quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Notas quanto a escrever Ficção Fantástica - Lovecraft




A razão que encontro para escrever histórias é dar a mim mesmo a satisfação de visualizar mais clara, detalhada e estavelmente as vagas, fugidias, fragmentárias impressões de espanto, beleza e aventurosa expectativa que me vêm de certas visões (cênicas, arquitetônicas, atmosféricas, etc.), idéias, ocorrências e imagens encontradas na arte e na literatura.

Escolho as histórias fantásticas porque melhor se enquadram com minha inclinação - sendo que um de meus desejos mais fortes e persistentes é alcançar, nem que por um instante, a ilusão de uma estranha suspensão ou violação das irritantes limitações do tempo, do espaço e das leis naturais que eternamente nos aprisionam e frustram nossa curiosidade acerca dos infinitos espaços cósmicos que jazem para além do alcance de nossa vista e poder de análise.

Essas histórias freqüentemente enfatizam o elemento do horror, já que o medo é nossa emoção mais profunda e forte e uma das que melhor se prestam à criação de ilusões desafiadoras da natureza.
O horror e o desconhecido ou estranho estão sempre intimamente conectados, a tal ponto que é difícil criar um quadro convincente de esfacelamento da lei natural ou alienação cósmica ou “exterioridade” sem acentuar a emoção do medo. A razão por que o tempo é tão fundamental em muitas de minhas narrativas reside em que esse elemento me aparece como a coisa mais profundamente dramática e terrível do universo. O conflito com o tempo me parece ser o tema mais potente e frutífero de toda a expressão humana.

Enquanto a forma que escolho para escrever histórias é, obviamente, especial e quem sabe estreita, continua sendo porém um tipo persistente e permanente de expressão, tão velho quanto a própria literatura.

Sempre haverá uma pequena parcela de pessoas que sentirão uma ardente curiosidade sobre o espaço desconhecido e exterior e um ardente desejo de escapar da prisão do conhecido e do real em direção a essas terras encantadas de aventuras incríveis e possibilidades infinitas, que os sonhos nos franqueiam e que coisas como matas profundas, fantásticas torres urbanas e pores-de-sol flamejantes sugerem freqüentemente. Essas pessoas incluem tanto grandes autores quanto amadores insignificantes como eu mesmo - Dunsany, Poe, Arthur Machen, M. R. James, Algernon Blackwood e Walter de la Mare constituindo-se em típicos mestres do gênero.

Quanto ao modo como escrevo um conto, não há um somente. Cada uma de minhas narrativas tem uma história específica. Vez ou outra transcrevi literalmente um sonho; mas usualmente começo com um estado de espírito ou uma idéia ou uma imagem que pretendo expressar e a revolvo em minha cabeça até que chegue a pensar numa boa maneira de lhe dar corpo numa cadeia de ocorrências dramáticas, capazes de serem registradas em termos concretos.

Tendo a repassar mentalmente uma lista das condições básicas ou situações que melhor se adaptem a esse estado de espírito ou idéia ou imagem, e então começo a especular acerca de explanações lógicas e naturalmente motivadas do referido estado de ânimo ou idéia ou imagem, em termos da condição básica ou da situação escolhida. O processo real de escrever é, com certeza, tão variado quanto a escolha do tema e da concepção inicial; mas, se a história de todas as minhas narrativas fosse analisada, é bem possível que o seguinte conjunto de regras pudesse ser deduzido do procedimento ordinário:






Leia o texto completo em O Arquivo de Renato Suttana