sábado, 21 de maio de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 11)






DEZ
CAINDO AOS PEDAÇOS




"Quem é seu astro de cinema favorito, Florzinha?" Greta perguntou.
"Audrey Hepburn. Eu só vi um filme dela quando eu tinha nove anos, mas ela estava maravilhosa. Não há mais filmes. Papai nunca aprovaria, eu acho."
"Papai!" Greta bufou. Arrancou um fio de polpa da fruta e baixou preguiçosamente em sua boca, amassando com a língua contra a parte de trás de seus dentes. Sentados em uma cavidade de breu na fruto, seus ouvintes não podiam vê-la fazer isso, mas era evidente que ela estava comendo novamente.
"E você, Neil? Quem é o seu favorito?“
"Charlton Heston. Eu costumava assistir a qualquer filme com ele."
"Eu também" disse Clay Kestner. "Ele e Marilyn. Vocês mais velhos se lembram de Marilyn Monroe?"
"Marilyn Monroe foi muito superestimado na minha opinião" Greta falou.
"O que você me diz sobre isso, camarada? Ei, amigo! Ainda está aqui?"
"Sim, eu ainda estou aqui. Eu nunca vi Marilyn Monroe. Foi antes do meu tempo."
"Oh, você perdeu, rapaz. Realmente perdeu."
"Eu vi Marilyn Monroe" disse Neil. "Ela não era de antes do meu tempo."
"E você ainda diz que Charlton Heston é o seu favorito?"
Clay Kestner emitiu uma risada franca, de caixeiro viajante, forte e sem graça. Anos antes, ele tinha sido meio-proprietário de um posto de gasolina.
"Oh, não sei", disse Neil nervosamente.
Greta riu também, pois Clay começou a fazer cócegas em seu pé.
"Você está todo molhado, todos vocês" disse ela ainda rindo. "Eu continuo dizendo que Kim Novak é a maior atriz que já viveu." Ela estava repetindo isso por quase quinze minutos, e parecia que ela iria dizer isso de novo.

Buddy estava entediado ao extremo. Pensou que seria melhor ficar lá trás com os outros do que ir junto com seu pai para mais uma exploração tediosa e sem propósito através das raízes do labirinto da Planta. Agora que os mantimentos foram reunidos, agora que eles tinham aprendido tudo sobre a Planta que havia para aprender, não havia nenhum motivo em perambular. E não adiantava ficar parado também. Não tinha percebido até então, que não havia nada a fazer, que escravo do trabalho ele tinha se tornado!
Levantou-se e seu cabelo (curto agora, como todos os outros) roçou o fruto. A polpa dos frutos, quando secava emaranhado ao cabelo, era pior que mordida de mosquito que não podia ser coçada.
"Onde você vai?" Greta perguntou, ofendida que seu público abandonasse no meio da sua análise sobre o charme peculiar de Kim Novak.
"Eu tenho que vomitar" disse Buddy. "Vejo vocês mais tarde".
Era uma desculpa bastante plausível. Os frutos, embora os nutrisse, possuia efeitos colaterais. Todos estavam, um mês depois (era a estimativa mais próxima), ainda sofrendo de diarréia, cólicas e dor de barriga. Buddy quase desejava ter o que vomitar: assim teria algo para fazer.
Pior que o problema do estômago eram os resfriados. Quase todo mundo sofria com estes também, e não havia outro remédio que não paciência, dormir e a vontade de recuperar-se.
Na maioria dos casos, estes eram suficientes, mas três casos de pneumonia haviam se desenvolvido, Denny Stromberg entre eles. Alice Nemerov fez o que podia fazer mas, como foi a primeira a confessar, não podia fazer grande coisa.

Buddy subiu a corda pela raiz. Aqui ele precisava andar agachado, o espaço vazio na raiz era de apenas um metro e trinta centimetros de diâmetro. Pouco a pouco, ao longo do mês passado, tinham ido para baixo algumas centenas de metros de profundidade, Orville tinha estimado pelo menos 300 metros.
Ora, o Edifício Alworth não era tão alto. Nem mesmo a Torre Foshay em Minneapolis!
Nessa profundidade, a temperatura chegava a agradáveis 21 graus.
Houve um rumor à frente.

"Quem é?" Buddy e Maryann perguntaram quase em uníssono.
"O que você está fazendo aqui?" Buddy perguntou à sua esposa, em tom ríspido.
"Fazendo mais corda, mas não me pergunte porquê. É apenas algo para fazer. Isso me mantém ocupada. Eu tenho desfiado algumas raízes, e agora estou atando-as." Ela riu baixinho. "As raizes são provavelmente mais fortes do que as cordas. Aqui, pegue minhas mãos e vou te mostrar como fazê-lo."
"Você!" Quando as mãos de Buddy tocaram a dela, ela continuava tricotando.
"Por que você quer fazer isso?"
"Como você mesmo diz, é algo para se ocupar."
Ela começou a guiar seus dedos desajeitados. "Talvez se eu me sentar atrás de você..." Sugeriu.
Mas não conseguia nem fechar os braços ao redor dela. Sua barriga estava no caminho.
"Como ele está?" Buddy perguntou. "Será que demora?"
"Ele está bem. Deve ser para qualquer dia desses."
 Funcionou como ela esperava: Buddy sentado atrás dela, apertou suas coxas contra as pernas dela, os braços peludos embaixo dos dela, apoiando-os como os braços de uma cadeira.
"Então me ensine" disse ele.

Ele era um aluno lento, não habituado a este tipo de trabalho, mas sua lentidão só fez dele um aluno mais interessante. Eles gastaram uma hora ou mais antes dele estar pronto para iniciar sua própria corda. Quando terminou, as fibras escapavam, como pedaços de fumo no cigarro feito por um novato.
De dentro do tubérculo, veio a música de riso de Greta, e depois o grave de Clay acompanhando.
Buddy não tinha desejo de voltar. Nenhum desejo de ir a qualquer lugar, exceto de volta à superfície, ao ar fresco, seu brilho, sua mudança de estações.
Maryann aparentemente, tinha pensamentos semelhantes.
"Você acha que já é o Dia da Marmota?"
"Oh, eu diria que mais uma semana. Mesmo se fôssemos até lá, onde poderíamos ver ou não o sol, duvido que ainda exista alguma marmota para procurar por sua sombra."
"Então, o aniversário de Flor deve ser hoje. Devemos lembrá-la."
"Quantos anos ela tem agora? Treze?”
"É melhor não deixá-la ouvir isso. Ela tem quatorze anos e é muito enfática sobre o assunto."
Outro som saiu da fruta: grito angustiado de uma mulher. Em seguida, um silêncio sem ecos. Buddy deixou Maryann no mesmo instante para descobrir o que tinha causado-o. Voltou em breve.
"Foi Mae Stromberg. Denny está morto. Alice Nemerov está com ela agora."
"Pneumonia?"
“Isso, ele já não conseguia mais se alimentar."
"Ah, pobrezinho."



A Planta era muito eficiente. De fato, não podiam ser batidas. Já haviam provado isso. Quanto mais você aprendia sobre o assunto, mais você deveria admirá-la.
Se você fosse o tipo que admira essas coisas.
As suas raízes, por exemplo. Eram ocas. As raízes das plantas da Terra, (o pau-brasil é comparável) são sólidas e todas de madeira. Mas para quê? A maior parte das raízes, na verdade, é  matéria morta. O único trabalho da raiz é o transporte de água e minerais até as folhas e, quando forem sintetizados em alimentos, levá-los de volta para baixo novamente. Para isso uma raiz deve manter-se rígida o suficiente para suportar a pressão constante do solo e da rocha ao redor dela. Todas essas coisas a Planta fazia muito melhor, considerando suas dimensões, mais eficiente do que as plantas da Terra.

O espaço aberto dentro da raiz permitia uma maior passagem de água, mais rápido e mais longe. As traqueídes e os vasos que conduzem a água de uma raiz comum não tem um décimo da capacidade dos capilares expansíveis que formam as teias de aranha da Planta. Do mesmo modo, as vinhas que revestem as raízes ocas podiam, em um único dia, transportar toneladas de glicose e outros materiais líquidos das folhas até os tubérculos de frutos e raízes ainda em crescimento nos níveis mais baixos. Estes estavam para o floema das plantas comuns, o que um gasoduto intercontinental está para uma mangueira de jardim.

O espaço oco dentro da raiz servia a um propósito maior: abastecer regiões inferiores da Planta com ar. Essas raízes, que se estendiam até abaixo do solo arejado, não tinham, como outras raízes, uma fonte independente do oxigênio. Ele precisava ser trazido para elas. Assim, desde as pontas de suas folhas até o mais distante broto, a Planta respirava. Era essa capacidade de variar o transporte rápido e de grande escala que tinha que ser levado em conta para a taxa de crescimento da Planta.
A Planta era econômica, não desperdiçava nada. Como suas raízes eram profundas afundando-se espessa, a Planta digeria até si mesma, formando assim o buraco no que a complexa rede de capilares e vinhas tomavam forma. A madeira que não era mais necessária para manter um exoesqueleto rígido virava alimento.
Mas a economia fundamental da Planta, sua excelência final, não consistia em nenhuma dessas características parciais, mas sim no fato de que todas as Plantas serem uma só Planta.
Como alguns insetos têm em sua organização social, conquistar seus membros individuais teria sido impossível, de modo que as plantas, formavam um todo único e indivisível, aumentando sua potência efetiva exponencialmente. Os materiais que não estavam disponíveis para um, poderiam para outro ser supérfluo. Água, minerais, ar, alimentos, tudo era compartilhado no espírito do verdadeiro comunismo: de acordo com sua capacidade e sua necessidade.
Os recursos de um continente inteiro estavam à sua disposição.

O mecanismo pelo qual ocorria a socialização das Plantas individuais era muito simples.
Assim como as raízes, o primeiro ramo brotado da raiz primária vertical,movia-se por uma espécie de tropismo comum em direção às raízes parentes de outras plantas. Quando se reconheciam, se fundiam. Quando estavam indissoluvelmente mescladas, se separaram, buscando a união em um nível mais profundo.
Muitos se tornando um.
Você tinha que admirar a Planta. Era realmente uma coisa muito bonita, se olhasse para ela de forma objetiva, como por exemplo, Jeremias Orville olhava.
Claro, tivera vantagens que outras plantas não tinham tido. Não tivera que evoluir por si mesma. Também foi muito bem cuidada. Mesmo assim, ocorreram pragas. Mas que estavam sendo cuidadas. Esta era afinal, apenas sua primeira temporada na Terra.



Quando Anderson, Orville e os outros homens (aqueles que tinham se oferecido em colaborar) retornaram da exploração profunda na Planta, Mae Stromberg já havia desaparecido com o cadáver do filho. Em suas últimas horas com o menino, ela não havia dito uma palavra ou chorou uma lágrima, e quando ele morreu, ela enlouqueceu. A perda do marido e da filha tinha se dado com muito menos calma, ela sentia talvez, que poderia se dar ao luxo de perdê-los, poderia pagar por isso e lamentar posteriormente. Angústia é um luxo. Agora ela era só pesar.
Haviam 29 pessoas sem contar Mae Stromberg. Anderson chamou-os para uma assembléia de imediato.
Dos 29, apenas duas mulheres com pneumonia e Alice Nemerov estavam ausentes.
"Tenho medo" Anderson começou, depois de uma breve oração, "de estarmos caindo aos pedaços."
Havia alguma tosse e um arrastar de pés. Ele aguardou, e em seguida, continuou:
"Não posso culpar ninguém aqui por Mae ter fugido. Eu não posso culpar Mae também. Mas aqueles de nós que foram poupados deste último golpe e guiados pela Divina Providência, aqui, aqueles de nós, isto é...".
Ele parou emaranhado em suas próprias palavras, algo que acontecia com ele cada vez mais.
Ele apertou a mão à testa e respirou fundo.
"O que eu quero dizer é isto: Nós não podemos apenas comer leite e mel. Há trabalho a ser feito. Temos de nos fortalecer para o que vem à frente, e...isto é, não devemos deixar-nos espairecer. Eu tenho ido mais para baixo nesses túneis infernais e descobri que a fruta lá é melhor. Menor e mais firme, menos doce. Eu também descobri que há menos oxigênio... Quero dizer que estamos nos transformando em um bando de...qual era a palavra?"
"Viciados" Orville, disse.
"Um bando de viciados. Exatamente. Agora isso deve parar" Ele bateu a palma da mão com o punho cerrado em ênfase.
Greta, que levantara sua mão durante a segunda parte do discurso, enfim falou sem esperar permissão:
"Posso fazer uma pergunta?"
"O que é Greta?
"Que trabalho? Eu simplesmente não consigo ver o que é que estamos negligenciando."
"Bem, nós não temos feito o trabalho, menina. Isso é fácil de ver."
"Não respondeu a minha pergunta."
Anderson ficou horrorizado com a desfaçatez dela. Dois meses atrás, poderia ter tido apedrejada como uma adúltera, e agora a prostituta exibia seu orgulho e rebeldia para que todos vissem.
Ele deveria ter respondido com um golpe. Ele deveria ter domado seu orgulho, ela tinha agido como uma meretriz com o irmão de seu marido. Não ter reagido ao desafio era uma fraqueza, e todos puderam ver isso também.
Depois de um longo silêncio, ele retornou ao seu discurso como se não tivesse havido nenhuma interrupção.
"Nós temos que combater a letargia! Não podemos parar. Vamos nos manter em movimento a partir de agora. Todo dia. Não vamos sentar. Nós vamos explorar."
"Não há nada para explorar, Sr. Anderson. E por que deveríamos passar todos os dias explorando? Por que não limpar um lugar que é confortável e viver lá? Há comida suficiente em apenas uma dessas batatas grandes."
"Chega! Isso é o bastante Greta! Eu já disse tudo o que eu vou fazer. Amanhã!"
Greta se levantou, mas ao invés de avançar para a luz do lampião, ela se afastou.
"Não! Eu estou farta e cansada de receber ordens como um escravo. Eu já tive o suficiente, eu estou indo embora! Mae Stromberg fez a coisa certa!"
"Sente-se Greta!" o velho ordenou estridente. "Sente-se e cale a boca."
"Não mesmo. Não mais. Estou indo embora. Chega. De agora em diante, eu farei o que quiser e qualquer um que quiser vir é bem-vindo."
Anderson puxou da pistola e apontou para a figura sombria fora da luz da lamparina.
"Neil, você deve dizer para sua esposa se sentar. Ou vou matá-la. E vou atirar para matar, por Deus, eu vou!"
"Senta Greta!" Neil pediu.
"Não vai atirar em mim e quer saber por que você não vai atirar em mim? Porque eu estou grávida. Não iria matar seu próprio neto agora, iria? E não há dúvida de que ele é seu neto."
Era uma mentira, uma mentira completa, mas serviu ao seu propósito.
"Meu neto?” Anderson repetiu espantado. "Meu neto!"
Ele virou a Python para Buddy.
Sua mão tremia com raiva ou simplesmente com uma enfermidade, não se podia dizer.
"Não fui eu!" Desabafou Buddy. "Eu juro que não fui eu."
Greta tinha desaparecido na escuridão, e três homens sairam correndo atrás, ansiosos para segui-la. Anderson disparou quatro tiros mirando as costas de um dos homens. Então, totalmente exaurido, sem sentidos, caiu sobre a lamparina que apagou-se. Extinguiu-se.
O homem que ele havia matado fora Clay Kestner. A quarta bala, passando pelo peito de Clay, tinha perfurado o cérebro de uma mulher que pulou em pânico reagindo ao primeiro disparo de Anderson.
Haviam agora 24 deles, sem contar com Greta e os dois homens que se foram com ela.




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