sábado, 11 de dezembro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 15)


 Na manhã vermelha, o inchado disco do sol elevava-se acima da linha do horizonte.
Na entrada do quarto estava um envelope; abri-o com um rasgão.
Podia ouvir Rheya a cantarolar no banho, a qual de tempos a tempos espreitava para o quarto, e podia então ver sua face meio escondida sob o cabelo molhado.
Fui até junto da janela e li:

“Kelvin, as coisas parecem estar melhorando. Sartorius decidiu que talvez seja possível utilizar uma forma qualquer de energia para desestabilizar a estrutura de neutrinos. Ele quer examinar um pouco o plasma Phi em órbita. Sugere que você faça um vôo de reconhecimento e leve na cápsula, uma quantidade de plasma. É você quem resolve, mas me diga o que decidir. Não tenho opinião a este respeito. Sinto-me como se já não tivesse coisa nenhuma. Se me inclino a favor da sua ida é porque ao menos daríamos uma ideia de progresso. De outro modo, podemos apenas invejar G.
Snow
P.S. — Tudo que lhe peço é que fique fora da minha cabina. Podemos falar pelo videofone.

Tive um sentimento de apreensão ao ler a carta, e a reli cuidadosamente, antes de rasgá-la aos bocadinhos e atirar no aparelho de despejo.
Voltei a viver a mesma charada terrível que começara na véspera e a inventar uma história qualquer para benefício de Rheya. Ela não pressentiu a mentira, e quando lhe disse que tinha que ir fazer uma inspeção, sugeri que viesse comigo, ficou encantada. Paramos um momento na cozinha para tomar o café da manhã — Rheya comeu pouco— e seguimos para a biblioteca.

Antes de me aventurar na missão sugerida por Sartorius, queria dar uma olhadela nas obras que tratavam de campos magnéticos e estruturas de neutrinos.
Ainda não tinha qualquer ideia definida a respeito do caso, mas tinha resolvido fazer uma verificação pessoal sobre as atividades de Sartorius. Não que tencionasse impedir Snow e Sartorius de se “libertarem” quando o aniquilador ficasse pronto: tencionava tirar Rheya da Estação e esperar pela conclusão da operação na cabina de uma nave.

Lancei-me ao trabalho com o bibliotecário automático. Algumas vezes respondia aos meus pedidos lançando uma lacônica inscrição: “Não existe nos arquivos.”
Outras vezes submergia-me sob uma vaga de livros de física especializados, que eu hesitava em aproveitar o conselho.
Mas também não tinha qualquer desejo de abandonar a grande sala circular.
Sentia-me à vontade naquele ovo, por entre as fileiras de armários repletos de fitas gravadas e microfilmes. Situada no centro da Estação, a biblioteca não tinha janelas: era a área mais isolada em toda a grande concha de aço e me dava uma sensação de alívio, apesar de as minhas pesquisas apresentarem tantos obstáculos.

Vagueando pela vasta sala, parei junto a uma estante de prateleiras que chegavam ao teto e que continham cerca de seiscentos volumes — obras clássicas sobre a história de Solaris, começando com os nove volumes da monografia monumental de Giese, mas já relativamente obsoleta. Naquele ambiente, era pouco provável que estivesse ali apenas para exibição. A coleção era um tributo respeitável à memória dos pioneiros.
Retirei os maciços volumes de Giese e me sentei para folheá-los.

Rheya também encontrara algo para ler.
Espreitando-lhe por cima dos ombros, vi que escolhera um dos muitos livros trazidos pela primeira expedição, o Interplanetary Cookery Book (Livro de Cozinha Interplanetária), que devia ter sido propriedade do próprio Giese.
Rheya estudava as receitas adaptadas às árduas condições de um voo interestelar.
Nada comentei e voltei ao livro que tinha sobre os joelhos.

Solaris — Dez Anos de Exploração aparecera na coleção solariana nos volumes 4 a 12, e as mais recentes adições dessa coleção atingiam já os milhares.
Giese era um homem sem emoções, mas no estudo de Solaris a emoção é apenas um problema para o explorador. Ao aproximar-nos de um planeta onde —como ficou bem evidente— tudo é possível, a imaginação e uma teorização prematura são desvantagens muito importantes. É quase certo que as improváveis descrições das metamorfoses plasmáticas do Oceano sejam relatórios fiéis de fenômenos observados, embora essas não possam ser verificadas, pois o Oceano raramente se repete.

O caráter extravagante e a escala gigantesca desses fenômenos ultrapassam por demais, a experiência do homem para que possam ser compreendidos por qualquer pessoa que os observe pela primeira vez, e essa pessoa, se visse ocorrências análogas em escala reduzida, por exemplo, num vulcão de lama na Terra, o consideraria como “brincadeiras da natureza”, manifestações acidentais de força cega.

Tanto o gênio como a mediocridade ficam estupefatos perante a múltipla diversidade das formações oceânicas de Solaris; nenhum homem conseguiu ficar verdadeiramente familiarizado com elas.

Giese não era de modo algum um medíocre, embora também não fosse nenhum gênio. Era um ‘classificador’ erudito, o tipo de homem cuja compulsiva aplicação ao trabalho os isola completamente das pressões da vida comum.
Giese criou uma terminologia descritiva simples, suplementada por termos de sua própria invenção, e embora estes não fossem muito adequados e até por vezes pouco condizentes, temos que admitir que ainda não dispomos de qualquer sistema semântico para ilustrar o comportamento do Oceano.
As palavras “montanhas em árvore”, “extensores”, “fungóides”, “vertébridos” e “agilus” são termos artificiais e linguisticamente incorretos, mas também é certo que servem para dar uma ideia de Solaris a alguém que tenha visto o planeta apenas em fotografias pouco nítidas ou filmes incompletos.
O fato é que, apesar da sua natureza cautelosa, o escrupuloso Giese mais de uma vez tirou conclusões prematuras.
Mesmo quando estão alerta, os seres humanos inevitavelmente teorizam.

Giese, que se julgava imune a tal tentação, decidiu que os “extensores” pertenciam à categoria de formas básicas. Comparava-os a acumulações de vagas gigantescas, semelhantes ao movimento das marés dos oceanos da Terra.
Na primeira edição da sua obra, originalmente são citados como “marés”.
Este geocentrismo poderia ser até considerado divertido, se não fosse testemunho do dilema em que ele se encontrava.

Se quisermos falar em termos de comparação com a Terra, teremos de compreender que “extensores” são formações que fazem parecer minúsculo o Grand Canyon, que são produzidas por uma substância que externamente se assemelha a um colóide espumoso (durante esta fantástica “fermentação”, a espuma solidifica em grinaldas de renda engomada; alguns peritos referem-se a “tumores ossificados”) e que, em camadas mais profundas, aquela substância se torna cada vez mais resistente, como um músculo retesado, e que cinqüenta pés abaixo da superfície é tão dura quanto rocha, mas mantém a sua flexibilidade. O “extensor” parece uma criação independente, que se estende por vários quilômetros, por entre inchadas muralhas membranosas de “excrescências ossificadas”, como uma colossal cobra píton que, após ter engolido uma montanha, vai preguiçosamente digerindo a refeição, e cujo corpo serpenteante é ocasionalmente percorrido por lento estremecimento.
Só de cima o “extensor” se parece com um réptil em estado de letargia.
De perto, quando as duas “paredes do desfiladeiro” se erguem ameaçadoras, pode ver-se que aquele cilindro insuflado, que se estende de uma a outra extremidade do horizonte, incrivelmente vivo e em movimento.

Primeiro nota-se o contínuo movimento rotativo de uma lama oleosa verde-acinzentada que reflete a ofuscante luz do Sol, mas, pairando rente acima do “dorso da cobra píton” (a “ravina” que abriga o “extensor” parece agora os lados de uma brecha geológica), verificamos que, na realidade, o movimento é muito mais complexo e consiste em flutuações concêntricas cruzadas por correntes mais escuras.
Por vezes este manto transforma-se em reluzente carapaça, que reflete o céu e as nuvens e depois é perfurada por erupções explosivas de gases e fluidos internos.
O observador vai lentamente percebendo de que está olhando para forças dirigentes, que lançam para cima as duas muralhas gelatinosas, que vão gradualmente cristalizando.
Porém, a ciência não aceita o óbvio sem outras provas, e através dos anos têm ecoado virulentas controvérsias a respeito do problema-chave de saber a exata seqüência dos acontecimentos no interior dos “extensores”, os quais atravessam o vasto Oceano vivo aos milhões.
Aos “extensores” foram atribuídas várias funções orgânicas.

Alguns peritos defenderam que o propósito dos “extensores” é a transformação da matéria; outros sugeriram processos respiratórios; outros ainda afirmaram que eram portadores de material alimentar. Uma infinita variedade de hipóteses está agora a ganhar mofo nas bibliotecas, eliminadas que foram por experiências engenhosas, por vezes até perigosas.

Hoje em dia os cientistas limitam-se a referir-se aos “extensores” como formações estáveis e relativamente simples, cuja duração é medida em termos de semanas — uma característica excepcional entre os fenômenos do planeta de que há relatórios.

As formações “mimóides” são consideravelmente mais complexas e bizarras e provocam no observador uma resposta mais veemente, uma resposta instintiva, claro. Podemos sem exagero declarar que Giese se apaixonou pelos “mimóides”, e em breve lhes dedicava todo o seu tempo. Até ao fim da vida estudou-os e descreveu-os e fez apelo a toda a sua imaginação para tentar definir a sua natureza.
O nome que lhes deu retrata a sua característica mais espantosa, a imitação de objetos, próximos ou longínquos, externos ao próprio Oceano.
Previamente escondido sob a superfície do Oceano, surge de repente um grande disco plano, de bordas irregulares, recoberto de uma substância parecida com alcatrão. Passadas algumas horas começa a separar-se em placas planas, que se elevam lentamente. O observador torna-se então o espectador do que parece ser uma luta de morte, à medida que maciços de vagas convergem de todas as direções, como retorcidas e carnudas bocas que avidamente trincam a esfarrapada folha palpitante e mergulham para as profundezas.

À medida que cada anel de vagas arrebenta e mergulha, a queda dessas massas de centenas de milhares de toneladas é acompanhada, por um instante, por um ribombar viscoso, um imenso trovão.
A folha de alcatrão é dominada, bombardeada, rasgada; a cada novo assalto, fragmentos circulares vão-se separando e seguem à deriva sobre a superfície do Oceano, como asas palpitando fracamente. Aglomeram- se em cachos com feitio de pêra ou longas correntes, emergem e surgem novamente e arrastam consigo partículas coaguladas da base do disco primitivo. As vagas circundantes continuam a quebrar-se em volta da cratera, que continuamente se alargando.
Este fenômeno pode durar um dia ou arrastar-se por todo um mês, e por vezes nada mais acontece.

O consciencioso Giese chamou um “nado-morto” a esta primeira variante, convencido de que cada uma destas sublevações aspirava a uma condição última, o “mimóide maior”, como uma colônia de pólipos (só que cobrindo uma área maior que uma cidade) de pálidas excrescências, possuindo a faculdade de imitar corpos estranhos.
Uyvens, pelo contrário, considerava este estádio final como uma degeneração ou necrose: segundo ele, a aparição das “cópias” correspondia a uma dissipação localizada das energias vitais do Oceano, o qual já não controlava mais as formas originais que criara.

Giese recusava-se a abandonar a sua teoria segundo a qual as várias fases do processo constituíam um progresso estudado em direção à perfeição, e a sua recusa era acompanhada de uma convicção particularmente surpreendente da parte de um homem com uma disposição de espírito tão moderada e cautelosa, ao aventar as mais triviais hipóteses a respeito de outras criações do Oceano.
Usualmente mostrava a audácia de uma formiga a escalar um glaciar.

Visto de cima, o mimóide assemelhava-se a uma cidade, uma ilusão que é produto da nossa necessidade de procurar analogias com o que conhecemos. Quando o céu está limpo, uma tremeluzente neblina de calor cobre as estruturas flexíveis de cachos de pólipos encimados por paliçadas membranosas.
A primeira nuvem que lhes passa por cima acorda o mimóide.

Todos os ramos lançam subitamente novos rebentos, depois a massa de pólipos lança uma capa espessa, que se dilata, bufa, muda de cor e, no espaço de poucos minutos, produz uma espantosa imitação das volutas de uma nuvem. O enorme “objeto” lança uma sombra avermelhada sobre o mimóide, e os picos deste estremecem e inclinam-se, sempre em direção oposta ao movimento da nuvem real.
Calculo que Giese estaria pronto a dar a mão direita para descobrir o que levava os mimóides a comportarem-se de semelhante modo, mas estas produções isoladas nada são em comparação com a atividade frenética desenvolvida pelo mimóide quando estimulado por objetos de origem humana.

O processo de reprodução engloba qualquer objeto que exista num raio de oito ou nove milhas. Geralmente, o fac-símile é uma amplificação do original, cujas formas são por vezes copiadas apenas de maneira tosca. A reprodução de máquinas, em particular, apresenta simplificações que poderiam ser consideradas grotescas — praticamente caricaturas. A cópia é sempre modelada na mesma capa sem cor que paira sobre as excrescências, ligado à base por tênues cordões umbilicais; estica-se, ondula, enrola-se sobre si próprio, encolhe ou incha, e facilmente apresenta as mais complicadas formas. Uma nave espacial, uma rede ou simples estaca, todos são reproduzidos com a mesma rapidez. O mimóide não é estimulado pelos seres humanos pessoalmente e, na verdade, não reage a nenhuma matéria viva, por exemplo, nunca copiou as plantas importadas com fins experimentais. Por outro lado, reproduz facilmente uma boneca, a escultura de um cão ou uma árvore esculpida em qualquer material.
O observador não pode esquecer que, uma vez que não é consistente, a “obediência” do mimóide não constitui evidência de cooperação.
O mais evoluído dos mimóides tem os seus “dias negativos”, quando acontece “viver” em câmara lenta, ou quando a sua pulsação enfraquece.
(Esta pulsação é invisível a olho nu e foi apenas descoberta após o exame de filmes de mimóides em câmara apressada, os quais revelaram que cada pulsação leva duas horas.)
Durante esses “dias negativos” é fácil explorar o mimóide, mormente se for velho, pois a base ancorada no Oceano, tal como as protuberâncias que nela crescem, é relativamente sólida e permite apoio firme para os pés de uma pessoa.

É igualmente possível permanecer dentro de um mimóide durante os períodos de atividade, só que a visibilidade é praticamente nula por causa de uma poeira coloidal esbranquiçada continuamente emitida através dos rasgões da capa que tem por cima. De qualquer modo, de perto é impossível distinguir que forma está a tomar, por causa da sua vasta dimensão — a menor cópia é do tamanho de uma montanha. Além disso, uma espessa camada de neve coloidal cobre rapidamente a base do mimóide: o carpete esponjoso leva várias horas a solidificar (a crosta solidificada agüenta o peso de uma pessoa, embora a sua composição seja muito mais leve que pedra-pomes).
O problema é que, sem equipamento especial, corremos o risco de nos perdermos no labirinto de emaranhadas estruturas e brechas, que as vezes fazem lembrar confusas colunatas, outras, gêiseres petrificados. Mesmo à luz do dia, é fácil uma pessoa perder a noção da direção, pois os raios de sol não conseguem atravessar a atmosfera pelas “pseudo-explosões”.

Em dias de gala (tanto para os cientistas como para os mimóides), apresenta um espetáculo inesquecível quando o mimóide entra em hiper produção e realiza loucos vôos de fantasia, desenvolve variações sobre o tema de determinado objeto dado e cria “extensões formais”, que deliciam durante horas sem fim, para grande deleite do artista não figurativo e desespero do cientista, que se sente perdido ao tentar apreender qualquer tema comum na exibição.
O mimóide consegue produzir simplificações primitivas, mas pode de modo igualmente fácil dedicar-se a variantes barrocas de extravagante brilho.
Os mimóides mais velhos têm a tendência para produzir formas extremamente cômicas. Ao olhar para as fotografias, nunca fui levado a rir; o enigma que representam é demasiado inquietante para ter graça.
Durante os primeiros anos de exploração, os cientistas atiraram-se literalmente aos mimóides, que eram considerados como janelas abertas no Oceano e a melhor oportunidade para estabelecer o tão desejado contato entre as duas civilizações.
Cedo foram forçados a reconhecer que não havia o mínimo prospecto de comunicação e que todo o processo começava e acabava com a reprodução de formas.
Os mimóides eram um beco sem saída.

Cedendo à tentação de um antropomorfismo ou zoomorfismo latente, surgiram algumas escolas de pensamento que consideravam várias outras formações oceânicas como “órgãos sensoriais” ou até como “membros”; foi assim que peritos como Maartens e Ekkonai classificaram, durante um tempo, os “vertébridos” e os “agilus” de Giese.

Qualquer pessoa suficientemente louca para ver membros em protuberâncias que se erguem até duas milhas na atmosfera pode igualmente afirmar que os tremores de terra são meros exercícios de ginástica da crosta terrestre!

Trezentos dos capítulos de Giese formam uma lista das formações comuns que correm na superfície do Oceano vivo e que, no decurso de um dia qualquer, podem ser vistas às dúzias, até às centenas.

As simetríades — para continuar a usar a terminologia e definições da escola de Giese — são as formações menos “humanas”, com o que se quer significar que não apresentam a mínima semelhança com qualquer coisa da Terra. Na altura em que as simetríades estavam a ser investigadas, era já evidente que o Oceano não tinha tendências agressivas e que os seus redemoinhos de plasma só engoliriam o mais louco dos exploradores (claro que não estou a considerar os acidentes resultantes de falhas mecânicas). É perfeitamente possível voar em completa segurança de uma ponta à outra do corpo cilíndrico de um extensor ou dos vertébridos, autênticas escadas de Jacob oscilando por entre as nuvens: o plasma recua na atmosfera do planeta com a velocidade do som, para dar lugar a qualquer corpo estranho. Mesmo sob a superfície do Oceano, abrem-se profundos funis (com um tremendo gasto de energia, calculado por Scriabin em cerca de 1O19 ergs).

Contudo, a primeira incursão ao interior de uma simetríade foi acompanhada da máxima cautela e disciplina e de uma imensidão de medidas de segurança, que se revelaram desnecessárias. Qualquer aluno de escola na Terra ouviu falar nesses pioneiros.

Não é a sua aparência de pesadelo que torna perigosa as gigantescas formações simetríades, mas sim a total instabilidade e o caráter caprichoso da sua estrutura, onde nem as leis da física são respeitadas. A teoria de que o Oceano vivo é dotado de inteligência encontrou os seus mais firmes aderentes entre os cientistas que se aventuraram a penetrar as suas imprevisíveis profundezas.

O nascimento de uma simetríade surge como uma erupção súbita. Cerca de uma hora antes, uma área de dezenas de milhas quadradas fica vitrificada e começa a brilhar. Permanece fluida e não há qualquer alteração no ritmo das ondas. Por vezes, o fenômeno da vitrificação ocorre na vizinhança do funil deixado por um agilus. A reluzente cobertura do Oceano eleva-se até formar uma vasta bola que reflete o céu, o Sol, as nuvens e todo o horizonte, numa miscelânea de imagens variadas e sempre em alteração. A luz refratada cria um espetáculo caleidoscópico de cor.

Os efeitos de luz numa simetríade são particularmente impressionantes durante o dia azul ou o poente vermelho. O planeta parece estar a criar um duplo, que aumenta de volume de um momento para o outro. Mal o imenso globo flamejante alcança a sua expansão máxima acima do Oceano, logo rebenta pelo cimo e racha verticalmente. Não está a desfazer-se; esta é a segunda fase, que é conhecida pelo inapropriado nome de “fase do cálice floral” e que dura apenas alguns segundos. Os arcos membranosos que se erguiam para o céu inclinam-se agora para dentro e amalgamam-se, produzindo um denso trono que envolve uma cena de intensa atividade.

No centro do tronco (que foi pela primeira vez explorado pela expedição de Hamalei, composta por setenta homens), um processo de policristalização em escala gigante cria um eixo, a que geralmente se dá o nome de “coluna vertebral”, um termo que pessoalmente considero mal escolhido. A espantosa arquitetura deste pilar central é mantida no lugar por colunas verticais de consistência gelatinosa, quase líquida, que estão permanentemente a jorrar de vastas fendas. Entretanto, todo o tronco é rodeado por um cinto de espuma de neve, borbulhando com grandes bolhas de gás, e todo o processo é acompanhado por um constante rugido surdo. Do centro para a periferia elevam-se em parafuso poderosos arcos, que são recobertos por correntes de uma matéria maleável que brota das profundezas do Oceano.

Simultaneamente os gêiseres gelatinosos são convertidos em colunas móveis, que passam a lançar tendões, que se estendem em grupo em direção a certos pontos rigorosamente predeterminados pela dinâmica suprema de toda a estrutura: fazem recordar as guelras de um embrião, só que rodopiam a uma velocidade fantástica e deles se escoam fios de um “sangue” rosado e uma secreção verde-escura.

A simetríade começa agora a apresentar a sua mais exótica característica — a propriedade de “ilustrar”, por vezes contradizer, várias leis da física.
(Não esqueçamos que não há duas simetríades iguais e que a geometria de cada uma delas é uma “invenção” única do Oceano vivo.)
O interior da simetríade torna-se uma fábrica para a.produção de “máquinas monumentais”, como essas construções são por vezes chamadas, embora não se assemelhem a nenhuma máquina que esteja dentro das capacidades de construção da humanidade: a designação é aqui aplicada porque toda esta atividade tem fins definidos e é, portanto, em certo sentido, “mecânica”.

Quando os gêiseres de matéria oceânica estão solidificados em pilares ou em redes tridimensionais de galerias e passagens e as “membranas” tomam a forma de um complexo padrão de pisos, painéis e abóbadas, a simetríade faz jus ao seu nome, pois toda a estrutura está dividida em dois segmentos, cada um deles espelhando o outro até ao mais infinitesimal dos detalhes.

Passados vinte ou trinta minutos, altura em que o eixo talvez já esteja inclinado até oito ou dez graus da horizontal, o gigante começa lentamente a emergir.
(As simetríades variam muito em tamanho, mas, quando a base começa a submergir, até a menor delas atinge a altura de meia milha e é visível à distância de quilômetros.)
Por fim, a estrutura estabiliza e a simetríade, parcialmente submersa, cessa toda a sua atividade. É então possível explorá-la em absoluta segurança, penetrando por uma entrada próxima do cume, através de um dos muitos sifões que emergem da cúpula.

A simetríade final representa a analogia espacial de qualquer equação transcendental.
É lugar comum considerar-se que qualquer equação pode ser expressa na linguagem figurativa da geometria não euclidiana e ser representada em três dimensões. Esta interpretação vem relacionar a simetríade com os cones de Lobachevsky e as curvas negativas de Riemann, embora a sua inimaginável complexidade torne essa relação muitíssimo tênue.

A forma eventual ocupa um volume de várias milhas cúbicas e ultrapassa de longe todo o nosso sistema matemático. Além disso, esta extensão tem quatro dimensões porque os termos fundamentais das equações usam um simbolismo temporal impresso nas alterações internas durante um período dado.

É natural supor que a simetríade seja um “computador” do Oceano vivo, que executa cálculos para uma finalidade que não conseguimos perceber. Esta era a teoria de Fremont, mas não é hoje aceita por ninguém. A hipótese era tentadora, mas provou-se ser impossível manter o conceito de que o Oceano vivo examinava problemas da matéria, do cosmo e da existência por meio de erupções titânicas, em que cada partícula tinha uma função indispensável como elemento controlado num sistema analítico de infinita pureza. De fato, numerosos fenômenos contradizem este super simplificado (alguns dizem que infantilmente ingênuo) conceito.

Têm sido feitas inúmeras tentativas para transpor e “ilustrar” a simetríade e a demonstração de Averian foi particularmente bem recebida.

Imaginemos um edifício datando dos grandiosos dias de Babilônia, mas construído de uma substância viva e sensitiva, com a capacidade de evoluir: a arquitetura deste edifício passa por uma série de fases e a vemos adaptar-se à forma de uma construção grega, depois de uma romana. As colunas brotam como ramos e tornam-se mais delgadas, o telhado torna-se mais leve, eleva- se, encurva-se, o arco descreve uma parábola abrupta e depois cai em forma de seta: o gótico nasceu, amadurece e, a seu tempo, dá lugar a novas formas. A austeridade de linhas dá lugar ao motim de linhas e formas explosivas, e o barroco surge veloz. Se continuarmos com a progressão — e as sucessivas mutações devem ser consideradas como fases na vida de um organismo em evolução—, chegamos finalmente à arquitetura da era espacial e talvez também a uma certa compreensão em relação à simetríade.

Infelizmente, por mais que se desenvolva e melhore esta demonstração (houve tentativas para visualizar com a ajuda de modelos e filmes), a comparação continua a ser superficial. É evasiva e ilusória e esquece o ponto essencial, que é o fato de a simetríade ser completamente diferente de tudo o que a Terra até hoje produziu.

A mente humana é apenas capaz de absorver algumas coisas de cada vez. Vemos o que acontece à nossa frente no momento presente, mas não conseguimos simultaneamente considerar uma sucessão de processos, por mais integrados e complementares que sejam. Em conseqüência disso, a nossa capacidade de percepção fica limitada, mesmo no que diz respeito a fenômenos razoavelmente simples. O destino de um só homem pode ser rico em significado, o de algumas centenas não será tanto assim, e a história de milhares e milhões de homens não significa, absolutamente nada, no sentido restrito da palavra. A simetríade tem um milhão — ou melhor, um bilhão — de vezes mais poder do que nos é incompreensível.



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