sábado, 5 de março de 2011

Solaris - Stanislaw Lem



O que é SOLARIS?

Solaris tem vários planos.

É um quebra-cabeça, uma parábola a respeito das relações e noções humanas e uma
demonstração de que os critérios antropocêntricos e as “soluções finais” de estilo religioso são inaplicáveis no mundo moderno.

Ao nível de enredo a novela está construída como um quebra-cabeças detetivesco, com um narrador que fala na primeira pessoa e que é catapultado para o centro de uma enorme confusão, que lhe é desconhecida e que gradualmente vai compreendendo os estranhos fenômenos que se passam no planeta Solaris. O planeta é completamente coberto por um oceano orgânico; em Summa Technologiae, Lem definiu razão ou inteligência como um “regulador homeostático de segundo grau, capaz de neutralizar as perturbações do meio que a rodeia por meio de uma ação baseada em conhecimentos historicamente adquiridos” e, nesse sentido, o Oceano Solaris é, sem sombra de dúvida, uma entidade inteligente.

Acaba por reagir às atividades de uma estação de pesquisa humana, sintetizando para cada cientista uma pessoa real, que, graças a qualquer processo incompreensível, lhes tinha conseguido “extrair” da camada mais profunda da memória, arquivada nas circunvoluções cerebrais. Segundo a hipótese não completamente convincente de Lem, essa memória é um trauma provocado por um sentimento de culpa de origem erótica, e por isso cada cientista é visitado pela mulher que de qualquer modo perdeu ou desprezou. Pelo menos ...visto que Lem é propositadamente pouco claro neste ponto ... é esse o caso com o protagonista Kelvin e a sua esposa Rheya, que morrera depois de ter sido afastada dele.

Semelhante ao Gosseyn de Van Vogt, os “Duplos” (ou Espectros, como lhes chama Lem) ressuscitados são humanos, embora o Oceano tenha formado as suas albuminas a partir de neutrinos e não de átomos. Os espectros apresentam alguns traços não humanos, tal como uma necessidade inelutável de permanecer junto da pessoa “fonte” e uma força sobre-humana, quando isso lhes é vedado; contudo, não só possuem emoções e consciências humanas, como também se tornam rapidamente sociáveis quando em companhia humana, ficando cada vez mais independentes do Oceano.
Em breve, Kris Kelvin sente-se tão fortemente atraído pelo “espectro” Rheya como tinha estado pela mulher, embora de um modo sutilmente diferente.

Tal confusão biopsicológica é característica de todo um grupo de contos americanos de ficção científica, por exemplo A Case of Conscience de James Blish. Lem usa esta convenção com grande maestria, aplicando-lhe as inclinações cognitivas às relações pessoais mais íntimas e dolorosas, de preferência a aplicá-las a exóticas excentricidades xenobiológicas. Este fato enriquece as suas novelas com um calor particular e uma proximidade de referência.
Contudo, Lem usa também essa convenção como um meio para conseguir uma novela mais rica e com vários níveis. O modelo do mistério detetivesco sugere e está ligado a um dos temas básicos de Lem — o engano que há em pretender alcançar uma solução final ou o conhecimento total a respeito de qualquer situação complexa.


O homem sempre projeta os seus próprios modelos mentais sobre o universo estranho: em Solaris, esse universo muito amavelmente materializa uma.dessas projeções.

Por isso, de certo modo, as estrelas são para Lem o mesmo que a utopia foi para Thomas More, ou Brobdingnag para Swift: um espelho parabólico para os homens se verem a si próprios, um caminho indireto para compreender o nosso mundo, as espécies e os tempos.

O Oceano — o artifício básico desta novela — é um mágico mais poderoso que os feiticeiros de Glubbdubbdrib, que materializaram o passado para Gulliver com o fim de lhe ensinar a verdadeira história da humanidade. De um modo muito Swiftiano, o Oceano de Lem materializa o trauma moral mais importante de cada homem. Assim, mostra a Kelvin um país mais estranho que Solaris ou Laputa: os recônditos da sua própria alma. Nesse país há tigres: “podemos observar, como se através de um microscópio, a fealdade monstruosa que há em nós próprios, a nossa loucura, a nossa vergonha!”, proclama um dos companheiros de sofrimento de Kelvin. Por outro lado, essa é também uma terra de cordeiros; na verdade, da ressurreição de cordeiros chacinados: o sonho de sempre de uma segunda hipótese para os nossos mal aproveitados encontros pessoais, quer tenhamos tido o papel de destruidor quer o de destruído, é algo que em Solaris pode também materializar-se.

Tudo depende da personalidade de cada um: Gibarian suicida-se, Sartorius refugia-se no isolamento, Snow fica mais que semiparalisado; mas o narrador-protagonista Kelvin consegue vencer e chegar a uma nova fé num “deus imperfeito”, embora seja uma fé relativa e provisória e dolorosamente ganha.

A ciência da solarística como uma procura do Graal do “Santo Contato” entre as civilizações cósmicas foi uma tragicomédia de erros, contudo é ainda possível o Santo Contato entre personalidades ensangüentadas mas não rebaixadas, como as de Kelvin e Rheya.

O nível de parábola da novela dá a entender que tal ressurreição e contato é um mistério mais materialista que espiritualista, que é mais uma questão de história e de gente da terra que uma questão de abstrações e estrelas celestiais. Vai buscar a sua força a algumas das mais profundas e vivas heresias da história européia a respeito das relações humanas, desde a tradição que passa pelos gnósticos e joaquinitas, até ao quente socialismo utópico de Fourier e Marx.

O que é talvez mais notório é que se trata de uma parábola sem referências a qualquer sistema conhecido (por exemplo, o meio cultural polaco, a Bíblia ou os sagrados livros de Stalin). A verdade que ensina por meio da sua fábula é uma verdade aberta e dinâmica. As melhores novelas de Lem têm no seu âmago cognitivo a realização, ao mesmo tempo simples e difícil, de que nenhum sistema fechado de referência, por mais sedutor que pareça aos cansados e pobres de espírito, é viável na era da teoria da relatividade e das ciências pós-cibernéticas. As ciências do século 20 são polivalentes e podem ser utilizadas para fins amplamente diferentes entre si. A única certeza a respeito da sua metodologia é que conduz a vastas áreas de novas descobertas, técnicas e orientações, áreas onde não há fantasmas — e levam a um novo conhecimento que dá à humanidade novas séries de possibilidades por onde escolher.

As ciências modernas não dão conclusões e a antecipação na nossa era será tanto mais significante quanto mais claramente rejeitar tanto a utopia clássica do tipo de Platão e More, como a distopia do tipo de Huxley e Orwell, que anteriormente estava na moda.

Ambas são estáticas e fechadas; nenhuma faz justiça às imensas possibilidades da moderna ficção científica numa era polarizada entre a lei dos números gigantescos e a escolha étnica. Claro que a ficção científica adotou desde Wells uma filosofia da história vagamente materialista; mas, sem dialética, isso pode facilmente levar-nos de volta à velha contradição entre um otimismo fácil ou um cínico desespero. Daí que o principal horror do artista da dialética que é Lem seja a escatologia — qualquer afirmação quanto a uma perfeição final e estática, seja ela religiosa no sentido cristão ou um mito laico no estilo liberal ou pseudo marxista.
Em situações radicalmente novas, é errônea a confiança nos enquadramentos familiares da imaginação; mesmo uma ciência completamente nova como a solarística — cuja descrição, com todas as suas voltas e meandros e uma história completa com santos, heréticos e bufões, nos oferece algumas das páginas mais brilhantes da ficção científica moderna — pode tornar-se uma simples sublimação de místicas nostalgias por uma revelação final, “uma liturgia que emprega a linguagem da metodologia”.

Um motivo importante para a recusa de Lém em aceitar soluções finais é o fato de despojarem o homem das suas ilusões a respeito da realidade humana e cósmica.

É isto que torna tão imperativo o conhecimento do eu; retomando a tradição das “novelas educacionais” tão queridas dos racionalistas, as principais novelas de Lem apresentam um único protagonista (ou um grupo de protagonistas), que, enquanto investiga uma nova situação de ficção científica, vai dolorosamente aprendendo a verdade a respeito de si próprio, das suas limitações e principais pontos de força.

O enredo e a parábola fluem organicamente desta preocupação central de, à moda de Copérnico ou Bruno, destronar a teoria antropocêntrica. Só para os outros homens o homem é a medida para todas as coisas e os seus modelos mentais não podem ser projetados com utilidade sobre o universo. É particularmente lastimável, faz notar Lem, limitar as possibilidades de novos mundos ao papel antropomórfico dos nossos governantes ou sujeitos — um golpe na ficção científica ocidental, projetando a guerra fria sobre tramas cósmicas.

Poder-se-ia chamar anti-aristotélica a esta inimizade de Lem pela lógica exageradamente apreciada do “ou-ou” e pelos horizontes fechados da história (em certo sentido, muito mais que a aproximação “Null A” de Van Vogt, que depressa resvala para artimanhas de enredo). Contudo, como Lem uma vez disse, se é verdade que a história não tem princípio, meio ou fim, uma peça ou novela certamente tem.

Mas o final ou desfecho de uma novela que se quer adequada a uma cognição com abertura, e que é exigida pelas modernas ciências naturais e antropológicas, terá igualmente de ser aberta. Por isso, no final de Solaris não prevalece nem uma fé tecnocrática e liberal no progresso automático, nem um amor decadente pela morte fácil.

No capítulo final, o protagonista, que veio da Terra com o seu bloco de apontamentos, a chave do seu apartamento e as suas certezas, compreendeu uma vez por todas a utilidade dessas coisas. As ilusões escatológicas foram despedaçadas e viu que o homem pode apenas confiar em si próprio e na sua dialética da realidade: “Nunca mais voltarei a entregar-me completamente a algo ou alguém... E este Kelvin do futuro não será homem de menos valor que o Kelvin do passado; um homem que está preparado para tudo o que se lhe depare em nome de um empreendimento ambicioso, chamado Contato. E nenhum homem terá o direito de me julgar.”

Esta renúncia pode ser sociologicamente reportada às amargas experiências sofridas neste século pelos intelectuais da Europa Central. Porque Lem vem de uma região, coincidindo com o velho império dos Habsburgos, que no nosso século produziu um tão grande número de escritores, sempre harmonizados à marcha variável da história: Musil e Svevo, Krleza e Andric, Hoffmansthal e Kafka, Hasek e Capek, vêm-nos logo à lembrança. A tradição barroca deste meio ambiente está presente, sem sombra de dúvida, na imaginação de Lem. Contudo, esta foi também a região de grandes esperanças, esperanças que explodiram depois das duas grandes guerras.

O lugar único ocupado por Lem na ficção científica deve-se ao seu gênio pessoal em fundir a brilhante esperança com a amarga experiência, a visão de uma estrada aberta para o futuro com a visão dos perigos certos e possíveis derrotas, inseparáveis do risco dessa abertura. Este ângulo de “visão dupla” subverte tanto a aproximação estilo “inferno cósmico” da maior parte da ficção científica americana, como o utopismo determinístico de quase toda a ficção científica soviética, usando simultaneamente as forças de ambas; justapõe as negras centelhas da primeira aos brilhantes horizontes da segunda, de modo que cada uma das cores faz sobressair a outra.

Em cada empreendimento, a dialética de Lem encara, antes de mais, as suas contradições internas: ele é um escritor na grande tradição da agudeza de espírito que hesita entre dois níveis cognitivos diferentes. Não admira que o seu livro favorito seja o Don Quixote e que a época que o persegue seja o fim do século XVn e princípio do XVm.

Se, no final da novela, Kelvin é um homem mais sensato e mais triste, a tristeza talvez tenha sido um preço alto, mas não injusto, a pagar pela sabedoria ganha.

Isto é exprimido em termos teológicos na parábola final do “deus imperfeito... cujas ambições excedem os seus poderes”. Podemos discordar filosoficamente de Lem, mas já vimos demasiados sedutores deuses da história, devido à sua pretensa infalibilidade, transformarem-se em monstros que tudo devoram, para que possamos agora afastar as suas opiniões com mero encolher de ombros. Estão ainda demasiado próximas de nós ideologias nacionais e religiosas de todo o gênero, para que tal possamos fazer.
Bem sabemos que as mais luminosas esperanças da humanidade estão sujeitas a degenerar em justificação para uma Inquisição, as “purgas” de Stalin ou os massacres de My Lai.

O deus imperfeito, desesperante, mas também cativante, é um conceito próximo do Star Maker de Stapledon, um dos raros escritores de ficção científica por quem Lem tem admiração e a quem é comparável em categoria. Este critério cosmológico, correlativo à declaração ética da independência citada, é o que Kelvin, o protagonista de Lem, provisoriamente aprendeu com o planeta Solaris. Nós, os leitores, podemos aprender ainda mais com a novela Solaris: podemos aprender como o conhecimento se pode transformar em parábola — e sabedoria e prazer estético. Talvez tivéssemos começado a pôr em dúvida se a ficção científica teria categoria para os nossos dias, muitas vezes deprimentes, mas sempre excitantes.

A obra de Lem é um testemunho persuasivo de que tais dúvidas podem ser postas de lado. Porque Solaris — quebra-cabeças, parábola e conhecimento de liberdade— não é um aviso nem uma solução. É um exemplo daquilo que a ficção científica pode fazer: mostrar-nos a nossa era como “a era dos milagres cruéis” e era de se manter a fé.



Solaris - Stanislaw Lem [ Download ]