sábado, 29 de outubro de 2011

O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 12)





— Essa merda vai comer um deque, depois outro, depois o casco!

Virando-se, ele se pôs a correr para a primeira escada de tombadilho. Dallas arrancou uma lâmpada de emergência do seu suporte e seguiu seu técnico de engenharia, e os outros foram no encalço deles.

O corredor do deque B tinha as paredes forradas de instrumentos, tubulações e eletrodutos. Brett já examinava o teto imediatamente abaixo da enfermaria.
O líquido tinha, ainda, de varar vários níveis sucessivos de ligas metálicas.
Dallas voltou o foco da sua lanterna para o forro, procurou, depois manteve-o imóvel.

— Lá.

Acima deles, apareceu um pouco de fumaça. Surgiu depois uma pequena mancha de líquido amarelo, com metal fervendo em derredor. Aquilo varou o teto, formou uma gota, pingou. E imediatamente pôs-se a ferver no piso do deque. Dallas e Brett assistiam impotentes ao desastre, pois a poça aumentou de diâmetro e pôs-se a corroer o convés.
— O que fica aí debaixo?
— O corredor C — informou Parker. — Não tem instrumentos.
Ele e Ripley desceram correndo, mas os outros ficaram no corredor B a contemplar o buraco que aumentava no chão.
— O que podemos botar debaixo dele? — Ash considerava o problema como se fosse abstrato, embora consciente de que, em poucos momentos, o caso do Nostromo poderia estar perfurado, imprestável, o que significaria selar compartimento por compartimento até que os danos estivessem reparados. E podia ser muito pior. Grande número de circuitos da maior importância passava pela quilha principal. Se o líquido a arruinasse, era possível que a avaria escapasse da capacidade limitada da engenharia de bordo. Muitos desses circuitos faziam parte da construção da nave e não se destinavam a sofrer reparos fora de um estaleiro de alta categoria.
Ninguém pensou em algo que pudesse deter o fluxo de ácido.
Embaixo, Parker e Ripley moviam-se com cuidado pelos escaninhos escuros e apertados do corredor C, de olhos no teto.

— Não fique debaixo desse material. Se é capaz de varar liga de convés, não ouso imaginar o que faria com a sua linda carinha.
— Não se incomode, tomo cuidado com minha própria cara. Cuide da sua.
— O troço parece estar perdendo a força — disse olhando para o chão com o maior desejo de que fosse mesmo verdade.

Brett e Ash, sentados em frente dele, também contemplavam, apalermados, a escura impressão no piso. Ash tirou uma caneta de um dos bolsos da túnica e investigou cautelosamente o orifício. Logo, o metal que revestia a caneta ferveu levemente, como um mercúrio carbonatado. O borbulho cessou logo, porém, extinguindo-se antes mesmo de estragar o acabamento brilhante. O oficial de ciência insistiu. E ao invés de afundar-se, a caneta encontrou resistência.

— Não passou mais de três centímetros. O líquido deixou de penetrar como no começo.
Embaixo, Parker olhou para Ripley, na penumbra.
— Você percebe alguma coisa?
Continuaram a inspecionar o teto. Debaixo deles ficava uma galeria de serviço e, abaixo dela, o próprio casco principal do Nostromo. Para além dele, só a atmosfera de um planeta ignorado.
— Nada — respondeu Ripley por fim. — Mas continue observando. Vou ver o que está acontecendo lá em cima.
Correu pelo passadiço e escadas acima. A primeira coisa que viu foi os outros agachados em torno do buraco.
— O que houve? Não passou para o outro lado até agora.
— Perdeu a força — disse Ash, ajoelhando-se para ver de perto o metal perfurado. — Ou a continuada reação com as ligas que encontrou pelo caminho diluiu-lhe a potência ou simplesmente ele perde seu poder cáustico depois de um determinado período de tempo. De qualquer maneira, já me parece ativo.
Ripley adiantou-se para verificar por si mesma o buraco ainda fumegante no chão do convés.
— Poderá ser mais forte a liga neste deque que no de cima? Ou estará o material a corroer o piso horizontalmente agora, em busca de outro ponto fraco por onde penetrar?
Ash abanou a cabeça.
— Não, não penso assim. Do que me lembro de construção de naves, os deques principais e o casco do Nostromo são todos compostos do mesmo material. Não. O razoável será concluir que o fluido é, agora, inerte.
Esboçou o gesto de pôr a caneta meio roída no bolso. Segurava-a pela extremidade não danificada. Mas no último momento mudou de idéia e continuou com ela na mão.
Ripley percebeu a hesitação dele e fez troça:
— Se, já não é perigoso, Ash, por que não a põe no bolso?
— Não se deve agir com precipitação. Temos tempo. Vamos fazer testes primeiro, verificar se de fato a substância não é mais perigosa. Só porque já não pode corroer a liga do convés não significa que não possa queimar a pele. E será uma queimadura atroz.
— O que você acha que seja? — perguntou Dallas. Seu olhar foi da pequena cratera no piso até o correspondente buraco no teto. — Nunca vi coisa que pudesse cortar uma liga dessas. Não com tal rapidez.
— Eu também nunca vi coisa igual — confessou o oficial de ciência. — Certas variedades altamente refinadas de ácido molecular têm um tremendo poder, mas agem, de regra, sobre materiais específicos. Sua aplicação geral é muito restrita. Já esse troço parece ser um corrosivo universal. Já o vimos demonstrar sua capacidade de cortar diferentes substâncias com igual facilidade. Ou indiferença, se preferirem. Ligas metálicas, luvas cirúrgicas, mesa de operação, roupa de cama. Passou por tudo isso com igual desenvoltura. E aquela miserável criatura usa isso como sangue! É um monstrinho, vocês terão de convir.
Falava do alienígena maniforme com respeito, malgrado seus sentimentos para com ele.
— Não sabemos realmente se ele usa esse elemento como sangue — a mente de Ash parecia funcionar acelerada do sob a pressão das circunstâncias. — Pode ser o componente de outra circulação, de outro sistema, de um sistema paralelo, como o linfático, destinado, por exemplo, a lubrificar as entranhas da peste. Ou pode ser ainda uma camada protetora, defensiva, uma espécie de endotélio líquido. Nesse sentido, o fluido não seria mais que a contraparte da linfa.
— Maravilhoso mecanismo defensivo esse — disse Dallas. — Ninguém ousa dar cabo dele.
— Não a bordo de uma nave selada hermeticamente disse Ripley, pondo os pingos nos is, mas sem ênfase.
— Tem razão. Poderíamos ter levado Kane para onde os fluidos da criatura não danificassem o Nostromo. E tentar arrancá-la lá fora. Só que pensamos que ela é a única coisa que mantém vivo. Uma vez que os separemos e que tiremos aquilo da sua garganta poderemos alimentá-lo de oxigênio. E cobertores térmicos o conservarão aquecido. Podíamos, aliás, armar uma tenda de oxigênio, com piso selado. O fluido pingaria no chão, abaixo dele.
— Não é uma idéia má — admitiu Ash —, salvo duas coisas — Ripley aguardou as objeções com impaciência.
— A primeira já foi discutida: remover a criatura à força pode interromper fatalmente a ação sustentadora da vida dele. Bastaria o choque para matar Kane. Segundo, não temos qualquer espécie de garantia de que, sentindo-se ferida, a criatura não reaja jogando aquele fluido sobre si mesma e sobre tudo o que estiver à sua volta. Seria uma reação defensiva perfeitamente compatível com as qualidades destrutivas do fluido.

Ash fez uma pausa para que a imagem que evocara dominasse todas as mentes.

— Mesmo que o operador, isto é, aquele que estivesse cortando a besta escapasse de ferimento sério produzido pelo líquido corrosivo, não gostaria de ficar responsável pelo que acontecesse com o que resta do rosto de Kane. Ou da sua cabeça.
— Muito bem — disse Ripley, um tanto ressentida.
— Talvez não tenha sido mesmo idéia das mais brilhantes. Mas o que sugere como alternativa?
E apontando com o polegar a enfermaria acima deles:
— Vamos levá-lo para casa com aquela coisa encarapitada no seu crânio?
— Não vejo nenhum perigo nisso — respondeu Ash. O sarcasmo da moça não o impressionava. — Se seus sinais vitais permanecerem bons, considero uma alternativa viável. Se falharem, naturalmente teremos de tentar outra coisa. Mas nesse momento devo dizer que remover a criatura violentamente representa mais perigo em potencial para Kane do que benefício.

Um novo rosto apareceu no alto da escada que descia para o tombadilho. Era Parker.

— Ainda nenhum sinal do fluido. A besta parou de sangrar?
Vendo que Ripley estava zangada, Parker dirigiu-se a Dallas.
— Sim. Depois de atravessar dois convés. — Estava ainda estupefato com a potência do fluido alienígena.
Ripley reanimou-se, olhou em torno:
— Estamos todos aqui. E Kane? Ninguém toma conta dele ou do alienígena!

Houve uma corrida geral para as escadas.
Dallas foi o primeiro a alcançar a enfermaria. Bastou olhar para ver que nada mudara. Kane jazia tão inerte quanto o deixara, imóvel na plataforma da mesa de operação, com o alienígena ainda firmemente ancorado em seu rosto.
Dallas ficou furioso consigo mesmo. Agira como um menino. É verdade que o líquido demonstrara propriedades nervosas, mas nada justificava o pânico total que se seguira. E ele deveria ter delegado um ou dois membros da tripulação para guardar o paciente e a criatura. Felizmente, nada se alterara na ausência deles. A coisa não se movera nem, ao que parecia, Kane. Dali por diante, acontecesse o que acontecesse, haveria sempre alguém de sentinela na enfermaria, dia e noite. A situação já era por demais grave e não deviam dar à criatura a oportunidade de fazer coisas sem ser observada.
— O ácido o atingiu? — Parker estava no portal, esforçando-se para ver Kane.
Dallas adiantou-se até a plataforma e inspecionou cuidadosamente a cabeça do oficial executivo.
— Não, creio que não. Ele me parece bem. O líquido escorreu pelos flancos da criatura sem entrar em contato com a pele dele.
Brett também apareceu à porta.
— Essa porcaria ainda pinga? Temos peças de cerâmica lá embaixo que agüentam qualquer espécie de coisa. Não sei se agüentarão isso também, mas não custa tentar. Eu posso improvisar um recipiente.
— Não se dê ao trabalho. Parou de sangrar.
Ash examinava com atenção a pequena seção cortada Pelo laser.
— Cicatrizada. Nem sinal da incisão. Extraordinárias propriedades regenerativas. A gente nem diria que o couro foi cortado.
— Mas deve haver algum modo de fazê-la largar a presa — disse Lambert, com um arrepio. — Fico doente de ver este bicho sentado na cara de Kane com aquele tubo infecto ou que diabo seja, enfiado na garganta dele.

— Pois ficaria ainda mais doente se fosse em você — disse Ripley maldosamente.
— Não acho graça — disse Lambert.
— Pois repito — disse Ash a Dallas — não seria aconselhável a remoção — Dallas ignorava-o — Não deu nada certo da última vez...
Dallas encarou-o, furioso, depois acalmou-se.
Ash, como de hábito, estava sendo objetivo, o sarcasmo não estava na natureza dele.
— Que faremos então? — quis saber Lambert.
— Nada — disse Dallas com firmeza. — Não podemos fazer nada. Tentamos. E, como Ash observou há pouco, isso quase nos custou uma nave furada. Então... Vamos botá-lo de novo no médico automático e esperar que a máquina saiba melhor que nós o que lhe convém.

Apertou um controle. Houve um zumbido suave, e a plataforma de Kane deslizou para dentro da parede e da máquina. Dallas mexeu em outros vários comutadores, teve uma nova visão do colega em coma, depois de esquemas e diagramas que diziam respeito a ele. Não davam qualquer informação nova, não ofereciam soluções.
Ash procurava interpretar diferentes leituras.

— Suas funções continuam normais, mas há uma indicação nova de degenerescência de tecidos e de colapso.
— Então, a criatura lhe faz mal.
— Não necessariamente. Ele já não come nem bebe há algum tempo. Essas leituras podem refletir uma natural redução de peso, por exemplo. Não há indício de que esteja drasticamente enfraquecido, nem pela criatura nem pelas circunstâncias. Não obstante, queremos conservá-lo nas melhores condições possíveis. Seria bom providenciar logo alguma alimentação endovenosa, até que possamos saber com certeza se a criatura estará a absorver proteína do sistema dele.

Ash ativou um bloco de controles. Novos sons encheram a enfermaria e o médico automático apressou-se em assumir a tarefa de alimentar o inerme Kane e processai os resultantes detritos.

— O que é aquilo? — perguntou Ripley, assinalando um ponto na radioscopia movente dos pulmões de Kane. — Aquela mancha nos pulmões dele?
— Não vejo mancha nenhuma.
Dallas estudou a área.
— Percebo o que ela quer dizer. Amplie, por favor, Ash, a seção do sistema respiratório.
O oficial de ciência obedeceu. Agora a pequena mancha que chamara a atenção de Ripley destacava-se claramente. Era grande, irregular, completamente opaca e obliterava uma parte da caixa torácica.
— Não podemos dizer que esteja nos pulmões — disse Ash, mexendo nos seus controles. — Pode ser um defeito, ou uma seção danificada da lente. Acontece o tempo todo.
— Ilumine melhor — pediu Dallas. — Vamos ver se obtemos um contraste melhor.
Ash ajustou o instrumental, mas, a despeito de todos os seus esforços, o borrão escuro continuou lá: uma área escura não resolvida.
— Não ouso aumentar a radiação, temendo que ele sofra algum dano.
— Eu sei — disse Dallas, contemplando fixamente a enigmática nódoa. — E se perdermos a capacidade de usar essa máquina, não saberemos que diabo se passa dentro dele.
— Eu me encarrego — disse o oficial de ciência. — Vou limpar as lentes. É uma questão de tempo. Mas podem ser polidas de novo, um pouco pelo menos.
— Ficaremos cegos, entrementes.
— Será impossível eliminar a mancha sem desmontar a máquina.
— Não o faça, então. Pelo menos até que aumente tanto que obscureça totalmente o nosso campo de visão.
— Como quiser, capitão.
E Ash voltou às suas leituras. Brett pareceu perplexo, frustrado:
— Que faremos agora? Esperamos sentados? É tudo?
— Não — respondeu Dallas, lembrando-se de que tinha uma nave a comandar, além de zelar pelo pobre Kane. — Nós esperamos aqui, de vigília. Vocês dois vão de volta ao trabalho...




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