terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O Futuro também é nosso



Vários autores brasileiros já pensaram sobre a ficção científica (FC) e sua história, como Raul Fiker (Ficção Científica - Ficção, Ciência ou uma Épica de Época?, L&PM, 1985), Gilberto Schoereder (Ficção Científica, Francisco Alves, 1986), Léo Godoy Otero (Introdução a uma História da Ficção Científica, Lua Nova, 1987) e Braulio Tavares (O que É Ficção Científica, Brasiliense, 1992). Essas obras, porém, foram breves introduções ou guias de leitura para fãs do gênero, presas demais a seus critérios e convenções.
A obra de Roberto de Sousa Causo, Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil, 1875 a 1950 (UFMG, 2003), projeto orientado por professores da Faculdade de Letras da USP, é a primeira a abordar especificamente a FC no Brasil e a considerar a teoria literária e a história social para colocá-la em um contexto mais amplo. Sem nada da estrutura rígida e indigesta de uma típica tese acadêmica, é uma leitura agradável e reveladora para aficionados da FC e da cultura brasileira e uma nova referência para historiadores da cultura e críticos literários.

Causo delimitou seu objeto de estudo – a ficção especulativa – de uma forma não usual para a crítica literária tradicional, nem para a maioria dos autores e fãs do gênero. Não se trata de uma subliteratura menor e ou de fuga kitsch da realidade. Também não é necessariamente marcada pela antecipação do futuro, pela promoção de utopias ou pelo uso e valorização da ciência. Não é um gênero encerrado em convenções tradicionais, como o das histórias de detetive.

A característica que define a ficção especulativa é a figuração de mundos além dos cânones da experiência comum e da noção costumeira de “real”, mas que têm, cada um deles, uma lógica com a qual o leitor precisa se familiarizar e que o autor se obriga a manter – dentro de determinado texto, bem entendido (é comum que obras do mesmo autor proponham realidades contraditórias). Certamente não são ficções arbitrárias nas quais “tudo pode acontecer”.

Um exemplo é o subgênero da FC recentemente fundado pelo romance The Difference Engine (1991) de William Gibson e Bruce Sterling, geralmente chamado de steampunk, do qual os filmes As Loucas Aventuras de James West e A Liga Extraordinária são subprodutos paródicos. Desenvolve um século XIX alternativo, no qual a tecnologia do vapor teria ido muito além do que historicamente foi.

Existiriam computadores como os projetados por Charles Babbage em 1832 e as máquinas maravilhosas sonhadas por Jules Verne e H. G. Wells, junto com os preconceitos e os problemas políticos e sociais da era vitoriana. Esse mundo não pertence ao passado, ao futuro, nem ao espaço interestelar. Não é uma utopia nem uma sátira no sentido convencional. É uma ficção que, entre outras coisas, relativiza o nosso “cronocentrismo” e faz ver nossa própria realidade sob outra luz.

Além da ficção científica propriamente dita, que especula sobre desenvolvimentos das ciências naturais e da tecnologia (em sua vertente hard), ou  da cultura e da sociedade (na versão soft), cabem nessa definição seus gêneros irmãos, a fantasia e o horror.

Nessa perspectiva, obras como a Odisséia de Homero, a História Verdadeira de Luciano de Samósata e as Viagens de Gulliver de Jonathan Swift, bem como as incursões no fantástico de escritores canônicos, como Machado de Assis (O Imortal), são precursores e modelos legítimos para a ficção especulativa moderna que, mais que a manifestação específica de uma época, é a continuação de uma tradição paralela à da corrente principal da literatura.

Como marco inaugural do romance científico no Brasil, Causo indica O Doutor Benignus (1875), de Augusto Emílio Zaluar, escrito para jornais do Rio de Janeiro. Foi confessadamente influenciado por Verne e pelo astrônomo Camille Flammarion, mas já mostrava características típicas das primeiras gerações de assimilação brasileira do gênero.

Ao contrário dos heróis de Wells e Verne, prontos a aplicar com ousadia as descobertas científicas de sua época e defender especulações ainda mais arrojadas, a ciência do Dr. Benignus é passiva e contemplativa. Sua ocupação é exibir erudição e sugerir utopias redentoras, como a fundação de uma comunidade em uma ilha da América Central na qual as “nações principais” atrairiam “à civilização pela santa comunhão do trabalho, as raças ainda mergulhadas na indolência e no barbarismo”.

No início do folhetim, o desiludido Benignus se isola do convívio humano em uma fazenda de Minas Gerais. Ao descobrir, porém, um papiro com uma inscrição indígena que sugere vida no Sol, lança-se a uma expedição ao interior do Brasil que vai dar à ilha do Bananal. Reúne, para isso, recursos tecnológicos modernos, mas quase não faz uso deles. A maior parte da história reside na descrição da natureza e de suas atrações e perigos, aos quais o distraído doutor sobrevive graças à coragem e ao senso prático de Katini, seu fiel cozinheiro peruano.

O toque especulativo vem do sonho de Benignus com a visita de um ser espiritual proveniente do Sol que o cumprimenta por sua “impaciência de saber” e o exorta a infiltrar o bem na alma de seus semelhantes. Mas no final o leitor descobre que o misterioso papiro havia sido forjado por Katini para arrancá-lo de sua melancolia e desesperança. O saldo material da aventura é que Benignus e seu patrocinador norte-americano – o engenheiro James Wathon – juntam-se para criar uma companhia agrícola e industrial na ilha do Bananal, na qual os filhos do doutor serão “grandes proprietários agrícolas” e Katini o intendente.
A postura de espectador é uma característica muito freqüente na FC brasileira, principalmente (mas não só) em seus primeiros tempos. Nota-se também a falta de sociedades, congressos e institutos científicos como os citados em romances de Wells e Verne.

Como em a Viagem à Aurora do Mundo (1939), de Érico Veríssimo, influenciado por A Máquina do Tempo de Wells, O Mundo Perdido de Conan Doyle e a Viagem ao Centro da Terra de Verne. Mas em vez de viajar no tempo ou a lugares onde sobreviviam seres pré-históricos, o herói limita-se a criar uma máquina para visualizar a era dos dinossauros. E o objetivo do capitalista que o financia é apenas conquistar a jovem filha do cientista. Vê na fantástica máquina, quando muito, um meio de entretenimento.
É a visão de uma intelectualidade que, ao contrário de Marx, acreditava que seu papel era interpretar o mundo e não transformá-lo. Como disse o crítico Antonio Candido, “partilhava da ideologia ‘ilustrada’, segundo a qual a instrução traz automaticamente todos os benefícios que permitem a humanização do homem e o progresso da sociedade”, quando não via na ciência apenas mais uma forma de entreter os saraus da burguesia e brilhar nas mansões dos barões do café.

Esse não era o pior dos casos. Muitos autores que se meteram a usar a FC para pontificar a sério sobre o futuro do País e do mundo fizeram um papel muito mais deplorável.

O caso mais tristemente célebre é o de O Presidente Negro ou o Choque das Raças (1926), de Monteiro Lobato, que leva o preconceito “cordial” de suas histórias infantis às últimas conseqüências. Um “porviroscópio” revela, em 2228, uma Europa conquistada e colonizada por chineses e um Brasil acorrentado ao atraso pela mestiçagem – exceto no sul branco, que se funde à Argentina para formar a segunda nação mais progressista do planeta.

A primeira, é claro, são os EUA, graças à segregação que impediu que suas raças se “desnaturassem”. A tensão, porém, explode quando uma divisão entre os homens e mulheres da raça branca, provocada pelo movimento feminista, permite a eleição de um presidente negro. A solução é final: o genocídio da raça negra, seduzida em massa pelo ardil de um tratamento alisador de cabelos que esteriliza totalmente o usuário.
O modelo era The Unparalleled Invasion (1910), do norte-americano Jack London, em que a ameaça de uma China finalmente desperta, com 800 milhões de habitantes, é debelada por um ataque biológico que extermina sua população e permite aos brancos vitoriosos ocupar seu território. Buck Rogers, primeiro herói da FC em quadrinhos (1929), também lutou contra o futuro “perigo amarelo”.
A idéia, vê-se, não era especificamente brasileira. A cor local está na postura de espectador do protagonista – hóspede do inventor, estrangeiro, do “porviroscópio” – e no caráter da ameaça: a raça “inferior” não é uma rival perigosa, mas um estorvo passivo à ordem e ao progresso.
A Liga dos Planetas (1923), de Albino Coutinho, conta uma viagem à Lua, Marte e Vênus. Em toda parte, o autor ufana-se das belezas do Brasil. Mas quando um grupo de venusianas pede para conhecer esse País encantador, desconversa: “Se as levo e elas se assustam ou lhes contrariam as nossas modas, os vestidos pelos joelhos (...), os homens pardos nos passeios das ruas principais, entorpecendo a marcha dos transeuntes… Não voltarei por aqui para evitar desgostos”.

Essa viagem, vale notar, revela-se simples sonho. Usar tal recurso como veículo é um hábito irritante a que recorreram muitos dos primeiros autores brasileiros de FC para fugir da dificuldade de pensar nos meios de realizar suas especulações e da responsabilidade de discutir seriamente as conseqüências de suas utopias.
Foi especialista nessa tática o primeiro autor sistemático de FC no Brasil: o arquimisógino Berilo Neves, cujos contos foram reunidos nas coletâneas A Costela de Adão (1932) e Século XXI (1934). Em um deles, o protagonista viaja em sonho de 1927 para 2000 e acorda em um Rio de Janeiro limpo de sujeira e de mulheres: “A humanidade evoluiu. Nós somos criados sinteticamente por processos químico-biológicos. A estufa substituiu o ventre materno, e a mulher perdeu sua principal função na terra.”
Teve um imitador: Gomes Netto. Em seu O Cronomóvel (1934), o protagonista, que dispõe (em sonho) de uma máquina do tempo, prefere bisbilhotar a vida de sua noiva a investigar os mistérios da história.
Sua contrapartida feminina foi Adalzira Bittencourt, fundadora da Academia Brasileira Feminina de Letras, que em Sua Excia. a Presidente da República no ano 2500 (1929), descreveu um Brasil tão rico e poderoso quanto racista e xenófobo. Os negros foram expulsos e os imigrantes proibidos, salvo se “privilegiados de Deus”. Graças à ascensão das mulheres na política, que implementaram um rígido programa de eugenia e higiene social, o mais comum dos homens mede 2,40 metros.

Não é feminismo como hoje o entendemos. A mulher não concorre com o homem no trabalho: seu lugar é em casa – ou na política, na qual se mostra impiedosa. A heroína, presidenta Dra. Mariangela de Albuquerque, apaixona-se por um pintor do qual vira os quadros maravilhosos, mas ordena a eutanásia do amado ao descobrir que se trata de um anão corcunda. “Era mulher”, conclui triunfalmente a narrativa.
Felizmente, há também precursores dos quais os atuais autores brasileiros podem se orgulhar. Um deles é Afonso Schmidt com a impagável novela Zanzalá, publicada em 1936 no jornal Estado de S. Paulo e em 1949 em livro. Na comunidade do Vale de Zanzalá, na Cubatão de 2036, televisores e viagens interplanetárias convivem com ritos afro-brasileiros.  Nessa utopia cabocla, vive-se junto à natureza, em choupanas desmontáveis. As pessoas usam maiôs despojados e se tratam por apelidos.
Os dançarinos Zeca e Tuca compram uma briga contra os figurões do Instituto Musical para que Flanela, um maluco local, possa fazer seu concerto, que acaba por ser um sucesso mundial. Depois, os zanzalianos são atacados por europeus liderados por “trogloditas de cartola”. Esses primitivos aparecem em seus televisores “em formações compactas, com os capacetes de aço brilhando ao sol”, conduzindo bandeiras e máquinas de guerra.
Multidões de zanzalianos curiosos inundam de surpresa o campo de batalha, a ponto de romper as linhas do inimigo e determinar sua “derrota”. Milhares de zanzalianos morrem, mas o castigo dos inimigos se limita a um banho prolongado, depois do qual seus uniformes piolhentos são trocados pelos trajes leves e higiênicos de Zanzalá.

Outra boa história é de Gastão Cruls: A Amazônia Misteriosa (1925), por fim uma aventura de verdade. Perdido na selva, o narrador encontra as amazonas, herdeiras das “vestais” (as aclla) do Império Inca, das quais recebe uma beberagem que o põe em contato com o espírito de Atahualpa. Este lhe relata as conquistas de sua civilização e as atrocidades dos europeus que a destruíram. O narrador é então recebido por um pesquisador alemão que descobriu como combinar espécies diferentes e experimenta com seres humanos, aproveitando-se do desprezo das amazonas por seus filhos homens. O cientista, porém, quer agora um cérebro europeu. Sua ambição se volta contra a própria esposa e contra o narrador e ambos fogem com a ajuda de uma jovem e sagaz amazona.

Menos interessante e premonitório – e cientificamente mais equivocado –, mas bem escrito e passável como aventura, é A República 3000 (1927), de Menotti del Picchia. O capitão Fragoso, descobre, nas selvas do Brasil Central, uma cidade supertecnológica fundada por cretenses que já se preparam para emigrar para as estrelas – e uma “princesa inca” branca, Raymi, que o romântico capitão resgata dessa utopia fria e insensível.

Poderosas civilizações ocultas, como as de A cidade perdida (1948) e A serpente de bronze (1949) também foram especialidade de Jerônymo Monteiro. Não foi o primeiro autor de FC no Brasil, como às vezes se diz, mas sem dúvida foi um dos que mais a popularizou. Sua melhor obra – uma das jóias do período – foi 3 meses no século 81 (1947). Um brasileiro conhece o autor de A máquina do tempo e promete realizar o que ele imaginou. Com ajuda de um grupo de médiuns de São Paulo, encarna-se em um industrial do ano 8000 que produz o “raio da morte” usado na guerra com os marcianos. Indignado com as deficiências dessa sociedade, é cooptado pela resistência e lidera uma rebelião que termina com um holocausto global e a fundação de uma sociedade alternativa no que restou da Amazônia.

Não custa citar alguns dos autores brasileiros de livros de FC da segunda metade do século XX, ainda que estejam fora do âmbito da obra de Causo. Hoje, o mais conhecido é Jorge Luiz Calife. Seguidor de Arthur C. Clarke, deu-lhe a idéia para 2010 (continuação do clássico 2001) e publicou seis livros desde 1985. O mais recente é As Sereias do Espaço (2001), uma coletânea de contos que retoma uma velha tradição brasileira: desenvolver temas típicos da FC dos países centrais, mas com toques nacionais de humor, ironia, sentimento e sensualidade.

A sexualidade, vale notar, é um dos traços mais característicos da FC nacional recente. Uma das publicações mais recentes no gênero é uma engraçadíssima antologia organizada por Gerson Lodi-Ribeiro, Como era gostosa a minha alienígena! (2002), 21 contos que exploram o tema das formas mais inesperadas. É sintomático que, no subgênero da FC utópica, a obra mais interessante dos últimos tempos tenha sido Amorquia (1991), de André Carneiro: uma sociedade futura na qual o sexo é ensinado e praticado nas escolas e a fidelidade, considerada uma doença mental.

O segmento oposto, a distopia – descrições de um futuro ameaçador, como em 1984 – teve seu auge, logicamente, durante a ditadura militar, com Não verás país nenhum (1981), de Ignácio Loyola Brandão que descreve um Brasil extremamente autoritário, aterrorizado, violento e ecologicamente devastado.
A FC com caráter esotérico ou espiritualista não é exclusiva destas terras – vide Doris Lessing – mas é particularmente comum neste País, por razões óbvias. Para os brasileiros dos tempos estudados por Causo, uma sessão espírita parecia uma forma mais plausível e compreensível de viajar no tempo do que uma máquina estrambótica, épocas mais recentes continuaram a usar o mesmo recurso, agora para viajar no espaço.

Sem contar os textos “psicografados” por Chico Xavier e outros sobre a vida em outros planetas (inclusive em Marte, antes das fotos da Voyager acabarem com as ilusões de Flammarion e Kardec), mas apenas as publicadas como ficção, vale citar Contos do amanhã (1978) de Zora Seljam.
Curiosamente, a tradição foi retomada pela autora norte-americana Patricia Anthony, que em 1997 fez do Brasil o cenário de Cradle of Splendor (Berço Esplêndido, mas ainda sem tradução em português). Nosso país torna-se uma potência mundial e choca-se como os EUA quando a ditadora Ana Maria Bonfim põe em uso uma tecnologia antigravitacional, aparentemente fornecida por inteligências alienígenas através de um médium.

Não se pode esquecer de Rubens Teixeira Scavone (sete livros, de 1961 a 1993), literariamente dos melhores e um especialista em outra bem compreensível fantasia nacional – o contato com OVNIs e alienígenas muito mais avançados do que nós. A tradição de especular sobre poderosas civilizações ocultas em nosso planeta também continua viva no Brasil, como mostra Os Deuses Subterrâneos (1994), do atual ministro Cristovam Buarque.

Já as guerras futuristas e a exploração e conquista de planetas desconhecidos, clássicos na FC norte-americana, são aqui muito raros – o que é natural em um país vítima, e não protagonista do imperialismo.
Três escritores famosos, é verdade, fizeram do Brasil a futura potência dominante do planeta e a cabeça de um poderoso império interestelar. Só que foram norte-americanos: Lyon Sprague de Camp e sua esposa Catherine Crook, nos oito livros da saga Viagens Interplanetarias (assim mesmo, em português), escritos de 1951 a 1991 e John Wyndham, na coletânea The Outward Urge (A Ânsia de Expansão, 1959), que culmina no conto Space is a Province of Brazil.

De Camp foi um dos “monstros sagrados” da idade de ouro da FC nos EUA, tanto quanto Isaac Asimov e Arthur C. Clarke. Destacou-se, entre eles, pelo realismo social, histórico e científico do seu trabalho e sua obra é muito cultuada em seu país. Não teve, porém, repercussão nem seguidores no Brasil. Alguns de seus livros foram traduzidos, nos anos 70, pela Francisco Alves, mas há muito estão esgotados. É mais fácil encontrá-los (e aos livros de Wyndham), em Portugal, publicados na coleção Argonauta. A aventura do imperialismo foi o futuro que menos eco encontrou na alma nacional.




Antonio Luiz M.C.Costa (follow @ALuizCosta)