sábado, 4 de dezembro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 14)



 OS MONSTROS

Acordei no meio da noite e vi a luz acesa e Rheya encolhida na cama, envolta num lençol, os ombros sacudidos por soluços silenciosos.
Chamei-a pelo nome e perguntei qual era o problema, mas limitou-se a encolher-se ainda mais.
Ainda meio a dormir e quase que ainda imerso no pesadelo que me atormentava um minuto antes, sentei-me e protegi os olhos da luz para poder olhar para ela.
Continuava a tremer, e estendi-lhe os braços, mas Rheya afastou-me com um empurrão e escondeu a cara.

— Rheya...
— Não fale comigo!
— Rheya, o que aconteceu?

Vi sua face coberta de lágrimas e cheia de emoção. Grandes lágrimas infantis corriam-lhe pela cara abaixo, brilhavam ao chegar à covinha que tinha no queixo e caíam sobre os lençóis.

— Você não me quer.
— Do que está falando?
— Ouvi...
Meus maxilares contraíram-se: — Ouviste o que? Não entendeu direito...
— Entendi sim. Disse que eu não era Rheya. Quer que eu vá embora, e eu iria, iria mesmo... só que não posso. Não sei por quê. Tentei partir, mas não consegui. Sou tão covarde!
— Vamos, vamos... — abracei-a com toda a força. Para mim nada mais interessava além dela: tudo o resto não tinha qualquer significado. Beijei-lhe as mãos, falei, roguei, pedi perdão, fiz promessas sem fim, e disse-lhe que ela provavelmente tinha tido um sonho horrível e estúpido. Aos poucos ela foi acalmando e por fim deixou de chorar e tinha os olhos vítreos, como os de uma mulher sonâmbula. Afastou o rosto de mim.
— Não — disse ela por fim —, não diga essas coisas. Não vale a pena; já não é a mesma pessoa. — Ia começar a protestar, mas ela continuou. — Não, você já não me quer. Eu já sabia, mas fingia que não notava. Pensei que talvez fosse tudo imaginação minha, mas é verdade... você mudou. Não está sendo honesto comigo. Fala de sonhos, mas era você quem estava sonhando, e era a meu respeito. Disse o meu nome como se tivesse nojo de mim. Por quê? Me diz por quê?

— Rheya, minha pequenina...
— Não permito que fale assim, está ouvindo ? Não permito! Não sou tua pequena coisa nenhuma. Não sou nenhuma criança. Sou...
Rebentou em pranto e enterrou a face na almofada.
Levantei-me.
A ventilação sibilava docemente.

Estava frio e pus um roupão nas costas antes de me sentar a seu lado e de pegar seu braço: — Escuta, vou te contar uma coisa. Vou contar a verdade.
Rheya sentou. Podia ver suas veias pulsando sob a pele delicada do pescoço. De novo os maxilares se contraíram.
O ar parecia ainda mais frio e sentia a cabeça completamente oca.
— A verdade? — perguntou. — Palavra de honra?

Abri a boca para falar, mas não saiu qualquer som.
“Palavra de honra”... era uma expressão nossa, especial, o nosso antigo modo de fazer uma promessa incondicional. Uma vez proferidas essas palavras, a nenhum de nós era permitido mentir, nem mesmo refugiar-se numa meia verdade.
Recordei a época em que nos torturávamos mutuamente, num desejo exagerado de sinceridade, convencidos de que uma plena honestidade era a condição básica do nosso entendimento.
— Palavra de honra, Rheya — respondi muito sério, e ela esperou que eu continuasse. — Você também mudou, todos mudamos. Mas não era isso que eu queria dizer. Por uma razão qualquer, que nenhum de nós compreende, parece que... é forçada a permanecer junto de mim. E para mim isso é ótimo, porque também não quero afastar-me de você...
— Não, Kris. A mudança não está em você — murmurou Rheya. — Sou eu. Há alguma coisa errada. Talvez tenha algo a ver com o acidente...
Rheya olhava para o retângulo escuro e vazio onde estivera a porta.
Na noite anterior eu retirara os pedaços quebrados; teria de pôr uma porta nova.
Me veio uma ideia à cabeça:

— Tem conseguido dormir?
— Não sei.
— Que quer dizer com isso?
— Tenho sonhos... Não sei se são realmente sonhos. Talvez eu esteja doente. Fico deitada pensando e...
— E o quê?
— Tenho pensamentos estranhos. Não sei de onde vêm.
Foi necessária toda a minha força de vontade para dominar o tremor da voz e dizer-lhe para continuar, e contraí-me todo enquanto aguardava a resposta, como se estivesse à espera de um murro na cara.
— São pensamentos... — Sacudiu a cabeça, desesperada — ...à volta de mim.
— Não entendo.
— Tenho a impressão de que não brotam de mim, mas que vêm de fora. Não consigo explicar, não consigo traduzir essa sensação em palavras...

Interrompi, quase que involuntariamente:
— Deve ser uma espécie de sonho. — Depois, controlando-me de novo, acrescentei: — Vamos apagamos a luz, e esquecer nossos problemas até amanhã. Amanhã, se quiser, podemos inventar outra coisa. OK?
Rheya carregou no interruptor, e a escuridão envolveu-nos.
Estendido na cama, sentia sua respiração quente ao meu lado e a abracei.
— Com mais força! — sussurrou.
E depois de longa pausa, disse: —Kris!
— O quê?
— Te amo.

Quase gritei.




Solaris - Stanislaw Lem (parte 14) [ Download ]