sábado, 11 de setembro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 2)



Encontrei-me dentro de um vasto túnel prateado, tão alto como a nave de uma catedral.
Pelas paredes corria um amontoado de canos coloridos, que desapareciam por uns orifícios redondos.

Voltei-me.

Os ventiladores rugiam, sugando os gases venenosos da atmosfera do planeta que se tinham infiltrado quando a minha cápsula aterrara dentro da estação.

Vazia, assemelhando-se a um casulo rebentado, a cápsula em forma de charuto permanecia ereta, envolta numa proteção em forma de cálice, montada sobre uma base de aço.

O revestimento exterior, chamuscado durante o voo, tornara-se de um castanho sujo.
Desci uma pequena escada. Em baixo, o chão de metal tinha sido recoberto com um plástico resistente. Em alguns lugares, as rodas das carretas, que serviam para transportar mísseis, tinham desgastado essa cobertura plástica, deixando à vista o aço nu que havia por baixo.

O pulsar dos ventiladores cessou de súbito e reinou um silêncio total.

Olhei em redor, um pouco incerto, à espera que aparecesse alguém; mas não havia qualquer sinal de vida. Apenas se via uma seta em néon que brilhava apontando para uma passadeira rolante, a qual deslizava silenciosamente.
Deixei que me levasse.

O teto da entrada descia formando um belo arco em parábola até à entrada de uma galeria em cujos recantos se viam cilindros de gás, calibradores, pára-quedas, caixotes e uma enorme quantidade de outros objetos, tudo espalhado em montes pouco arrumados.
A passadeira rolante levou-me até ao extremo da galeria, junto à entrada de uma sala em abóbada. Aqui a desordem era ainda maior. Escorrendo de debaixo de uma pilha de tanques de óleo, espalhava-se uma poça de um líquido oleoso; no ar pairava um cheiro nauseabundo. Viam-se pegadas em todas as direções, formando uma série de manchas de aspecto glutinoso. Os tanques de óleo estavam cobertos com um emaranhado de fita de telégrafo, papéis rasgados e mais lixo.

Uma outra seta verde dirigiu-me para a porta central. Para lá desta estendia-se um estreito corredor onde mal caberiam dois homens lado a lado, e que era iluminado por placas de vidro incrustadas no teto. Depois, uma nova porta, pintada aos quadrados verdes e brancos, e que estava aberta para trás; entrei. A cabina tinha paredes côncavas e uma grande janela panorâmica, que uma fulgente neblina tingia de púrpura. Lá fora, as ondas sombrias passavam silenciosas. As paredes estavam cobertas de prateleiras cheias de instrumentos, livros, copos sujos, garrafas-térmicas — tudo coberto de pó. O chão manchado estava atravancado com cinco ou seis pequenas carretas e algumas cadeiras articuladas.

Apenas uma cadeira estava livre e nesse cadeirão estava um homem pequeno e magro, a cara queimada pelo sol, a pele do nariz e das bochechas vermelhas em grandes bocados. Reconheci-o como sendo Snow, um perito em cibernética e o assistente de Gibarian.
Em tempos, publicara alguns artigos de grande originalidade no Solarist Annual

Por acaso, nunca tivera a oportunidade de encontrá-lo. Vestia uma camisa de rede, que aqui e ali deixava passar os pêlos cinzentos do seu peito chato, e as calças de tecido barato, com muitos bolsos, calças de mecânico que outrora tinham sido brancas, mas que agora estavam manchadas nos joelhos e cobertas de buracos provocados por queimaduras químicas. Segurava um frasco de plástico em forma de pêra, dos que são usados nas naves espaciais que não estão equipadas com sistemas gravitacionais internos.

Os olhos de Snow arregalaram-se de espanto quando me viu.
O frasco caiu-lhe das mãos e rolou, entornando algumas gotas de um líquido transparente. O sangue fugiu-lhe do rosto.
Eu estava demasiado atônito para falar, e este espetáculo mudo continuou por tanto tempo que gradualmente o terror de Snow se me comunicou.
Dei um passo em frente e Snow encolheu-se na cadeira.
– Snow?
Estremeceu como se lhe tivesse batido. Fitando-me com um horror indescritível, gaguejou:
– Não sei... — A voz falhou. — Não o conheço... O que quer?

O líquido entornado evaporava-se rapidamente; veio-me ao nariz um cheiro a álcool. Teria estado a beber? Estaria bêbedo? Por que estaria tão aterrorizado?
Permaneci no meio da sala; as minhas pernas tremiam; os ouvidos zuniam como se estivessem cheios de algodão. Tinha a impressão do assoalho fugir-me debaixo dos pés. Para lá da janela curva, o oceano subia e descia com regularidade.

Os olhos injetados de sangue de Snow não se desviavam de mim. O seu terror parecia ter abrandado, mas a expressão de invencível nojo permanecia.
– Qual é o problema? Está doente? — sussurrei.
– Você parece preocupado — disse a voz surda. — Parece realmente preocupado... Então agora é assim, é? Mas por quê perder tempo comigo? Não o conheço.
– Onde está Gibarian? — perguntei.
Abriu a boca, e os olhos vidrados iluminaram-se por um momento.
– Gi... Giba... Não! Não!
Todo o seu corpo foi sacudido por um riso abafado e histérico; depois pareceu acalmar-se um pouco.
– Então, veio por causa do Gibarian, foi? Pobre Gibarian. Que lhe quer?
As suas palavras, ou antes, o tom da sua voz, exprimiam ódio e desafio; era como se subitamente eu tivesse deixado de representar uma ameaça para ele.
Espantado, balbuciei:
– O quê... Onde está ele?
– Não sabe?
Era evidente que ele estava bêbado e em desvario.
A minha fúria aumentou Devia controlar-me e sair da sala, mas a paciência acabara. Gritei:
– Basta! Como poderia saber onde está, se acabo de chegar? Snow! O que está se passando aqui?
O queixo caiu-lhe. De novo controlou a respiração, e os olhos brilharam-lhe com uma luz diferente. Agarrou-se com ambas as mãos aos braços da cadeira e pôs-se em pé com dificuldade. Seus joelhos tremiam.
– O quê? Acaba de chegar... De onde veio? — perguntou, quase sóbrio.
– Da Terra! — respondi irado. — Talvez já tenha ouvido falar dela! Embora não pareça.
– Da Terra? Meu Deus! Então, você deve ser Kelvin.
– Claro. Por que olha assim para mim? Que tenho de tão extraordinário?
Snow piscou rapidamente os olhos.
– Nada — disse, limpando a testa —, nada. Perdoe-me, Kelvin, não há nada, garanto-lhe. Só que fiquei surpreendido, pois não esperava vê-lo.
– Que quer dizer com isso de que não esperava ver-me? Foram notificados há meses, e hoje mesmo Moddard rádio-telegrafou da Prometheus.
– Sim, sim, claro. Só que, sabe, no momento estamos um pouco desorganizados.
– Isso já eu vi — respondi secamente.
Snow deu uma volta em redor de mim para inspecionar o meu traje atmosférico, que era do tipo comum, com a costumada armação de fios condutores e cabos presos ao peito.
Tossiu e coçou o ossudo nariz:
– Talvez queira tomar um banho? Lhe fará bem. É a porta sul, do outro lado.
– Obrigado, conheço a estrutura da Estação.
– Deve estar com fome.
– Não. Onde está Gibarian?
Sem responder, foi até junto da janela. Por trás parecia bastante mais velho. O cabelo cortado rente era grisalho e o pescoço queimado pelo sol era sulcado por profundas rugas.

As cristas das ondas reluziam do outro lado da janela e as vagas colossais subiam e desciam como que em câmara lenta. Ao observar um oceano assim, tinha-se a ilusão —era certamente uma ilusão — de que a Estação se movia de modo imperceptível, como que oscilando sobre uma base invisível; depois, parecia recuperar o equilíbrio, apenas para voltar a inclinar-se para o lado oposto, com o mesmo movimento preguiçoso.
Na depressão entre cada duas ondas juntava-se uma espuma grossa, cor de sangue.

Durante uma fração de segundo senti uma contração na garganta e recordei com saudade a Prometheus e a sua severa disciplina; a lembrança de uma existência que subitamente me parecia ter sido feliz, agora desaparecida para sempre.

Snow voltou-se, esfregando nervosamente as mãos uma na outra.
– Ouça — disse ele abruptamente —, além de mim não há no momento mais ninguém por aqui. Por hoje terá de contentar-se com a minha companhia. Me chame de Cara de Rato, e não discuta. Você só me conhecia por ter visto o meu retrato, mas faça de conta que somos velhos amigos. Todos me chamam de Cara de Rato, e nada posso fazer contra isso.
Com obstinação, repeti a pergunta:
– Onde está Gibarian?
Ele voltou a piscar os olhos.
– Peço desculpa por tê-lo recebido deste modo. Não... não é propriamente culpa minha. Tinha-me esquecido por completo... Por aqui têm acontecido coisas, sabe...Não tem importância. Mas que há a respeito de Gibarian? Não está na Estação? Anda em algum voo de observação?
Snow tinha os olhos fixos num emaranhado de fios elétricos.
–Não, não saiu da Estação. E não voltará a voar. A verdade é que...
Os meus ouvidos estavam ainda tapados e cada vez me custava mais ouvir.
– O quê? Que quer dizer? Então onde está ele?
– Penso que pode bem adivinhar — respondeu em voz alterada, fitando-me friamente nos olhos.

Senti um arrepio. O homem estava bêbedo, é certo, mas sabia bem o que estava a dizer.
– Houve algum acidente?
Acenou vigorosamente que sim e ficou a observar de perto as minhas reações.
– Quando?
– Esta manhã, de madrugada.
Entretanto os meus sentimentos tornaram-se menos violentos; esta sucinta troca de perguntas e respostas tinha-me acalmado. Começava a compreender o estranho comportamento de Snow.
– Que espécie de acidente?
– Por que não vai até à sua cabina despir esse traje espacial? Volte, digamos, daqui a uma hora.
Hesitei.
– Certo — disse por fim.
Quando estava saindo, chamou-me.
– Espere! — Tinha um ar pouco à vontade, como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas estivesse com dificuldade para traduzir o pensamento em palavras. Depois de uma pausa, disse:
– Aqui, éramos três. Agora com você voltamos a ser três. Conhece Sartorius?
– Do mesmo modo que o conhecia, só de fotografias.
– Ele está lá em cima no laboratório, e duvido que desça antes da noite, mas... De qualquer modo, você poderá reconhecê-lo. Se por acaso vir qualquer outra pessoa, alguém que não seja eu ou Sartorius, então...
– Então, o quê?

Devo estar a sonhar. Isto só pode ser um pesadelo! As ondas que parecem tinta, o seu reflexo carmesim sob o Sol pouco alto, e este homenzinho que voltou para a sua poltrona, sentando-se de novo como anteriormente, a cabeça pendente e fixando o monte de fios elétricos.
– Se isso acontecer, não faça nada.
– Quem eu poderia encontrar? — gritei, irado. — Um fantasma?
– Você está pensando que estou louco, claro. Não, não estou louco. Nada mais posso dizer. Talvez... quem sabe?... Talvez não aconteça nada. Mas não esqueça que o avisei.
– Não seja tão misterioso. Que história é essa?
– Controle-se. Mantenha-se preparado para encontrar... seja lá o que for. Parece impossível, eu sei, mas tente. É o único conselho que lhe posso dar. Não consigo pensar em nada melhor.
– Mas o que poderei encontrar? — gritei.
Vendo-o ali sentado a olhar de esguelha para mim, a face queimada do sol, a cair de cansaço, era-me muito difícil conter-me. Queria agarrá-lo pelos ombros e sacudi-lo.
Com dificuldade, arrastando as palavras uma a uma, respondeu:
– Não sei. De certo modo, dependerá de você.
– Alucinações? É isso que quer dizer?
– Não... é bem real. Não ataque. Faça você o que fizer, não se esqueça disso!
– Aonde quer chegar? — Mal reconhecia o tom da minha própria voz.
– Não estamos na Terra, sabe.
– Uma forma politérica? — gritei. — Essas nada têm de humano!
Preparava-me para me precipitar sobre ele e fazê-lo sair daquele transe, aparentemente causado pelas suas loucas teorias, quando murmurou:
– Por isso são tão perigosas. Lembre-se do que lhe disse e mantenha-se alerta!
– O que aconteceu a Gibarian?
Não respondeu.
– O que Sartorius está fazendo?
– Volte daqui à uma hora.

Dei meia volta e saí. Ao fechar a porta, olhei mais uma vez para ele.
Minúsculo e encolhido, com a cabeça nas mãos e os cotovelos sobre os joelhos sujos, continuava sentado e imóvel.

Só nesse momento notei as manchas secas de sangue que tinha nas costas das mãos.



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