sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Como aprendi a parar de me preocupar com o futuro e passei a amar a Ficção Científica




Este artigo pretende ser tanto uma introdução ao conto 'Nebulous mechanisms' (Mecanismos nebulosos), quanto apresentar o conceito de prototipagem através da Ficção Científica (FC).

Na tradição do lendário Isaac Asimov, abordaremos a longa e simbiótica história entre o fato científico e FC.

Introdução

'Nebulous mechanisms', a história que acompanha esta introdução, é uma obra indiscutível de FC. Firmemente enraizado na rica história do gênero, está repleta do que você poderia esperar encontrar, estações espaciais, mineração de asteróides, viagens espaciais, robôs e uma boa e saudável dose de drama - todos os ingredientes para um bom e velho conto de FC. 'Nebulous mechanisms' contudo é um pouco mais do que apenas uma boa história, é um protótipo ficcional. A idéia fundamental do conto está baseada em um ensaio chamado 'Using Multiple personas in Service Robots to improve exploration strategies when mapping new Enviroments (Usando múltiplas personas em robótica para melhorar as estratégias de exploração quando mapeando novos ambientes) (Egerton, Callaghan, Clarke).

Usamos a história como um experimento intelectual para explorar a teoria e para examinar suas implicações no futuro imaginado. Pense nisso como uma realidade virtual no papel, projetado especificamente para testar as possíveis ramificações da teoria. 'Nebulous mechanisms' foi o primeiro de uma bem sucedida série de contos de FC baseada em teorias emergentes na pesquisa robótica, ciência da computação, artificial inteligência e na neurociência.

Nesta introdução eu queria falar um pouco da história da Prototipagem através da Ficção Científica, antes de você querer ir em frente e ler o conto. Eu não quero adiantar o final, mas você pode querer descobrir por que robôs no planeta anão Ceres 1 estão indo à igreja...

1) A ficção científica é a única e verdadeira literatura do século vinte (1).

A mistura de ficção científica e fato científico não é revolucionária, a relação simbiótica remonta centenas de anos atrás. Tem sido bem documentado que a FC inspirou gerações de cientistas, pesquisadores e até astronautas. O autor britânico de FC, inventor e futurista Arthur C. Clarke resumiu desta forma, em seu ensaio 'Aspects of Science Fiction' (Aspectos da ficção científica).

"Todos os pioneiros da astronáutica foram inspirados por Jules Verne, e vários (por exemplo, Goddard, Oberth, von Braun) escreveram ficção para popularizar suas idéias. E eu sei por experiência própria que muitos astronautas americanos e cosmonautas soviéticos foram inspirados para assumir suas carreiras por conta das histórias que leram quando crianças. (Uma de minhas posses que mais me orgulho é uma monografia, 'Wingless on Luna', com a dedicatória: "Para Arthur, que visualizava os nuances do vôo lunar antes de eu os ter experimentado! - Neil Armstrong”)” (2).

Como assinala Clark, o fato científico e a ficção tem sido mesclados explicitamente na maioria do século XX. Físicos e pioneiros de foguetes Robert Goddard, Hermann Oberth e Wernher von Braum usaram histórias como uma forma de divulgar os seus pensamentos, enquanto o astronauta Neil Armstrong foi inspirado e impulsionado pela ficção de Clark.

Na década de 1970 todo um subgênero de ficção científica surgiu em torno escritores alinhados com as chamadas "Hard sciences" (por exemplo, informática, astronomia, física, química, etc.) O autor norte-americano de FC, Alan Steele, definiu o subgênero como: "FC Hard é uma forma de literatura que utiliza tanto a ciência estabelecida ou cuidadosamente extrapolada como sua espinha dorsal." (3)
Muitos críticos vêem a FC Hard como a única e legitima ficção científica porque se baseia na ciência real, em oposição a FC Soft, ou mesmo pseudociência ou fantasia científica que aborda viagem no tempo, poderes extra-sensoriais e super-heróis. Independentemente como você se posiciona neste debate, é claro que a pesquisa, a teoria e a prática científica, têm um efeito considerável por vezes, polarizando a ficção científica.

O século XXI trouxe-nos algumas explorações fascinantes sobre a relação específica entre ficção científica e tecnologias que estão sendo criadas.

Genevieve Bell e Paul Dourish em seu artigo 'Resistance is Futile:Reading Science Fiction alongside Ubiquitious Computing ' (Resistir é inútil: A Leitura de Ficção Científica e  Computação Ubíqua) argumentam que o entendimento de ficção científica, no caso programas de TV populares britânicos e americanos como Dr. Who e Star Trek, são essenciais na concepção de novas tecnologias. Eles afirmam que a ficção científica pode ser utilizada como uma ferramenta para o design. O as visões futuristas da sci-fi expressas em programas de televisão podem ser usadas para entender a imaginação coletivo das pessoas quanto a como devem parecer as tecnologias do futuro, permitindo assim que os cientistas desenvolvam tecnologias e produtos que são facilmente compreendidas.

[Nota do tradutor: Computação ubíqua é definida como "máquinas que estão inseridas no ambiente humano sem forçar que nós entremos no ambiente delas".]

 "Indiscutivelmente, uma gama de tecnologias contemporâneas - de PDAs a telefones celulares - adotaram as suas formas e funções da ficção científica. Tal como no famoso caso do escritor britânico de ficção científica Arthur C. Clark e sua invenção "especulativa' das comunicações via satélite, a FC não somente antecipou, mas deu forma ao futuro tecnológico ao afetar o imaginário coletivo. Ao mesmo tempo, a FC na cultura popular fornece um contexto em que novos desenvolvimentos tecnológicos são facilmente entendidos. Visões forjadas na ficção científica aparecem como protótipos para cenários tecnológicos (4)

Julian Bleecker expandiu essa noção em sua ficção recente 'Design Future; A Short essay on design, science, fact and fiction' (Design futuro: Um breve ensaio sobre design, ciência, fato e ficção). Bleecker vê a interação entre a FC e a ciência como um terreno fértil para a inspiração e criações de protótipos físicos. Estas ferramentas de design são tanto reais e falsas, operacionais e simbólicas, sério e irônico. Bleecker os descreve como uma conflação "de design, ciência e FC ... a amálgama de práticas que juntas dirigem as expectativas do que cada uma faz por conta própria e as funde em algo novo." (5)

Como 'Design Future' de Bleecker, protótipos de ficção científica como 'Nebulous Mechanisms', procuram um meio termo produtivo entre ciência e ficção. Eles são uma nova lente através da qual as teorias emergentes podem ser vistas de uma forma diferente, livremente exploradas e, finalmente desenvolvidas. Bleecker faz uma excelente observação: "produtivamente, embaraçar ciência e ficção científica pode ser o único caminho para a ciência de verdade alcançar algo além de si mesma e conseguir mais do que as formas costumeiras de inovação incremental ". (6)
É precisamente esta fusão produtiva e a união de ciência e ficção que pode desbloquear, ampliar e expandir as fronteiras do pensamento científico atual.

2) Uma boa história de FC, acima de tudo, apresenta uma ideia poderosa. (7)

A abordagem para 'Nebulous Mechanisms' e histórias que praticam a prototipagem através da ficção científica, deve ser simples como uma história bem contada e tão complexa quanto a teoria científica em que se baseou.
Para compreender o funcionamento da protótipo de ficção científica é útil separar  o funcionamento do conto em si para entender melhor como o experimento é conduzido.

Alan Moore, autor de Watchmen e 'V for Vendetta' (V de Vingança), fez um trabalho eficiente ao dissecar a estrutura da narrativa em seu ensaio 'Writing for Comics'

(Escrevendo para quadrinhos). Ele descreve os componentes essenciais de uma história como enredo, ambiente, personagens e ritmo, mas central para cada história deve haver uma idéia. Para Moore, a história é construída sobre a idéia, é a razão de ser da história, é o que impulsiona todos os outros componentes. Todos os outros componentes da história servem para facilitar a compreensão da idéia central.

Aplicando o exemplo de Moore, a idéia em  'Nebulous Mechanisms' foi originada pelo ensaio  'Using Multiple personas in Service Robots to improve exploration strategies when mapping new Enviroments (Usando de múltiplas personas em robótica para melhorar as estratégias de exploração quando mapeando novos ambientes). Mas para o protótipo ser bem sucedido não podemos parar em uma idéia atraente. Os leitores devem aceitar o futuro imaginado como real, plausível e aceitável. Eles devem ser atraídos para o drama, a história deve prender a atenção do leitor; Manter um nível adequado de suspensão de descrença. Este nível de descrença pode ser usado como um teste da validade do protótipo.

O leitor acredita naquele mundo? A ciência está invisível na ação escondida sob a capa da ficção?

Moore descreve a necessária suspensão da descrença desta forma:

"A meu ver, uma história de sucesso de qualquer tipo, deve ser quase como hipnose: Você fascina os leitores com sua primeira frase, atrai mais com a sua segunda frase e os coloca em um transe suave na terceira. Então, tomando cuidado para não acordá-los, você os carrega para os becos de sua narrativa e quando eles estão irremediavelmente absortos dentro da história,  rendidos a ela, você os pega violentamente com um bastão de softball, em seguida, levá-os choramingando até o fim na última página. Acredite em mim, eles vão te agradecer por isso. O importante é que o leitor não deve acordar até que você queira..." (8)

O sucesso do experimento está no equilíbrio tênue entre a credibilidade da história e da exploração da teoria científica. É dentro destes controles e balanços que podemos explorar a beleza da teoria científica amarrada ao drama realizável no mundo real.

3) Às vezes, um robô é apenas um robô

Nos últimos 50 as introduções das antologias sobre histórias de robôs dirão que a era deles chegou. Estamos rodeados de robôs que constroem nossos carros, pilotam nossos aviões, trabalham em nossas fábricas, em nossos elevadores e até mesmo bombardeiam nossos inimigos. Os robôs do mundo real evoluíram para além do "homem de metal" da ficção científica e tornaram-se ciborgues, IAs e outros agentes inteligentes. Thomas M. Disch na introdução para seu essencial exame da ficção científica, 'The  Dreams our stuff is made' diz que "o robô tem sido empregado para uma grande variedade de fins dramáticos (9).

Desde que Karel Capek cunhou o termo robô em sua peça de 1920, 'RUR' (Rossum's Universal Robots), os robôs têm sido largamente empregados por autores de ficção científica. Eles expressaram o nosso mais terrível temor sobre a desigualdade de gênero,  classe e raça. A partir dai se pensa que quando você vê um robô em qualquer história, então deve ser uma representação de algo mais.
Quem é o robô e o que faz deve significar alguma coisa.

Mas há alguns casos, como em 'Nebulous Mechanisms', um robô é concebido para ser apenas um robô. No início, havia basicamente dois tipos de histórias de robô.

O primeiro foi baseado no enredo básico faustiano de Frankenstein. Cientista cria robô.
Robô mata cientista. Muito simples. Isaac Asimov, no início de sua carreira reconheceu esta abordagem faustiana padrão.

"... Uma dos enredos mais comuns na ficção científica é o da invenção de um robô, geralmente retratado como uma criatura de metal, sem alma ou emoção. Sob a influência do destino final de Frankenstein ... parecia haver apenas um enredo. Robô é criado e destrói seu criador, robô é criado e destrói seu criador, robô é criado e destrói seu criador  ..." (10)

O segundo tipo de história de robô surgiu nos Estados Unidos em meados do século XX. Sam Moskowitz em sua introdução 'The Coming of the Robots' assinala que "Psicologicamente o tempo estava maduro para o assalto contra o preconceitos dos leitores sobre robôs. " (11)

Ele passa a descrever duas histórias semelhantes publicadas dentro de algumas semanas uma da outra em 1938. 'I Robot' por Eando Binder inverte o enredo de Frankenstein e 'Helen O'Loy' de Lester Del Rey, que apresenta um mundo onde os robôs progrediram tanto que são indistinguíveis dos seres humanos. Na história, dois amigos depois de comprar um robô, acham que o robô está amando um dos proprietários, Dave. Ambos são histórias pungentes e para pré-adolescentes. Helen O'Loy é descrita como "um sonho em plástico e metal." (12)

Em última análise, Helen que é incapaz de envelhecer, cuida de seu amor até o final, colocando linhas de idade em seu rosto e tingindo os cabelos de grisalho para pensar que está envelhecendo com ele.

Eu explorei temas similares em meu romance 'Fake plastic love' (Amor plástico de mentira), expandindo o conceito de Del Rey do robô doméstico na bela Ann-Mar, que se parece com a estrela do cinema americano Ann Margaret com o vocabulário de uma revista de fofocas. "Ela era basicamente uma garota dos sonhos... seu cabelo vermelho sintético era perfeito demais. Seus lábios também, com o permanente batom vermelho." (13) Ambos os robôs possuem interesses amorosos e ambos são descaradamente robôs, porem enquanto Helen se esforça para ser humana, Ann-Mar continua a ser inequivocamente um robô.

É neste ponto que chegamos a 'Nebulous Mechanisms'. Os robôs da história são realistas ou pelo menos representações realistas de robôs que se esforçam para ser mais do que o que são. Eles não aspiram a participar nos assassinatos de vingança de seus mestres Frankenstein nem se esforçam para "passar" ou tornar-se humano. Os robôs de 'Nebulous Mechanisms' são robôs e apenas isso,.

4) Como amar a Ficção Científica

Se você ainda não adivinhou, vou ser honesto com você, eu amo a Ficção Científica.
Dois dos meus maiores afetos são o rigor intelectual da investigação científica e o desenvolvimento de tecnologia, bem como uma boa e desafiadora história de FC.

A ficção científica é o playground do intelecto. Muitas pessoas se enganam quando pensam que o objetivo do gênero é o de prever o futuro. Se isso fosse verdade, então o a FC teria uma péssima reputação dado seus muitos enganos.
Não, a ficção científica cria não apenas um futuro único, mas vários futuros; uma grande variedade de Terras e inúmeras variações sobre a humanidade e a tecnologia. Se você olhar para trás, você verá que escritores de ficção científica se mantiveram por quase cem anos. Eles têm escrito sobre a era espacial, muito antes assim como após o ocorrido. Eles sonharam sobre os canais de Marte e as realidades desse planeta fascinante vermelho. Toda esta especulação e energia produziram um efeito interessante sobre você e eu.

Andy Sawyer capturou este efeito em seu ensaio 'Tales of Future Passed: A Kipling Continuum and other lost World of Science Fiction' (Contos do Futuro passado: O Continnuum de Kipling e outro Mundo Perdido da Ficção Científica).
Ele escreveu:

"Nós lemos muitas histórias envolvendo as primeiras viagens à Lua, colônias lunares e a exploração do espaço, agora que temos internalizado um conjunto virtual de histórias de viagens espaciais como resultado, não conseguimos entender completamente que de fato isso não aconteceu." (14)

Estes futuros que Sawyer descreve estão alojados em nossa história cultural coletiva.

O futuro e a ficção científica se misturaram em nossa educação e na imaginação a tal ponto que não há meio melhor para usar como uma plataforma para prototipagem de ficção. Prototipagem através da ficção científica nos permite criar múltiplo mundos e uma grande variedade de futuros para que possamos estudar e explorar os meandros da ciência moderna. São uma ferramenta poderosa destinada a melhorar as práticas tradicionais de pesquisa e design. As descobertas que fazemos com esses protótipos podem ser usados para questionar e explorar o pensamento atual em um nível jamais abordado no passado; ou seja, usando múltiplas realidades e futuros para testar as implicações e complexidades da teoria. Além disso, a resposta dada pode fornecer uma arquitetura de tecnologia da experiência do consumidor, investigação e formação como um usuário pode encontrar, explorar e, finalmente, usar essa tecnologia.

A Ficção Científica nos permite ver sob uma nova luz, à luz de um futuro novo, que não é nosso, mas reflete diretamente quem somos e para onde podemos estar indo e sob esta mesma lente quanto à ciência, permite-nos ver os múltiplos futuros a partir da teoria que estamos formulando hoje.

por Brian David Johnson


Mecanismos Nebulosos - Brian David Johnson [ Download ]




[1] J. G Ballard, Literary Review, 2001.
[2] A. C. Clark, Greetings, Carbon-Based Bipeds!, St Martin’s Press, 1999.
[3] A. Steel, Hard Again, New York Review of Science Fiction, 1992.
[4] P. Dourish, G. Bell, Resistance is Futile: Reading Science Fiction and Ubiquitous Computing. 2009.
[5] J. Bleecker, Design Fiction: A short essay on design, science, fact and fiction, 2009.
[6] J. Bleecker, Design Fiction: A short essay on design, science, fact and fiction, 2009.
[7] J.G. Ballard, Sunday Times, 1985.
[8] A. Moore, Alan Moore’s Writing for Comics, Avatar Press, 2008.
[9] T. M. Disch, The DREAMS OUR STUFF IS MADE OF: How Science Fiction Conquered the World, Free Press, 2000.
[10] I. Asimov, Introduction. The Rest of the Robots, Doubleday, 1964.
[11] S. Moskowitz, Introduction, The Coming of the Robots, Crowell-Collier Publishing Company, 1963.
[12] L.D. Rey, Helen O’Loy, Street and Smith Publications, 1938
[13] B. D. Johnson, Fake Plastic Love, iUniverse, 2007
[14] A. Sawyer, Tales of Futures Passed: The Kipling Continuum and other lost World of Science Fiction,
World Weavers: Globalization, Science Fiction and the Cybernetic Revolution (2006), p126