sábado, 24 de dezembro de 2011

O Oitavo passageiro (parte 20)









Deixaram a ponte em coluna por um. Os corredores do convés A nunca tinham parecido tão longos e escuros. Eram tão familiares para Dallas como a palma da sua mão. E, todavia, a idéia de que um perigo mortal poderia estar escondido nos cantos ou nos armazéns de material, obrigava-o a pisar com cautela onde em outras circunstâncias andaria confiante e de olhos fechados.

Todas as luzes estavam acesas. Mas não clareavam completamente o corredor. Eram luzes de serviço, só para uso ocasional. Por que despender energia para iluminar todos os cantos de uma nave de carga como o Nostromo, cuja tripulação passava tão pouco tempo acordada? Bastava ter luz para as chegadas e saídas ou para emergências em vôo. Dallas agradecia a Deus as luzes de que dispunha, mas isso não o impedia de sentir falta das que não lhe tinham dado.

Segurava uma ponta da rede e Lambert a outra. O corredor ficava, assim, fechado de parede a parede. Dallas apertou sua ponta e deu-lhe um súbito puxão. Lambert olhou-o, surpresa. Depois acalmou-se, fez um aceno de cabeça e voltou a escrutar o corredor. Estivera sonhando, mergulhada numa espécie de auto-hipnose, com a mente tão cheia de horríveis cogitações, que se esquecera do trabalho em curso. Tinha de olhar nos escaninhos da nave, não nos da sua imaginação. Dallas viu estampado outra vez no rosto dela a expressão de alerta que se tinha apagado, e pôde voltar de novo sua atenção para o corredor que, logo à frente, dobrava. Ash vinha atrás deles, de olhos na tela do rastreador. Movia o aparelho para a direita e para a esquerda, devagar, explorando tudo, de parede a parede. O aparelho não se alterava, exceto quando ele o virava por demais para um lado ou para o outro, apanhando Dallas ou Lambert. Então soltava um queixume e Ash tinha de apertar o botão para silenciá-lo.
Pararam junto de uma escada em espiral. Lambert debruçou-se para o buraco e perguntou:

— Tem alguém aí embaixo? Nós aqui em cima estamos tão limpos como a reputação de qualquer mãe.
Brett e Parker reajustaram a posição de suas mãos nas pontas da rede, e Ripley, que ia à frente dos dois, tirou os olhos do rastreador por um momento e gritou para cima:
— Nada por aqui também.

No convés A, Lambert e Dallas prosseguiram, com Ash fechando a marcha. Sua atenção estava toda na volta do corredor. Não gostavam dessas inflexões. Eram lugares naturais para uma tocaia. Mas ao chegarem lá descobriram apenas outro corredor, tão deserto como o primeiro. Descobrir o Santo Graal não teria dado a Ripley alegria maior.
O rastreador começava a pesar-lhe nas mãos quando uma pequena luz vermelha se acendeu nele, debaixo da tela principal. A agulha deu um salto e aquietou-se. Ripley, porém, estava certa do que vira e de que o tremor fora da agulha e não de suas mãos. Foi quando a agulha se moveu de novo, afastando-se do zero da escala.
Verificou, calma, que não havia captado Brett ou Parker, antes de dizer:
— Parem. Estou registrando algo.
E deu um passo.

A agulha pulou para a outra extremidade da escala e ficou lá. A luz vermelha acendeu-se e ficou acesa. Ripley esperou a ver se voltavam à situação primitiva, mas os dois indicadores se mantiveram firmes, luz e agulha.
Brett e Parker olhavam com atenção paredes, piso e teto. Todos se lembravam de como o primeiro alienígena, embora morto, aterrissara de súbito no ombro de Ripley. Ninguém se arriscava a imaginar que o lagarto não fosse capaz de subir em paredes. Assim, não deixavam de olhar também para cima.

— De onde vem? — perguntou Brett à meia voz.
Ripley tinha o cenho franzido. A agulha do rastreador ficara louca, de repente, e movia-se para todo lado. Ou a criatura viajava através das paredes ou o comportamento da agulha era inexplicável. Não combinava com os movimentos de nenhum vivente. Mas esse comportamento bizarro persistia. E a lâmpada vermelha também continuava acesa.
— Não sei. A máquina desgovernou-se. A agulha salta para todo lado.
Brett deu um chute na rede e praguejou:
— Com mil diabos! Não podemos ter falhas de equipamento! Vou torcer o pescoço de Ash...
— Espere.
Ripley virou o rastreador de cabeça para baixo. A agulha estabilizou-se imediatamente.
— Está funcionando direito. Está apenas confusa. Ou, melhor, eu estava. O sinal vem de baixo.
Olharam todos para os pés.
— É o deque C — disse Parker. — Manutenção, nada mais. Pior lugar possível para uma caçada.
— Quer ignorar o deque C?
Ele a olhou furioso, mas fúria falsa dessa vez.
— Não tem a menor graça.
— Não tem mesmo. Desculpe. Vão na frente. Os dois. Vocês conhecem aquele convés melhor do que eu.

Parker e Brett, segurando a rede com cuidado, pronta para ser lançada sobre a fera, precederam-na pela escada, raramente usada, do deque C. A iluminação, embaixo, era precária, mesmo pelos padrões do Nostromo. Detiveram-se, por isso, na base da escada, a fim de se acostumarem à quase escuridão reinante.
Ripley roçou acidentalmente numa parede e encolheu- se toda de nojo. Estava coberta de uma espécie de limo viscoso. Lubrificantes velhos — pensou. Uma nave de passageiros teria sido retirada de circulação se um inspetor descobrisse condição semelhante. Mas ninguém se importava com tais coisas numa carroça como o Nostromo. Nenhum figurão veria a imundície. E que importância tinha uma tripulação de cargueiro? Quando acabasse essa viagem, ela pediria sua transferência para uma nave decente. Se isso não fosse possível, preferia deixar o serviço. Já se dissera a mesma coisa dezenas de vezes, mas dessa vez pretendia manter a decisão.
Apontou o rastreador para o fundo da passagem. A luz vermelha piscou e a agulha iluminada registrou uma leitura que não deixava dúvidas.

— OK. Vamos!
E marchou em frente. Confiava na pequena agulha, Porque confiava na competência de Ash. Além disso, o instrumento se mostrara fidedigno até aquele passo, e ela não tinha escolha...
— Por azar — disse Brett — há uma encruzilhada à frente.
Passaram-se vários minutos. O corredor se dividiu em dois. O rastreador mostrou a direita, e por ali se enfiaram eles. A luz vermelha começou a fraquejar. Ripley voltou sobre seus passos e meteu-se pelo corredor da esquerda.
— Por aqui.
As lâmpadas eram ainda mais fracas nessa seção. Sombras profundas os envolviam de todos os lados, sufocantes a despeito do fato de que ninguém com experiência de uma nave de hiperespaço pode se dar ao luxo de claustrofobia. Suas passadas ecoavam no metal do piso e só eram abafadas por poças de fluido acumulado.
— Dallas devia pedir uma inspeção — disse Parker, contrariado. — Pelo menos quarenta por cento da nave seriam condenados, e então a Companhia seria obrigada a pagar para limpar a nave.
Ripley sacudiu a cabeça e lançou ao engenheiro um olhar de ceticismo.
— Quer apostar? Seria mais barato e mais fácil para a Companhia peitar o inspetor.
Parker lutou para disfarçar o desapontamento. Outra das suas brilhantes idéias acabava em fiasco. E o pior é que a lógica de Ripley costumava ser irrefutável. Seu ressentimento e sua admiração por ela cresciam paralelamente.
— E por falar em limpar coisas e em como tudo deve ser, o que é que há com as luzes? Eu confessei não estar familiarizada com esta parte da nave, mas não é isso. Não se enxerga um palmo adiante do nariz! Pensava que vocês dois tinham reparado o módulo 12. Deveríamos ter melhor iluminação do que isto, mesmo aqui.
— Mas nós consertamos o módulo 12! — protestou Brett.
Parker aproximou-se de um painel para examiná-lo.
— É a distribuição que funciona com timidez. Alguns dos circuitos não estão recebendo sua corrente habitual. Se tivéssemos restaurado a plena potência de tudo não ficaria um condutor inteiro nesta nave: estourava tudo. E quando as coisas ficam difíceis, os sistemas afetados restringem por si mesmos a corrente recebida, a fim de evitar sobrecargas e curtos. Este, porém, exagera. Posso melhorar isso.
Tocou numa chave no painel, mexeu em outra. A luz do corredor ficou mais forte.
Prosseguiram, então, até que Ripley estacou abruptamente e fez sinal com a mão:
— Esperem.
Parker quase caiu, na pressa de obedecer, e Brett tropeçou na rede. Mas ninguém riu nem teve vontade de rir.
— Estamos perto? — perguntou Parker. Sussurrava, forçando sua vista curta na ânsia de penetrar as sombras à frente.
Rippley conferiu a agulha e verificou a distância na escala que Ash gravara grosseiramente no metal, à margem do pequeno painel iluminado.
— Segundo o rastreador, o alienígena se encontra num raio de quinze metros.

Parker e Brett apertaram a rede nas mãos sem que lhes fosse preciso dizer isso. Ripley levantou o tubo e ligou-o. Avançava, agora, lentamente, com a arma na mão direita e o rastreador na esquerda. Ninguém faria menos ruído do que os três naquele corredor. Mal respiravam, agora. Cobriam, assim, cinco metros, depois dez. Um músculo da perna de Ripley saltou como um gafanhoto, mas ela ignorou a cãibra. Continuou a avançar, com os outros, e a distância marcada pelo rastreador era cada vez menor.

Agora Ripley estava quase agachada, pronta para saltar logo que houvesse o menor movimento à frente. Desligara o sinal do rastreador. E parou depois de quinze metros da primeira medição. A luz era ainda coada, mas já permitia ver que nada se escondia no fundo do corredor mal cheiroso.
Virando o rastreador na mão, ela procurou ao mesmo tempo olhar a agulha e a passagem. A agulha moveu-se, mas quase imperceptivelmente. Levantou os olhos e percebeu um pequeno nicho na parede. A porta estava semi-aberta.

Parker e Brett viram que Ripley concentrava sua atenção naquele nicho e se postaram de modo a poder cobrir tanto do deque quanto fosse possível à frente da portinhola suspeita. Ripley fez-lhes um leve sinal de cabeça quando acabaram essa manobra e tentou limpar com a manga o suor que lhe escorria pelo rosto abaixo. Depois respirou fundo e depositou o pequeno rastreador no solo. Com a mão livre segurou a maçaneta da porta. Era fria e pegajosa contra sua palma já úmida.
Levantando a vara eletrificada, apertou o botão do cabo e, espremendo-se contra a parede, enfiou a ponta da vara no armário embutido. Seguiu-se uma horrenda confusão. A criatura urrou lá dentro, depois saltou fora do nicho como que impelida por uma explosão. Caiu bem no meio da rede com os olhos esbugalhados e as garras a bater no ar. Os dois engenheiros lutaram para envolvê-la em tantas camadas de fio quanto possível.

— Apanhamos o diabinho! — gritava Parker. — Não deixem escapar!
Ripley olhava para dentro da rede. E um grande desânimo a tomou. Desligando o tubo e apanhando de novo o rastreador no chão, disse:
— Diabo! Descansem vocês dois. E olhem o que pegamos.
Parker soltou a rede ao mesmo tempo que Brett. Um gato zangadíssimo pulou fora cuspindo e sumiu-se no corredor antes que Ripley pudesse protestar.
— Não, não, não o deixem escapar.
Mas já a mancha cor de laranja desaparecera na distância.
— Você tem razão, Ripley — disse Parker. — Deveríamos tê-lo matado. Corremos agora o risco de pegá-lo outra vez, pensando que é o alienígena.
Ripley olhou-o com ódio, mas não disse nada. Depois, voltou-se para Brett, cuja fúria assassina era menor.
— Vá pegar Jones. Podemos discutir o que fazer com ele mais tarde, mas seria uma boa idéia tirá-lo do caminho, para que não possa confundir a máquina e atrapalhar a gente.
Brett assentiu de cabeça:
— Certo.

Virou-se e trotou pelo corredor afora, atrás do gato. Ripley e Parker continuaram vagarosamente na direção oposta. Ripley, tentando manejar rastreador e tubo e ajudar Parker com a rede ao mesmo tempo.
Uma porta aberta comunicava com um grande depósito de material de manutenção. Brett lançou um último olhar para um lado e para outro do corredor e não viu sinal do gato. Mas o depósito, em que fardos se amontoavam em alguma desordem, estava cheio de esconderijos ideais para gato. Se não estivesse lá dentro, ele voltaria para reunir-se aos outros. Jones poderia estar em qualquer parte da nave a essa altura. Mas aquele depósito era o lugar mais lógico como refúgio.

Havia luz, embora não fosse em nada melhor que a dos corredores. Brett não fez caso das fileiras de instrumentos, dispostos em série, das caixas e mais caixas de módulos de reserva, das ferramentas sujas. Painéis luminescentes identificavam o conteúdo de cada invólucro. Ocorreu-lhe que seus dois colegas já estariam longe demais para ouvi-lo, se os chamasse. Quanto mais depressa pegasse aquele gato, melhor.

— Jones, aqui bichano... gatinho... Joooones... Venha com Brett, venha...
Curvou-se para espiar dentro de uma fresta entre dois caixotes. Não havia nada ali. Erguendo-se, limpou o suor dos olhos, primeiro do esquerdo, depois do direito.
— Que diabo, Jones — resmungou. — Onde você se meteu?
Como que em resposta, ouviu unhas que arranhavam o chão, no fundo do armazém. Esse ruído foi acompanhado por um uivo incerto mas inegavelmente felino. Com um suspiro de alívio, Brett avançou em direção ao som.

Ripley estacou, e olhou fatigada para o mostrador. A luz vermelha se extinguira, a agulha estava de novo em zero, e o pulso já não soava há muito tempo. Quando a olhou, a agulha estremeceu uma vez, depois aquietou-se.
— Nada aqui — disse a seu companheiro remanescente — se é que alguma coisa esteve jamais aqui além de nós e de Jones, o gato. — E encarando Parker: — Sugira alguma coisa.
— Vamos voltar. Podemos ajudar Brett a pegar aquele miserável bichano.
— Não aborreça Jones — defender o animal era automático para Ripley. — O pobre está tão apavorado quanto nós!
Voltaram juntos para o corredor e para seus odores, mas Ripley deixou o rastreador ligado por precaução.

Brett conseguira enfiar-se atrás de montanhas de material; agora não podia ir mais adiante. Colunas e suportes as estruturas superiores do Nostromo cruzavam-se em intrincadas diagonais de metal à sua frente. Já perdia o ânimo quando ouviu um segundo uivo Guiado por ele, contornou um pilar metálico e deu com dois grandes olhos amarelos que brilhavam no escuro. Hesitou. Jones era mais ou menos do tamanho da coisa que pulara do tórax de Kane. Outro miado o fez sentir-se melhor. Só um gato propriamente dito produziria aquela espécie de som.
Aproximou-se, então, sem mais preocupações. E logo viu os bigodes, o pêlo avermelhado. Era Jones.
— Aqui, bichinho, que bom encontrar você, seu filho da mãe. Não temos tempo para essas brincadeiras — disse.

Uma coisa não tão grossa como a viga debaixo da qual ele acabava de passar baixou então. Baixou em completo silêncio, dando uma sensação de imensa força contida. Dedos se estenderam, agarraram, aferraram-se completamente em volta da garganta do engenheiro. Depois, entrecruzaram-se. Brett berrou, levando as duas mãos ao pescoço, num reflexo. Mas os dedos pareciam soldados uns aos outros. Puxaram-no para o alto e ele subiu com as pernas a balançar no vazio.

Jones fugiu.
Passou como um pé de vento por Ripley e Parker, que vinham chegando. Entraram sem pensar no depósito e logo estavam no lugar onde haviam visto desaparecer as pernas de Brett. Olhando para a treva do alto, tiveram um último vislumbre de solas de sapatos, de um torso retorcido que se afastava e sumia nas alturas. Acima da mole figura de marionete do engenheiro havia uma sombra, uma silhueta quase humana, mas definitivamente não humana. Algo avantajado e maligno. Por um instante, a luz se refletiu em dois olhos grandes demais até para uma cabeça gigantesca. E, então, tanto o alienígena quanto o engenheiro desapareceram nas entranhas do Nostromo.

— Jesus! — murmurou Parker.
— O alienígena cresceu — disse Ripley. E olhou estupidamente para sua vara de espetar touros, um brinquedo em face das dimensões da criatura.
— E cresceu depressa. Todo esse tempo estivemos caçando um animal do tamanho de Jones. E ele se transformou naquilo!
A consciência do espaço confinado, da escuridão, das caixas empilhadas, pesou-lhe de repente.
— O que estamos fazendo aqui, com todas essas passagens, essas colunas de metal, esses escaninhos? Ele pode voltar! E ergueu o tubo em defesa, mas sabendo que efeito ridículo teria sobre a massa da criatura.

Saíram correndo do depósito. Parker era um velho amigo de Brett, mas correu tão depressa quanto Ripley. A lembrança daquele derradeiro grito de agonia não era coisa que se pudesse ignorar ou esquecer facilmente.


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