sábado, 27 de novembro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 13)



— Kris! — Ouvi chamar o meu nome, como se de grande distância. — Kris, o videofone!
— O quê? Oh, obrigado.
O instrumento já estava sinalizando há algum tempo, mas só agora o notava.
Levantei o auscultador:
— Kelvin.
— Snow. Estamos os três ligados ao mesmo circuito.
A voz aguda de Sartorius fez-se ouvir através do auscultador:
— Meus cumprimentos, Dr. Kelvin! — Era o tom de voz cauteloso, cheio de falsa segurança, de um conferencista que sabe que está em terreno pouco firme.
— Bom dia, Dr. Sartorius!
Quis rir; mas, nas circunstâncias presentes, dificilmente estaria em estado de ceder a um ataque de hilaridade. Afinal de contas, qual de nós era motivo de riso?

Na mão segurava um tubo de ensaio com um pouco de sangue. Sacudi-o. O sangue coagulou. Teria sido vítima de uma ilusão uns minutos antes? Estaria talvez, enganado?
— Gostaria, senhores, de apresentar certas questões em relação aos... fantasmas.
Eu ouvia Sartorius, mas minha mente recusava-se a registrar suas palavras. Pensava no sangue coagulado, e desligava-me daquela voz, que me distraía a atenção.
— As chamemos de criaturas Phi — interpôs Snow.
— Muito bem, aceito.
Uma linha vertical, que mal se apercebia e que cortava a tela como uma bissetriz, mostrava que eu estava ligado a dois canais: de cada lado dessa linha deveria ser possível ver-se uma imagem — Snow e Sartorius. Mas a tela permanecia escura.
Ambos os meus interlocutores tinham tapado as lentes dos seus aparelhos.
Cada um de nós fez várias experiências. A voz nasalada mostrava ainda a mesma cautela. Houve uma pausa.
— Sugiro que comecemos por fazer uma súmula de tudo o que até agora conseguimos descobrir — continuou Sartorius. — Depois lhes direi a conclusão a que pessoalmente cheguei. Se quiser fazer o favor de começar, Dr. Kelvin...
— Eu?

De repente, senti Rheya a observar-me. Pousei a mão sobre a mesa e fiz rolar o tubo de ensaio para baixo das prateleiras dos instrumentos. Depois sentei num banco, que puxei com o pé. Ia recusar a dar uma opinião, quando, para minha grande surpresa, ouvi-me responder:
— Certo. Ainda não fiz grande coisa, mas posso falar-lhe do que já fiz. Um exame histológico... de certas reações. Micro reações. Tenho a impressão de que... — Não sabia como continuar. De súbito reencontrei o fio da meada e continuei: — Tudo parece normal, mas é apenas uma camuflagem. Um disfarce. Em certo sentido, é uma super-cópia, uma reprodução superior ao original. Já explico o que quero dizer com isto. Existe no homem um limite absoluto, um termo para a divisibilidade estrutural, ao passo que aqui as fronteiras foram afastadas para longe. Estamos perante uma estrutura subatômica.
— Um minuto, espere um minuto! Por favor, seja mais preciso! — interrompeu Sartorius.
Snow nada disse. Seria mesmo o eco da sua respiração rápida aquilo que ouvi?

Rheya fitava-me de novo. Apercebi-me de que, na minha excitação, quase gritara as últimas palavras. Mais calmo, acomodei-me melhor no meu desconfortável poleiro e fechei os olhos. Como poderia ser mais preciso?
— O átomo é o último elemento da constituição do nosso corpo. A hipótese que coloco aqui é que os seres Phí são constituídos por unidades menores ainda que os átomos comuns, muito menores.
— Mésons — disse Sartorius. Não parecia absolutamente nada surpreendido.
— Não... Esses eu teria visto. O poder deste aparelho vai de um décimo a um vigésimo de angstrom, não é? Mas não se consegue ver nada, rigorosamente nada. Logo, não podem ser mésons. É mais provável que sejam neutrinos.
— Como justifica essa teoria? Os aglomerados de neutrinos não são estáveis...
— Não sei. Não sou físico. Talvez um campo magnético possa estabilizá-los. Isso não é da minha área. De qualquer modo, se as minhas observações estiverem corretas, a estrutura é composta por partículas pelo menos dez mil vezes menores que os átomos. Espere um pouco, ainda não acabei! Se as moléculas de albumina e as células fossem constituídas por micro-átomos, seriam proporcionalmente ainda menores. Isto se aplica aos corpúsculos, aos microrganismos, a tudo. Porém, as dimensões são as de estruturas atômicas. Portanto, a albumina, a célula e o núcleo da célula, nada são do que camuflagem. A estrutura real que determina as funções dos visitantes permanece secreta.
— Kelvin!

Snow soltara um grito abafado. Parei, horrorizado. Tinha dito “visitante”.
Rheya não tinha ouvido. Pelo menos, não tinha compreendido. A cabeça apoiada na mão, olhava para fora da janela, o delicado perfil sobressaindo sobre a madrugada cor de púrpura.

Os meus distantes interlocutores permaneciam silenciosos, ouvia-lhes a respiração.
— O que está dizendo tem certo fundamento — murmurou Snow.
— Sim —comentou Sartorius— se não houvesse outro fato a considerar: as partículas hipotéticas de Kelvin nada têm a ver com a estrutura do Oceano. O Oceano é composto de átomos.
— Talvez tenha a capacidade de produzir neutrinos — retorqui.
De repente senti-me farto de todo aquele palavreado. A conversa não tinha interesse e nem mesmo era divertida.
— A hipótese de Kelvin explica esta extraordinária resistência e a velocidade da regeneração — resmungou Snow. — Provavelmente têm também a sua fonte de energia; não carecem de alimento...
— Sou eu quem está aqui a presidir esta conferência — interrompeu Sartorius. O presidente auto-eleito do debate agarrava-se de modo exasperante ao seu papel. — Gostaria de pôr a questão da motivação que há por trás da aparição das criaturas Phi. Apresento-a da seguinte forma: O que são as criaturas Phi? Não são indivíduos autônomos, nem cópias de pessoas reais. São apenas projeções materializadas da nossa mente, baseadas em determinado indivíduo.

Fiquei impressionado com a verdade daquela descrição; Sartorius podia não ser muito simpático, mas também não era nada estúpido.
Juntei-me à conversa.
— Penso que tem razão. A sua definição explica por que aparece determinada pes... criação, e não outra qualquer. A origem da materialização está nas imagens mais duradouras da memória, nas imagens que estão particularmente bem definidas; mas nenhuma imagem pode ser completamente isolada, e, no decurso da reprodução, são absorvidos fragmentos de outras imagens relacionadas. Assim, os recém-chegados revelam por vezes um conhecimento mais extenso do que o do indivíduo de quem são a cópia...
— Kelvin! — gritou Snow mais uma vez.

Só Snow reagia aos meus lapsos; Sartorius não parecia ser afetado por eles. Isto significaria que o visitante de Sartorius era menos perspicaz do que o de Snow? Por um momento imaginei o erudito Sartorius a coabitar com um estúpido anão.

— É certo que isso corresponde ao que temos observado — disse Sartorius. — Consideremos agora a motivação que há por trás das aparições! À primeira vista, é muito natural presumir-se que somos objeto de uma experiência. Mas quando examino essa hipótese, a experiência parece-me muito mal planeada. Quando procedemos a uma experiência, vamos aproveitando os resultados e, principalmente, anotamos com cuidado as deficiências dos métodos que empregamos. Em resultado disso, vamos introduzindo modificações no procedimento subseqüente. Mas no caso de que falamos, não se verificou uma única alteração. As criaturas Phi reaparecem exatamente como eram, em cada pormenor... tão vulneráveis como antes, de cada vez que tentamos... livrar-nos delas...
— Exatamente —interrompi—, uma retração sem mecanismo de compensação, como diria o Dr. Snow. Qual a conclusão?
— Apenas que a tese da experimentação não condiz com esta... esta incrível grosseria. O Oceano é... exato. A estrutura a nível duplo das criaturas Phi atesta essa precisão. Dentro dos limites citados, as criaturas Phi comportam-se do mesmo modo que os verdadeiros... os... hum...
Não sabia como desvencilhar-se.
— Os originais — disse Snow num sussurro.
— Sim, os originais. Mas, quando a situação já não corresponde às faculdades normais do...hum...do original, a criatura Phi sofre uma espécie de “desconexão de consciência”, imediatamente seguida, por manifestações pouco habituais e nada humanas...
— É claro — disse eu — que podemos nos divertir elaborando uma lista de comportamentos dos... dessas criaturas, uma ocupação inteiramente frívola!
— Não estou assim tão certo a respeito disso — protestou Sartorius.

Compreendi subitamente por que me irritava tanto: ele não conversava, ele discursava como se estivesse numa aula do Instituto. Parecia incapaz de se exprimir de qualquer outro modo.
— Chegamos aqui à questão da individualidade — continuou —, do que, tenho absoluta certeza, o Oceano não faz a mínima idéia. Penso que o aspecto... hum... delicado ou chocante da nossa presente situação, está absolutamente fora de sua capacidade de compreensão.
— Pensa que as suas atividades não são premeditadas?
Fiquei um tanto espantado com a opinião de Sartorius, mas, pensando melhor, concluí que não a poderia descartar tão facilmente.
— Não, ao contrário do colega Snow, não creio que haja malícia ou crueldade deliberada...
Snow interrompeu: — Não estou a sugerir que tenha sentimentos humanos; estou apenas tentando encontrar uma explicação para estas contínuas reaparições.
Com o secreto desejo de irritar o pobre Sartorius, disse:
— Talvez estejam ligados a um engenho que se repita infinitamente, sem parar, como um disco...
— Cavalheiros, rogo-lhes que não nos façam perder tempo! Ainda não acabei. Em circunstâncias normais, teria considerado que seria prematuro apresentar um relatório, mesmo provisório, sobre o progresso das minhas pesquisas; contudo, perante a situação dominante, penso que posso falar. Tenho a impressão, somente uma impressão, notem bem, de que a hipótese do Dr. Kelvin não deixa de ter certa validade. Refiro-me à hipótese de uma estrutura de neutrinos... Os nossos conhecimentos nesse campo são puramente teóricos. Não sabíamos se havia qualquer possibilidade de estabilizar tais estruturas. Agora se oferece uma solução claramente definida. Um meio de neutralizar o campo magnético que mantém a estabilidade da estrutura...

Uns instantes antes eu notara na tela, uns lampejos de luz. Apareceu uma faixa de cima a baixo, do lado esquerdo. Vi uma coisa cor-de-rosa afastar-se lentamente da vista. Depois a tampa das lentes deslizou, pondo a tela à vista.
Sartorius lançou um grito de angústia:
— Vai embora! Vai embora!
Vi-lhe as mãos a esvoaçar e a lutar, depois os braços, sempre cobertos pelas mangas da bata de laboratório. Um reluzente disco dourado brilhou por um instante, depois tudo ficou às escuras. Só então me apercebi de que aquele disco dourado era um chapéu de palha...

Respirei fundo.
— Snow?
Uma voz exausta respondeu:
— Sim, Kelvin... — Ao ouvir-lhe a voz, compreendi que me tornara muito seu amigo e que preferia não saber quem, ou o quê, lhe fazia companhia. — Chega por hoje, não acha? — perguntou.
— Concordo. — Antes que ele pudesse desligar, acrescentei apressado: — Ouça, pode vir me ver aqui na sala de operações, ou na minha cabina?
— OK, mas não sei quando poderá ser.
A conferência estava terminada.



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