sábado, 25 de setembro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 4)



Quando eu era estudante — tenho entretanto acumulado novos dados — era já geralmente aceito de que havia vida em Solaris, mesmo que se limitasse a um só habitante.

O segundo volume de Hughes e Engel, que eu continuava mecanicamente a folhear, começava com uma sistematização, que era tão engenhosa como divertida. A tabela de classificação compreendia três definições: tipo Polythera; classe Syncytialia; categoria Metamorphica.

Poderia pensar-se que conhecíamos um mundo infindável de exemplos da mesma espécie, quando, na realidade, havia apenas aquele único — pesando cerca de setecentos bilhões de toneladas.

Pelos dedos passavam-me ilustrações multicolores, gráficos pitorescos, resumos analíticos e diagramas espectrais, explicando o tipo e o ritmo das transformações fundamentais, bem como as reações químicas. Rápida e infalivelmente, o espesso volume conduzia o leitor para o sólido campo da certeza matemática. Poderia assumir-se que sabíamos tudo o que havia a saber a respeito deste representante da categoria Metamorphica, que neste momento jazia a algumas centenas de metros abaixo do casco metálico da Estação, temporariamente obscurecido pelas sombras da noite de quatro horas.

De fato, de modo algum poderíamos afirmar que todos estavam convencidos de que o oceano fosse efetivamente uma “criatura” viva, e muito menos, é óbvio, um ente racional.

Voltei a pousar o pesado volume na estante e tirei o que estava a seguir, que constava de duas partes. A primeira parte era dedicada a uma súmula das inúmeras tentativas feitas para estabelecer contacto com o oceano. Lembrava-me ainda de como, era eu estudante, essas tentativas tinham sido o assunto de anedotas sem fim, piadas de todo o gênero.

Comparada com a proliferação de idéias especulativas, que surgiram a partir deste problema, a escolástica medieval parece um modelo de conhecimento científico.
A segunda parte, com quase 1500 páginas, era dedicada exclusivamente à bibliografia sobre o assunto.
Na cabina onde eu estava sentado não teria havido lugar para todos aqueles livros.

As primeiras tentativas de contato tinham sido feitas por meio de aparelhos eletrônicos especialmente concebidos. O próprio oceano tomou parte ativa nestas operações, pois remodelou os instrumentos. Tudo isso, porém, continuava um tanto ou quanto obscuro.
Em que consistira exatamente a “participação” do oceano?
Tinha modificado certos elementos nos instrumentos submersos, do que resultara ter ficado completamente desregrada a freqüência normal de descarga e terem os instrumentos de registro registrado uma profusão de sinais — indicações fragmentadas de qualquer atividade estranha, que venceu todas as tentativas de análise.
Estariam estes dados a apontar para uma momentânea condição de estimulação ou para impulsos regulares correlacionados com estruturas gigantescas que o oceano estivesse a criar num outro lado, nos antípodas da região a ser investigada? Teria a aparelhagem eletrônica registrado a manifestação críptica dos antigos segredos do oceano?
Teria ele revelado o que tinha de mais íntimo? Quem poderia dizer? Nunca havia duas reações iguais aos mesmos estímulos. Por vezes os instrumentos quase explodiam sob a violência dos impulsos, outras vezes quedavam-se num silêncio total; era impossível obter uma repetição de qualquer fenômeno previamente observado.

Parecia, constantemente, que os peritos estavam mesmo na iminência de decifrar a sempre crescente massa de informações. Não fora, afinal, com este fim em mente que se tinham construído computadores de capacidade virtualmente ilimitada, computadores que nenhum outro problema jamais exigira?
E, na verdade, alguns resultados tinham sido efetivamente obtidos. O oceano era uma fonte de impulsos elétricos e magnéticos e de uma gravitação que se exprimia numa linguagem mais ou menos matemática. E também, recorrendo aos mais recônditos ramos da análise estatística, era possível classificar certas freqüências nas descargas de corrente.
Descobriram-se homólogos estruturais não muito diferentes daqueles já observados pelos físicos no setor da ciência que trata da interação recíproca entre a energia e a matéria, elementos e compostos, o finito e o infinito.
Esta correspondência convenceu os cientistas de que estavam perante uma entidade monstruosa dotada de razão, um cérebro-oceânico protoplásmico que envolvia todo o planeta e que fazia passar o tempo em extravagante reconhecimento teorético, a respeito da natureza do universo. Os nossos instrumentos tinham interceptado momentâneos fragmentos ocasionais de um monólogo prodigioso e perpétuo que se desenrolava nos abismos desse cérebro colossal e que, inevitavelmente, ultrapassava a nossa capacidade de compreensão.
Isto, quanto aos matemáticos.

Estas hipóteses, segundo algumas pessoas, subestimavam as capacidades do cérebro humano; curvavam-se perante o desconhecido, o proclamando a antiga doutrina, agora arrogantemente ressuscitada, do ignoramus et ignorabimus.
Outros consideravam as hipóteses dos matemáticos como disparates estéreis e perigosos, contribuindo assim para a criação de uma mitologia moderna, baseada na noção deste cérebro gigantesco — se plásmico ou eletrônico, era irrelevante — como objetivo último da existência, a própria síntese da vida.

Outros, no entanto... os pseudo peritos eram incontáveis e cada um tinha a sua própria teoria. Uma comparação entre a escola de pensamento “do contato” com outros ramos de estudos solarísticos onde, especialmente durante o último quarto de século, a especialização se tinha rapidamente desenvolvido mostrava claramente que um solarista cibernético tinha dificuldade em fazer-se entender por um solarista simetriadólogo.

Veubeke, o diretor do Instituto quando lá estudei, perguntou um dia por brincadeira:
— Como esperam comunicar-se com o Oceano, quando nem conseguem compreender uns aos outros? — A piada continha mais que um simples grão de verdade.

A decisão que levara a pôr o oceano na categoria de metamórfico não fora meramente arbitrária. A sua superfície ondulante era capaz de gerar formações extremamente diversas que em nada se assemelhavam a algo jamais visto na Terra, e a função destas súbitas erupções de “criatividade” plásmica, fosse ela adaptativa, exploratória ou de qualquer outra coisa, permanecia um enigma.

Erguendo o pesado volume com ambas as mãos, voltei a colocá-lo na prateleira e pensei comigo que todos os nossos estudos, toda a informação acumulada nas bibliotecas, se resumiam a uma inútil confusão de palavras, um amontoado de afirmações e suposições, e que não tínhamos avançado nem um pouco nos 78 anos decorridos desde que as pesquisas haviam começado.

A situação parecia agora muito pior que no tempo dos pioneiros, uma vez que dos esforços contínuos de tantos anos não tinham resultado nem uma única conclusão indiscutível. A soma total dos fatos conhecidos era rigorosamente negativa.

O Oceano não utilizava máquinas, embora, em certas circunstâncias, parecesse capaz de as criar. Durante os dois primeiros anos de trabalhos de exploração reproduzira elementos de alguns dos instrumentos submersos. A partir daí, limitou-se simplesmente a ignorar as experiências que continuávamos a fazer, como se tivesse perdido todo o interesse nos nossos instrumentos e atividades — como se, no fundo, não mais estivesse interessado em nós.

Não possuía um sistema nervoso (para continuar com o inventário dos “conhecimentos negativos”) ou células, e a sua estrutura não era proteiforme.
Nem sempre reagia, mesmo perante os mais poderosos estímulos (por exemplo, ignorou completamente o acidente catastrófico que ocorreu durante a segunda expedição de Giese: um foguete auxiliar, ao cair de uma altura de 300.000 metros, despedaçou-se sobre a superfície do planeta, e a explosão radioativa das suas reservas nucleares destruíram o plasma num raio de 2.500 metros).

Nos círculos científicos, o “Caso Solaris” começou gradualmente a ser considerado como uma causa perdida, nomeadamente entre os administradores do Instituto, onde nos últimos tempos começavam a ouvir-se vozes a sugerir que lhe fosse retirado o apoio financeiro e se suspendessem as pesquisas.

Ninguém, até à data, ousara sugerir a liquidação final da Estação; tal decisão assemelhar-se-ia de modo demasiado óbvio a uma derrota. Mas durante discussões de caráter semi-oficial, numerosos cientistas recomendavam uma retirada “honrosa” de Solaris. Contudo, muitas pessoas do mundo da ciência, particularmente entre os jovens, tinham inconscientemente passado a considerar o “caso” como uma pedra de toque de valores individuais. Pensando bem, afirmavam, não era apenas a questão de penetrar a civilização solarística; era essencialmente um teste de nós próprios, das limitações do conhecimento humano.

Durante algum tempo houve a noção, amplamente apoiada (e zelosamente apadrinhada pela imprensa diária), de que o “Oceano pensante” de Solaris era um cérebro gigantesco, prodigiosamente desenvolvido, e adiantado vários milhões de anos em relação à nossa própria civilização, uma espécie de “iógui cósmico”, um sábio, um símbolo de omnisciência, o qual há muito compreendera a vaidade que há em todas as ações e, por essa razão, se retirara para um silêncio impossível de quebrar. A noção não era correta porque o Oceano vivo estava ativo. Não, é certo, segundo os padrões humanos — não construía cidades ou pontes, nem manufaturava máquinas voadoras. Não tentava encurtar as distâncias, nem se interessava pela conquista do espaço (o padrão máximo, pensavam alguns, da superioridade humana).

Mas vivia num eterno processo de transformação, uma “autometamorfose ontológica”.
(Havia nos relatórios sobre atividades solarísticas inúmeros neologismos científicos).
Além disso, qualquer cientista que se dedica ao estudo de Solaris tem a indelével impressão de que consegue discernir fragmentos de uma estrutura inteligente, dotada talvez de gênio misturado de modo casual com fenômenos estranhos, aparentemente o produto de uma mente independente.

Estas hipóteses vieram ressuscitar um dos mais antigos problemas filosóficos: a relação entre a matéria e o espírito e entre o espírito e o consciente.
Du Haart foi o primeiro a ter a audácia de afirmar que o oceano possuía consciência.
O problema, que os metodólogos se apressaram a classificar de metafísico, provocou toda a espécie de argumentos e discussões.
Seria possível existir pensamento sem consciência? E poder-se-ia, em todo o caso, aplicar a palavra pensamento aos processos observados no oceano?
A montanha é apenas uma enorme pedra? Um planeta é apenas uma enorme montanha?
Seja qual for a terminologia, a nova escala de dimensões introduziu novas normas e novos fenômenos.

A questão apareceu como uma versão contemporânea do problema de transformar o círculo em quadrado.
Cada pensador independente procurou registrar a sua contribuição pessoal para a horda de estudos solarísticos. Proliferaram novas teorias: o Oceano era a evidência de um estado de degeneração, de regressão, que se seguia a uma fase de “plenitude intelectual”; era um neoplasma derivado, o produto dos corpos de antigos habitantes do planeta a quem devorara, absorvera, dissolvendo e amalgamando o resíduo nesta forma imutável e auto-propagada, supra-celular em estrutura.
À luz branca dos tubos fluorescentes — uma pálida imitação da luz do dia na Terra —, libertei uma mesa da confusão de aparelhos e livros que nela estavam.
Com os braços estendidos e as mãos a segurar a borda, estendi um mapa de Solaris sobre a superfície plastificada e estudei-o em pormenor.

O Oceano vivo tinha os seus picos e despenhadeiros. As suas ilhas, que eram cobertas com um depósito mineral em decomposição, estavam certamente relacionadas com a natureza do fundo do oceano.
Mas, seria ele quem controlava a erupção e a sedimentação das formações rochosas enterradas nas suas profundezas? Ninguém sabia.

Ao olhar para as grandes projeções planas dos dois hemisférios, coloridas em vários tons de azul e púrpura, mais uma vez senti aquela mesma sensação de prodígio que tantas vezes de mim se apoderara e que, ainda rapazinho de escola, sentira quando pela primeira vez ouvira falar da existência de Solaris.

Perdido na contemplação daquele desconcertante mapa, o espírito em sonhos, esqueci temporariamente o mistério que envolvia a morte de Gibarian e a incerteza em relação ao meu próprio futuro.

Às diferentes seções do Oceano tinha sido dado o nome dos cientistas que as tinham explorado. Estava eu a examinar a serra de Thexall, que circundava os arquipélagos equatoriais, quando subitamente tive a sensação de estar a ser observado.

Continuei inclinado sobre o mapa, mas já não o estava a ver; os meus membros foram dominados por uma espécie de paralisia.
Os caixotes e um pequeno armário continuavam a barricar a porta que ficava na minha frente. “É apenas um robô”, disse comigo mesmo — porém, não tinha descoberto nenhum no quarto e nenhum poderia ter entrado sem eu ter reparado nele.

As minhas costas e nuca pareciam estar em fogo; a sensação desse olhar fixo e implacável estava a tornar-se insuportável.
Com a cabeça encolhida entre os ombros curvados, abaixei-me o mais possível de encontro à mesa, até que começou lentamente a abrandar.
O movimento libertou-me; voltei-me.

O quarto estava vazio.
Nada havia à minha frente além da ampla janela convexa e, para além dela, da noite. Mas aquela sensação persistia.

De frente para mim estava a noite, amorfa, cega, infinita, sem fronteiras.
Não se via nem uma estrela que aliviasse a escuridão por trás do vidro.
Puxei as espessas cortinas.

Estava na Estação há menos de uma hora e já mostrava sinais de morbidez.
Seria o efeito da morte de Gibarian? Pelo que sabia dele, tinha imaginado que nada lhe poderia abalar os nervos: neste momento já não me sentia assim tão certo disso.
Fiquei de pé no meio do quarto, junto à mesa.
A minha respiração tornou-se mais regular e senti o suor enregelar-me a testa.
Em que tinha eu estado a pensar um momento antes? Ah, sim, robôs! Era surpreendente o fato de não me ter cruzado com nenhum em parte alguma da Estação. O que poderia ter acontecido a todos eles? O único com quem estivera em contato — à distância— pertencia aos serviços de recepção a veículos. Mas, e quanto aos outros?

Olhei para o relógio.
Estava na hora de encontrar com Snow.
Saí do quarto. A sala da cúpula estava fracamente iluminada por filamentos luminosos que se estendiam a todo o comprimento do teto.
Fui até à porta de Gibarian e ali fiquei, parado e imóvel.
Havia um silêncio total.
Pus a mão no trinco. Não tinha, de fato, qualquer intenção de entrar, mas o trinco desceu e a porta abriu-se, pondo à vista uma fenda de escuridão.
As luzes acenderam-se.
Num movimento rápido entrei e fechei silenciosamente a porta. Depois me voltei.
Meus ombros roçaram pelos painéis da porta.

O quarto era maior do que o meu.
Uma cortina decorada com pequenas flores rosa e azuis (sem dúvida trazido da Terra com os seus pertences pessoais) tapava três quartos da janela panorâmica. Nas paredes havia prateleiras e armários pintados em verde-pálido com retoques prateados.
Tanto as estantes como os armários tinham sido esvaziados do seu conteúdo, o qual se encontrava agora amontoado em pilhas por entre as peças do mobiliário.
Aos meus pés, bloqueando o caminho, estavam duas carretas tombadas, soterradas sob uma montanha de jornais que saíam de bojudas pastas cujo fecho rebentara.
Havia livros com as páginas abertas em leque e manchados com líquidos coloridos que tinham entornado de retortas e frascos quebrados com tampas corroídas, recipientes feitos de um vidro tão espesso que uma simples queda, mesmo de altura considerável, nunca os poderia ter assim fragmentado.

Sob a janela jazia uma secretária tombada e, dobrado sob ela, um candeeiro articulado; nas gavetas semi-abertas estavam encravadas duas pernas de um banco virado.
O chão estava atulhado com um amontoado de papéis de todos os tamanhos concebíveis.

O meu interesse aumentou quando reconheci a letra de Gibarian.
Quando me baixei para juntar as folhas esparsas, notei que a minha mão projetava uma sombra dupla. Endireitei-me. A cortina cor-de-rosa luzia claramente, atravessada por uma risca incandescente de uma luz azul como aço, que ia gradualmente alargando.
Puxei as cortinas para o lado.

Ao longo do horizonte estendia-se um fulgor insustentável, que varria à sua frente um exército de sombras fantasmagóricas, as quais subiam de entre as vagas e se dispersavam na direção da Estação.

Era a madrugada.
Depois de uma hora de escuridão, o segundo sol do planeta — o sol azul — subia no céu. Quando voltei a dedicar-me ao monte de papéis, o interruptor automático apagou as luzes.

A primeira coisa que encontrei foi a descrição detalhada de uma experiência, obviamente resolvida três semanas antes. Gibarian tinha planeado expor o plasma a um bombardeamento intensivo de raios X. Pelo contexto deduzi que o papel era destinado a Sartorius, a quem competia organizar as operações. O que eu tinha na mão era uma cópia do plano.
A brancura do papel feria-me os olhos.

Este novo dia era diferente do anterior. Na luz quente do sol vermelho, uma neblina pairava sobre um oceano negro com reflexos cor de sangue, e as ondas, as nuvens e o céu estavam quase permanentemente velados por um halo carmesim.
Agora, o sol azul atravessava com uma luz cristalina a cortina salpicada de flores.
As minhas mãos bronzeadas pelo sol pareciam cinzentas.

O quarto mudara; todos os objetos com reflexo encarnado tinham perdido o brilho e tinham-se tornado de um castanho-acinzentado, ao passo que os que eram brancos, verdes ou amarelos tinham adquirido um brilho vivo e pareciam emitir luz própria.
Semicerrando os olhos, arrisquei outro olhar por uma nesga de cortina.
Sob um céu branco e escaldante, tremia e reluzia uma expansão de metal em fusão.
Fechei os olhos e recuei.

Na prateleira sobre o lavatório (que fora recentemente lascado) encontrei uns óculos escuros, tão grandes que, quando os pus, me cobriam metade da cara.
A cortina parecia luzir com uma luz de sódio.
Continuei a ler à medida que ia apanhando os papéis e colocando-os sobre a única mesa em estado de usar. No texto havia lacunas, e foi em vão que procurei as páginas que faltavam.
Encontrei um relatório sobre as experiências já realizadas e fiquei sabendo que, durante quatro dias seguidos, Gibarian e Sartorius tinham submetido o oceano a radiações, num ponto a 1400 milhas da atual posição da Estação.
A utilização de raios X tinha sido proibida por uma convenção das Nações Unidas, por causa dos seus efeitos prejudiciais, e eu tinha a certeza de que ninguém enviara para a Terra um pedido de autorização para proceder a tais experiências.
Ao erguer os olhos, vi a minha face no espelho da porta entreaberta de um armário: escondida sob os óculos escuros, estava mortalmente pálida.

Também o quarto, fulgindo com reflexos azuis e brancos, tinha um ar igualmente bizarro; mas em breve se ouviu um prolongado som estridente de metal, quando as portas exteriores estanques deslizaram ao longo da janela.
Houve um instante de escuridão e logo as luzes se acenderam; pareciam ser curiosamente fracas. O calor aumentava cada vez mais.
O zumbido regular do ar condicionado transformara-se agora num lamento agudo: o sistema de refrigeração da Estação trabalhava agora com a potência máxima. Apesar disso, o calor abrasador tornava-se cada vez mais intenso.

Ouvi passos. Alguém andava na sala da cúpula.
Em duas passadas silenciosas fui até a porta. Os passos pararam; quem quer que fosse estava atrás da porta. A maçaneta moveu-se. Automaticamente, sem pensar, agarrei nela. A pressão não aumentou, mas também não relaxou.

De ambos os lados da porta, nenhum de nós disse uma palavra. Ali permanecemos imóveis, ambos segurando o fecho.
Este voltou de súbito ao lugar, saltando-me da mão.
Os passos abafados afastaram-se.

Com o ouvido colado ao painel, continuei à escuta.
Nada mais ouvi.


Solaris - Stanislaw Lem (parte 4) [ Download ]