sábado, 26 de novembro de 2011

O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 16)






Surgindo do topo das nuvens empilhadas, o Nostromo emergiu no espaço aberto. Um minuto, cinqüenta segundos mais tarde, o indicador de gravidade superficial do console de Dallas caiu para zero.

A vitória foi motivo de grandes hurras — não profissionais, naturalmente, mas calorosos, do pessoal da ponte.

— Conseguimos! — disse Ripley, recostando-se, exausta, na sua cadeira acolchoada.
— Foi o diabo, mas conseguimos. Quando houve o primeiro tremor e começamos a der velocidade, pensei que jamais passaríamos. Já nos via todos esparramados por cima da colina mais próxima. E talvez fosse bom que isso nos acontecesse se tivéssemos de mergulhar num hipersono verdadeiro, perdendo a refinaria.

— Não havia nada a temer realmente — disse Lambert sem sorrir. — Poderíamos ter aterrissado de novo. Então, nosso pedido de socorro iria para o ar. Descansaríamos em hipersono, até que uma outra tripulação mais ditosa pulasse dos seus congeladores para vir salvar-nos.

"Cumpre não mencionar os bônus" — dizia Dallas consigo mesmo. — "E dar-lhes a notícia já em órbita da Terra." Mas pelo menos cumpria dar à equipe de engenharia algum elogio verbal. Ligou o intercomunicador.

— Belo trabalho, vocês dois. Como vão as coisas agora?
— Agora que saímos do fogo, ela está fina, ronronando que nem Jones, o gato.
Um estalo esquisito fez-se ouvir no alto-falante. Dallas franziu o cenho, incapaz de localizá-lo. Depois pensou que talvez Parker tivesse aberto inadvertidamente uma cerveja perto demais do microfone.
— Foi um verdadeiro passeio — continuou o engenheiro, orgulhosamente. — Quando nós consertamos uma coisa, a coisa fica realmente consertada — houve então um gorgolejo, como se Parker tivesse submergido.
— Muito bem — disse Dallas. — Belo trabalho. Façam uma pausa agora. Vocês merecem. Parker...
— Sim, capitão.
— Quando nos aproximarmos da Terra e você estiver coordenando seu departamento com o controle de engenharia, cuidado. Mantenha a cerveja longe do microfone.
Os gorgolejos afastaram-se, sumiram.
Satisfeito, Dallas desligou e disse, sem se dirigir a qualquer pessoa em particular.
— Agora é pegar o dinheiro e ir para casa. Ponha a nave na garagem, Lambert.

O ângulo de subida do Nostromo começou a achatar-se.
Vários minutos se passaram até que uma pulsação constante, repetida a intervalos regulares, começou a soar num painel específico, acima da cabeça da navegadora.
Todo mundo sabia do que se tratava.

— Aí está ela — informou Lambert — exatamente onde devia estar.
— OK — Dallas manipulava controles. — Alinhar e ficar alerta para a atracagem.
Os instrumentos zumbiram e o cargueiro ajustou sua posição com relação à montanha de metal e de plástico. Ripley torceu uma chave, e a nave tomou posição de costas para a massa informe da refinaria.

— Em posição — disse ela.
— Engatar — disse Dallas, com os olhos postos num mostrador, os dedos num teclado cheio de botões vermelhos.
— A caminho — disse Ripley, atenta a dois painéis ao mesmo tempo. — Distância diminuindo. Vinte... quinze... feito. E virou a chave.
Dallas, no mesmo momento, apertou os seus botões.
— Motores cortados, primárias compensadas. Temos agora estabilidade de inércia. Ativar a comporta da hiper- propulsão.
— Ativada — informou Ripley. — Estamos acoplados.
Quando de novo ativado, o Nostromo geraria um campo de hiperpropulsão suficiente para englobar também a refinaria. Ela viajaria de novo a reboque deles, envolvida nessa misteriosa manifestação de não-realidade que permite a naves e homens viajarem mais depressa que a luz.
— Dirigir o curso para a Terra — ordenou Dallas, incisivo. — Depois, acenda o grande e ponha a gente em luz mais quatro, Ripley.
— Com prazer.
— Curso computadorizado e automatizado — disse Lambert, um momento mais tarde. — Tempo de ir para casa. — Depois, consigo mesma: "Pés, levem-me daqui."

Ripley acionou um controle principal. O minúsculo mundo com sua nave alienígena sinistrada desapareceu como se jamais tivesse existido. O Nostromo alcançou, depois excedeu, a velocidade da luz. Um efeito-corona materializou-se em torno da nave e da sua refinaria. As estrelas à frente fizeram-se azuis, as da retaguarda vermelhas.
Seis tripulantes voavam, felizes, a caminho de casa. E alguma outra coisa chamada Kane...



Sentavam-se em torno da mesa comum, no refeitório, tomavam café, chá ou outros estimulantes quentes, segundo o gosto e os hábitos de cada um. Sua atitude descansada refletia o presente estado de espírito, que fora até bem pouco tempo duro como o vidro e duas vezes mais frágil. Agora, jogavam as pernas por cima dos braços das cadeiras e afundavam-se contentes nas almofadas.

Lambert ficara mais um pouco na ponte, fazendo algumas verificações finais antes de permitir-se também ao luxo de desmoronar numa poltrona. Ash estava na enfermaria, tomando conta de Kane. O oficial executivo e seu estado estacionário eram o principal tema de conversação.
Parker ingurgitava chá fervente, estalava a língua de modo indelicado, e sugeria, com sua habitual suficiência:

—Melhor seria congelar o homem. Talvez isso paralisasse a doença.
— Não vejo de que maneira o congelamento pode afetar o estado dele — argumentava Dallas. — Talvez piore com o frio. O que funciona para doenças terráqueas pode, ao contrário, intensificar o que quer que seja que se apoderou dele.
— Mas é melhor que não fazer nada — insistiu Parker, agitando a xícara no ar como um bastão de maestro. — E é o que o médico automático fez por ele: nada de nada. O que Kane tem desafia a capacidade da máquina, exatamente como Ash nos disse. Aquele computador médico está programado para curar enjôo e encanar perna quebrada, só isso. Não uma coisas dessas. Estamos todos de acordo que ele requer cuidados especiais.
— Os quais, você acaba de admitir, não podemos dar.
— Justo — Parker inclinou-se para trás na sua cadeira. —— Exatamente. É por isso que digo que, entrementes, ele deve ser congelado. Até que um médico especializado em moléstias exóticas lhe possa dar atenção.
— Certo — ajuntou Brett.
Mas Ripley sacudiu a cabeça, parecendo aborrecida.
— A tudo que ele diz você diz 'certo'. Sabe disso, Brett?
Ele riu: — Certo.
Ripley voltou-se para encarar o engenheiro.
— O que pensa disso, Parker? Sua equipe o segue por toda parte e diz 'certo'. Como papagaios.
Parker virou-se para Brett.    ,
— Tome jeito, Brett. Que diabo é você? Um papagaio?
— Certo.
— Ora, acabem com isso — disse Dallas, e lamentou ter feito esse comentário.

Um pouco de brincadeira só lhes poderia fazer bem, e lá vinha ele jogar-lhes água fria. Por que tinha de ser assim? O relacionamento entre os membros da tripulação do rebocador era mais do tipo informal, entre colegas, que do tipo chefe-subordinado de uma escala de comando. Por que, então, de repente, esse desejo de mostrar-se capitão?
Talvez por estarem numa situação de crise, pela necessidade de haver alguém ‘responsável'. Cabia-lhe esse espinho, a responsabilidade. Serviço infame. Muito mais desejaria ter o de Parker ou o de Ripley. Sobretudo o de Parker. Os dois engenheiros podiam enfurnar-se lá em seu cubículo privado e ignorar alegremente tudo aquilo que não lhes dizia respeito diretamente. Contanto que mantivessem os motores e os sistemas da nave funcionando, só eram responsáveis um perante o outro.

Ocorreu também a Dallas que ele não gostava assim tanto de tomar decisões. Talvez pensasse diferentemente se comandasse uma grande nave de passageiros, e não um cargueiro como o Nostromo. Talvez por isso mesmo jamais se queixasse disso. Era uma idéia nova, mas bastante reveladora. Como capitão de rebocador podia passar a maior parte do tempo em sono profundo, apenas sonhando e acumulando salários. Ninguém toma decisões em hipersono.

Em breve, disse com seus botões, muito em breve poderiam voltar ao conforto dos seus esquifes individuais. As agulhas baixariam lentamente, o soporífico lhes penetraria as veias e lhes entorpeceria o cérebro; e flutuariam agradavelmente, para longe, longe... para longe de um mundo em que não mais havia que tomar decisões e em que os imprevistos e sobressaltos de um universo hostil não encontravam guarida...
Em breve. Logo que acabassem de tomar café.

— Kane terá que ficar em quarentena — disse sem pensar, bebericando na sua caneca.
— E nós também — disse Ripley, a quem o pensamento já consternava. O que era compreensível. Teriam de viajar de volta à Terra. Depois, curtir semanas de isolamento até que os médicos se convencessem de que nenhum deles trazia nada semelhante àquilo que derrubara Kane. Visões de céus azuis e verdes relvados enchiam-lhe a mente. Via também uma praia e uma cidadezinha de sorridente paisagem no litoral de El Salvador. Era triste adiar tudo isso, varrer tudo isso da mente.
Todos os olhos se voltaram quando uma nova figura se reuniu ao grupo: Lambert, que parecia cansada e deprimida.

— Que tal alguma coisa para baixar o ânimo de vocês?
— Baixar? Por favor — disse Dallas —, sempre é uma forma de excitação...
E preparou-se para o que suspeitava estar a caminho. Sabia por que a navegadora se deixara ficar para trás, na ponte, e em que problemas trabalhara.
— Segundo meus cálculos, baseados no tempo gasto para ir e vir daquela escala não programada e o desvio...
— Abrevie — disse Dallas. — Sabemos que saímos da rota. Quanto tempo até a Terra?
Ela serviu-se uma xícara de café, escolheu uma cadeira e só então disse, com tristeza:
— Dez meses.
— Cristo! — fez Ripley. E fincou os olhos no fundo da xícara. Nuvens, prados, praia recuaram para o fundo do quadro, dissolveram-se numa névoa muito leve, cor de águas marinhas, puseram-se longe, fora do seu alcance. A rigor, dez meses em hipersono não faziam grande diferença de um mês. Mas suas mentes funcionavam no tempo real. Se Lambert tivesse dito pelo menos seis meses...

Nesse momento, o intercomunicador deu seu pio de aviso.

— O que é, Ash?
— Venha ver Kane imediatamente! — era um pedido urgente, mas havia nele uma nota de hesitação.
Dallas endireitou-se na cadeira e os outros fizeram o mesmo.
— Houve alguma alteração no estado dele? Coisa grave?
— Seria mais simples se viesse vê-lo.

Houve uma corrida para a enfermaria.
O café foi deixado fumegando na mesa abandonada.   

Horríveis pensamentos toldavam a mente de Dallas a caminho da enfermaria, com os outros todos atrás dele. Que seqüelas teria a afecção alienígena deixado no astronauta? Dallas visualizava um enxame de pequenas mãos cor de cinza, cada uma com seu olho grotesco a luzir marejado e solitário, subindo pelas paredes da enfermaria como que para tomar posse dela; ou uma vegetação de fungos a alastrar-se qual lepra sobre os restos putrescentes do infortunado Kane.

Chegaram à enfermaria ofegantes da corrida através de corredores e galerias. Não havia qualquer proliferação nefasta de maniformes nem o corpo do oficial se cobrira de bolores. Mas Ash falara pela metade, ao anunciar melhoras: o oficial executivo estava sentado na mesa de operações. Tinha os olhos abertos e límpidos e era óbvio que funcionavam em sintonia com o cérebro. E esses olhos se voltaram para a porta e para os recém-chegados, todos boquiabertos.


— Kane? — Lambert estava incrédula. — Você está bem? — "Sim, está, pelo menos em aparência", pensava ela, ainda estupefata e confusa. Era como se nada lhe tivesse acontecido.
— Você deseja alguma coisa? — perguntou Ripley quando ele deixou de responder a Lambert.
— A boca estará seca — disse Dallas. Lembrara-se, de súbito, do que lhe parecia familiar no aspecto de Kane: era como um homem que sai de um ataque de amnésia. Parecia alerta e em boa saúde, mas perplexo sem nenhuma razão perceptível, como se ainda procurasse organizar na cabeça os pensamentos. — Alguém pode trazer água?
Ash foi a um filtro, encheu um copo plástico e deu-o a Kane. O oficial executivo emborcou-o de um trago. Dallas observou que a coordenação muscular parecia perfeita. Os movimentos de beber — mão para boca — haviam sido realizados por instinto, sem conscientização.
Era uma ocasião feliz, mas começava a ficar ridícula.
Alguma coisa não estava certa nele.

— Mais — disse Kane. Foi tudo. E, no entanto, o astronauta continuava a agir como um homem com perfeito domínio de si mesmo.
Ripley encontrou um recipiente maior, encheu-o até a boca e deu-lho. Kane engoliu a água com a sofreguidão de um homem que passou dez anos vagando por desertos. Depois, recostou-se na plataforma acolchoada, arfando.

— Como se sente? — perguntou Dallas.
— Terrível. O que houve comigo?
— Você não se lembra? — perguntou Ash.
Então, pensou Dallas, a analogia da amnésia estava mais próxima da verdade do que ele tinha podido, de começo, imaginar.
Kane teve uma expressão de dor. Foi mais uma contração muscular do que qualquer outra coisa. Depois respirou fundo.
— Não me lembro de nada. Com dificuldade, lembro meu nome...
— Apenas para o registro... e para o relatório médico — disse Ash calmo. — Qual é o seu nome?
— Kane. Thomas Kane.
— É tudo?
— Sim, no momento — deixou que seu olhar passeasse lentamente pelo grupo reunido, pelas caras ansiosas dos seus amigos.
— Lembro-me de todos vocês, mas ainda não sei dar-lhes nomes.
— Saberá logo — disse Ash, confiante. — Você sabe seu nome e reconhece fisionomias. É um bom começo. E um sinal de que sua perda de memória é parcial.
— Alguma coisa lhe dói? — curiosamente, coube ao estóico Parker fazer a primeira pergunta perceptiva.
— Todo o corpo, praticamente. Sinto-me como se tivesse levado uma surra de vara por seis anos a fio... — Kane sentou-se outra vez, jogou as pernas para o lado e pela primeira vez, sorriu: — Deus, que fome! Há quanto tempo estou assim sem sentidos?
Dallas continuava a encará-lo com ar incrédulo.
— Uns dois dias. Está seguro de não saber mesmo nada do que lhe aconteceu?
— Nada.
— Qual a última coisa de que se recorda? — perguntou Ripley.
— Não sei.
— Você saiu comigo e com Dallas a explorar um planeta desconhecido. Lembra-se do que aconteceu por lá?
Kane franziu a testa no esforço de livrar-se das névoas que lhe toldavam a memória. Lembranças mesmo estavam como as iguarias de Tântalo, ao mesmo tempo inacessíveis e ao alcance da mão... Fixá-las era um processo doloroso, fragmentário, impossível de completar.
— Um pesadelo, talvez... Alguma coisa ligada a sufocação. Onde estamos? Ainda no tal planeta?
Ripley sacudiu a cabeça.
— Não, e muito me alegra, dizê-lo. Estamos no hiperespaço, a caminho de casa.
— E prestes a voltar para os congeladores — acrescentou Brett, na antecipação da beatitude. Estava tão ansioso quanto os outros para recolher-se ao abrigo despreocupado do sono profundo. O pesadelo que se impusera a todos seria posto também em suspensão com eles.
Embora a presença desse Kane revivido tornasse quase impossível reconciliar suas memórias com a imagem do horror alienígena que ele tinha levado para bordo, a criatura petrificada estava lá, à vista, para quem quer que desejasse inspecioná-la, imóvel, em seu tubo de estase.
— Estou com vocês — disse Kane, sem hesitação. — Sinto-me tão tonto e cansado que poderia entrar em sono profundo mesmo sem congeladores. — E, olhando em torno com ar esgazeado: — No momento, porém, o que tenho mesmo é uma fome devoradora. Gostaria de comer alguma coisa antes de dormir.
— Eu mesmo tenho fome — disse Parker, cujo estômago imediatamente roncou. — É triste imergir no hipersono com o estômago roncando. Recomendo começar de barriga cheia. Facilita o despertar.   
— Não serei eu quem o contradiga — disse Dallas. Acreditava que alguma espécie de celebração se impunha. Na falta de material festivo, um banquete era boa idéia. Um ultimo banquete, antes do olvido.
— Todos nós sentimos a necessidade de comer alguma coisa. Uma última refeição antes do sono...




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