sábado, 15 de outubro de 2011

O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 10)






— Não toque nela! — disse Dallas.

Estudava a forma inerte do seu colega.
Tentou, em seguida, uma experiência, acenando com a mão para a coisa que estava agarrada à face de Kane. Ela não se moveu. Com um tremendo esforço de vontade, pronto para pular para trás e fugir, ele estendeu a mão para ela. Primeiro, para a base, depois para a protuberância do olho, nas costas. A besta não tomou conhecimento dele nem mostrou sinal de vida. Mas pulsava, de leve.

— Está viva? — perguntou Lambert, cujo estômago começava a ficar embrulhado.
Era como se houvesse tragado um litro de resíduos mal reciclados do Nostromo.
— Não se move, mas acho que sim. Segure os braços dele, eu pego as pernas. Talvez possamos soltar isso no chão.
Lambert correu a obedecer-lhe, mas deteve-se e olhou-o incerta:
— Por que pego eu nos braços?
— Inferno! Quer trocar, é isso?
— É isso mesmo.
Dallas foi trocar de lugar com ela. Mas, ao fazê-lo, viu mover-se um dos dedos da mão. Quase imperceptivelmente. Não podia ter certeza.
Começou a levantar Kane pelos braços, sentiu o peso morto e hesitou.
— Não conseguiremos nunca levá-lo de volta à nave desse modo. Você pega de um lado e eu de outro.
— Certo.
Viraram cuidadosamente para o lado o corpo do oficial executivo. A criatura, porém, não caiu. Continuou colada ao rosto dele tão firmemente como antes.
— Não adianta. Aliás, não pensei mesmo que a coisa se soltasse. Vamos levá-lo assim mesmo.
Dallas pôs um braço atrás dos ombros de Kane e o corpo ficou sentado.
Depois levantou-o, enquanto Lambert passava o outro braço pelo seu pescoço.
— Pronto? — ela concordou com uma inclinação de cabeça. — Fique de olho na criatura. Se der sinais de que vai cair, largue o seu lado e corra — ela concordou de novo, com um aceno. — Vamos, então.

Pararam à porta da nave. Ambos respiravam com dificuldade.
— Coloque-o no chão — disse Dallas. Lambert obedeceu, com alívio. — Isso não vai ser possível. Os pés dele vão esbarrar em tudo que é pedra, em tudo que é buraco. Fique aí, de guarda. Vou fazer uma padiola.
— Com o quê?
Mas Dallas já se afundava outra vez na nave alienígena, em direção à câmara que tinham acabado de deixar.
— A trípode do guincho. É suficientemente forte — ouviu no seu capacete.

Enquanto esperava por Dallas, Lambert sentou-se o mais longe possível de Kane.
O vento assobiava do lado de fora anunciando a proximidade da noite.
Ela sentiu-se incapaz de tirar os olhos do pequeno monstro preso a Kane; incapaz de não pensar no que acontecera. Apenas abstinha-se de pensar no que a coisa estaria fazendo a Kane. Tinha de abster-se, ou não poderia conter um ataque de nervos.
Dallas voltou, com os pedaços da trípode desmontada debaixo dos braços.
Depositando-os no convés, começou a armar uma grosseira padiola com dedos que o medo fazia ágeis. Uma vez pronta, baixou-a cautelosamente para a superfície. Caiu da altura de uns poucos metros, mas sem quebrar-se. Decidiu que era suficientemente forte para agüentar o peso de Kane até o Nostromo.

O curto dia do planetóide chegava ao fim, a atmosfera assumia outra vez a cor do sangue, e o vento era mais alto e assobiava lugubremente. Não que não pudessem levar Kane ou achar a nave no escuro. Mas Dallas não tinha nenhum desejo, sobretudo agora, de passar a noite ao relento nesse mundo de espantos. Alguma coisa mais grotesca do que a imaginação era capaz de conceber, erguera-se das profundezas da nave sinistrada para deixar seu selo no rosto de Kane e nas suas mentes. Terrores ainda maiores poderiam estar por vir, embuçados no crepúsculo impregnado de poeira cósmica. Desejava desesperadamente estar de volta ao abrigo das paredes de metal do Nostromo.

Quando o sol se pôs atrás das nuvens, o colar de luzes que marcava a base do rebocador acendeu-se. Não bastavam para alegrar a paisagem em volta da nave, mas pelo menos faziam visíveis os contornos melancólicos do rochedo ígneo em que pousara. Redemoinhos de pó mais espesso obliteravam, às vezes, mesmo essa pobre tentativa de afastar a treva.

Na ponte, Ripley esperava resignadamente por uma palavra da patrulha há tanto tempo muda. O sentimento de desamparo e impotência do primeiro momento já se dissipara a essa altura. Fora substituído por uma espécie de entorpecimento da alma e do corpo. Não tinha coragem de olhar pelas escotilhas. Deixava-se ficar sentada, apenas, provando, de quando em vez, um pouco de café morno e fitando sem expressão seus mostradores preguiçosos.

Jones, o gato, sentava-se de frente para uma janela. Achava a tempestade uma maravilha e criara um jogo frenético, que consistia em derrubar com a pata qualquer partícula maior que batesse contra a moldura externa de metal. Jones sabia que jamais apanharia uma deles. Tinha certa compreensão das leis da física por detrás de transparências.
Isso atrapalhava um pouco o brinquedo, mas não o inutilizava. Podia, também, fazer de conta que os pequenos fragmentos de pedra eram pássaros, embora nunca tivesse visto nenhum em sua vida. Mas entendia esse conceito também, instintivamente.

Outros monitores, além do de Ripley, eram objeto de observação; outros aferidores estavam sendo avaliados com a devida regularidade. Sendo dos tripulantes o único inimigo do café, Ash fazia o seu trabalho sem qualquer estimulante líquido. Bastava um dado novo para reacender-lhe o interesse.

Dois instrumentos inertes há muito tempo, de súbito entraram em ação. E os números, compondo-se em série uns depois dos outros na unidade de saída, afetaram o sistema do oficial de ciência tão poderosamente como qualquer narcótico. Ele ativou amplificadores e conferiu cuidadosamente as séries de algarismos antes de ligar o intercomunicador para a ponte e anunciar a sua recepção.

— Ripley? Você está aí?
— Han, han — depois percebendo o ardor da voz dele, endireitou-se na cadeira.
— Boas notícias?
— Penso que sim. Acabo de captar os sinais dos trajes deles. E suas imagens estão de volta às telas.
Ela respirou fundo antes de fazer a pergunta, necessária, mas angustiante:
— E... quantos são?
— Três, todos três... Posso captar três sinais, constantes.
— Oinde estão?
— Perto, muito perto... Alguém deve ter tido a idéia de ligar de novo os instrumentos, para que pudéssemos acompanhar a sua progressão de retorno. Vêm para cá, em marcha regular. Um pouco lenta, mas firme. Parece-me que tudo está bem.
"Não conte muito com isso" — pensou ela enquanto ativava seu próprio transmissor.
— Dallas! — chamou. — Dallas, você me ouve? — Um furacão de estática foi a única resposta. Ripley insistiu, sintonizando melhor: — Dallas, aqui é Ripley, responda...
— Calma, Ripley. Podemos ouvi-la muito bem. Estamos voltando.
— Mas o que aconteceu? Perdemos a imagem de vocês nos painéis, e os sinais também, quando entraram naquele casco. Vi as fitas de Ash. Vocês terão...
— Kane está ferido — Dallas parecia zangado, exausto. — Precisaremos de auxílio para levá-lo para cima. Ele está inconsciente. Alguém terá de ajudar a tirá-lo da câmara de descompressão.
— Vou eu — respondeu Ash, sem hesitação.

— Na retaguarda, Parker e Brett escutavam atentamente a conversação.
— Inconsciente — repetiu Parker. — Eu sempre soube que Kane se meteria em confusões...
— Certo — disse Brett, preocupado.
— Não é um mau sujeito, para um oficial de bordo. Gosto mais dele que desse Dallas. Não é tão disposto a dar ordens. Imagino o que lhes terá acontecido por lá.
— Eu também. Logo saberemos.
— Pode ser que só tenha caído e perdido os sentidos com a queda.
A explicação era tão pouco convincente para Parker quanto para Brett. Ambos calaram-se, atentos ao transmissor.

— Lá está ela — disse Dallas. E com o resto de força que lhe restava, mostrou a nave.
Três formas esguias, imprecisas, que eram como árvores nuas como árvores no inverno, surgiram do crepúsculo. Sustentavam outra forma que era maior mas igualmente amorfa: o casco do Nostromo. Tinham quase chegado à nave quando Ash atingiu a porta mais interior da câmara estanque. Parou, verificou se o fecho estava pronto para ser destravado, e tocou o botão do intercomunicador mais próximo:

— Ripley, é Ash. Estou junto da comporta interna — deixando o canal aberto, deslocou-se até junto de uma escotiIha vizinha. — Nenhum sinal deles por enquanto. Já é quase noite lá fora, mas quando se aproximarem do elevador poderei distinguir as luzes dos seus macacões.
— OK — ela pensava furiosamente, e alguns dos seus pensamentos teriam causado espanto ao oficial de ciência. Causavam espanto a ela mesma.
— Em que direção? — perguntou Dallas, apertando os olhos para distinguir os contornos da nave à luz velada dos holofotes.
Lambert mostrou à esquerda.
— Naquela direção, acho. Aquela é a primeira perna. O elevador deve estar imediatamente por trás dela.

Prosseguiram, então, naquele rumo até quase tropeçar na base do elevador, firmemente encravada no chão duro. A despeito da sua fadiga, transferiram a forma inerte de Kane
da padiola improvisada para o elevador, sustentando-o entre eles dois.

— Acha que conseguirá mantê-lo de pé? Será mais fácil do que ter de levantá-lo outra vez.
Ela tomou ar.
— Sim, creio que sim. Desde que alguém nos ajude uma vez dentro da câmara.
— Ripley, você está a postos?
— Estou aqui, Dallas.
— Estamos subindo — deu uma olhadela para Lambert. — Pronta?
Ela assentiu.
O capitão apertou um botão, houve uma sacudidela, e o ascensor subiu devagar, parando justamente ao nível da porta. Dallas inclinou-se levemente, alcançou um comutador.
O postigo externo deslizou para o lado, e eles entraram na comporta.
— Devo pressurizar?
— Não importa. Podemos dispensar uma câmara cheia de ar. Num minuto estaremos lá dentro e poderemos tirar estas miseráveis roupas.
Fecharam a porta externa e esperaram que a interna se abrisse.
— O que houve com Kane? — perguntou Ripley. Dallas estava cansado demais para perceber na voz dela outra nota que não a de solicitude por um colega acidentado. Sacudiu o ombro de modo a que Kane ficasse um pouco mais alto, sem se importar muito com a criatura. Não se movera um centímetro durante toda a caminhada e ele não acreditava que se pusesse a mexer agora de repente.
— É alguma espécie de organismo — informou. E o eco da sua voz, débil embora na concha do capacete, confortou-o de certo modo. — Não sabemos o que se passou nem de onde veio isso aí. Aferrou-se a ele. Nunca vi coisa igual nem parecida. Não se move agora e não mudou de posição no caminho. Temos de levá-lo assim mesmo para a enfermaria.
— Quero um relato completo — disse Ripley, friamente.
— Relato completo droga nenhuma! — disse Dallas. Quisera eliminar a fúria e a frustração da voz, mas não podia. Como ser razoável numa situação daquelas? — Ouça, Ripley, não vimos o que aconteceu. Ele estava no fundo de uma espécie de poço, abaixo de nós. Não sabíamos nem mesmo que alguma coisa acontecera antes de içá-lo para fora. Está claro agora? É tão completo quanto possível.
Houve apenas silêncio do outro lado.
— Escute, Ripley, abra a porta.
— Espere um pouco — disse ele. Escolhia as palavras com cuidado. — Se o deixarmos entrar, toda a nave pode ficar infectada.
— Com os diabos! Isso não é um germe! É maior do que a minha mão, e de uma solidez assustadora.
— Você conhece as normas de quarentena — a voz dela tinha uma determinação que Ripley estava longe de sentir. — Vinte e quatro horas para descontaminação. Vocês dois têm ar suficiente nos cilindros, e posso fornecer-lhes tanques extras, se necessário. Vinte e quatro horas não vão bastar, talvez, para provar que a coisa não é mais perigosa, mas isso já escapa à minha responsabilidade. Tenho apenas de impor as normas. Fazê-las obedecer. Aliás, você as conhece tão bem quanto eu.
— Conheço exceções também. E sou eu que tenho aqui o que resta de um bom amigo, e não você. Em vinte e quatro horas ele poderá muito bem estar morto, se é que já não está. Abra a porta.
— Ouça, Dallas — implorou Ripley. — Se abro, se quebro a quarentena, todos poderemos morrer.
— Abra essa bosta de porta! — berrou Lambert. — Para o diabo com as normas da Companhia. Temos de levá-lo para a enfermaria, onde o médico automático possa cuidar dele.
— Mas eu não posso! Se você estivesse na minha posição, com as mesmas responsabilidades, faria o mesmo.
— Ripley — disse Dallas pausadamente —, você pode me ouvir?
— Posso ouvi-lo perfeitamente — respondeu a moça, muito tensa. — E a resposta ainda é negativa. Vinte e quatro horas de descontaminação. Depois, ele será admitido.

Dentro da nave, outra pessoa tornou uma decisão. Ash apertou o botão de emergência que ficava fora da porta interna.
Acendeu-se uma luz vermelha, e houve um longo assovio, alto e característico.

Dallas e Lambert fitaram a porta, que começou a deslizar para o lado.
O console de Ripley iluminou-se, com as inacreditáveis palavras:

POSTIGO INTERNO ABERTO. POSTIGO EXTERNO FECHADO.

Ela ficou olhando, paralisada e incrédula, para a informação. Mas seus instrumentos confirmaram o que vinha de ler.

Com sua pesada carga entre eles, Dallas e Lambert entraram cambaleando no corredor, tão logo tiveram espaço suficiente na abertura para passar. No mesmo momento, Parker e Brett chegavam.
Ash adiantou-se para ajudar a mover o corpo, mas foi afastado por um gesto de Dallas.

— Fique a distância.

Dallas e Lambert depuseram Kane no chão e retiraram seus próprios capacetes.
Mantendo-se longe da forma em repouso, Ash deu-lhe volta até poder avistar a coisa presa à cabeça.

— Meu Deus! — murmurou.
— Está viva — disse Parker. Estudou a forma alienígena, admirando-lhe a simetria, o que não lhe tirava nada da repelência.
— Não sei, mas não lhe bote a mão! — avisou Lambert, enquanto retirava as botas.
— Não tenha medo disso — disse Parker. Inclinando a frente, procurava perceber detalhes, ver que parte da besta estava em contacto com Kane. — O que isso está fazendo com ele?
— Não sabemos. Temos de levá-lo à enfermaria e descobrir.
— Certo — disse Brett. — Vocês dois estão bem?
Dallas fez que sim com a cabeça.
— Estamos cansados, muito cansados. Só isso. O bicho não se moveu, mas é preciso observá-lo todo o tempo.
— Muito bem — os dois engenheiros ergueram Kane do chão, ajudados por Ash, e levaram-no.


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