quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Contatos Imediatos do Terceiro Grau - Steven Spielberg



Assim que Roy desceu pela montanha, percebeu que o espetáculo terminara.

Como se obedecendo a um sinal, todos os objetos tinham desaparecido na noite.

Agora, saindo das nuvens baixas, uma centena de pontos de luz surgiam em redor do perímetro de mais de trinta quilômetros que englobava o canyon. Embora esses pontos de luz pairassem a pelo menos quinze quilômetros de distância, Neary podia ver que se tratava de veículos grandes, em forma de porcas e parafusos, que pareciam guardar, pairando, toda a área da base.

De repente, ergueram-se ainda mais no céu e diminuíram a intensidade das suas luzes. Agora, Roy mal podia distinguir as formas pretas por trás do clarão. Era uma visão fantástica.

Mas as coisas ficaram ainda mais estranhas.

Lá embaixo, no estádio, todos estavam exaustos e, ofegantes, recolhiam o equipamento, ao mesmo tempo em que tiravam o pó das roupas. Embora fossem cientistas, tinham sido submetidos a um grande choque cultural e cada um deles procurava assimilar a coisa, assumi-la.
Ninguém falava. O vento cessara completamente e o silêncio era total.

Neary descera sem parar e estava agora na base da montanha, procurando aproximar-se sem ser visto, quando alguma coisa o fez estacar e olhar para cima.

De trás da montanha e de dentro de uma nuvem, algo começava a sair, alguma coisa inteiramente preta. Não só preta, mas também enorme. Tão enorme, que Roy não poderia fazer uma idéia do seu tamanho. Vendo aquela enorme forma preta descer do alto da montanha, ocultando a lua e formando uma sombra que poderia cobrir todos os que estavam no canyon, Neary pensou que fosse desmaiar.

Dentro da base, o mestre de cerimônias murmurou:
— Oh, meu Deus! E caiu de joelhos.
— Diabos! — exclamou Laughlin, sem saber o que dizia. Lacombe limitou-se a olhar, como que petrificado.
— Mon Dieu! — disse, por fim, compreendendo que, se pudessem medir aquela forma, aquela coisa, veriam que a sua largura seria de mais de quilômetro e meio e que o seu comprimento, que cobria todo o céu, ainda não podia ser calculado, porque a sua extremidade continuava encoberta.

De repente, a coisa virou. Uma faixa cirúrgica de luz orlava a parte inferior da coisa e, então, algo se abriu — um círculo explodiu, como uma coroa de luz.

Era do tamanho de uma cidade, pensou Neary. De Indianapolis. Não, maior ainda. De Detroit.

A parte de cima parecia uma refinaria de petróleo, com enormes tanques e oleodutos, chamas e luzes.

A massa fantasma, deslizando através do canyon, parecia velha e suja, como uma cidade antiga ou uma imensa nave, que tivesse percorrido os céus durante centenas, milhares, milhões de anos. Nem Roy nem qualquer dos cientistas ou técnicos — nem nenhuma outra pessoa na Terra — vira jamais, ou imaginara coisa parecida.

Quando se aproximou da base, uma tremenda explosão de luz irrompeu atrás dela e a dividiu no que parecia ser mil vaga-lumes brilhantes, só que cada vaga-lume era um pequeno veículo, que funcionava como um rebocador. Cada “rebocador” emitia diferentes cores e os mil rebocadores juntos formavam uma espécie de armação de luzes multicoloridas, sobre a qual a massa fantasma — com cerca de três quilômetros de extensão e quilômetro e meio de largura — parecia assentar. A massa estremeceu ligeiramente, quando a armação, de vigas formadas por cores que piscavam, a escoltou para uma área de aterrissagem, no extremo do campo.

Neary pulara por cima do muro de dois metros e estava agora no meio dos técnicos e dos cientistas, todos absolutamente perplexos diante do que viam.

A armação guiou a massa, que desceu a cerca de quilômetro e meio das luzes que delimitavam o local de aterrissagem. Era tão grande que, ao pousar, a beirada formou um teto por sobre todo o acampamento.
A massa criara seu próprio campo de gravidade negativa e, não demorou para que as pessoas e as coisas perdessem cerca de quarenta por cento do seu peso. Isso fez com que todos se animassem, se pusessem a dar pulos no ar, sendo que alguns davam cambalhotas e saltos mortais. Seus colegas de macacão esgueiravam-se e saltitavam por baixo deles com as cameras, tirando fotos do incrível acontecimento.

Depois que a massa desceu, o grupo que estava junto do sintetizador sentiu-se individual e coletivamente enfraquecido. Experimentavam todo o impacto do choque cultural, apesar dos anos de espera e preparação para aquele momento.
Lacombe e o chefe do grupo foram os primeiros a se recuperar parcialmente. Resolveram aproximar mais o sintetizador, que era montado sobre rodas, da massa. Depois de o arrastarem cerca de vinte e cinco metros pelo campo e apesar de se sentirem num outro mundo, todos se reanimaram.

O mestre de cerimônias falou, com a maior frieza possível, ao microfone portátil:
— Todos os departamentos em operação durante esta fase queiram se manifestar por meio de dois sinais.
Dois tons ecoaram pelo canyon, quebrando o silêncio reinante.
O técnico da cabine perguntou:
— O analisador de áudio está pronto?
Recuperando um pouco de equilíbrio, agora, que estava fazendo algo, o mestre de cerimônias disse:
— Se tudo estiver pronto aqui, no lado escuro da lua, toquem as cinco notas.
Shakespeare tocou as cinco notas bem devagar. Não houve resposta da massa fantasma.
— Encore — ordenou Lacombe.
As cinco notas soaram através da noite. A grande nave emitiu um som que parecia o grunhido de um porco.
— Deve ter sido algo que ela comeu — disse, nervoso, o chefe da equipe.
O músico-engenheiro começou a tocar de novo as cinco notas. Desta vez, não houve nenhuma resposta.
— De novo — disse o chefe da equipe.
Shakespeare obedeceu.

Súbito, as últimas duas notas foram completadas pela nave-mãe. O estrondo foi incrível. Fez com que os homens fugissem e estilhaçou todas as janelas dos cubículos. Nas cabines, os técnicos tentaram escapar aos estilhaços e alguns sofreram cortes, mas não se importaram com isso.
— OK — disse o chefe da equipe, passado um momento. — Toque de novo.
O sintetizador soou e a nave respondeu. Desta vez, luzes — iguais às do painel — brilharam em toda a sua superfície.

Jillian Guiler sabia que não podia agüentar mais sozinha. Mesmo cheia de medo, achou preferível tentar descer e juntar-se a Neary. Precisava estar com alguém que a ajudasse a sobreviver a tudo aquilo. Pegou a sacola e a máquina fotográfica, e iniciou a descida, seguindo o mesmo caminho que Roy tomara.

O mestre de cerimônias dirigiu-se a Shakespeare e ao técnico da cabine:
— Toque seis colcheias e depois faça uma pausa. O músico tocou as notas.
A nave ecoou-as e depois tocou um grupo de notas que nenhum deles tinha ouvido antes. O técnico falou:
— Ela tocou quatro colcheias. Um grupo de cinco colcheias. Um grupo de quatro semicolcheias.
Shakespeare imitou as notas emitidas pela nave, que logo acrescentou cinco novas notas e cinco cores diferentes.

No interior dos cubículos, os técnicos estavam numa espécie de Nirvana.
A nave estava lhes ensinando o seu vocabulário cromático e musical!

À medida que as trocas aumentavam de complexidade e velocidade, os computadores assumiram o trabalho de Shakespeare. Tirou as mãos do teclado e o Moog foi tocado pelos computadores como se fosse um piano.
— Imitem a nave em tudo — instruiu o mestre de cerimônias. — Acompanhem-na nota por nota.
A nave-mãe explodiu em sons e cor, e o Moog, ligado com o computador e o painel cromático, repetia. Durante vários minutos extasiantes, a grande nave, o Moog e o painel deram uma espécie de concerto cósmico.
Era uma música muito estranha — passando de melódica a atonal, depois lembrando jazz, a seguir música folclórica e, logo depois, algo tão grotesco e antimusical, que todos tinham de tapar os ouvidos.
Neary sorria, sem reparar que Jilliam abria caminho através da multidão. Alguns dos técnicos batiam palmas; outros levavam as mãos à cabeça. Lacombe tinha uma expressão de perplexidade.

De repente, a nave parou. Deu alguns grunhidos e depois calou-se. Todas as luzes se apagaram.
A base ficou às escuras e em completo silêncio durante alguns momentos.

Então, a nave começou a se abrir.

Toda a parte de baixo, a partir de uma linha de luz branca, se abriu para uma fornalha de luz.
Todos se afastaram, colocando óculos escuros. Mas, mesmo com óculos, era difícil olhar para aquela luz incandescente.

A coisa abriu-se mais um pouco.
Aquilo era demais. Todos recuaram rapidamente, querendo afastar-se daquela luz enervante, que tinha agora cerca de cento e cinqüenta metros de largura.

Mas a abertura continuava aumentando.
Primeiro Lacombe, depois Neary e então os outros foram-se aproximando outra vez. A luz branca emitiu um calor intenso e depois parou.
Dentro do calor ofuscante, distinguiram movimentos.

A luz era tão forte, que mandava raios em todas as direções. Agora, parecia haver oito vultos saindo do meio da luz. Seu aspecto era completamente inumano, porque a luz branca lhes cortava os corpos em tiras finas.

Mas logo saíram da nave, colocando-se fora do alcance da luz.

Lacombe avançou para eles. Viram que se tratava de pessoas. De homens.


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