sábado, 1 de outubro de 2011

O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 8)







Não era possível ver nada.
Dallas moveu a lanterna devagar de um lado para outro. O feixe era estreito, mas poderoso. Revelaria qualquer coisa que estivesse a uma distância razoável abaixo deles.
— O que temos lá? Um novo porão de carga?
— Impossível dizer, daqui. Apenas se aprofunda, indefinidamente. Tem paredes lisas, como estas de cima, e tão longe quanto minha luz alcança. Não há sinal de elevador, escada ou qualquer meio de descida. Nem posso ver o fundo. A luz não chega lá. Talvez seja um poço de acesso de alguma espécie...
Desligou a lanterna, mudou de posição e, um metro mais adiante, começou a remover equipamento da cintura e da mochila que tinha às costas. Botou tudo no chão, ergueu e olhou em torno da sala, cinzenta e mal iluminada.
— O que quer que esteja lá embaixo, pode esperar. Vamos examinar este andar primeiro. Quero ter certeza de que não haverá surpresas. Talvez até encontremos outra descida mais praticável.
Acendeu de novo a luz portátil e fez com que seu feixe varresse as paredes próximas.
A despeito da sua aparência de interior de ventre de baleia, elas continuaram misericordiosamente imóveis.
— Espalhem-se, mas não muito. Sobretudo, não nos percamos jamais de vista. Isso não deve levar mais que uns dois minutos.

Kane e Lambert ativaram seus próprios iluminadores.
Caminhando em linha, começaram a explorar o vasto recinto.
Fragmentos de algum estranho material, cor de cinza, jaziam um pouco por toda parte. A maior parte estava enterrada debaixo das dunas de poeira e de pedra-pomes pulverizada que se tinham acumulado depois de entrar, em ondas, pelas escotilhas.
Kane ignorou aquilo. Procuravam coisas intactas.
De súbito, a luz de Dallas caiu numa forma que não fazia parte do soalho.
Chegando perto, desenhou com a luz os seus contornos. Parecia tratar-se de uma pequena urna ou vaso, de cor parda e de aspecto brilhante. Mais perto ainda, inclinou a cabeça para olhar o que tinha dentro. A tampa estava estilhaçada. Iluminou o interior do objeto.
Nada. Vazio.
Desapontado, afastou-se, pensativo. Como explicar que uma coisa aparentemente frágil ficara relativamente intocada, enquanto que outras substâncias mais duráveis tinham secado ou partido?
Talvez pudesse testar a qualidade do material tentando derretê-lo a pistola.
Ia dirigir de novo o cone de luz para o piso quando caiu, por acaso, sobre algo complexo e obviamente, audaciosamente, mecânico. No interior dos contornos semi-orgânicos, cetáceos, da nave alienígena, uma forma confortadoramente funcional era um alívio grande. Embora o próprio desenho dela não lhe fosse familiar.

— Aqui!
— Algo errado? — perguntou Kane.
— Não. Mas encontramos afinal um mecanismo.

Lambert e Kane correram a juntar-se a ele, levantando com as botas pequenas nuvens de pó animado. Juntaram suas luzes à do capitão. Tudo parecia quieto e morto, embora Dallas tivesse a impressão de uma força paciente que funcionava, macia e imperturbável, por detrás daqueles painéis. A prova de vida mecânica era dada agora pela barra, isolada, que se movia para frente e para trás, num sulco profundo, embora não fizesse qualquer ruído.

— Parece que ainda funciona. Há quanto tempo terá sido posta em marcha? — Kane examinou o instrumento, fascinado. — Para que servirá?
— Isso posso dizer a você.

Voltaram-se ambos para Lambert. Ela confirmou o que Dallas já adivinhara. Tinha nas mãos o seu situador, o instrumento que os conduzira desde o Nostromo.
—  É o transmissor! O que emite a pulsação que ouvimos desde o espaço, e exatamente como imaginávamos, parece novo em folha, mas pode muito bem estar transmitindo esse pedido de socorro há anos... — deu de ombros —  décadas... ou mais tempo ainda..

Dallas fez passar um instrumento por cima da superfície do transmissor.
— Repulsão eletrostática. Isso explica a ausência de pó. O que é mau. Não há quase vento nenhum aqui, e a espessura da camada poderia indicar quanto tempo o mecanismo foi posto em funcionamento.

Desligou o analisador e botou-o de volta no seu coldre de bolso.
— Alguém encontrou mais alguma coisa?
Ambos sacudiram a cabeça.
— Só paredes reforçadas com nervuras e pó, muito pó — disse Kane, desanimado.
— Nenhum sinal de outra comunicação com o resto da nave? Nenhum alçapão?
De novo a dupla resposta negativa.
— Isso nos deixa com o primeiro poço. Ou então teremos de perfurar uma parede dessas. Será melhor experimentar o primeiro, antes de começar a arrebentar coisas.
Percebeu a expressão de desconsolo de Kane.
— Quer desistir?
— Ainda não. Só desistirei depois de termos esquadrinhado cada centímetro dessa miserável engenhoca sem encontrar nada. A não ser, naturalmente, paredes cinzentas e maquininhas seladas hermeticamente.
— Não que me importasse muito — disse Lambert, com raiva.
Voltaram sobre seus passos e dispuseram-se em círculo na borda da abertura circular do chão. Dallas ajoelhou-se com cuidado, como cumpre fazer num traje espacial, e palpou a orla do buraco.
— Não é possível dizer muito, com essas luvas tão grossas, mas me parece regular. O orifício deve ser parte normal da nave. Pensei que talvez tivesse sido resultado de uma explosão. E isso explicaria o chamado de socorro que estamos captando.
Lambert estudou o poço.
— Uma carga especial poderia ter feito um buraco redondo como esse.
— Você gosta mesmo de estragar o prazer da gente, não é? — Dallas estava desapontado. — Mas continuo a pensar que se trata de uma passagem normal, habitual, da nave. Os lados são regulares demais, mesmo para uma carga moldada, fosse qual fosse a sua potência.
— Estava apenas dando minha opinião.
— De qualquer maneira, ou a gente olha o que está lá embaixo, ou a gente sai e procura outra entrada — continuou Dallas. E voltando-se para Kane: — Parece-me que você tem aí a sua grande oportunidade.
O executivo mostrou-se indiferente.
— Como queira. Para mim é o mesmo. Se me sentir bonzinho sou até capaz de contar-lhe sobre os diamantes.
— Que diamantes?
— Os que vou encontrar nas arcas alienígenas lá de baixo, cheias até a boca, derramando-se pelo chão... — e fez um vago gesto em direção às trevas inferiores.
Lambert ajudou-o a ajustar o equipamento de alpinismo que trazia no peito, assegurando-se de que as correias estavam firmemente presas às costas e aos ombros. Tocou, de leve, o botão de controle e foi recompensado com um sinal abafado.
Uma luz verde acendeu e apagou na frente da unidade.
— Está funcionando. Estou pronto — disse Kane. E para Dallas: — Você também?
— Só um minuto mais — o capitão armara uma trípode com elementos curtos de metal. Parecia frágil, fina demais para suportar o peso de um homem. Na verdade, poderia sustentar três homens sem sequer envergar.
Quando estava bem presa, Dallas virou-a de modo a que seu ápice ficasse no centro do buraco. As pernas foram presas às bordas por braçadeiras. Havia uma pequena roldana no topo, com um cabo. Dallas desenrolou com a mão um metro ou dois de um cabo guia, cuja ponta entregou a Kane. O oficial executivo fixou-a na alça que tinha no peito, afivelando-a bem.
Lambert assegurou-se de que estava firme puxando-a com toda a força.
— Não se desprenda desse cabo em nenhuma circunstância — recomendou o capitão com toda a seriedade. — Mesmo que as tais pilhas de diamantes estejam um pouco fora do seu alcance.

Verificou também, pessoalmente, o funcionamento do cabo. Kane era um bom oficial. A gravidade ali era menor que a da Terra, porém mais que adequada para causar dano a Kane se ele caísse. 'Não tinham idéia da profundidade daquele poço nem onde ia dar nas vísceras da espaçonave. Poderia ser até um poço de mina, entranhar-se pelo solo adentro. E esse pensamento sugeriu outro, que fez Dallas sorrir com seus botões.
Talvez Kane acabasse por encontrar mesmo seus diamantes.

— Volte em menos de dez minutos — falava com toda a sua autoridade. — Entendido?
— Sim, sim — disse Kane.

Sentou-se na geringonça, passou as pernas por cima da borda circular. Depois, agarrando-se ao cabo com as duas mãos, começou a descer pelo meio do buraco.
A parte inferior do seu corpo logo desapareceu no ar negro.

— Se você não voltar espontaneamente em dez minutos eu o puxo — avisou Dallas.
— Calma. Serei um bom menino. Além disso, sou capaz de me cuidar.
Parou de balançar, então. E ficou pendurado, imóvel, sobre o vazio.
— Isso. Mantenha-nos informados.
— Entendido.

Kane acionou o equipamento de alpinismo. O cabo começou a desenrolar sem ruído, baixando-o no interior do poço. Estendendo as pernas, sentiu a parede lisa. Apoiando-se nela com os pés e na parede do outro lado com os ombros, pôde descer como se andasse num penhasco vertical.
Depois, imobilizou-se e apontou para baixo o feixe de luz do seu bastão. Viu ainda uns dez metros de metal escuro; depois nada.
— Faz mais calor aqui — informou, após uma breve inspeção do equipamento sensório do seu traje espacial. — Deve ser pelo ar quente que vem de baixo. Talvez seja parte do complexo do motor, se o motor estiver ainda funcionando. Alguma coisa alimenta aquele transmissor.

Chutando, intermitentemente, o paredão e manipulando o cabo, recomeçou a descer. Depois de alguns minutos dessa manobra, parou para recobrar fôlego. Estava mais quente, e o calor aumentava à medida que descia. Essa mudança contínua não era compensada com a necessária rapidez pelo equipamento de resfriamento da roupa, e Kane começou a suar, embora a unidade condicionadora do capacete, que era independente, mantivesse livre de vapor a placa da cara. Ouvia que sua respiração era forçada, e isso o aborreceu, pois sabia que Dallas e Lambert podiam ouvi-la também, do alto. Não queria ser içado de volta.
Recostando-se, olhou para cima e viu a boca do poço, um círculo de luz emoldurado de negro. Uma sombra apareceu, borrando um dos nítidos contornos.
Uma luzinha remota brilhou, houve um reflexo baço, macio.

— Você está bem, aí dentro?
— Sim. Mas está quente. Posso vê-lo. Ainda não cheguei ao fundo — disse. Depois respirou, engolindo dois grandes haustos de ar. O tanque regulador gemeu, em sinal de protesto. — É trabalho duro descer. Não posso falar mais agora.
Dobrando os joelhos, chutou a parede e soltou mais cabo. Sentia-se mais seguro agora. O poço continuava sem qualquer indicação de que poderia estreitar ou mudar de direção. Não temia que se alargasse.
Chutou mais forte, da vez seguinte, soltando mais cabo também, e descendo mais depressa, em conseqüência. Mas sua lanterna, que continuava a iluminar as profundezas, mostrava, ainda e sempre, a mesma invariável, monótona, escuridão.
De novo sem fôlego, fez uma pausa que aproveitou para conferir seus instrumentos.
— Curioso — disse no pick-up —, estou abaixo do nível do solo.
— Entendido — respondeu Dallas. E, pensando em poços de mina: — Mudou o aspecto geral do poço? A parede ainda é do mesmo material?
— Tanto quanto eu possa ver. Como vou indo de cabo?
Houve um pequeno intervalo, enquanto Dallas inspecionava a bobina.
— Muito bem. Temos ainda uns cinqüenta metros, se o poço for mais fundo do que isso, teremos de desistir e trazer mais cabo da nave. Mas não acho que se aprofunde tanto.
— Por que não?
— A nave ficaria desproporcionada — respondeu Dallas, um tanto inseguro.
— Desproporcionada com relação a quê? E a que idéias de proporção?
Dallas não respondeu.

Ripley teria desistido da sua investigação se tivesse outra coisa para fazer.
Mas não tinha.
Brincar com o teclado do ECIU era melhor que andar sem destino por uma nave deserta ou contemplar os lugares vazios à sua volta.
De súbito, um alinhamento mais ou menos casual de prioridades do seu questionário fez reagir o gigantesco Banco de Memória da nave. A leitura resultante surgiu na tela tão inesperadamente que ela quase a apagou para continuar com a série antes de perceber que recebera uma resposta adequada.
O defeito dos computadores — pensou — era que não tinham intuição. Deduziam apenas. O que condicionava o resultado à qualidade das perguntas.
Estudou com avidez a resposta. Depois, de testa franzida, martelou o console para saber mais. Às vezes a Mãe era, involuntariamente, evasiva. Havia que extrair o que era relevante de um labirinto de sutilezas.
Dessa vez, porém, a resposta veio clara, sem margem para engano. Embora ela tivesse desejado, ardentemente, o contrário.
Ligou com urgência urgentíssima o intercomunicador.
— Ampola científica. Que diabo a mordeu, Ripley?
— É uma emergência, Ash. — Tinha a voz entrecortada. — Consegui algo do Banco, afinal, via ECIU. Não importa como o tenha conseguido. Eu mesma não sei muito bem.
— Felicitações.
— Deixe isso pra lá — cortou ela, aflita. — A Mãe decifrou, ao que parece, parte da transmissão alienígena. Ela ao está certa do resultado, mas teme, e eu também, que não se trate de um S.O.S.
Isso tirou a voz a Ash, mas só por um instante. Quando respondeu, seu tom era tão controlado quanto de hábito, a despeito da importância da revelação de Ripley.
Ela maravilhou-se com o autodomínio dele.
— Se não é um pedido de socorro, o que é, então? — perguntou calmamente. — E por que o nervosismo? Pois você está nervosa, não é?
— Claro que estou nervosa! E vou ficar pior, se a Mãe estiver com a razão. Como já disse, ela não tem certeza. Mas pensa que o sinal pode ser um aviso.
— Que espécie de aviso?
— Que diferença faz?
— Não precisa gritar, Ripley.
Ripley respirou fundo, duas vezes. Depois contou até cinco.

— Temos de falar com eles. Eles têm de saber disso imediatamente.
— De acordo — disse Ash. — Mas é inútil. Desde que entraram na nave alienígena, perdemos contato. Já não sei deles há algum tempo. A combinação da proximidade do transmissor alienígena com a composição peculiar do casco da nave sinistrada vem impedindo todas as minhas tentativas de restabelecer a comunicação. E, pode crer, eu tenho tentado!
Dito isso, fez uma espécie de desafio.
— Pode tentar você mesma, se quiser. Eu a ajudarei na medida do possível.
— Escute, Ash, não estou pondo em dúvida sua competência. Se diz que não consegue contato, é porque não consegue contato. Mas, por Deus, temos de passar essa informação!
— O que sugere?
Ela hesitou. Depois disse, com firmeza.
— Eu vou atrás deles. Eu lhes direi pessoalmente.
— Não, não acho bom.
— É isso uma ordem, Ash? — Ela sabia que, numa emergência como aquela, o oficial de ciência, mais graduado do que ela, tinha a última palavra.
— É uma questão de bom senso, Ripley. Sei que você não gosta muito de mim. Mas procure ver a coisa desapaixonadamente. Não podemos dispensá-la. Somos quatro aqui, você e eu, Parker e Brett. A nossa capacidade de decolar é mínima. Três fora, quatro na nave. É a regra. Foi por isso que Dallas nos deixou para trás. Se você, por qualquer razão que seja, vai correndo ao encontro deles, ficamos presos aqui até que alguém volte. Se não voltarem, ninguém saberá o que aconteceu neste planetóide — fez uma pausa e acrescentou: — Além disso, não devemos imaginar que alguma coisa lhes tenha ocorrido. Estarão provavelmente muito bem.
— OK — disse ela, a contragosto. — Você tem razão. Mas trata-se de uma situação  excepcional. Continuo a achar que alguém deveria avisá-los.
Ripley nunca tinha ouvido Ash suspirar. E ele não o fez. Mas deu-lhe a impressão de que se resignava a uma decisão forçada.
— De que adiantaria? — disse com voz neutra e como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Até que um de nós chegue lá eles já saberão que se trata de um sinal de alerta. Estou certo ou errado?

Ripley não respondeu, mas sentou-se, encarando-o fixamente.
Ash não pestanejou. Ficou também a encará-la; o que ela não podia ver da ampola científica era o diagrama que se formava no monitor do console dele, em cima.
Teria parecido lhe de maior interesse...



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