sábado, 2 de julho de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 17)



Para baixo a seiva se transformava num dilúvio. Empurrava os corpos uns contra os outros ou para longe tão casualmente como enchentes levam consigo as árvores da margem do rio.
Fortes correntes atirava-os contra as paredes da raiz onde as curvas eram muito traiçoeiras ou muito íngremes.

Dias de escalada foram retraçados em minutos.

Ainda mais para baixo a seiva tornou-se mais grossa, como o pudim antes de alcançar uma fervura. Mas o ritmo não abrandava. Era como descer uma pista de esqui em um pedaço de papelão. Pelo menos eles não precisavam se preocupar em repetir o erro: não era mais possível se mover contra a correnteza em direção ao lago.

Nessa profundidade, havia agora trechos inteiros onde a seiva quente enchia o vazio da raiz. Conseguindo uma golfada de ar, Orville (que era sempre o primeiro a testar qualquer nova passagem), seguia a corrente sem resistir e com esperança. Havia sempre algum ramo alimentado pela raiz inundada acima, pequena demais para subir através dela, talvez, mas grande o suficiente para enfiar a cabeça e obter ar. Mas da próxima vez, é claro, poderia não haver tal abertura. Poderia ser um beco sem saída.

Esse medo, que a corrente estivesse levando-os a um beco sem saída, tomava toda a sua atenção.
Mais e mais vezes seus corpos eram arrastados para enredar-se nas redes dos capilares inchados de seiva que margeavam as passagens inexploradas. Uma vez Orville fora pego na rede, onde a raiz tinha dividido abruptamente em dois. Buddy e Flor logo atrás, encontraram-no, as pernas movendo-se na correnteza. Sua cabeça batera contra a rígida cunha que separa os dois ramos da raiz. Ele estava inconsciente, talvez afogado. Eles o puxaram pela perna da calça mas ela deslizou pelos quadris estreitos. Então cada um pegou um pé e o puxaram para fora. A uma curta distância encontraram uma área onde a raiz ligeiramente inclinava para cima, apenas a metade sob a seiva. Buddy abraçou Orville em um abraço de urso e começou a empurrar o líquido para fora de seus pulmões ritmicamente. Então Flor tentou a respiração boca-a-boca, que tinha aprendido nas aulas de natação na Cruz Vermelha.

"O que você está fazendo?" Neil perguntou nervoso.
"Ela está fazendo respiração artificial" Buddy respondeu irritado. "Ele quase se afogou lá atrás."
Neil colocou os dedos entre a boca de Orville e Flor e em seguida, segurou firmemente Orville.
"Você está beijando-o!"
"Neil!" Flor gritou. Ela tentou arrancar os dedos do irmão, mas mesmo o desespero não emprestava-a força suficiente. Ninguem consegue permanecer desesperado tanto tempo, e ela passara desse limite há muito tempo.
"Vou matá-lo!"
Buddy desferiu um golpe na direção onde deveria estar Neil, mas resvalou no ombro de Orville. Neil começou a arrastar o corpo de Orville para longe.
"Ele nem está de calças" disse Neil irritado.
"Ela saiu quando estávamos puxando-o. Dissemos para você, lembra?"

A privação repentina de oxigênio, vindo depois dos seus esforços de revitalização, provou ser exatamente o estímulo necessário para Orville.Quando o corpo que estava carregando começou a se mexer, Neil soltou-o assustado. Havia pensado que Orville estava morto, ou quase.
Buddy e Neil então tiveram um longo debate sobre a nudez (quer no caso particular de Orville e em geral) presente, em excepcional circunstâncias. O argumento foi sobretudo um pretexto para Buddy dar uma chance de Orville recuperar suas forças.
"Você quer voltar para o superfície" Buddy perguntou "ou quer ficar aqui e se afogar?"
"Não!" Disse Neil, mas mais uma vez. "Não está certo. Não!"
"Você tem que escolher!"
Buddy ficou contente por saber que poderia jogar com os medos de Neil tão facilmente quanto uma gaita.
"Porque se vamos subir, vamos ter que ir juntos, e vamos precisar de algum tipo de corda."
"Tinhamos uma corda."
"E você a perdeu Neil."
"Eu não. Eu não!"
"Bem, você foi o último que teve ela na mão e agora ela se foi. Agora precisamos de uma outra corda. Claro, se você não se importar em voltar... Ou se acha que pode fazer melhor".
Eventualmente Neil concordou.
"Mas Flor não vai tocá-lo, entendeu? Ela é minha irmã. Entendeu?"
"Neil, você não precisa se preocupar com isso até estarmos todos em casa, seguros" Buddy comtemporizou.
"E eles não devem falar mais uns com os outros também. Porque se eu digo assim, assim vai ser. Flor, você vai na minha frente e Buddy atrás. Orville por último".

Neil, nu agora exceto para cinto e coldre, atou as pernas das suas calças juntas, e cada um fez o mesmo apertando-as na corda improvisada.
A água era profunda e tão quente que a pele parecia estar saindo de seus ossos, como uma galinha que ferve por muito tempo.
A correnteza estava enfraquecendo, porém, avançavam mais lentamente.

Logo eles haviam encontrado uma abertura de raiz acima a partir do qual a água que jorrava dali não era muito pior do que quando tinham notado primeiramente... há quantos dias?
Cansados, quase mecanicamente, começaram a subir novamente.
Flor lembrou de uma canção do berçário da escola sobre uma aranha atingida pela água da chuva:

Então o sol saiu e levou a  chuva embora, e a pequena aranha começou a subir novamente.

Ela começou a rir, como havia feito com as estranhas palavras do poema de Jeremias, mas desta vez ela não conseguia parar de rir, apesar do quanto o riso lhe doia.
De todos eles, Buddy era o mais chateado com isso, pois ele podia se lembrar do inverno anterior na Sala Comum, e as pessoas que no descongelamento da neve, rindo e cantando, pessoas que nunca mais veria. O riso de Flor não era diferente dos deles.

A raiz naquele ponto se abria em um tubérculo da fruta, e eles decidiram descansar e comer. Orville tentou acalmar Flor, mas Neil disse para ele calar a boca. A polpa agora estava semi-líquida, caia em suas cabeças e ombros como os excrementos de grandes aves com diarreia.

Neil estava dividido entre seu desejo de ir para onde o barulho do riso de sua irmã não iria perturbá-lo e um desejo igualmente forte para ficar perto e protegê-la. Ele cedeu, movendo-se para uma distância média, onde podia deitar de costas, sem intenção de dormir, só para descansar o corpo...Sua cabeça caiu sobre o cabo do machado que Jeremias tinha deixado cair ali. Soltou um pequeno grito, que ninguém notou. Estavam todos cansados. Ele sentou-se por um longo tempo pensando, com os olhos doendo com o esforço de enxergar, embora não pudesse ver nada naquela escuridão.

A polpa amolecida continuava a cair de cima, respingando em seus corpos e no chão com sons crepitantes, como beijos de crianças.


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