sábado, 3 de dezembro de 2011

O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 17)










IX


Além de café e chá, foram servidos também, no refeitório, pratos individuais de comida quente. Todo mundo comeu descansadamente. Seu entusiasmo provinha muito mais do fato de serem, agora, e outra vez, uma tripulação completa do que da excelência das iguarias oferecidas com presteza mecânica pelo cozinheiro automático.
Só Kane comeu de outro modo, devorando enormes quantidades de carnes artificiais e legumes. Já repetira uma ração normal e começava uma terceira sem dar mostras de que diminuiria o ritmo. Indiferente à glutonaria humana, Jones, o gato, comia delicadamente de uma tigela posta no centro da mesa comum.
Kane levantou os olhos do prato e disse, brandindo no ar uma colher:
— A primeira coisa que vou fazer na Terra é comer alguma comida decente. Estou farto desses substitutos. E não me importa o que digam os manuais da Companhia: têm, todos, gosto de reciclagem. Um travo de comida fabricada em proveta, que não há tempero que melhore ou elimine.
— Já comi pior — disse Parker, pensativamente. — Mas já comi muito melhor, também, diga-se a bem da verdade.
Lambert franziu a testa para o engenheiro, mantendo suspensa no ar, entre prato e boca, uma porção de bife-que-não-era-bife.
— Pois para quem não gosta da comida, você está comendo como um leão.
— Mas eu gosto da comida — disse Parker, entre duas colheradas.
— Não brinque! — disse Kane, com um olhar desconfiado, como se Parker não estivesse de todo bom da cabeca"
— Falo sério. A gente se acostuma com ela.
— Só mesmo assim. Porque você sabe do que é feita
— Eu sei do que é feita — disse Parker. — O que tem isso? Agora é comida. Nem você tem autoridade para falar, comendo como está comendo hoje.
— Ah, mas eu tenho uma desculpa — disse Kane — estava morrendo de fome. — E correndo os olhos pela confraria: — Alguém pode me dizer se amnésia afeta o apetite?
— Apetite? — fez Dallas. — Meu caro, você recebeu apenas alimentação líquida todo o tempo em que esteve no médico automático. Sucrose, dextrose e o resto mantiveram no vivo, mas não são, afinal de contas, coisa de satisfazer ninguém. Não é de admirar que esteja esfaimado.
— Hum — fez Kane, metendo na boca uma garfada dupla —, é como se... como... — interrompeu-se, fez uma careta, pareceu confuso, depois um pouco assustado.
Ripley debruçou-se para ele:
— O que foi, Kane? Sente-se mal? Alguma coisa na comida?
— Não... Acho que não... O gosto estava certo. Não acho...
Interrompeu-se de novo, em meio ao que ia dizer. Sua expressão era tensa e ele se pôs a grunhir estranhamente.
— Mas o que tem, então? — insistiu Lambert.
— Não sei.
Kane fez uma outra careta, como um boxeador que tivesse levado um murro desonesto e inesperado na barriga.
— São cãibras... Cada vez mais fortes...
Torcia-se de dor, agora, e parecia completamente confuso. Todos o olhavam com expressões ansiosas. De súbito, soltou um gemido alto e profundo, agarrando-se com as duas mãos na borda da mesa. Tinha os nós dos dedos brancos com o esforço, os tendões saltavam-lhe nos braços. Todo seu corpo sacudia descontrolado, como que num grande tremor de frio, embora estivesse quente e agradável no refeitório.
— Respire fundo, vamos — aconselhou Ash, quando ninguém fazia qualquer sugestão.
Kane tentou. Mas a inspiração forçada acabou num grito:
— Deus meu, dói muito. Ai, que dor, que dor... — Cambaleava, todo trêmulo, agarrado à mesa como se tivesse medo e pânico de soltá-la.
— Aiiiii  
— Que foi? Onde dói? Kane! — fez Brett, assustado, impotente. _
A expressão de agonia que se estampou no rosto de Kane cortou a palavra a Brett mais efetivamente do que qualquer grito o teria feito. O astronauta tentou endireitar-se apoiado à mesa, mas não conseguiu e emborcou de novo. Já não podia controlar o corpo, tinha os olhos esbugalhados e soltava uma espécie de uivo, prolongado, de arrepiar os cabelos. Ecoava pelo salão, pela nave, como se nada jamais pudesse extingui-lo.
— A camisa! — murmurou Ripley, tão paralisada quanto o próprio Kane, mas por motivo diverso. Apontava para o peito do oficial.

Uma grande mancha vermelha aparecera na túnica de Kane, e alargava-se rapidamente, tornava-se um vasto borrão irregular que já lhe cobria todo o tórax. Seguiu-se um som de pano que se rasga, desagradável, como de algo privado e impróprio naquele ambiente. A camisa rasgou-se de alto a baixo como a casca de um melão maduro, e abriu-se para os lados como se abrem os lábios de um corte feito a navalha. E uma cabeça, pequena e nojenta, do tamanho de um punho fechado de homem, apontou, sacudiu-se e saiu. Contorcia-se e balançava como uma cabeça de cobra. Era mais uma caveira, em que enormes dentes avultavam, afiados, tingidos de sangue. A pele era pálida, esticada, de um branco doentio, manchada agora por uma espécie de limo escuro, sanguinolento. Não exibia quais órgãos, nem mesmo olhos.
Um fedor nauseabundo, insuportável, chegou às narinas da tripulação petrificada de horror. Mas logo houve gritos, de terror e de pânico, e os astronautas se afastaram da mesa aos trambolhões. O instinto já levara o gato a fugir antes deles. De cauda ereta e pêlos eriçados, Jones cuspiu uma vez com asco e ódio; depois, em dois saltos, sumiu-se.

Convulsivamente, a caveira dentuça lançou-se para frente e saltou fora do torso dilacerado de Kane. Cabeça e pescoço vinham presos a um corpo compacto e grosso coberto com a mesma pele branquicenta. Tinha diminutos braços e pernas, que eram mais como garras, mas que impeliam a criatura com uma velocidade surpreendente. Aterrissou no meio dos pratos e travessas, arrastando pela toalha pedaços dos órgãos de Kane. Fluidos e sangue formavam uma esteira imunda atrás dela. Lembrava a Dallas um peru mutilado que tivesse dentes no coto do pescoço.
Antes que qualquer um deles se recuperasse do choque e agisse, a criatura descera da mesa e com a velocidade de um lagarto desaparecera pela porta aberta do corredor.

Todo mundo respirava estertoricamente no refeitório profanado, mas o movimento era mínimo. Kane permanecia derrubado no assento onde caíra, de cabeça para trás e boca aberta. Dallas congratulava-se com isso. Nem ele nem ninguém podia ver os olhos abertos do cadáver. Em seu peito arrebentado havia um rasgão profundo. Mesmo a distância, Dallas pôde ver como os órgãos internos haviam sido empurrados para os lados, para promover a cavidade onde aquilo se aninhara e crescera. Havia louça por todo lado, na mesa e no chão. O que sobrara da comida estava sujo de sangue.

— Não, não, não... — repetia Lambert, monotonamente, de olhos fincados na mesa.
— Meu Deus — murmurava Brett, contemplando Kane fixamente. — O que era aquilo, o que poderia ser aquilo?
Parker sentia-se mal, e nem teve ânimo de zombar de Ripley quando a moça lhes voltou as costas para vomitar incontrolavelmente.
— Aquilo se desenvolvia dentro dele todo o tempo e ele nem sabia...
— Usou-o como uma incubadeira — explicou Ash. — Como fazem certas vespas na Terra, com aranhas. Paralisam a aranha primeiro, depois botam-lhe os ovos no corpo. E quando as larvas nascem, alimentam-se da...
— Pelo amor de Deus! — exclamou Lambert saindo do seu transe. — Cale a boca, por favor.
Ash pareceu ressentido.
— Estava apenas...
Mas um olhar de Dallas o deteve. Mudaram de assunto.
— É evidente o que aconteceu. Aquela mancha negra, que os monitores nos mostraram — o capitão também sentia-se mal. Imaginava se teria o mesmo lamentável aspecto dos outros. — Não havia defeito nas lentes, afinal de contas. A mancha era dentro dele. Por que as máquinas não nos disseram isso?  
— Não havia motivo, nenhum motivo, para suspeitar de uma coisa assim — disse Ash. — Aliás, a mancha era pequena quando nós o examinamos. Pequena demais para ser levada a sério ou para causar alarme. Dava a impressão de um defeito na lente. Pode, aliás, ter havido também um defeito na lente.
— Não entendo.
— É possível que, naquela fase, a criatura gerasse um campo natural capaz de interceptar e bloquear a radiação do examinador. Ao contrário da primeira forma alienígena encontrada, o maniforme, cujo interior se podia ver com facilidade. Conhecem-se criaturas capazes de originar campos desses. O que sugere habilidades biológicas que estamos longe de penetrar ainda, ou um mecanismo de defesa desenvolvido para atender a exigências tão adiantadas que prefiro não especular a respeito.
— O caso é — observou Ripley, enxugando a boca com um guardanapo limpo — que temos a bordo um segundo alienígena. Provavelmente, tão hostil quanto o primeiro e duas vezes mais perigoso.
Olhou, desafiadora, para Ash. Dessa vez, porém o oficial de ciência não pôde ou não quis discutir com ela.
— Sim. E está solto na nave — disse Dallas, indo para junto do corpo de Kane. Os outros o seguiram constrangidos, mas a inspeção era necessária, por mais desagradável.

Olhares eloqüentes passaram de Parker para Lambert e de Lambert para Ash, e em torno do pequeno círculo. Lá fora, a imensidão esmagadora do universo envolvia o Nostromo, numa ameaça perene. E dentro da espaçonave, o cheiro espesso, podre, da morte já permeava os corredores apertados e o refeitório exíguo, em que os pobres humanos estavam condenados a viver dez meses.
Parker e Brett desceram juntos do convés de serviço, em cima, reunindo-se aos outros. Eram um grupo de caçadores frustrados.

— Algum rastro da coisa? — perguntou Dallas a assembléia. — Nem cheiros, nem sangue, nem restos... de Kane?
— Nada — informou Lambert.
— Nada — disse Ash, fazendo-lhe eco, com um óbvio desapontamento na voz.
— Não vi — disse — coisíssima nenhuma. A caveira sabe esconder-se.
— Eu também não vi — disse Brett. — Nem posso imaginar onde se meteu aquela cobra. Embora haja lugares nesta nave aonde ela pode ir e nós não. Se bem que nenhuma forma de vida possa sobreviver em muitos desses encanamentos.
— Não se esqueça da espécie de ambiente em que sua... — Dallas voltou-se para Ash e perguntou: — Como você chamaria a primeira fase da coisa?
— Pré-larval. Para dar-lhe um nome. Não posso imaginar suas fases de desenvolvimento.
— Pois bem. Não nos esqueçamos onde estava vivendo, e como, nessa sua primeira encarnação. Sabemos, por isso mesmo, que a coisa é adaptável e robusta como o diabo. Não me surpreenderia que esteja aninhada na própria câmara dos reatores.
— Pois se é para lá que foi, não poderemos nunca mais botar as mãos nela... — disse Parker.
— Esperemos que tenha escolhido outra direção. Onde possamos pegá-la.
— Porque temos, absolutamente, de achá-la — disse Ripley. E sua expressão refletia a preocupação geral.
— Que tal ligar o hipersono? — sugeriu Brett. — O ar se recolheria aos tanques e a criatura morreria sufocada.
— Em primeiro lugar, não sabemos quanto tempo ela pode sobreviver sem ar — disse a oficial de segurança, acaloradamente. — Talvez não respire. Vimos uma boca, não vimos narinas.
— Nada pode existir sem alguma forma de atmosfera — insistiu Brett, mas com menos convicção.
Ela olhou-o como se ele fora um cisco.
— Quer apostar? — Brett não respondeu. — Alem disso, só teria de viver sem ar por algum tempo. Talvez seja capaz de extrair os gases de que porventura precise seu... alimento. Seríamos presa fácil nas nossas gavetas de morgue. Recordam-se da facilidade com que a primeira forma derreteu o elmo estanque de Kane? Quem diz que esta segunda não poderá fazer o mesmo com nossos sarcófagos?
Ripley abanou a cabeça, já resignada à idéia.
— Eu, por mim, não durmo enquanto não encontrarmos e matarmos a criatura.
— Mas não podemos matá-la! — disse Lambert, com fúria. E deu um chute de frustração no piso metálico.

Em sua composição interna, deve ser como a primeira. É só cortá-la com laser e ela borrifa tudo isso aí com ácido. E olhem que é muito maior que a outra, maniforme. Se mija a mesma porcaria capaz de abrir buracos em placas de aço, poderá fazer um buraco tão grande que não sejamos capazes de vedar. Todos vocês sabem como é precária a integridade do casco em condições de vôo mais rápido do que a luz. Para não falar na delicadeza dos circuitos que passam junto à quilha primária.
— Filha da puta — resmungou Brett. — Se não podemos acabar com ela, o que faremos quando a encontrarmos?
— Nós a lançaremos fora da nave. Mas primeiro, há que caçá-la, achá-la e capturá-la — e olhou para Dallas como que a pedir-lhe confirmação.
Ele pensou por um momento.
— Não há nada mais a fazer. Vamos tentar.
— Se ficarmos a falar e falar sem fazer nada, quando fizermos alguma coisa será tarde. Nossos recursos estão calculados para um tempo ‘x’ limitado, de vigília. Estritamente limitado. Sugiro enfaticamente que nos apliquemos sem maior perda de tempo numa forma qualquer de busca organizada.
— Muito bem — disse Ripley. — O primeiro item na ordem do dia é, então, encontrar a criatura.
— Não — disse Dallas, num tom de voz tão estranho que todos olharam para ele. — Temos outra coisa a fazer primeiro — disse. E olhou para o fundo do corredor, onde se podia ver o cadáver de Kane através da porta do refeitório.

Com material tirado dos estoques de bordo conseguiram fazer um sudário, não muito amplo, mas o suficiente.
Parker selou-o com laser, à falta de linha de coser. Ficou grosseiro e artesanal, e todos se foram dali insatisfeitos com informalidade dos preparos e do amortalhamento. Consolavam-se com a certeza de que tinham feito o que fora possível, nas circunstâncias. Poderiam ter congelado o corpo, para um sepultamento mais correto na Terra, mas a tampa transparente do compartimento do congelador deixaria o cadáver exposto, e todos o veriam ao despertar. Seria melhor dispor dele ali mesmo, no espaço, de maneira limpa e expedida, para que fosse esquecido o mais depressa possível.
De volta à ponte, retomaram seus lugares habituais, mas a depressão tornava o ar pesado.

Dallas conferiu leituras e anunciou, sem expressão:
—Comporta interior selada.
Ripley confirmou com um aceno.
—A câmara ainda está pressurizada?
Outro aceno.
O capitão hesitou, olhando rosto por rosto. Todos tinham a mesma expressão velada e remota e nenhum deles retribuiu seu olhar.
—Alguém quer dizer alguma coisa?
Naturalmente, nada havia a dizer. Kane estava morto. Estivera vivo um dia; vivera com eles, convivera. Agora estava morto, irrevogavelmente morto. E nenhum dos membros da tripulação tinha a palavra fácil.
—Acabemos com isso — disse Lambert.

Dallas achou que não era lá um grande epitáfio. Mas não foi capaz de pensar em outra coisa. Estavam, de fato, perdendo tempo. Fez sinal a Ripley. Ela apertou um botão. A comporta externa abriu-se, e o ar comprimido na câmara lançou o cadáver no vazio.

Fora um serviço fúnebre misericordiosamente breve. O corpo não tinha sido, a rigor, sepultado, mas estava removido dali, subtraído à vista para sempre. Em minutos. Não como a morte. O último grito atormentado de Kane ainda ecoava no cérebro de Dallas, era como um espinho em sua carne.



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