sábado, 9 de julho de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 18)



QUINZE
SANGUE E LICORICE

Sua mão tocou o corpo morto dela. Buddy pensou no início que era o cadáver de seu pai, mas então se lembrou de como tinha uma vez tropeçado no mesmo corpo frio e experimentado o terror: havia um caminho de volta! Este era o fio que conduziria para fora do labirinto.

Percorreu o caminho de volta até Orville e Flor.
"Neil está dormindo?" Perguntou.
"Ele parou de fazer barulho" Orville disse. "Está dormindo ou está morto."
Buddy contou-lhes as novas. "...isso significa que podemos voltar pelo caminho que tentamos em primeiro lugar. Para cima. Foi um erro nosso voltar atrás."
"Aqui estamos nós, em um círculo completo. A única diferença agora" Orville observou "é que temos Neil conosco. Talvez o melhor a fazer fosse deixá-lo para trás. Podemos ir agora!".
"Eu pensei que tínhamos concordado em deixar os outros decidirem o que fazer com Neil."
"Nós não vamos acabar com ele. Estaremos deixando-o quase exatamente no mesmo lugar que o encontramos, capturado na armadilha que fez para você. além disso, podemos deixar o corpo de Alice em seu caminho, e ele pode descobrir por si mesmo que o caminho de volta é por onde ele a jogou para baixo."
"Não meu meio-irmão. Não Neil. Ele só se assustará ao encontrar o corpo. Descobrir o caminho de volta para ele seria o mesmo que esperar que descubrisse o teorema de Pitágoras sozinho. Inferno, aposto que se você tentasse explicar isso para ele, ele mesmo assim não acreditaria."
Flor, que tinha estado a ouvir tudo isso atordoada, começou a tremer, a tensão que o corpo dela tinha sofrido por tanto tempo começava a dissipar-se.
Era como no tempo em que ia nadar no lago; sua carne tremia, mas ao mesmo tempo sentia-se estranhamente rígida. Em seguida, seu corpo, nu e tenso, de repente foi pressionado contra Orville, e ela não sabia se ele tinha vindo até ela ou ela até ele.

"Querida, nós vamos conseguir voltar! Nós vamos...depois de tudo! Oh, minha querida!"
A voz estridente de Neil veio da escuridão: "Eu ouvi isso!"
Embora ela pudesse ouvir Neil à frente, Flor sustentou o beijo desesperadamente. Seus dedos apertados nos braços musculosos de Orville. Seu corpo esticado para a frente. Em seguida, uma mão fechada em torno da boca e outra em torno de seu ombro a puxou para longe de Orville, mas ela não se importou. Ela ainda estava atordoada com a felicidade, e imprudente era o amor.

"Eu suponho que você estava dando-lhe mais respiração artificial?" Neil zombou.
Foi talvez sua primeira piada autêntica.
"Eu estava beijando ele" Flor respondeu orgulhosamente. "Estamos apaixonados".
"Eu o proíbo de beijá-lo!" Neil gritou. "Eu a proíbo de estar apaixonada. Proíbo!"
"Neil, me solte!" Mas suas mãos se fechavam ainda mais apertado.
“Você...Jeremias Orville! Vou dar um jeito em você. Você... eu tenho observado você o tempo todo. Vem enganado muita gente, mas nunca me enganou. eu sabia o que você estava fazendo. Eu vi o jeito que você olhou para Flor. Bem, você não vai consegui-la. O que você vai conseguir é uma bala em sua cabeça."
"Neil, solte-me. Você está me machucando."
"Neil" Buddy disse em um tom baixo, o tom que se adota com animais assustados, "essa menina é sua irmã. Você está falando como se ele tivesse roubado sua namorada. Ela é sua irmã."
"Ela não é."
"O que diabos você quer dizer com isso?"
"Quer dizer que eu não me importo!"
"Seu sujo."
"Orville, é você? Por que não vem aqui, Orville? Eu não vou deixar Flor ir embora. Você vai ter que vir resgatá-la. Orville?"

Ele puxou os braços de Flor para trás das costas e agarrou os pulsos finos com a mão esquerda. Quando ela lutou, torceu os braços para cima dolorosamente algemado-a com a mão livre. Quando ela parecia pacificada, ele tirou o Python do coldre, como quem tira uma jóia do porta-joias amorosamente.

"Vem cá Orville, e veja o que eu tenho para você.”
"Tenha cuidado. Ele tem uma arma!" gritou Buddy. "A arma do Pai."

A voz de Buddy veio mais da direita do que Neil tinha esperado. Jogou seu peso a frente, mas não estava realmente preocupado, porque tinha uma arma e eles não.
"Eu sei" disse Orville.
Um pouco para a esquerda. O espaço dentro deste tubérculo era longo e estreito, muito estreito para virem pelos lados.
"Eu tenho algo para você também Buddy, se você acha que vai escapar depois que o cérebro do seu amigo pular para fora. Eu tenho um machado."
Ele riu uma risada feia.
"Ei! É uma piada Buddy...amigo, entendeu?"
"É uma droga de piada, Neil. Se você quer melhorar sua personalidade, não deve fazer piadas."
"Isso é apenas entre Orville e eu, Buddy. Vá embora ou... ou eu vou cortar sua cabeça fora, isso é o que vou fazer."
"É? Com o que? Com seus dentões?"
"Buddy" Orville advertiu, "ele pode ter encontrado o machado. Eu o trouxe comigo."
Felizmente ninguém pensou em perguntar por quê.
"Neil, deixe-o ir. Deixe-o ou eu nunca vou falar com você de novo. Se você parar de agir desta forma, todos nós podemos ir para cima e esquecer que isso aconteceu."
"Não, você não entende Flor. Você não está segura ainda."
Seu corpo se inclinou para frente até que seus lábios estavam tocando os ombros dela e descansaram por um momento, sem certeza do que fazer. Em seguida, sua língua começou a lamber a polpa da fruta com a qual todo o seu corpo estava coberto. Ela conseguiu a gritar.
"Quando você estiver segura, eu vou deixar você ir, eu prometo. Depois, você pode ser minha rainha. Haverá apenas nós dois e o mundo inteiro. Nós vamos para a Flórida, onde nunca neva, nós dois."
Ele falou com eloqüência natural, pois tinha parado de pensar sobre o que disse, e as palavras saíram de seus lábios sem censura, pelos mecanismos defeituosos da consciência. Era mais um triunfo para o lado primitivo.
"Vamos deitar na praia, e você pode cantar, enquanto eu assovio. Mas ainda não mocinha. Não até que você esteja segura. Em breve."

Buddy e Orville pareciam ter parado de se mover a frente. Tudo estava quieto, exceto pelo pingar do fruto maduro. O sangue de Neil subira à cabeça, o efeito que o medo induz ao animal. Eles estão com medo de mim! pensou. Medo da minha arma! O peso da pistola na mão, o modo como seus dedos se curvavam em torno dela, a forma como um deles pressionava o gatilho, lhe proporcionou mais prazer  gratificante do que seus lábios tinham conhecido tocando o corpo da irmã.

Eles estavam com medo dele. Eles podiam ouvir sua respiração difícil e o som de Flor choramingando (que ela manteve apenas para que eles pudessem ouvi-la e avaliar sua distância), e ficaram para trás. Eles tinham muito desprezo por Neil e estavam prontos para arriscar suas vidas desesperadamente contra ele. Certamente havia alguma maneira de enganá-lo.
Talvez se ficasse com raiva o suficiente, faria algo tolo desperdiçando sua única bala em um ruído no escuro ou soltasse Flor.

"Neil" sussurrou, "todo mundo sabe sobre você. Alice disse a todos o que você fez."
"Alice está morta" Neil zombou.
"Seu fantasma!" Buddy assobiou. "Seu fantasma está aqui procurando por você. Por conta do que você fez para ela".
"Ah, isso é um monte de besteira. Eu não acredito em fantasmas".
"E por causa do que você fez ao Pai. Isso foi uma coisa terrível de se fazer, Neil. Ele deve estar com raiva de você. Deve estar procurando por você também. Ele não vai precisar de uma lâmpada para encontrá-lo.”
"Eu não fiz nada!"
"O Pai sabe. Alice sabe também, não é? Todos nós sabemos. Foi assim que você obteve a pistola Neil. Você matou para obtê-la. Matou seu próprio pai. Qual é a sensação de fazer algo assim? Diga-nos. O que ele disse no último momento?"
"Cale-se! Cale a boca!"

Quando começou a falar mais uma vez, tinha o mesmo tom estridente de novo, enquanto a voz parecia estar chegando mais perto dele. Em seguida ficou quieto de novo, o que era pior. Neil começou a encher o silêncio com suas próprias palavras: "Eu não o matei. Por que eu iria querer fazer isso? Ele me amava mais do que amava qualquer outra pessoa, porque eu era o único que sempre lutava por ele. Eu nunca fugi, não importa o quanto eu queria fugir. Nós éramos amigos, o Pai e eu. Quando ele morreu..."
"Quando você o matou!"
"É isso mesmo, quando eu matei ele, ele disse: Agora você é o líder Neil. E ele me deu sua arma. Essa bala é para Orville, disse ele. Pai, eu disse, farei qualquer coisa que você mandar. Nós sempre fomos amigos, o Pai e eu. Eu tinha que matá-lo, você entende, não? Ora, ele teria casado a Flor com Orville. Ele disse isso. Pai, eu disse, você tem que entender...Orville não é um de nós! Eu expliquei isso com muito cuidado, mas ele só ficava ali e não dizia nada. Ele estava morto. Mas ninguém se importava. Todo mundo odiava ele, exceto eu. Nós éramos amigos, o Pai e eu. Camaradas".

Era evidente, para Orville, que o estratagema de Buddy estava falhando em seu efeito desejado. Neil estava além do ponto de que poderia ser abalado. Ele estava no limite.

Enquanto Neil falava, Orville avançou, agachado, com a mão direita explorando o ar a frente dele, feito os bigodes de um rato. Se Neil não estivesse segurando Flor, ou se não tivesse uma arma, seria uma simples questão de correr abaixado e acertá-lo. Agora era necessário, para seu próprio bem, mas mais especialmente por Flor, desarmá-lo ou se certificar de que seu disparo se perdesse.
A julgar por sua voz, Neil não podia estar longe. Balançou a mão em arco lentamente, e encontrou não a arma, não, mas a coxa de Flor.
Ela não o traiu com sua surpresa, não fez o menor ruído.
Agora seria fácil arrancar a arma da mão de Neil. A mão de Orville se estendeu para cima e para a esquerda: ele deveria estar aqui.
O metal do cano da arma tocou a testa de Orville.
A arma fez um contato tão perfeito que Orville podia sentir o orifício côncavo, dentro de um círculo de metal frio.
Neil puxou o gatilho. Houve um som de clique. Puxou o gatilho novamente. Nada.
Dias de imersão na seiva haviam umedecido a pólvora.
Neil não entendeu porque a arma falhou, mas após o outro clique, estava ciente do que tinha ocorrido. O punho de Orville veio-se em seu plexo solar e desviou na caixa torácica.  Neil tombou para trás e a mão que segurava a pistola desceu com força total, onde ele supostamente achava que estaria a cabeça de Orville.
A coronha chocou-se contra algo duro. Orville fez um gemido.
Sorte...Neil teve sorte. Ele bateu de novo em algo macio. Nenhum ruído. O corpo de Orville estava aos seus pés. Flor tinha conseguido escapar, mas Neil não se importou com isso agora.
Ele tirou o machado de seu cinturão, onde tinha estava preso, o cabeça chata contra o seu estômago, o cabo cruzando sua coxa esquerda.

"Você fique longe Buddy, está ouvindo? Ainda tenho um machado.”
Em seguida, ele pulou na barriga de Orville e em seu peito, mas sem sapatos não conseguiria ferí-lo, então sentou-se em sua barriga e começou a bater-lhe no rosto com os punhos.
Neil estava fora de si. Ele ria, como ele ria!
Mas mesmo assim parava em intervalos para brandir na escuridão o machado.
"Whoop-xixi!" ele gritava. "Whooppee!"
Alguém estava gritando. Flor.

A parte mais difícil era manter Flor calma. Ela não queria parar.
"Não!" Buddy disse. "Você vai se matar. Não sei o que fazer. Ouça-me, pare de gritar e escute.”
Ele a balançou. Ela se acalmou.
"Eu posso manter Orville longe dele, então deixe-me fazê-lo. Enquanto isso, você vai até o caminho onde estivemos antes. Ao longo do desvio. Você se lembra do caminho?"
"Sim.”
"Você vai fazer isso?"
"Sim. Mas você tem que levar Jeremias para longe dele.”
"Então eu vou esperar para ver você lá em cima. Vá em frente agora."
Buddy tinha pego o cadáver rígido e podre de Alice, quando Orville correu como um tolo e estragou tudo.
Ele avançou alguns metros na direção da voz de Neil, parou, agarrou o corpo da velha junto ao peito como uma armadura.

"Oooow"  gemeu.
"Buddy" Neil gritou de pé erguendo o machado "vá embora!"
Mas Buddy só fazia a mesma bobagem de gemidos e suspiros que as crianças fazem brincando de fantasma em uma noite de verão ou em um sótão escuro.
"Não pode me assustar" disse Neil. "Eu não tenho medo do escuro."
"Não sou eu, juro" Buddy disse calmamente. "É o fantasma de Alice. Ela está vindo te pegar. Você não pode sentir o cheiro?"
"Ah, isso é um monte de besteira" Neil respondeu.
O gemido recomeçou. Ele ficou na dúvida, se retornava para Orville ou ia atrás de Buddy.
"Pare com isso" gritou: "Eu não gosto desse barulho".

Ele podia sentir o cheiro! O cheiro de seu pai quando estava para morrer!
A investida de Buddy dera resultado. O cadáver atingiu Neil com força total. Uma mão endurecida acertou os olhos e a boca, rasgou-lhe o lábio.
Ele caiu agitando o machado descontroladamente. O cadáver fez um som horrível. Neil gritou também. Talvez fosse apenas um grito de todos, Neil e o cadáver juntos. Ele rolou e outra vez ficou de pé. Ainda tinha o machado.
Em vez de Orville, havia alguém debaixo de seus pés. Ele sentiu a face rígida, os cabelos, os braços inchados. Era Alice. Ela não estava mais amarrada e algo estava saindo de sua boca.
Alguém estava gritando. Neil.
Ele gritou o tempo todo, cortando o corpo da mulher morta.
A cabeça caiu de um só golpe de machado. Ele dividiu o crânio com outro.
Enterrou o machado várias vezes em seu dorso. Uma vez o machado caiu e feriu-lhe o tornozelo, um golpe feio. Ele caiu, e o corpo desmembrado cedeu debaixo dele como fruta podre. Ele começou a rasgá-lo com as mãos. Quando não havia mais possibilidade de feri-lo novamente, ele se levantou, respirando pesadamente e gritou, não sem uma certa reverência: "Flor?"
Estou bem aqui.
Ah, ele sabia que ela ia ficar para trás, ele sabia! "E os outros?" Perguntou.
Eles foram embora. Eles me disseram para ir embora também, mas eu não fui. Eu fiquei para trás.
"Por que você fez isso, Flor?"
Porque eu te amo.
"Eu também te amo Flor. Eu sempre te amei. Desde que você era apenas uma criança".
Eu sei. Vamos embora juntos. Sua voz cantarolava embalando-o, sua mente cansada como um berço. Em algum lugar longe daqui, onde ninguém possa nos encontrar. Florida. Nós vamos viver juntos, só nós dois, como Adão e Eva, e pensar em novos nomes para todos os animals.
Sua voz ficou mais forte, mais clara e mais bonita. Vamos navegar em um bote inflável pelo Mississippi. Apenas nós dois. Noite e dia.
"Oh" disse Neil.
Começou a caminhar em direção à bela voz.
"Oh, continue." Ele estava andando em círculos.
Eu vou ser sua rainha e você vai ser meu rei, e não haverá mais ninguém no mundo.
Sua mão tocou sua mão. Sua mão tremia.
Beije-me, disse ela. Não é isso que você sempre quis?
"Sim".
Seus lábios procuraram os lábios dela. "Oh, sim.”
Mas a cabeça, e portanto seus lábios, não estavam no lugar onde se esperaria que estivessem. Não estava em seu pescoço.
Finalmente ele encontrou a cabeça a alguns metros de distância.
Os lábios que provou ao beijá-la com gosto de sangue e licorice.
E por alguns dias, satisfez a luxúria de anos com a cabeça de Alice Nemerov, RN.


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