sábado, 11 de junho de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 14)



DOZE
FANTASMAS E MONSTROS


É melhor você se esconder, ela pensou, e foi assim que se perdeu.
Certa vez, quando Flor tinha sete anos, seus pais tinham ido para Duluth no fim de semana, levando o bebê, Jimmie Lee com eles, deixando-a sozinha na grande casa de dois andares na periferia de Tassel.
Era o décimo oitavo aniversário de casamento deles. Buddy e Neil, eram meninos grandes, um fora ao baile e outro para um jogo de beisebol. Ela assistiu um pouco de televisão e em seguida brincou com suas bonecas.
A casa estava muito escuro, mas era regra do pai nunca ligar mais de uma lâmpada por vez.
Ela não se importava em sentir-se um pouco assustada. Havia algo de bom nisso. Então ela apagou todas as luzes e fingiu que o monstro estava tentando encontrá-la no escuro. Mal ousando respirar e nas pontas dos pés, descobriu esconderijos seguros para todos os seus filhos: Lulu, porque ela era
negra, no depósito de carvão no porão, Ladybird, atrás de caixa dos gatos; Nelly, a mais velha, na lixeira sob a mesa do papai. Ficou mais e mais assustador. O monstro procurava-a por todos os lugares da sala, exceto no único lugar onde ela estava, atrás do terraço de pedra.
Quando saiu da sala, Flor subiu as escadas, mantendo-se próxima à parede para que não rangesse.
Mas fez um rangido, e o Monstro ouviu e veio atrás dela.
Com um grito excitado ela correu para o primeiro quarto e fechou a porta atrás dela. Era o quarto de Neil, e a imensa cabeça de alce com grandes chifres olhou com raiva para ela do seu posto sobre a cômoda. Ela sempre teve medo dos alces, mas estava com mais medo ainda do Monstro lá fora no corredor, escutando em cada porta para saber se ela estava lá dentro.
Entrou no armário de Neil, que estava entreaberto e se escondeu entre as botas fedorentas e velhos e sujos jeans. A porta do quarto se abriu. Estava tão escuro que não conseguia ver sua mão na frente de seu rosto, mas podia ouvir o Monstro fungando. Ele veio até a porta do armário e parou. Ele cheirava ela lá dentro.
O coração de Flor quase parou de bater, e orou a Deus e a Jesus que o monstro fosse embora.
O Monstro fez um barulho alto e terrível e abriu a porta, e pela primeira vez Flor viu o que parecia ser o Monstro. Ela gritou e gritou e gritou.

Neil foi o primeiro a chegar em casa naquela noite, e não conseguiu entender o que Flor estava fazendo em seu quarto com seu jeans sujo enfiado na cabeça, choramingando como se ela tivesse apanhado de cinta, e tremendo como um passarinho pego em uma tempestade de neve de abril.
Mas quando ele a segurou, seu corpinho tornou-se todo rígido, e nada a sossegaria a não ser dormir naquela noite na cama de Neil.
Na manhã seguinte, ela acordou com febre, e seus pais tiveram que abreviar a sua viagem e voltar para casa e cuidar dela. Ninguém entendeu o que tinha acontecido, mas Flor não se atreveu a dizer-lhes sobre o Monstro, que eles não podiam ver.
Eventualmente, o incidente foi esquecido.
Como Flor crescia, o conteúdo dos seus pesadelos era submetido a uma gradual mudança: os monstros antigos não eram mais aterrorizantes do que a cabeça de alce sobre a cômoda.
A escuridão porém, era o próprio material do terror, e Flor, correndo e rastejando através das raízes, descendo e descendo, sentiu o velho medo repossuí-la.
De repente todas as luzes da casa tinham sido desligadas. A escuridão se encheu de monstros, como despejar água em uma banheira, e ela correu, desceu escadas e corredores para baixo à procura de um armário para esconder-se dentro.
Durante todos esses últimos e longos dias com seu pai morrendo, e mesmo antes, Flor tinha ficado muito só. Ela sentia que havia algo que ele queria dizer a ela, mas que não iria deixar-se dizer.
Pensou que ele não queria que ela o visse morrer, e ela tinha se forçado a ficar de fora.
Alice e Maryann, com quem ela costuma passar seu tempo, não tinham outra preocupação que não o bebê. Flor queria ajudá-las, mas ela era muito jovem. Ela estava naquela idade quando se fica incomodada com a presença do nascimento ou da morte. Ela ficava próxima destes grandes acontecimentos e lamentava-se por ser excluída do seu âmbito.

Imaginou-se morrendo: como ficariam tristes todos, por terem negligenciado-a!
Mesmo Orville não tinha tempo para Flor. Ou ele ficava desligado de si próprio ou ao lado de Anderson. Só Neil parecera mais chateado com doença do velho homem.
Quando Orville encontrava Flor, olhava para ela com tamanha intensidade que a menina afastava-se, corada e até mesmo um pouco assustada. Não sentia que o entendia mais, e isso, de certa forma, a fez amá-lo mais e mais desesperadamente.

Mas nenhuma dessas coisas teria feito fugir assim, exceto em fantasias. Foi só depois que ela havia visto a expressão no rosto de Neil, o jeito quase sonâmbulo de suas feições, quando ela tinha ouvido falar o nome dela naquele determinado tom de voz, foi então que Flor, como uma corça que captura o cheiro de um caçador, entrou em pânico e começou a correr para as profundezas da escuridão, buscando abrigo.

Correu cegamente, e por isso era inevitável que iria passar por cima de um dos declives em uma raiz primária. No escuro, mesmo se você fosse cuidadoso, isso aconteceria. O vazio engoliu tudo.
De joelhos dobrados, entrou pela primeira vez na polpa da fruta, em seguida, seu corpo lançado para a frente afundou-se profundamente, profundamente nela. Foi descer ilesa, apenas a alguns centímetros de distância do corpo quebrado, mas ainda respirando, de Alice Nemerov, RN.



Ele havia falhado, ele Jeremias Orville. Ao invés de vingar-se, ele tinha assistido, dia após dia, a morte de Anderson, sua agonia, sua humilhação, e ele sabia que Jeremias Orville, nada tinha a ver com isso. Foi a Planta e o simples acaso que tinha acabado com Anderson.
Orville tinham estado ali como Hamlet, e disse amém para as orações de Anderson, só havia enganado-se por sua sutileza. Ele tinha sido tão ganancioso achando que os sofrimentos de Anderson deviam a ele, e não de nenhuma Planta que tinha levado o velho e sua tribo para uma terra de leite e mel. E agora seu inimigo estava morrendo por um mero acidente, infetado por uma mordida.

Orville remoia sozinho, na escuridão profunda, uma imagem, um fantasma, que tomava forma no ar. A cada dia a aparição ganhava definição, mas ele sabia, mesmo depois do primeiro branco cintilante, que era Jackie. Mas uma Jackie que nunca tinha sido: jovem, ágil, doce, a essência da graça e delicadeza feminina. Ela o fez, com suas artimanhas familiares, declarar seu amor por ela. Ele jurou que a amava, mas ela não estava satisfeita, ela não iria acreditar nele. Ela fez-lhe dizer isso de novo e de novo.Ela o lembrou das noites que estiveram juntos, dos tesouros de seu corpo jovem...e o horror de sua morte. Então perguntou novamente: Você me ama?
Eu amo, eu amo, ele insistiu. Eu te amo. Como você pode duvidar disso?
Ele estava em agonia pelo desejo de possuí-la novamente. Ansiava por um último beijo, o leve toque, um sopro só, mas fora recusado.

Eu estou morta, ela lembrou, e você não se vingou de mim.
"Quem é que vai pagar por isso?" ele perguntou em voz alta, agarrando o machado, que ele vinha segurando na palma da sua mão durante todo este tempo.
"Me dê um nome e com este machado mesmo eu...".
Flor, o fantasma sussurrou, não sem uma pitada de ciúme.
Você me abandonou por aquela criança. Você cortejou uma criança.
Não! Era só para poder traí-la. Foi tudo por sua causa!
Então vá traí-la agora, e eu retornarei para você. Então, só então, eu vou te beijar. Então, quando você me tocar, sua mão vai sentir a carne. E com essas palavras ela desapareceu.

No mesmo instante, ele soube que não tinha sido real, que esta era possivelmente, o início da loucura. Mas ele não se importava. Embora não fosse real, ela estava certa.
Imediatamente ele foi em busca de sua vítima. Encontrou-a em pé à beira de um grupo ao redor do cadáver de seu pai. Alice Nemerov perto do cadáver e Neil Anderson também estava lá, delirando. Orville não prestou atenção a nada disso. Então Flor, como se estivesse sentindo sua intenção,  correu loucamente pelos túneis escuros da Planta.
Ele a seguiu. Desta vez, faria o que devia ser feito, cuidadosamente rápido e com um machado.



Pressionando a polpa dura e crocante da casca do fruto entre as palmas das mãos, Flor foi capaz de espremer algumas gotas de água oleosa. Mas era quente nesta profundidade e mal conseguiu reavivar Alice. Começou novamente a massagear as mãos finas da velha, seu rosto, a carne flácida dos braços. Mecanicamente repetiu as mesmas palavras de conforto:
"Querida Alice, por favor...Tente acordar, tente...Alice, é Flor... Alice?... Está tudo bem agora. Oh, por favor!"
A mulher parecia estar consciente, pois gemia.
"Você está bem? Alice?"
Alice fez um barulho. Quando falava, quando podia falar, sua voz estava anormalmente alta e estranhamente resoluta.
"Meu quadril. Eu acho...sim, está quebrado."
"Oh não! Oh, Alice! Isso... dói?"
"Como o inferno, minha querida."
"Porque ele fez isso? Por que Neil..."
Flor fez uma pausa, ela não se atreveu a dizer o que Neil tinha feito. Agora que Alice estava consciente, seu próprio medo caiu sobre ela novamente. Era como se ela tivesse revivido Alice apenas que poder ser capaz de dizer a ela, que o monstro não era real, apenas algo que ela tinha imaginado.
"Por que ele me jogou aqui em baixo? Porque, minha cara, o filho da puta assassinou seu pai, e porque eu sabia que era tolo o bastante para fazer isso. E acho que ele nunca gostou muito de mim."
Flor disse que não queria acreditar, que era um absurdo. Ela fez Alice dizer o que sabia, apelou para as evidências, refutou-as. Fez repetir cada detalhe da história, e ainda não acreditava. Seu irmão tinha falhas, mas não era um assassino.

"Ele me matou, não?" Era uma pergunta difícil de responder.
"Mas por que ele faria uma coisa dessas? Por que matar um homem que está quase morto? Não faz nenhum sentido. Não havia nenhuma razão."
"Foi por você, minha cara."
Flor quase podia sentir a respiração do monstro no pescoço.
"O que você quer dizer?" Ela agarrou a mão de Alice quase com raiva. "O que eu tenho com isso?"
"Porque ele deve ter achado que seu pai tinha a intenção de casar você e Orville Jeremiah."
"Papai...Eu não entendo!"
"Ele queria que Jeremias fosse o novo líder, para tomar seu lugar. Ele não queria isso, mas viu que teria que ser assim. Mas ele me proibiu de falar sobre isso. Eu lhe disse para esperar. Eu pensei que poderia mantê-lo vivo. Eu nunca pensei...".

Alice falava, mas Flor tinha parado de escutar. Ela entendeu agora o que seu pai queria lhe dizer e por que ele hesitou. Luto e vergonha inundaram-na: ela tinha se enganado com ele, ela sofrera sozinha. E ele só queria a sua felicidade, a felicidade que ela queria para si! Se ela pudesse voltar para pedir perdão, agradecer-lhe. Era como se Alice, por essas poucas palavras, acendesse todas as luzes na casa de seu pai e restaurasse a vida. Mas as palavras de Alice dissiparam essa ilusão.

"É melhor você tomar cuidado" disse ela severamente. "Não se atreva em confiar nele. Especialmente você."
"Oh não, não, você não entende. Eu o amo. E eu acho que ele me ama também."
"Orville não! É claro que ele te ama. Qualquer tolo pode ver isso. É com Neil que você deve prestar atenção. Ele é louco."
Flor não protestou. Ela sabia, melhor do que Alice, embora menos consciente até agora, que era verdade.
"E parte de sua loucura tem a ver com você."
"Quando os outros souberem o que ele fez, quando eu lhes contar..."
Flor não precisava dizer mais do que isso. Quando os outros souberem o que Neil tinha feito, ele
seria morto.
"É por isso que eu lhe disse. Então eles irão descobrir."
"Direi a eles mesmo. Nós temos que voltar. Agora. Aqui, coloque o seu braço em volta do meu ombro." Alice protestou, mas Flor não quis ouvir. A mulher era leve. Flor poderia levá-la se necessário.
Um grito angustiado separaram os lábios da mulher idosa, e ela empurrou o braço de Flor.
"Não, não, a dor...Eu não posso."
"Então eu vou buscar ajuda."
“Que ajuda? De quem? Um médico? Uma ambulância? Eu não pude ajudar seu pai a se recuperar de uma mordida do rato!" O som que penetrou acima delas foi mais eloquente do que quaisquer palavras que ela poderia ter pretendido dizer. Por um longo tempo Flor tocou os lábios dela para manter o silêncio. Quando sentiu que Alice estava pronta para ouvir, ela disse:
"Então eu só vou sentar aqui com você."
"E me ver morrer? Vai demorar um pouco. Não mais que dois dias, no entanto, e na maioria das vezes eu estarei fazendo esses barulhos terríveis. Não haveria conforto para mim. Mas há algo que você pode fazer. Se você for forte o suficiente."
"Seja o que for, eu vou fazê-lo."
"Deve prometer."
Pegou a mão de Flor e apertou em garantia. "Deve fazer por mim o que Neil fez por seu pai."
"Matar você? Não! Alice, você não pode me pedir isso."
"Minha querida, eu fiz isso no meu tempo para aqueles que pediram. Alguns deles tinham menos razão do que eu. Uma seringa de ar, e a dor..."
Neste momento ela gritou.
"Flor, eu lhe peço."
"Alguém pode vir. Nós faremos uma maca."
"Sim, alguém pode vir. Neil pode vir. Você pode imaginar o que ele faria se ele me encontrasse ainda viva?"
"Não, ele não o fará!" Mas imediatamente ela sabia que ele faria.
"Você deve, minha querida. Vou fazer que cumpra a sua promessa. Mas beije-me em primeiro lugar. Não, não assim, nos lábios."
Os lábios trêmulos de Flor pressionaram contra os de Alice, rígidos com o esforço para conter a dor.
"Eu amo você" sussurrou. "Eu amo você como minha própria mãe."
Então ela fez o que Neil tinha feito.
O corpo de Alice se afastou instintivamente, um protesto irrefletido e Flor soltou-a.
"Não!" Alice suspirou. "Não me torture, faça-o!"
Flor não soltou até a velha estar morta.
A escuridão cresceu mais escura, e Flor pensou que podia ouvir alguém descendo pelas vinhas da sobrecarregada raiz. Houve um ruído alto quando um corpo desceu pela polpa da fruta.
Flor sabia que era o  monstro: e ele se pareceria com Neil.
Ela gritou e gritou e gritou.
E o monstro tinha um machado.


"Retorne logo" ela implorou.
"Eu prometo."
Buddy abaixou-se para sua esposa, errando os lábios na escuridão (a luz, por ordem de Neil, fora ficar com o corpo do velho) e beijando o nariz em seu lugar. Ela riu feminina. Então, com um excesso de cautela, ele tocou um dedo no braço de seu filho pequeno.
"Eu amo você", disse sem se preocupar em definir se estava se dirigindo a ela ou a criança, ou talvez ambos. Ele não reconhecia a si mesmo. Ele só sabia que, apesar dos terríveis acontecimentos dos últimos meses e, especialmente da última hora, sua vida parecia de alguma forma ter ganho um significado que não tinha há anos. As considerações sombrias não poderiam diminuir a plenitude de suas esperanças, nem diminuir o brilho da sua satisfação.
Mesmo no pior desastre, na maior das derrotas, a máquina da alegria continuava a moagem para alguns poucos felizardos.

Maryann parecia mais consciente do que ele em seu pequeno círculo encantado, pois ela murmurou:
"Que coisa terrível."
"O quê?" Buddy perguntou. Sua atenção estava nos dedinhos minúsculos de Buddy Junior.
"Alice. Eu não consigo entender por que ele fez aquilo.”
"Ele é louco" disse Buddy movendo-se relutantemente para fora do círculo.
"Talvez ela o tenha xingado. Ela tem, ela tinha, uma língua afiada, você sabe. Quando ele voltar, eu vou ver o que houve. Sabe-se lá que idiotice ele fará a seguir. Orville vai ajudar, e há outros também.”
“Mas ele tem uma arma e nós não. E o importante agora é encontrar Flor."
"Claro que sim. Isso deve vir em primeiro lugar. É que é uma coisa tão terrível."
"É uma coisa terrível" ele concordou. Ele podia ouvir Neil chamando-o de novo.
"Eu tenho que ir agora." Ele começou a se afastar.
"Eu queria que a luz estivesse aqui, para que eu poder vê-lo mais uma vez."
"Parece que você não acha que eu vou voltar."
"Não! Não diga isso, nem mesmo de brincadeira. Você vai voltar. Eu sei que você vai. Mas Buddy?"
"Maryann?"
"Diga mais uma vez."
"Eu te amo".
"E eu te amo."
Quando ela teve certeza de que ele se fora, acrescentou: "Eu sempre te amarei."


Os vários membros do grupo de busca seguiam seu caminho através do labirinto de raízes divergentes sobre uma única corda fina, trançada por Maryann a partir da fibra do cipó. Quando qualquer membro do grupo separava-se do corpo principal, amarrava sua própria bobina de corda na corda comum, que levaram de volta para o tubérculo, onde Anderson estava deitado ao lado da luz vigilante.
Neil e Buddy desceram para mais distante ao longo da corda comum. Quando perceberam estavam em um cruzamento de novas raízes. Buddy atou uma extremidade de sua corda para o final da linha principal e saiu para a esquerda. Neil fez o mesmo para a direita, mas por uma curta distância.
Depois sentou-se para pensar.

Neil não confiava em Buddy. Nunca confiou. Agora que seu pai morrera, ele não teria que confiar ainda menos? Pensou que era tão inteligente quanto, e Buddy fez aquele moleque. Como ele era o único homem no mundo que nunca teve um filho? Neil o odiava por outros motivos também, que iam longe em sua mente. Não seria presumível que Neil Junior, se viesse a existir, seria o resultado de outras sementes que não a sua. Isso era um pensamento que não tinha tido ainda.
Neil estava preocupado. Percebeu que vários dos homens haviam mostrado uma resistência à sua autoridade, e esta resistência parecia mais forte em Buddy. Um líder não pode permitir que a sua liderança seja desafiada. Seu pai sempre foi duro sobre isso. Não parecia fazer qualquer diferença para Buddy que Anderson escolhesse Neil para assumir por ele. Buddy tinha sido sempre um selvagem, um rebelde, um ateu. Isso é o que ele era! Neil pensou surpreso com o quão perfeitamente a palavra definiu tudo em seu irmão. Um ateu! Por que não percebera isso antes?

De uma forma ou de outra, ateus tinham que ser excluidos. Devido ao ateísmo ser como um veneno no reservatório da cidade, como... Mas Neil não conseguiu lembrar do resto. Havia passado um longo tempo desde que seu pai tinha dado um bom sermão contra o ateísmo e contra a Suprema Corte.
Na esteira desta percepção outra nova idéia veio para Neil. Foi para ele uma verdadeira inspiração, uma revelação, quase como se o espírito de seu pai descesse do céu e sussurrasse em seu ouvido.

Ele ligaria a linha de Buddy em círculo! Então quando Buddy tentasse voltar, acabaria seguindo a corda em círculo. Uma vez que você entendesse o conceito básico, era muito simples.
Havia um percalço no entanto, quando você pensava sobre isso com cuidado.
Uma parte do círculo estaria aqui, neste cruzamento, e Buddy poderia talvez, descobrir o final da linha principal, onde ainda estava atado Neil. Mas não se o círculo não chegasse neste cruzamento!

Rindo de si mesmo, retirou o nó da corda de Buddy e começou a seguir enrolando a corda para cima à medida que avançava. Quando percebeu que ele tinha voltado o suficiente, amarrou ao longo de um ramo menor da raiz, desenrolando a corda enquanto engatinhava junto. Esta raiz pequena ligada a outra igualmente pequena, e dai para outra. As raízes da planta iam sempre circulando em torno de si, e se você ficasse só girando na mesma direção, você geralmente voltava ao ponto onde começou.
E com certeza Neil logo estaria de volta à raiz maior, onde ele pegou a linha de Buddy.
Buddy provavelmente não iria muito longe.

O truque de Neil estava indo  esplendidamente bem. Tendo quase chegado ao final do comprimento da corda, ele atou à outra extremidade que formava um círculo perfeito. Agora, Neil pensou com satisfação, deixaria-o tentar encontrar o caminho de volta.
Que tentasse! O ateu!
Neil começou a andar para trás a maneira que ele tinha vindo, usando a corda de Buddy como uma guia, rindo por todo o caminho.

Só então ele se notou que havia algum tipo de lodo engraçado sobre suas mãos e suas roupas também.



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