sábado, 4 de junho de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 13)




Naquela noite, quando foi contado o número de sobreviventes (Anderson tinha cada vez menos condições de fazê-lo), Orville e Buddy vieram com o número de vinte e três. Neil, desta vez, contou vinte e quatro.
"Ele é lento" Buddy brincou. "Dê-lhe tempo. Ele vai alcançar a gente ainda."

Alice Nemerov, RN, sabia que Anderson ia morrer. Não só porque ela era uma enfermeira e reconhecia o inicio de uma gangrena. Ela tinha visto muitos morrerem antes que ele fosse mordido pelo rato, mesmo antes dos desmaios que haviam se tornado uma ocorrência diária. Quando um velho está se preparando para morrer, você pode ver estas coisas claramente. Isso porque ela era uma enfermeira, e porque ela havia tentado fazer alguma coisa para mantê-lo vivo.
Por este motivo, ela o havia persuadido a não falar com Orville e Flor sobre suas intenções para eles. Ela lhe oferecia uma esperança de vida. Pelo menos parecia uma esperança.
No início, quando a esperança tinha sido real, ela já havia tentado sugar a infecção, como em um acidente ofídico. O único efeito foi que ela ficou com náuseas e não conseguiu comer por dois dias. Agora, metade do pé dele estava azul escuro, morto. A decomposição agia muito rapidamente, se é que não tinha começado.
"Por que você não continuou sugando a infecção?" Neil perguntou.
"Não faria nenhuma diferença agora. Ele está morrendo."
"Você poderia tentar. Isso é o mínimo que poderia fazer. "
Curvado para baixo, Neil examinava o rosto adormecido de seu pai.
"Ele está respirando melhor agora?"
"Às vezes, a respiração fica muito difícil. Às vezes, ele mal parece respirar. Nenhum dos sintomas está fora do comum."
"Seus pés estão frios" disse Neil critico.
"O que você espera?" Alice agarrou ele  já sem nenhuma paciência. "Seu pai está morrendo. Você não entende isso? Apenas uma amputação poderia salvá-lo e neste ponto, na sua condição, ele não poderia sobreviver a amputação. Ele está exaurido, é um homem velho. Ele quer morrer."
"Isso não é culpa minha, não é?” Neil gritou.
Anderson acordou por um momento e Neil foi embora.
Seu pai havia mudado muito nos últimos dias e Neil sentia-o estranho com ele. Era como estar diante de um estranho.
"O bebê é um menino ou uma menina?" Sua voz era quase inaudível.
"Nós não sabemos ainda, Sr. Anderson. Pode demorar uma hora. Mas não mais do que isso. Tudo está pronto.
Ela fez as ligaduras a partir de sobras de corda. “Buddy trouxe da superfície um balde de neve, ele disse que foi uma nevasca de março de verdade lá em cima e fomos capazes de esterilizar a faca e lavar um par de peças de algodão. Não vai ser um parto hospitalar, mas eu tenho certeza que vai dar tudo certo."
"Nós devemos orar".
"...Você deve orar, Sr. Anderson. Você sabe que eu não sou ligada a essas coisas."
Anderson sorriu, e não foi por um milagre, uma expressão não muito desagradável. Morrer parecia suavizar o homem velho, e nunca tinha sido mais agradável do que agora.
"Você é como minha esposa, como Senhora. Ela deve estar no inferno por seus pecados e seu escárnio, mas o inferno não pode ser muito pior do que isso. De alguma forma, porém, eu não posso imaginá-la lá."
"Não julgueis para que não sejas julgado, Sr. Anderson."
"Senhora sempre disse isso também. Era a sua escritura favorita."
Buddy interrompeu-os: "O tempo acabou, Alice.Temos que ir."
"Vá lá, vá na frente, não fique aqui" Anderson pediu. Desnecessariamente, pois ela já tinha ido embora, levando a luz com ela.

A escuridão começou a cobri-lo como um cobertor de lã, como um cachecol.
Se for um menino, Anderson pensou, eu posso morrer feliz.
Era um menino.
Anderson estava tentando dizer algo. Neil não conseguia entender bem o que. Ele inclinou seu ouvido próximo à boca seca do velho. Ele não podia acreditar que seu pai estava morrendo. Seu pai! Ele não gostava de pensar nisso.
O velho murmurou algo. "Tente falar mais alto", disse Neil gritando em seu ouvido. Em seguida, a outros que estavam ao redor: "Onde está a luz? Onde está Alice? Ela deveria estar aqui agora. Porque vocês estão em pé ao meu redor assim?”
"Alice está com o bebê" Flor sussurrou. "Ela disse que levaria apenas mais um minuto."
Em seguida, Anderson falou de novo, alto o suficiente para Neil e mais ninguém ouvir.
"Buddy". Isso foi tudo que ele disse, embora ele tenha dito isso várias vezes.
"O que ele disse?" Flor perguntou.
"Ele disse que quer falar comigo sozinho. O resto de vocês, vá embora e deixe-nos juntos. Papai quer falar-me sozinho."
Houveram suspiros das poucas pessoas que ainda não estavam dormindo (o período de vigília terminara muitas horas atrás) e afastaram-se do tubérculo para deixar pai e filho juntos.
Neil esforçou-se para ouvir o menor som além, que teria significado que alguém permanecera nas proximidades. Nesta escuridão abissal, a privacidade nunca era uma coisa certa.
"Buddy não está aqui" disse finalmente com a certeza de que estavam a sós. "Ele está com Maryann e o bebê. E Alice. Há algum tipo de problema no jeito que ele respira."
Neil tinha a garganta seca e quando tentou engolir saliva, isso o machucou. Alice, pensou com raiva, deveria estar aqui. Todas as pessoas falavam, era o bebê, o bebê. Ele estava farto do bebê.
Curiosamente a mentira de Greta tinha causado efeito sobre Neil. Ele acreditava nela de verdade, inquestionável, assim como Maryann acreditava no nascimento virginal de Cristo. Neil tinha a capacidade de afastar simplesmente, fatos inconvenientes e considerações da lógica tal como teias de aranha. Ele já tinha decidido que o nome do seu bebê seria Neil Junior. Isso mostraria ao velho Buddy!
"Encontre Orville" Anderson sussurrou. "E traga os outros para cá. Eu tenho algo para dizer."
"Você pode dizer para mim? Hein, pai?"
"Traga Orville, eu disse!" O velho começou a tossir.
"Ok, ok!" Neil andou certa distância da pequena cavidade no fruto, onde seu pai estava, contando até cem (na sua pressa, saltou tudo entre cinquenta e nove e setenta), e voltou.
"Aqui está ele meu pai, como você pediu."
Anderson não achou estranho que Orville não o cumprimentasse. Todo mundo, nestes últimos dias, ficava mudo em sua presença, na presença da morte.
"Eu deveria ter dito isso antes, Jeremias" começou falando rapidamente, com medo de que essa renovação súbita de força o abandonasse antes que ele pudesse terminar.
"Esperei muito tempo. Embora eu saiba que você está esperando por isso. Eu posso dizer pelos seus olhos. Portanto, não havia necessidade de..."  parou tossindo. "Aqui" (ele gesticulou debilmente na escuridão) "tome o meu revólver. Há somente uma bala, mas alguns deles o vêem como uma espécie de símbolo. É bom que seja assim. São tantas coisas que eu queria te dizer, mas não tive tempo."
Neil ficava mais e mais agitado durante a despedida de seu pai e finalmente não se conteve:
"O que você está falando, papai?"
Anderson riu. "Ele ainda não entendeu. Você quer dizer a ele ou eu?"
Houve um longo silêncio. "Orville?" Anderson perguntou.
"Dizer o que, papai? Eu não entendo!"
"Isso. Orville Jeremiah está assumindo a partir de agora. Então, traga-o aqui!"
"Papai, você não pode estar falando isso." Neil começou a mastigar aflito seu lábio inferior. "Ele não é um Anderson. Ele nem é da vila. Ouça, Pai, eu lhes direi que vou assumir, né? Eu faria um trabalho melhor do que ele. Apenas me dê uma chance. Isso é tudo que peço, apenas uma chance."
Anderson não respondeu. Neil começou tudo de novo, num tom mais suave, mais persuasivo.
"Pai, você tem que entender...Orville não é um de nós."
"Ele vai ser em breve, pequeno bastardo. Agora traga-o aqui."
"O que você quer dizer com isso?"
"Quer dizer que eu vou casar ele com sua irmã. Agora, deixe de besteira e traga-o aqui. E sua irmã também. Traga-os todos aqui."
"Papai, você não pode, pai!"
Anderson não disse outra palavra. Neil mostrou-lhe todos os motivos que tornava impossível casar Flor com Orville. Por que Flor tinha apenas doze anos de idade! Ela era irmã de sua irmã! Não entende isso? E quem era esse tal de Orville? Ele não era ninguém. Eles deveriam tê-lo matado há muito tempo, juntamente com os outros saqueadores. Neil não tinha dito isso na época? Neil mataria-o agora, se Anderson pedisse.
Não importa que argumentos Neil oferecesse, o velho apenas descansava ali. Estaria morto? Neil se perguntou. Não, ele ainda estava respirando. Neil sentiu-se mal.
Seus ouvidos aguçados pegaram sons de outros retornando.
"Deixem-nos em paz!" Gritou para eles. Eles foram embora de novo, incapazes de ouvir Anderson
ordenar o contrário.
"Nós temos que falar sobre isso, você e eu pai" confessou Neil. Anderson não iria dizer uma palavra, nem uma palavra.
Com lágrimas nos olhos, Neil fez o que tinha que fazer. Pressionou as narinas do velho e segurou a outra mão firmemente em cima de sua boca. Ele mexeu-se um pouco no início, mas estava muito fraco para lutar. Quando o velho ficou muito, muito calmo, Neil pegou em suas mãos e procurou sentir se ele ainda estava respirando.
Ele não estava.

Em seguida, Neil pegou o coldre e pistola do velho e prendeu ao seu próprio corpo.
Era uma espécie de símbolo.
Pouco depois Alice chegou com a luz, e foi sentir o pulso do homem morto.
"Quando ele morreu?" Perguntou ela.
"Só um minuto atrás" disse Neil. Foi dificil compreendê-lo, ele chorava. "E ele pediu-me que tomasse o seu lugar. E ele me deu a sua pistola."
Alice olhou para Neil desconfiada. Em seguida inclinou-se sobre o rosto do cadáver e estudou atentamente sob a lâmpada. Havia manchas nas laterais do nariz e o lábio foi cortado e sangrava. Neil estava curvado para trás. Não conseguia entender de onde o sangue tinha vindo.
"Você o matou."
Neil não podia acreditar em seus ouvidos: ela tinha chamado-o de assassino!
Ele bateu em Alice ao alto da cabeça com a coronha da pistola. Então limpou o sangue que escorria pelo queixo do pai e a polpa de frutas espalhada pelo lábio cortado.
Mais pessoas vieram. Ele explicou-lhes que seu pai estava morto, que ele, Neil Anderson, iria assumir o lugar de seu pai. Ele também explicou que Alice Nemerov tinha deixado seu pai morrer, quando poderia tê-lo salvo. Toda a conversa dela sobre cuidar do bebê era tolice.
Foi tão ruim quanto se ela tivesse matado-o. Ela teria que ser executada como um exemplo. Mas não imediatamente. Por enquanto apenas iriam amarrá-la. E amordaçá-la.
Neil cuidou da mordaça ele mesmo.
E todos obedeceram. Estavam acostumados a obedecer Anderson, e estavam esperando Neil assumir a tarefa por anos.
Naturalmente, eles não acreditavam que Alice fora de alguma forma culpada, mas não tiveram tempo de acreditar em um monte de coisas que Anderson havia dito a eles, e eles sempre obedeceram  de qualquer maneira. Talvez se Buddy estivesse lá, ele teria algo a dizer. Mas ele estava com Maryann e seu filho recém-nascido, que ainda estava fraco. E eles não ousariam trazer o bebê para perto de seu avô, por medo de infecção.
Além disso, Neil acenava com a Python livremente. Todos sabiam que havia uma bala sobrando e ninguém queria ser o primeiro a iniciar uma discussão.
Quando Alice estava firmemente amarrada, Neil perguntou onde estava Orville. Ninguém o vira sair, ou ouviu falar dele por alguns minutos.
"Encontrem-o e tragam-no aqui. Agora mesmo! Flor! Onde está Flor? Eu a vi aqui um minuto atrás."
Mas Flor também não foi encontrada.
"Ela se perdeu!" Neil exclamou num lampejo de compreensão. "Ela se perdeu nas raízes. Nós precisamos criar um grupo de busca. Mas primeiro encontrem Orville. Não, primeiro alguém me ajude com isso."
Neil agarrou Alice pelos ombros. Alguém pegou seus pés. Ela não pesava mais do que um saco de ração e a na raiz mais perto havia agora um abismo vertical que não existia dois minutos antes. Jogaram-na através. Não conseguiram ver onde ela caiu, porque Neil tinha esquecido a lamparina.
Sem dúvida, ela caiu por um longo, longo tempo.
Agora seu pai estava vingado.
Agora ele iria procurar Orville. Havia apenas uma bala no Colt Python .357 Magnum. E era para Orville.
Mas primeiro ele deveria encontrar Flor. Ela devia ter fugido para algum lugar quando ouviu que seu pai estava morto. Neil conseguia entender isso. A notícia tinha aborrecido-o também.
Em primeiro lugar procuraria Flor. Então Orville.
Ele esperava que, e como esperava, não encontrá-los juntos. Isso seria terrível demais.


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