa.
Talvez, depois de passar algum tempo com Iran, eu esqueça tudo.

Ao chegar ao seu prédio, Iran foi recebê-lo no telhado. Fitou-o de uma maneira desequilibrada, peculiar. Em todos os seus anos com ela, jamais a vira assim.
Enlaçando-a com o braço, disse:
— De qualquer modo, acabou. E ando pensando, talvez Harry Bryant possa me designar para um...
— Rick — disse ela. — Tenho que lhe contar uma coisa. Sinto muito. A cabra morreu.

Por alguma razão, isto não o surpreendeu. Fê-lo apenas sentir-se pior, numa soma extra de peso que o comprimia por todos os lados,
— Acho que há alguma garantia no contrato — respondeu. — Se adoecer dentro de noventa dias da venda, o vendedor...
— Ela não adoeceu. Alguém — Iran pigarreou e continuou em voz rouca —, alguém veio até aqui, tirou a cabra da jaula e arrastou-a até a beira do telhado.
— E empurrou-a? — perguntou ele.
— Foi — confirmou ela, inclinando a cabeça.
— Você viu quem foi que fez isso?
— Eu vi perfeitamente — respondeu Iran. — Barbour ainda estava por aqui, tratando do animal dele. Desceu para me chamar e chamamos a polícia, mas a essa hora o animal estava morto e a pessoa tinha ido embora. Foi uma moça bem jovem, com cabelos escuros e grandes olhos pretos, muito magra. Vestia um casaco longo de escamas de peixe. Usava uma bolsa tipo sacola de correio. E não fez coisa alguma para evitar que a víssemos. Como se não se importasse.
— Não, ela não se importava — disse ele. — Rachael não daria a mínima se você a visse. Provavelmente, queria que a visse, de modo que eu soubesse quem fez isso. — Beijou-a. — Você esteve aqui esperando este tempo todo?
— Somente meia hora. Foi quando a coisa aconteceu. Faz meia hora. — Ternamente, retribuiu o beijo. — Foi tão horrível. Tão desnecessário.

Ele voltou-se para o carro estacionado, abriu a porta e sentou-se ao volante.
— Não foi desnecessário — disse. — Ela tinha o que lhe parecia uma razão. — Uma razão de andróide, pensou.
— Para onde você vai? Não vai descer e,,. ficar comigo? A TV deu uma notícia extremamente chocante. Buster Amigão diz que Mercer é uma impostura. O que é que você acha disso, Rick? Você acha que isso poderia ser verdade?
— Tudo é verdade — respondeu ele. — Tudo aquilo em que qualquer pessoa jamais pensou. — Ligou o motor do carro.
— Você vai se recuperar?
— Vou me recuperar — respondeu ele, e pensou: e vou morrer. Mas estas também são verdades.

Fechou a porta do carro, fez um sinal com a mão para Iran e mergulhou no céu noturno.
Antigamente, pensou, eu teria visto as estrelas. Há anos. Mas agora só há poeira, ninguém vê uma estrela há anos, pelo menos não da Terra. Talvez eu vá para algum lugar onde possa ver estrelas, disse a si mesmo quando o carro ganhou velocidade e altitude, afastando-se de São Francisco, a caminho da desolação desabitada do norte. Para um lugar onde ser vivo algum iria.
Não, a menos que achasse que chegara o fim.


À primeira luz da manhã, a terra embaixo se estendia aparentemente para sempre, cinzenta e juncada de lixo. Pedras do tamanho de casas haviam rolado e parado próximas umas das outras e ele pensou: isto parece uma sala de despacho, depois de mandadas embora todas as mercadorias. Permanecem apenas fragmentos de engradados, os recipientes que em si mesmo nada significam.
Antigamente, refletiu, aqui cresciam colheitas e animais pastavam.
Que pensamento estranho, que algum animal pudesse ter pastado aqui. Que lugar estranho para morrer, pensou.

Baixou o hovercar e deslizou durante algum tempo sobre a superfície.
O que Dave Holden diria de mim agora?perguntou a si mesmo.
Em um sentido, sou o maior caçador de cabeças que jamais viveu: nenhum jamais aposentou seis tipos Nexus-6 num único período de vinte e quatro horas e nenhum provavelmente jamais fará isto. Eu devia telefonar para ele, disse a si mesmo.

Uma encosta atravancada de morro levantou-se à sua frente; ergueu o hovercar quando o mundo se aproximou. Cansaço, pensou. Eu não devia estar guiando ainda. Desligou a ignição, planou por algum tempo e, em seguida, Pousou. O veículo tombou e rebotou pela encosta, espalhando pedras, subindo, até que parou finalmente com um chiado.

Levantando o telefone, chamou a telefonista de São Francisco.
— Ligue-me com o Hospital Monte Sion — disse.
No mesmo instante, outra telefonista apareceu na videotela:
— Hospital Monte Sion.
— Vocês têm aí um paciente chamado Dave Holden — explicou. — Eu poderia falar com ele? Ele está suficientemente bem para atender?
— Um momento; vou verificar isso, senhor. — Temporariamente, a tela escureceu.
Passou-se algum tempo. Rick tomou uma pitada do Rapé do Dr. Johnson e sentiu um calafrio. Sem o aparelho de aquecimento do carro ligado, a temperatura começava a cair verticalmente.
— O Dr. Costa informa que o Sr, Holden não pode receber telefonemas — informou a telefonista, reaparecendo.
— Trata-se de assunto policial — disse ele, colando na tela sua identificação.
— Um momento. — Mais uma vez, a telefonista desapareceu. Mais uma vez, Rick tomou uma pitada do Rapé do Dr. Johnson. O mentol do produto tinha um cheiro horrível, cedo assim pela manhã. Baixou a janela do carro e lançou no lixo a pequena lata amarela, — Não, senhor — disse a telefonista, mais uma vez na tela. — O Dr. Costa não acha que o estado do Sr. Holden permita que atenda ao telefone, por mais urgente que seja o assunto, por, pelo menos...
— Muito bem — disse Rick. E desligou.

O ar também tinha um cheiro ruim. Subiu outra vez a janela. Dave está realmente acabado, refletiu. Gostaria de saber por que eles não me pegaram. Porque me movi rápido demais, decidiu. Tudo num dia só. Não podiam ter esperado isto. Harry Bryant tinha razão.

O carro se tornara frio demais, de modo que abriu a porta e saiu. Um vento mefítico, inesperado, começou a penetrar em suas roupas e ele começou a andar, esfregando as mãos uma na outra.

Teria sido bem agradável conversar com Dave, pensou. Dave teria aprovado o que eu fiz. Mas acho também que ele teria compreendido a outra parte, que penso que nem Mercer compreende. Para Mercer, tudo é fácil porque ele aceita tudo. Coisa alguma lhe é estranha. Mas o que eu fiz, pensou, isso se tornou estranho a mim. Na verdade, tudo em mim se tornou antinatural. Eu me tornei um ser antinatural.

Continuou a andar, subindo a colina e, a cada passo, aumentava o peso sobre ele. Estou cansado demais para subir, pensou. Parando, enxugou o suor picante dos olhos, lágrimas salgadas produzidas por sua pele, por todo seu corpo dolorido.

Depois, zangado consigo mesmo, cuspiu — cuspiu com raiva e desprezo, por si mesmo, com ódio total, no chão estéril. Em seguida, continuou a subir penosamente a encosta, o terreno solitário e desconhecido, remoto a tudo. Coisa alguma vivia ali, exceto ele.
O calor. Esquentara, agora; evidentemente, passara o tempo. E sentiu fome. Não comia só Deus sabia havia quanto tempo. Fome e calor combinados, um gosto venenoso parecendo derrota. Sim, pensou, é isso o que é: fui derrotado de alguma maneira obscura. Por ter morto os andróides? Pelo assassinato de minha cabra por Rachael?
Não sabia, mas enquanto continuava a andar cansadamente, uma mortalha vaga e quase alucinatória toldou sua mente.

Quando deu por si, estava num ponto sem noção de como chegara lá,, a um passo de uma queda certamente fatal pela encosta — caindo de modo humilhante e impotente, pensou, sem mesmo uma única pessoa para presenciar o fato. Ali não havia ninguém para registrar sua degradação, ou a de alguém, e a coragem ou o orgulho que pudessem manifestar-se no fim permaneceriam sem registro: as pedras mortas, as ervas daninhas atacadas pela poeira, secas e morrendo, nada percebiam, de coisa alguma se lembrariam, sobre ele ou elas mesmas.

Naquele momento, a primeira pedra — e não era de borracha ou de plástico mole e macio — atingiu-o na região inguinal. E a dor, o primeiro conhecimento de solidão e sofrimento absolutos, tocou-o em todo o corpo, em sua forma real sem disfarces.
Parou. Em seguida, acicatado — o acicate invisível mas real, que não podia ser desobedecido —, reiniciou a subida. Rolando para cima, pensou, como as pedras.

Estou fazendo o que as pedras fazem. Sem vontade. Sem que isto signifique coisa alguma.
— Mercer — disse, arquejante. Parou, estatelado. À sua frente, distinguiu a figura nevoenta, imóvel. — Wilbur Mercer! É você? — Meu Deus, compreendeu. É minha sombra. Tenho que sair daqui, descer desta colina!

Recuou, atabalhoado. Uma vez, caiu; nuvens de poeira obscureciam tudo e fugiu delas — cada vez mais depressa, deslizando e tropeçando nos seixos soltos. À frente, viu seu carro estacionado. Estou de volta aqui embaixo, disse a si mesmo. Saí da colina. Abriu com força a porta do carro e espremeu-se para dentro. Quem foi que me atirou pedras?, perguntou a si mesmo. Ninguém! Mas por que isto me incomoda? Eu passei por isto antes, durante a fusão. Enquanto usava minha caixa de empatia, como todo mundo. Isto não é novo. Mas foi. Porque, pensou, fiz isto sozinho.

Tremendo, apanhou uma nova lata de rapé no porta-luvas. Tirando a fita aderente protetora, tomou uma grande pitada, descansou, metade do corpo dentro do carro, as pernas de fora, na terra árida e empoeirada. Este era o último lugar para vir, compreendeu. Não devia ter vindo aqui. E, naquele instante, estava cansado demais para voltar.

Se eu apenas pudesse falar com Dave, pensou, ficaria tudo bem comigo. Poderia escapar daqui, voltar para casa, para a cama. Ainda tenho minha ovelha elétrica e tenho meu emprego. Haverá mais andros para aposentar; minha carreira não acabou; não aposentei ainda o último andróide existente. Talvez seja isto, pensou, estou com medo que não haja mais.

Olhou para o relógio. Nove e trinta.
Apanhando o telefone, discou para o Palácio de Justiça, na Lombard.
— Ligue-me para o Inspetor Bryant — disse à telefonista da polícia, Srta, Wild.
— O Inspetor Bryant não está no escritório, Sr. Deckard. Saiu no seu próprio carro, mas não consigo nenhuma ligação com ele. Ele deve ter deixado o veículo temporariamente.
— Ele disse para onde tencionava ir?
— Alguma coisa sobre os andróides que o senhor aposentou na noite passada.
— Ligue-me então com minha secretária — pediu.

Um momento depois, apareceu na tela a face amarelada, peculiar, de Ann Marsten.
— Oh, Sr. Deckard... O Inspetor Bryant anda à sua procura. Acho que ele está submetendo seu nome ao Comissário Cutter, para um elogio em fé-de-ofício. Porque o senhor aposentou aqueles seis...
— Eu sei o que foi que eu fiz — grunhiu ele.
— Isso nunca aconteceu antes. Oh, sim, Sr. Deckard, sua esposa telefonou. Quer saber se o senhor está bem. O senhor está?

Ele permaneceu calado.
— De qualquer modo — opinou a Srta. Marsten —, talvez fosse bom o senhor telefonar, ela deixou recado avisando que vai ficar em casa, à sua espera.
— Ouviu falar de minha cabra? — perguntou ele.
— Não, eu nem mesmo sabia que o senhor tinha uma cabra.
— Mataram minha cabra — disse Rick.
— Quem matou, Sr. Deckard? Ladrões de animais? Acabamos de receber um relatório sobre uma nova e grande quadrilha, provavelmente adolescentes, operando em...
— Ladrões de vidas — disse Rick.
— Eu não estou entendendo, Sr. Deckard. — A Srta. Marsten observou-o atentamente. — Sr. Deckard, o senhor está com uma aparência horrível! E, meu Deus, seu rosto está sangrando.

Erguendo a mão, Rick sentiu o sangue. Provocado por uma pedra, provavelmente. Mais de uma, evidentemente, o atingira.
— O senhor está parecendo com Wilbur Mercer — disse ela.
— Eu sou — disse ele. — Eu sou Wilbur Mercer. Fundi-me permanentemente com ele. E não posso desfundir-me. Estou aqui, à espera da desfusão. Em um lugar qualquer, perto da fronteira do Oregon.
— Quer que enviemos alguém? Um carro do Departamento para apanhá-lo?
— Não — respondeu ele. — Eu não trabalho mais no Departamento.
— Evidentemente o senhor trabalhou demais ontem, Sr. Deckard — disse ela em tom de desaprovação. — O que o senhor precisa é de repouso na cama. Sr. Deckard, o senhor é o nosso melhor caçador de cabeças, o melhor que jamais tivemos.

Direi ao Inspetor Bryant quando ele chegar. Vá pra casa e pra cama. Telefone agora mesmo para sua esposa, Sr. Deckard, porque ela está terrivelmente, terrivelmente preocupada. Vocês dois estão pavorosos.
— É por causa de minha cabra — disse ele. — Não por causa dos andróides. Rachael enganou-se... Não tive problema algum para aposentá-los. E o especial enganou-se também, dizendo que eu não podia mais entrar em fusão com Mercer. O único que teve razão foi Mercer.
— É melhor o senhor voltar para a área da Baía, Sr. Deckard. Onde há gente. Não há nada vivendo aí perto do Oregon, não é verdade? O senhor não está sozinho?
— É estranho — disse Rick, — Tive a absoluta, total, ilusão, inteiramente real, que me tornara Mercer e que pessoas atiravam pedras em mim. Mas não da maneira como a gente experimenta quando segura os punhos de uma caixa de empatia. Quando a usamos, sentimos que estamos com Mercer. A diferença foi que não estive com pessoa alguma. Eu estava sozinho.
— Agora estão dizendo por aí que Mercer é uma impostura.
— Mercer não é uma impostura — disse ele. — A menos que a realidade seja. — Esta colina, pensou. Esta poeira e todas estas pedras, todas elas diferentes umas das outras. — Estou com medo — continuou ele — que não possa deixar de ser Mercer. Uma vez que se comece, é tarde demais para recuar — Vou ter que subir novamente a colina?, perguntou-se. Eternamente, como Mercer faz...encurralado pela eternidade. — Adeus — e começou a desligar.
— Vai telefonar para sua esposa? Promete?
— Sim, vou. — Inclinou a cabeça — Obrigado, Ann. — Descanso na cama, pensou.

A última vez em que me deitei numa cama foi com Rachael. Na violação de uma lei. Cópula com uma andróide, inteiramente contra a lei, aqui e nos mundos-colônias.
Ela deve estar de volta agora a Seattle. Com os outros Rosens, reais e humanóides.
Eu gostaria de fazer com você o que você fez comigo, desejou. Mas isto não pode ser feito com um andróide, porque ele não se importa. Se eu a tivesse morto ontem, minha cabra estaria viva agora. Foi nesse momento que tomei a decisão errada. Sim, pensou: tudo pode ser atribuído a isso e ao fato de ter ido para a cama com você.
Afinal de contas, você teve razão numa coisa: a experiência mudou-me. Mas não da forma que você previu.

De uma maneira muito pior, decidiu.

Mas, ainda assim, não me importo, realmente. Não mais. Não, pensou, depois do que aconteceu lá em cima, perto do topo da colina. Gostaria de saber o que aconteceria em seguida, se continuasse a subir e chegasse ao topo. Porque é lá que parece que Mercer morre. É lá que o triunfo de Mercer se manifesta, lá ao fim do grande ciclo sideral.

Mas se sou Mercer, pensou, jamais posso morrer, não em dez mil anos. Mercer é imortal!
Mais uma vez, apanhou o telefone. Ia chamar a esposa.
E ficou paralisado.


O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 21) [ Download ]