sábado, 10 de setembro de 2011

O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 5)





III


Talvez fosse melhor para a paz de espírito de todos se a emergência tivesse continuado. Mas com a energia e as luzes recuperadas e nada a fazer senão olharem uns para os outros, os cinco tripulantes da ponte começaram a ficar irrequietos.

Não havia lugar bastante para estender as pernas ou descansar. Um só dentre eles que se pusesse a andar de um lado para o outro ocuparia todo o espaço disponível do convés. Então, sem assunto, puseram-se a lustrar seus respectivos consoles, a consumir quantidades imoderadas de café pedido ao cozinheiro automático e a revolver o cérebro em busca de alguma ocupação que os impedisse de pensar na apertura em que se achavam metidos. De qualquer maneira, preferiam não especular em voz alta sobre o que pudesse existir do lado de fora, talvez até na vizinhança mais imediata da astronave.

De todos eles, só Ash parecia relativamente alegre. Sua única preocupação no momento era a condição mental dos seus colegas.
Não havia distrações a bordo. O Nostromo era um simples cargueiro, um rebocador, uma nave de serviço. Não um iate de recreio. Uma vez livre das tarefas que lhe incumbiam, sua tripulação passava o tempo nos confortáveis abismos do hipersono.
Era natural, por isso, que uma vigília ociosa causasse nervosismo, sobretudo em circunstâncias tão incertas.
Ash, no entanto, podia passar e repassar problemas teóricos no computador sem jamais entediar-se. Achava inclusive estimulante esse tempo acordado.

— Alguma resposta aos nossos chamados externos? — Perguntou o capitão, debruçando-se em sua cadeira para ver melhor o oficial de ciência.
— Já tentei todos os sinais que constam do manual mais a associação de idéias.Também deixei que a Mãe experimentasse uma abordagem estritamente mecanológica. Tudo pura perda de tempo — Ash sacudiu a cabeça e pareceu desapontado. — Sempre e exclusivamente o mesmo sinal de alerta, repetido a intervalos regulares. Todos os outros canais permanecem vazios. Tudo o que se pode captar é uma ligeira crepitação em... deixe-me ver... zero ponto três três. E apontou para cima com o polegar. — A Mãe diz que se trata da descarga característica da estrela central deste sistema. Se alguma coisa ou alguém está vivo, nada mais pode fazer senão enviar aquele sinal de alerta ou pedido de socorro, ou o que seja.
Dallas fez um barulho grosseiro.
— Temos plena potência agora. Vamos ver onde estamos afinal. Pise, aí, no chão.
Ripley acionou o comutador. Um colar de luzes poderosas, pérolas brilhantes no engaste tenebroso do Nostromo, acendeu-se do lado de fora das escotilhas.

O vento e o pó cósmico ficaram mais evidentes então, formando às vezes pequenos redemoinhos no ar, soprando às vezes em linha reta com incrível força na linha visual deles. Rochas isoladas, protuberâncias e crateras eram os únicos acidentes na paisagem devastada. Nenhum sinal de vida, nem um traço de líquen, nenhum arbusto mesmo enfezado, nada.
Só o vento e o pó, girando na noite alienígena.

— E o tal oásis? — disse Kane, baixinho.

Nada. Desolação monótona, inóspita.
Dallas levantou-se, caminhou até uma escotilha e ficou a contemplar a tempestade incessante, as lascas de rocha que ricocheteavam contra o vidro espesso. Perguntava-se se jamais o ar se aquietaria num planeta desses. Por tudo o que tinham logrado saber das condições locais, o Nostromo poderia muito bem ter descido num claro dia de verão. Mas isso era improvável. Aquele globo não tinha dimensões suficientes para produzir condições meteorológicas deveras violentas, como as de Júpiter, por exemplo. Consolava-se até certo ponto com isso, isto é, com a convicção de que o tempo lá fora não podia ficar muito pior. As peculiaridades do tempo no lugar foram, inevitavelmente, o principal assunto das conversações.

— Não podemos sair. Não podemos ir a lugar nenhum com um tempo desses — disse Kane. — Pelo menos, não no escuro.
Ash levantou pela primeira vez os olhos do seu console. Não se mexera. Parecia feliz, física e mentalmente. Kane não podia entender como o oficial de ciência conseguia isso. Se ele mesmo não tivesse deixado, várias vezes, sua própria estação, já estaria louco àquela altura.
Ash percebeu o olhar do chefe, e forneceu alguns dados tentadores:

— A Mãe diz que o sol local nasce dentro de vinte minutos. Se nos decidirmos a ir a alguma parte, não será nas trevas.
— Já é alguma coisa — admitiu Dallas, agarrando-se àquela última gota de encorajamento. — Se esses que nos chamaram não dizem mais ou se não podem dizê-lo, cabe a nós irmos em busca deles. Ou do objeto sinistrado, se a pulsação que ouvimos for apenas automática. A que distância estamos da fonte transmissora?
Ash analisou suas leituras e ativou uma plotadora ao nível do solo para confirmação.
— A cerca de três quilômetros, quase tudo em terreno plano, tanto quanto os examinadores automáticos são capazes de descobrir. A fonte transmissora está a nordeste da nossa presente posição.
— Composição do terreno?
— Parece ser a mesma que determinamos grosso modo na descida. A mesma matéria dura sobre a qual estamos pousados agora. Tudo basalto maciço, com variações menores. Embora eu não exclua a priori a possibilidade de encontrar alguns bolsões amigdaloidais, aqui e ali.
— Teremos cuidado, então.
Kane conferia mentalmente distâncias e prováveis tempos de percurso.
— Pelo menos, é suficientemente perto para irmos a pé.
— Sim — Lambert parecia satisfeita. — Eu não gostaria de mover a nave. Uma descida vertical, de órbita para terra, é infinitamente mais fácil de planejar que um deslizamento na superfície com um tempo desses.
— OK. Sabemos pelo menos em que solo vamos pisar. Resta descobrir o que teremos de atravessar. Ash, por favor: uma análise preliminar da atmosfera.

O oficial de ciência acionou os seus botões. Uma pequena vigia se abriu como uma boca na pele do Nostromo. Por ela um frasco de metal foi exposto ao vento, sugou uma porção infinitesimal da atmosfera daquele mundo, e recolheu-se.
A amostra foi despejada numa câmara de vácuo. Instrumentos dos mais sofisticados puseram-se a esquadrinhá-la, parte por parte. E em breve essas partes de ar começaram a aparecer sob a forma de números e símbolos nas janelas do console de Ash.
Ele as analisou rapidamente, pediu a repetição de uma leitura, depois apresentou um sucinto relatório aos companheiros.
— A mistura é quase primitiva. Grandes quantidades de nitrogênio inócuo, algum oxigênio, alta concentração de dióxido de carbono em liberdade. Há também metano e amônia, uma parte em estado congelado... Faz frio, senhores, lá fora. Vou examinar agora com maior detalhe os diversos elementos constituintes, mas não espero qualquer surpresa. Tudo me parece standard — e, naturalmente, irrespirável.
— Pressão?
— Dez ao quarto dinas por centímetro quadrado. Não nos deterá ou atrasará, a não ser que o vento realmente se desencadeie.
— E a umidade? — quis saber Kane, em cuja mente as imagens de um oásis extraterreno começavam a desvanecer-se, como se desvanecem, via de regra, as miragens.
— Noventa e oito duplo P. Talvez não cheire bem, mas que é úmido não tenho dúvida. Vapor dágua em quantidade. Uma mistura bizarra, podem crer. Jamais imaginei encontrar tanto vapor d’água coexistindo assim tranqüilamente com o metano. Não aconselharia que alguém bebesse água das eventuais nascentes. Talvez nem seja água...
— Alguma outra coisa que a gente precise saber?
— Só que o escudo fundamental basáltico é de lava fria e dura. E que o ar também é frio, muito abaixo dos níveis suportáveis — informou Ash. — Precisaríamos de roupas especiais para suportar temperaturas tão extremas, mesmo que o ar fosse respirável. Se existe vida nessas condições terá de ser muito robusta.

Dallas pareceu resignado.
— Teria sido absurdo esperar outra coisa. A esperança, porém, é a última que morre. O pouco de atmosfera que existe serve apenas para atrapalhar a visão. Eu preferia não ter atmosfera nenhuma, mas afinal de contas não fomos nós que projetamos essa rocha.
— Nunca se pode saber — disse Kane, de novo em tom filosófico. — Talvez para outros, isso seja o paraíso...
— De qualquer maneira — disse Lambert —, não me parece o caso de excomungá-lo. Poderia ser mil vezes pior!
Depois olhou o vendaval lá fora. Amainava, agora que o dia vinha raiando.
— Eu, por mim, prefiro isso a ter de descer num gigante de gás, com ventos de 300 km em momento de calmaria e 10 ou 20 gravidades pela frente. Pelo menos podemos andar por aí sem precisarmos de estabilizadores ou apoio do gerador. Vocês não sabem a sorte que têm!
— Curioso, mas não me sinto uma felizarda — disse Ripley. — Preferiria muito mais estar de volta ao meu hipersono. — Alguma coisa se moveu aos seus pés, e ela se abaixou para acariciar a anca de Jones, o gato. O animal, gratificado, soltou um ronrom.
— Oásis ou não oásis — disse Kane, com vivacidade —, eu me apresento como voluntário para descer na frente. Gostaria de uma oportunidade de observar nosso misterioso sinal. Nunca se sabe o que se vai encontrar.
— Jóias? Dinheiro? — perguntou Dallas, sem esconder um sorriso. Eram notórias a ingenuidade e boa-fé de Kane.
O executivo deu de ombros:
— E por que não?
— OK. Estou ciente. — Ficou entendido que Dallas seria também um dos membros da pequena expedição. Ele olhou em volta, procurando mais um elemento para completar o grupo. Ninguém se candidatou.
— Lambert. Você.
— Está bem. Mas por que logo eu?
— E por que não você? Você é a nossa indicadora natural das direções a seguir. Vamos ver se é tão boa de terreno quanto aqui neste lugar.

Disse e foi-se pelo corredor. Mas à porta fez uma pausa para acrescentar, com simplicidade:
— Ainda uma coisa. O mais provável é que encontremos uma carcaça morta e uma pulsação automática, repetitiva. Ou já teríamos tido notícia de sobreviventes. Mas não podemos saber o que vamos realmente encontrar. Esse mundo não me parece formigante de vida, hostil ou de qualquer outra espécie Mas cumpre não correr riscos desnecessários. Iremos armados.
Hesitou ao ver que Ripley também se juntara a eles.
— Não, Ripley, você terá de esperar a sua vez. Este é o contingente máximo que posso tirar da nave.
— Mas eu não ia sair, eu gosto daqui. Apenas, já fiz tudo o que tinha para fazer. Parker e Brett precisarão de ajuda, na fixação daqueles delicados tubos...

Estava muito quente lá atrás, na casa de máquinas, a despeito de todos os esforços da unidade de resfriamento. A quantidade de solda que Parker e Brett haviam sido forçados a empregar e o espaço diminuto em que operavam eram responsáveis por isso. Junto dos termostatos, o ar continuaria relativamente frio. Mas o ar contíguo à própria soldadura poderia aquecer-se rapidamente.
O 'maçarico' a laser não podia ser responsabilizado. Gerava um raio relativamente frio. Mas onde o metal fundia e escorria para selar alguma coisa, surgia um calor localizado, que era como um subproduto da operação. Os dois homens trabalhavam despidos da cintura para cima e, mesmo assim, tinham o dorso reluzente de suor.
Não muito longe deles, Ripley encostou-se a uma parede e lançou mão de uma ferramenta especial para fazer saltar fora um dos panos de proteção. Com isso, ficaram expostas complexas agregações de fios coloridos e formas geométricas miniaturizadas. Duas pequeninas seções haviam sido calcinadas. Usando outra ferramenta, ela retirou esses componentes enegrecidos e procurou numa sacola que trazia a tiracolo as apropriadas peças de reposição.
Estava a fixar a primeira delas no lugar, quando Parker desligou o laser e examinou o próprio trabalho com olho crítico.
— Nada mau, se posso dizer.
E, virando-se para a mulher:
— Ripley, queria perguntar-lhe uma coisa.
Ela não se voltou. O suor colava-lhe a túnica ao peito. O segundo módulo foi encaixado com precisão no lugar, como um dente que é reimplantado no seu alvéolo.
— Então? Estou ouvindo.
— A gente vai sair para a tal expedição, ou fica fechado aqui dentro até que tudo esteja consertado? A energia já foi restabelecida. O resto — e indicou a sala devastada com um gesto largo e brusco da mão — é puro trabalho de maquilagem. Nada que não possa esperar alguns dias.
— Vocês sabem muito bem o que se passa.
Sentou-se, esfregou as mãos e reclinou-se para encará-lo: — O capitão escolheu os dois elementos de que precisa, e pronto. Ninguém mais sai até que eles estejam de volta e relatem o que viram. Três fora, quatro dentro. São as normas, não são?
Ripley fez uma pausa, pois uma idéia lhe acudira. Encarou Parker outra vez:
— Mas não é isso que preocupa você, e sim o que poderão encontrar. Ou estaremos todos desde sempre enganados a seu respeito? Será você, afinal de contas, um cientista puro, devotado a alargar as fronteiras do universo conhecido?
— Puxa, Ripley, nada disso! 
Parker não parecia ofendido. O sarcasmo não era habitual na moça.
— Só me interessa alargar as fronteiras da minha conta bancária. Teremos participação no que os três encontrarem, caso seja valioso?
— Não se preocupem — Ripley parecia agastada —, vocês terão o que lhes for devido.
E pôs-se a procurar na sacola de sobressalentes um pequeno módulo maciço a fim de preencher o último claro no quadrado que abrira na parede.
— Pois eu não trabalho mais — anunciou Brett, de repente —, a menos que tenha garantida a minha parte nesse pacote'.
Ripley encontrou a peça que procurava e foi fixá-la no lugar. Só então falou:
— O contrato lhes garante expressamente uma parte em tudo o que se ache. Todos dois sabem disso muito bem. Vamos acabar com essa atitude então, e trabalhar!
E voltou-lhes as costas, a fim de experimentar se os novos módulos funcionavam direito.
Parker olhou-a com fúria e chegou a abrir a boca para unia boa réplica. Mas calou-se. Afinal, ela respondia pela segurança de bordo e hostilizá-la só lhes faria mal. Ele falara demais e fora repreendido. Seria melhor deixar as coisas como estavam. Por mais que isso lhe custasse. Parker sabia ser pragmático quando a situação assim exigia.
Ligou de novo o laser, com raiva. E começou a soldar outra seção do conduto rompido.
Brett, no controle da energia para o laser e dos fios do soldador, disse em voz alta, mas dirigindo-se a ninguém em particular:
— Certo.

Dallas, Kane e Lambert, munidos agora de botas, casacos e luvas, e armados com pistolas de laser — pareciam miniaturas do soldador usado por Parker e Brett —, dirigiam-se para a saída por um estreito corredor. Detiveram-se junto de uma porta maciça, muito bem marcada com símbolos e palavras:

PRINCIPAL CÂMARA DE COMPRESSÃO.
ENTRADA PROIBIDA A ESTRANHOS.

Dallas sempre achava cômica e redundante aquela inscrição. Pois como poderia haver 'estranhos' a bordo? E todo mundo a bordo estava obviamente autorizado a usar a câmara.




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