sábado, 24 de setembro de 2011

O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 7)






 IV


À medida que o sol, ainda invisível, subia no céu, a cor vermelho-sangue do ar clareava. Reduzira-se, agora, a um amarelo-ocre ao invés do brilhante-dourado da Terra Mas, de qualquer maneira, era um progresso.
A tempestade amainara de certo modo, e o pó onipotente começava a assentar.
Pela primeira vez, os três viajantes, cansados de andar a pé, podiam ver um pouco mais longe. Estava subindo já há algum tempo. O terreno era ainda em aclive, mas, à exceção de uns poucos pilares isolados de basalto, compunha-se da mesma lava uniforme. Havia, por vezes, saliências, mas a maior parte delas já tivera as arestas adoçadas por éons de vento incessante e pela abrasão das partículas nele suspensas.

Kane ia na vanguarda, um pouco à frente de Lambert. A todo minuto esperava que ela lhe anunciasse haver captado de novo o sinal. Chegou a uma crista e olhou para a outra vertente, contando ver o mesmo que tinham visto até então: rocha lisa e mais subida.
Ao invés disso, os olhos dele deram com algo tão inesperado que se arregalaram por detrás do visor, sujo, é verdade, mas ainda transparente do capacete.
De tão inesperado, gritou no pick-up:

— JESUS CRISTO!

— O que foi? O que aconte... — começou Lambert, que o alcançara antes de Dallas. Ambos ficaram tão chocados quanto Kane.

Tinham sempre assumido que o sinal fosse gerado por um mecanismo de alguma espécie, mas nenhuma imagem do transmissor se formara na sua mente até aquele momento, ocupados que estavam com a tempestade e com a necessidade elementar de não se desgarrarem uns dos outros. Confrontados, porém, com a verdadeira fonte do som — muito mais impressionante do que qualquer dos três havia imaginado — sua impassibilidade de cientista evaporou-se temporariamente.

Era uma nave. Relativamente intacta e mais alienígena do que teriam podido pensar. Dallas não classificaria seu aspecto como horripilante; mas tinha algo de perturbador, o que era inesperado num engenho daqueles, produto de fria tecnologia mecânica. As linhas do maciço destroço eram puras, mas insólitas, e comunicavam ao conjunto uma anormalidade inquietante.

Dominava-os e às rochas em que jazia com suas proporções desmesuradas.
Tanto quanto podiam ver aterrissara do mesmo modo que o Nostromo, de ventre no chão. Basicamente, tinha a forma de um gigantesco U metálico, mas as pontas do U inclinavam-se ligeiramente para dentro. Uma delas era menor e mais inclinada que a outra. Se isso era produto de avaria ou de alguma estranha concepção de bom gosto e simetria, não tinham maneira de saber.

Chegando mais perto, viram que o corpo da nave engrossava na base do U, onde havia uma série de protuberâncias concêntricas, que eram como grossas placas coroadas por um domo. Dallas concluiu que as pontas do crescente continham as seções de propulsão e engenharia, e a parte central as acomodações da tripulação, talvez o depósito de carga, e a ponte. Mas tanto podia ser assim, como o contrário.

A astronave jazia silente e apagada, sem qualquer mostra de vida ou atividade.
Exceto o sinal que, assim tão próximo, fizera-se ensurdecedor.
Todos três se deram pressa em reduzir o volume dos receptores nos capacetes.
Fosse qual fosse o metal do casco, brilhava, na luz agora mais intensa do dia, com um estranho fulgor vítreo que nenhuma liga feita por mão de homem era capaz de irradiar. Dallas não estava sequer convencido de que fosse mesmo metal. Uma primeira inspeção sumária não revelara nada que se parecesse solda, rebite ou sutura nem qualquer outro método de unir placas ou seções. A nave dava mais a impressão de uma coisa nascida que de um objeto manufaturado.
O que era bizarro, naturalmente. Porque, abstraindo-se o método de construção, tratava-se indiscutivelmente de um engenho espacial.

Tão pasmos haviam ficado com o surpreendente aspecto da nave que não lhes ocorreu pensar o que valeria em bônus ou como coisa salvada de naufrágio.
Falavam ao mesmo tempo, aos gritos, nos seus respectivos pick-ups.
Kane repetia idiotamente:
— É uma nave, sem dúvida nenhuma, uma nave!
Lambert estudou o brilho peculiar, quase molhado dos flancos da aeronave, a ausência de características externas familiares, e sacudiu a cabeça, assombrada.
— Você tem certeza? Talvez seja uma estrutura local. É tão estranho...
— Não — disse Kane, com a atenção posta nas duas extremidades gêmeas que formavam a retaguarda do veículo. — A coisa não é fixa. Mesmo levando em conta a eventual peculiaridade de uma arquitetura alienígena, é claro que isso não foi concebido para integrar-se na paisagem. É, seguramente, uma nave.
—  sh? Você pode ver isso daí? — Dallas lembrou-se de que o oficial de ciência podia ver o enorme destroço clararamente através dos vídeos dos seus pick-ups; e que, provavelmente, avistara a nave ao mesmo tempo que Kane.
— Sim, posso ver. Não com muita clareza, mas com clareza suficiente para concordar com Kane. É uma nave.
A voz de Ash nos seus capacetes parecia excitada; ou tão excitada quanto era posssível para um homem da sua fleuma.
— Nunca vi coisa igual. Aguardem um momento.
Esperaram, enquanto ele conferia leituras e fazia umas duas perguntas rápidas ao cérebro eletrônico.
— A Mãe também não — informou. — É de tipo completamente desconhecido e não se relaciona com qualquer veículo espacial que tenhamos jamais encontrado. É tão grande quanto me parece daqui?
— Maior — disse Dallas. — De construção maciça. Os detalhes ainda não são perceptíveis. Mas se foi construída em escala, como as nossas próprias naves, então os construtores são muito mais altos que nós.
Lambert deu uma risada nervosa.
— Coisa que logo saberemos, se houver alguém a bordo para dar-nos boas-vindas.
— Estamos bem perto e na linha de visão — continuou Dallas, ignorando a observação da navegadora. — Você deve estar recebendo um sinal muito mais claro do que antes. E o chamado de socorro? Estamos próximos demais da fonte agora para julgar. Houve alguma alteração nele?
— Não. Seja o que for que produz o sinal, está dentro dessa carcaça. Estou convencido disso. Tem de estar. Se estivesse fora e para além dessa massa de metal, nunca o teríamos captado.
— Se for metal — disse Dallas, que continuava a examinar o veículo alienígena. — A nós parece mais plástico.
— Ou osso — sugeriu Kane.
— Supondo que a transmissão venha do interior, que faremos agora? — disse Lambert.
Kane deu um passo à frente:
— Vou entrar e dar uma olhada. Depois conto a vocês...
— Pare, Kane. Não seja tão afoito. Um desses dias vai se dar mal com isso.
— Mas voto em favor de entrarmos. Temos de fazer alguma coisa, não podemos ficar aqui e esperar que revelações se materializem magicamente no ar por cima da astronave
continuou Kane. E, franzindo o cenho: — Você fala a sério que não devemos entrar?
— Não é isso. Mas nada de precipitação.
E para o distante oficial de ciência:
— Você ainda nos ouve?
— Não tão bem agora que estão junto ao transmissor. A interferência é inevitável. Continuo ligado, porém, e o sinal embora pequeno, é nítido.
— OK. Não vejo sinais de vida nem movimento de qualquer espécie, exceto essa maldita poeira. Use-nos como ponto de referência e veja se daí pode ver ou descobrir alguma coisa que nós não podemos.
Houve uma pausa, enquanto Ash se dava pressa em cumprir as instruções recebidas. Dallas, Kane e Lambert continuavam maravilhados com as linhas elegantemente deformadas da cosmonave.
— Tentei tudo — disse, por fim, o oficial de ciência.
— Infelizmente, não estamos equipados para isso. O Nostromo é um cargueiro comercial e não um veículo de exploração, para uma leitura razoável eu precisaria de um bom número de caríssimos instrumentos que simplesmente não fazem parte do equipamento de um rebocador.
Dallas tentou esconder dos outros seu desapontamento.
— Entendo. A coisa não é vital, afinal de contas. Continue tentando, com o material de que dispõe. E informe-nos de descobrir algo. Sobretudo indicações de movimento. Os detalhes não interessam. Podemos fazer nossa própria análise.
— Muito bem. Cuidem-se.
— E agora, capitão?

O olhar de Dallas, que percorria de ponta a ponta a imensa nave, fixou-se em Kane e Lambert. Percebeu que os dois o observavam.
O executivo estava com a razão, naturalmente. Não bastava descobrir a fonte do sinal que os levara a aterrissar, cumpria ir até o gerador, descobrir a causa do sinal e a da presença da nave estelar naquele minúsculo planeta.

Ter chegado até ali e não explorar o interior daquela coisa alienígena era inconcebível.
Pois não foi a curiosidade, afinal de contas, que levou o homem a deixar seu mundo, isolado e insignificante, e partir à conquista das galáxias?
Tomou a única decisão lógica nas circunstâncias:
— Daqui, a nave parece morta. Vamos chegar perto da base. Aí, se nada se mostrar...
— Se nada se mostrar... — fez Lambert, fitando-o.
— Então, veremos.
Avançaram para a nave, com o situador agora inútil balançando no cinto de Lambert.
— A essa altura, há só uma coisa... — começou Dallas.

A bordo do Nostromo, Ash acompanhava cada palavra deles. Mas, sem qualquer aviso, a voz do capitão sumiu-se, Voltou mais uma vez, bem forte, para, em seguida, desaparecer completamente. Ao mesmo tempo, Ash perdia o contato visual.

— Dallas! — chamou aflito, apertando botões no console, virando chaves, pedindo melhor desempenho de pick-ups já exigidos ao máximo.
Só o silvo termonuclear do sol local, constante e triste como um queixume, se ouvia em todos os alto-falantes...

Junto ao casco sinistrado, cujas proporções colossais eram mais evidentes do que nunca, e que se elevava curvo e imenso acima deles, em meio aos turbilhões de poeira, detiveram-se os astronautas.
— Ainda nenhum sinal de ocupação — murmurou Dallas, como se falasse consigo. — Nem luzes, nem movimento — fez um vago gesto na direção do que imaginavam ser a proa — e nenhuma entrada. Vamos tentar o outro lado.
Enquanto caminhavam, com cautela, pelo solo juncado de fendas e cascalho xistoso, a nave parecia infinitamente mais sólida que a rocha em que repousava, Dallas se deu conta de quão pequeno o barco espacial o tornava. A ele e aos outros. E não só fisicamente, embora o arco majestoso, desmesurado os reduzisse — pobres bichos da terra — a insetos; mas insignificantes também de um ponto de vista cósmico.
A humanidade sabia ainda muito pouco do universo e apenas explorara uma fração mínima de um só setor.

Uma coisa é especular ao telescópio sobre o que poderá esconder-se na imensidão dos céus. Outra é fazê-lo no isolamento de um pequeno mundo como aquele, confrontados por uma nave de manufatura alienígena, que mais parecia uma excrescência animal que um engenho familiar, feito para superar as leis naturais da física.

Isso, admitiu o capitão, era o que mais o perturbava acerca da nave sinistrada. Se estivesse conforme às linhas habituais, se fosse feita de material conhecido, não pareceria tão assustadora. E não punha tais sentimentos à conta de xenofobia. No fundo, não esperara que aquela coisa alienígena fosse alienígena assim...

— Alguma coisa está acontecendo — disse Kane. E apontou.
Era hora de deixar qualquer especulação gratuita — pensou Dallas — e enfrentar a realidade. Aquela estrutura em forma de U era uma nave estelar, e só superficialmente diferia do Nostromo. Não havia nada de inerentemente maligno no material de que se compunha ou de agourento no seu desenho. Um era o resultado de uma determinada tecnologia, outro, de postulados estéticos diversos, mas igualmente válidos. Vista a essa luz, a enorme ferradura assumia uma espécie de exótica beleza. Sem dúvida, Ash estaria a delirar de entusiasmo diante daquele modelo único entre todos e a lamentar-se por não tê-los acompanhado. Lambert, ao contrário, lhe teria cedido seu lugar sem hesitação.
Mantinha a mesma expressão de desconsolo desde que fora escolhida para a patrulha.

O que Kane apontava era um trio de manchas escuras que haviam surgido no flanco do casco. Ao chegarem mais perto e mais alto também, pois que o terreno subia levemente viram que as manchas eram escotilhas ovais. Tinham espessura também, e não apenas comprimento e largura.
Viram-se, por fim, debaixo das três aberturas, que eram como marcas de pústulas no casco — de metal? De plástico? De quê?
Mais apertadas, e mais escuras, aberturas secundárias podiam ser vistas no fundo dos ovais externos. O vento entrava e saía por elas, carregado de pedra-pomes reduzidas a um finíssimo pó, o que era sinal de que as escotilhas já estavam abertas há algum tempo.

— Parece uma entrada — disse Kane, de mãos na cintura, a estudar os três óculos. — Talvez sejam uma outra forma de câmara de compressão e descompressão. Vocês vêem as aberturas secundárias por detrás das primeiras externas?
— Mas, se são câmaras, por que estarão assim tão juntas? — Lambert olhava desconfiada para as janelinhas. — E por que estarão todas abertas?
— Talvez os construtores gostassem de fazer as coisas de três em três — Kane deu de ombros. — Se viermos a conhecer algum deles, permito que você lhe pergunte isso.
— Engraçadinho — disse Lambert, sem sorrir. — Aceito a explicação. Mas e o fato de estarem abertas?
— Não sabemos se estão de fato abertas — disse Dallas, fascinado com os ovais, com suas pálpebras lisas, tão diferentes das escotilhas quadradas, pesadas, do Nostromo. As alienígenas pareciam moldadas na mesma matéria do casco, ao invés de postas mais tarde, quando a construção já ia pela metade, a força de solda e rebites, grosseiramente.
— Quanto à razão de estarem abertas, se é que o estão, talvez a tripulação tenha querido abandonar o veículo as pressas.
— E por que precisariam três aberturas para isso?
Dallas respondeu-lhe de mau humor:
— E como diabo haverei de saber? — Depois, emendou, contrito: — Desculpe, não era o caso...
— Não, não era — dessa vez, Lambert sorriu-lhe — Minha pergunta foi tola. E era tempo de termos algumas respostas, para variar.
Mantendo os olhos no chão, atento a qualquer pedra solta, ele começou a galgar o ligeiro aclive que levava às janelas.
 — Já esperamos suficientemente — disse. — Agora vamos... se pudermos.
— Talvez alguém julgue isso um bom modelo de câmara hermética. Mas não eu — disse Kane, estudando o interior da entrada que começavam a franquear.
Dallas já havia entrado.
— O piso é firme. A porta secundária, ou postigo ou o que seja, está aberta também — e, depois de uma pausa: — Há um grande recinto, aqui atrás.
— E não há luz? — disse Lambert, pegando na lanterna que trazia pendurada à cinta fazendo conjunto com a pistola.
— Há luz bastante, por enquanto. Poupe a bateria, talvez precisemos dela. Vamos.

Kane e Lambert seguiram-no por um corredor que descia, e emergiram num grande salão de pé direito alto. Se havia controles, chaves ou qualquer espécie de instrumental nessa seção da espaçonave, estavam escondidos por detrás das paredes cor de chumbo. Como no interior de um tórax humano, costelas de metal reforçavam o chão, o teto e as paredes. A fantasmagórica luz do exterior dançava nas partículas de poeira suspensas no ar quase parado daquele salão sinistro.
Dallas encarou seu oficial de ciência.

— O que pensa disso?
— Não sei. Um depósito de carga talvez? Parte de um sistema de fechamento estanque muito mais complicado do que o nosso? Acabamos de passar por uma porta dupla; isso é a verdadeira câmara de compressão e descompressão.
— Grande demais para tanto, não lhe parece? — disse Lambert, com um fio de voz.
— Estou tentando adivinhar. Se os tripulantes desta nave guardarem para com ela a mesma escala que nós temos com o Nostromo, então serão avantajados e precisarão de uma taxa de compressão e descompressão das proporções da câmara que estamos vendo. Mas admito que a idéia de um porão de carga me agrada mais. Talvez explique a necessidade de três entradas em vez de uma única.
Voltou-se e viu que Dallas se debruçava para olhar por um grande buraco negro que havia no piso.
— Cuidado, Dallas! Não podemos saber o que está lá dentro, nem que profundidade tem isso.
— A nave está aberta e ninguém se interessou pela nossa invasão. Não creio que haja viva alma.
Dallas destravou seu bastão luminoso e dirigiu o brilhante jato para baixo.
— Vê alguma coisa? — perguntou Lambert.

Um Coelho Branco talvez, com os olhos cor de rosa? O de Alice tirou um relógio do bolso do colete e conferiu as horas...


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