sábado, 21 de janeiro de 2012

O Oitavo Passageiro (Parte 24)





A sirene soou de novo, mais peremptória ainda, mais histérica — e com maior razão. Portas de emergência se fecharam automaticamente por toda a nave, a começar com as da seção arrombada. Parker e Ripley deveriam estar em segurança, selados numa porção hermética do corredor... exceto por uma coisa: a porta que os isolaria do vestíbulo da comporta apanhara um dos lança-chamas que jaziam por terra e ficara aberta.
O vento puxava Ripley, e ela buscava algo com que pudesse lutar contra ele, agüentar-se. Havia só o tanque remanescente. Levantou-o no ar tentando martelar com ele o outro cilindro, que obstruía a porta. Se um dos dois se partisse, o conteúdo seria derramado com terríveis conseqüências.
Mas, se ela não tentasse, a despressurização os mataria da mesma maneira.
A falta de ar já a enfraquecia. O sangue começou a sair pelo seu nariz e ouvidos.
A queda de pressão fazia também que os ferimentos de Parker começassem a sangrar outra vez.
Ela bateu pela última vez no cilindro que obstruía a porta, e ele pulou fora com a facilidade de um bebê que nasce. A porta, livre, bateu, e o uivo do vento se esvaiu ao longe. Mas o ar revolto continuou a girar em remoinho por vários minutos ainda.
Da ponte, Lambert vira as ameaçadoras leituras aparecerem no seu console:

QUILHA PERFURADA.
ESCUDOS E ANTEPAROS DE EMERGÊNCIA FECHADOS.

— Ash, providencie algum oxigênio. Encontre-me junto da comporta principal, na última das portas seladas.
— Entendido. Estou indo para lá.

Ripley conseguiu levantar-se vacilante. Lutava para respirar, no corredor quase esvaziado, praticamente sem atmosfera. Encaminhou-se para o cilindro de emergência. Havia um em cada seção dos corredores. Havia também um botão, que abria a porta, não a última, que fechara com tanta dificuldade, mas a penúltima, atrás da qual havia outra seção selada — e ar fresco.

Só no último instante percebeu com horror que se encaminhara para a outra direção e que a porta era a do vestíbulo arrombado e não a do corredor B! Virou-lhe as costas, procurou firmar-se, concentrar os pensamentos, e arrastou-se no rumo certo.
Levou ainda vários preciosos minutos a localizar o botão salvador. Os pensamentos que lhe passavam pelo cérebro eram ainda soltos e esgarçados, fugidios e sem consistência. Quebravam-se como óleo em cima d'água. O ar que lhe restava enevoava-se, ficava turvo, cheirava funereamente a rosas e lilases.

Achou o botão, apertou-o com força. A porta não se moveu. Então viu que comprimira um controle falso. Encostando-se contra o metal frio, tentando infundir alguma vida nas pernas que já não sentia, que se tinham tornado de borracha, procurou reunir energias para tentar de novo. Mas não havia muito ar de resto que pudesse usar...
Então um rosto surgiu na janela envidraçada, encaixada na porta. Distorcido, inchado mas familiar de certo modo. Parecia conhecê-lo de alguma outra vida, já remota. Alguém que se chamara Lambert tinha usado aquele rosto um dia. Estava cansada demais para pensar, e escorregou docemente para o chão.

Quando a superfície a que se apoiava faltou-lhe, teve um último pensamento, de raiva. Mas a porta desapareceu no recesso da parede e ela bateu com a cabeça no piso duro. Um grande sopro de ar puro, refrescante, roçou-lhe a face. A névoa começou a dissipar-se, e ela passou a ver de novo, mas só com os olhos, não com o cérebro ainda desoxigenado.

Uma buzina anunciou a normalização da pressurização interna no momento em que Lambert e Ash a alcançavam. O oficial de ciência correu em socorro de Parker, que desmaiara de novo, falto de ar, e que só aos poucos recobrou a consciência.
Os olhos de Ripley, muito abertos agora, funcionavam, mas o resto do seu corpo continuava desgovernado. Mãos e pés, pernas e braços, espalhavam-se no chão como membros de uma boneca de engonço, magra e não particularmente bem feita. O próprio fôlego vinha ainda em haustos, e dolorosamente.
Lambert depôs junto da amiga um dos tanques que trazia. Colocou a máscara transparente no nariz e boca de Ripley, e abriu a válvula. O capitão inalou. Um maravilhoso perfume encheu-lhe os pulmões. Seus olhos se fecharam, mas dessa vez de prazer. E ela se deixou ficar assim um bom momento, imóvel, a sugar em tragos profundos o oxigênio puro. O único choque para o seu sistema era de deleite.
Finalmente, empurrou com a mão o respirador artificial, e ficou por algum tempo ainda quieta, a respirar normalmente. A pressão fora de fato restaurada. E as portas que cortavam o corredor em porções herméticas se tinham aberto com a volta da atmosfera habitual. Sabia que a nave fora obrigada a valer-se dos seus tanques de reserva. E esse era o próximo problema que teriam pela frente — pensou.

— Você está bem? — perguntava Ash a Parker. — O que houve, afinal?
Parker removeu uma crosta de sangue coagulado do céu da boca, e tentou espanar as teias de aranha do cérebro.
— Acho que vou viver — disse. 'No momento, ignorava a segunda pergunta do oficial de ciência.
— O que aconteceu com o alienígena? — insistiu o outro.
Parker sacudiu a cabeça várias vezes, gemendo.
— Não o pegamos. A sirene soou, ele saltou para trás e fugiu pelo corredor. Mas a porta apanhou um braço dele ou o que seja. Como chamar essas coisas? O fato é que esse se safou, como se safam os lagartos, quando deixam o rabo para trás.
— E por que não o faria, com a capacidade que tem de regeneração? — perguntou Ash, retoricamente.
O engenheiro prosseguiu seu relato, infundindo às palavras a mesma frustração que sentia:
— Tínhamos o miserável nas mãos. Estava acabado — fez uma pausa. — Mas aí, quando escapou, sangrou por toda parte. O membro sangrou, acho. Espero em Deus que o coto tenha secado, cicatrizado, parado de pingar ácido. Terá sido nossa salvação. Porque o ácido roeu tudo por aqui. Foi ele que causou a despressurização — e apontou com dedo trêmulo para a porta fechada que separava do vestíbulo o resto do corredor.
— Você talvez possa ver daqui, pela escotilha, o rombo da comporta.
— Não importa agora — disse Ash. Depois levantou os olhos, intrigado.
— Mas quem acionou a sirene?
Ripley tinha os olhos nele.
— Explique-o você.
— O que quer dizer?
Ela fungou, removeu sangue do nariz.
— O alarme pode ter disparado automaticamente. Essa seria a explicação lógica não seria? Uma disfunção temporária? Uma infeliz coincidência?

O oficial de ciência levantou-se e olhou-a com as pálpebras quase abaixadas. Ela se certificara de que o cilindro remanescente de metano estava ao alcance da mão, antes de falar. Mas Ash não fez qualquer movimento em sua direção. Ela ainda não o entendia. Se era culpado, devia atacá-la agora, que estava fraca, e Parker pior ainda. Se era inocente, poderia ficar furioso e fazer o mesmo. Mas ele não fazia nada — e isso ela não previra. Pelo menos, porém, as primeiras palavras que proferiu em resposta eram previsíveis. Parecia mais zangado do que de hábito.
— Se você quer dizer alguma coisa, diga-a. Estou ficando farto de insinuações.
— Ninguém o acusa de nada.
— Não acusa? O diabo que não acusa! — e caiu num mutismo emburrado.
Ripley permaneceu calada por muito tempo, depois deu o incidente por encerrado.
— Leve-o para a enfermaria e ponha-o em boas condições outra vez. Pelo menos isso nós sabemos que o médico automático é capaz de fazer.

Ash ajudou o engenheiro a erguer-se, passou o braço direito de Parker pelo seu ombro, e ajudou-o a caminhar pelo corredor. Ash passou por Ripley de olhos baixos, evitando encará-la. Quando ele desapareceu com sua carga na primeira volta, Ripley levantou a mão. Lambert tomou-a, inclinou o corpo para trás e viu, consternada, que a outra não se mantinha de pé, que oscilava. Ripley, no entanto, sorriu, e dispensou apoio.
— Estou bem.
Limpou sumariamente as calças.
— Quanto oxigênio nos custou esse pequeno episódio? Vou precisar de uma leitura exata. Lambert não respondeu, continuou a fitá-la.
— Alguma coisa estranha nisso? — perguntou Ripley. — Por que me olha desse modo? As leituras de oxigênio não são mais de conhecimento público?
— Não se zangue comigo, vamos — disse Lambert, sem nenhum rancor. — Mas você o acusou há pouco. Você o acusou frontalmente de haver acionado o alarme para salvar o alienígena — e abanando a cabeça de incredulidade: — Por quê?
— Porque acho que ele mente. E se eu puder pôr as mãos nas gravações, provo isso.
— Prova o quê? Mesmo que pudesse provar que ele foi culpado pela sirene, não poderá provar que tenha havido dolo. Que não tenha sido um acidente.
— Curioso acidente, pois não? Estranho momento para esse acidente específico, não diria você? — Ripley calou-se, mas logo depois acrescentou tranqüilamente: — Você ainda pensa que eu esteja enganada, não é?
— Não sei — Lambert parecia mais cansada do que interessada em discutir. — Não sei mais nada. Sim, acho que devo dizer que você está errada. Errada ou louca. Por que iria Ash, ou qualquer pessoa, Ripley, proteger o alienígena? Ao invés de matá-lo, como ele matou Brett e Dallas. Se é que estão mortos.
— Obrigada. Sempre é bom saber com quem se pode contar.
Ripley virou as costas à navegadora e afastou-se deliberadamente rumo à escada.
Lambert acompanhou-a com os olhos, deu de ombros, começou a recolher os cilindros. Tinha tanto cuidado com o metano como com o oxigênio. Ambos eram igualmente vitais à sobrevivência deles...

— Ash? Você está aí? Parker?

Nenhuma resposta. Ripley então entrou cautelosamente no anexo do computador central. Por um tempo indeterminado, tinha agora o cérebro do Nostromo inteiramente a seu serviço.
Sentando-se em frente do console principal, ativou o teclado e apertou o polegar com insistência contra a placa de identificação. As grades de dados piscaram e entraram em ação.
Até agora fora fácil. Mas havia que trabalhar. Pensou por um momento, depois bateu rapidamente um código de cinco dígitos que, a seu ver, geraria a resposta que buscava. As grades continuaram brancas, à espera da questão apropriada.
Ela tentou uma segunda combinação, pouco usada, mas o malogro foi idêntico.
Praguejou de raiva. Se ficasse condenada a tentar combinações a esmo levaria horas no anexo. Até o juízo final. Que, a julgar pelo ritmo com que o alienígena reduzia a tripulação, não devia estar longe.
Tentou uma combinação terciária, ao invés de uma primária, e ficou surpresa quando a grade subitamente limpou pronta a receber e a informar. Mas não imprimiu um pedido de entrada. O que significava que o código fora apenas parcialmente um êxito.
O que fazer?

Lançou um olhar ao teclado secundário. Acessível a qualquer membro da tripulação, não se destinava a informações confidenciais ou de comando. Se conseguisse lembrar-se da combinação poderia usar o segundo teclado para fazer perguntas ao principal banco de memória. Rapidamente, mudou de lugar, usou a chave que esperava fosse a boa e datilografou a primeira pergunta. Restava saber se a chave fora aceita ou não. Se aceita, a resposta apareceria na grade.
Surgiram cores, que se substituíram velozmente umas às outras. Por um segundo. Depois a tela clareou.

QUEM LIGOU O SISTEMA DE ALARME DA COMPORTA 2?

A resposta veio logo abaixo:

ASH.

Ela digeriu aquilo. Era a resposta que esperava, mas vendo-a assim, impressa com todas as letras, friamente, para quem a quisesse ler, foi o que a fez sentir todo o peso da revelação.

ASH PROTEGE O ALIENÍGENA?

A Mãe parecia ter escolhido aquele dia para respostas curtas e ao pé da letra:

SIM.

Ela também podia ser breve. Seus dedos correram pelo teclado:

POR QUÊ?

Perguntou e debruçou-se para a frente, tensa. Se o computador decidisse encerrar suas revelações, não conhecia mais qualquer código que pudesse utilizar. Havia também a possibilidade de que o computador não tivesse explicação para o comportamento bizarro do oficial de ciência. Mas tinha.

ORDEM ESPECIAL 937 INFORMAÇÃO RESTRITA PESSOAL DE CIÊNCIA EXCLUSIVAMENTE.

Bem, tinha conseguido, até aquele passo. Poderia contornar essas restrições. Começava a fazê-lo quando uma mão abateu-se junto à dela, e um braço mergulhou até o cotovelo no terminal do computador.
Girando na cadeira, com o coração na boca, viu, não a criatura, mas uma forma e um rosto agora igualmente estranhos para ela.
Ash sorriu de leve. Não havia humor nenhum nos lábios virados para cima.

— Parece-me que o comando lhe subiu à cabeça. Mas, afinal, uma liderança eficaz é sempre difícil em circunstâncias como as atuais. Não é culpa sua.
Ripley saiu da cadeira, deixando-a entre eles dois. As palavras de Ash podiam ser conciliatórias, simpáticas até. Mas seus atos não combinavam com elas.
— O problema não é de liderança, Ash. É de lealdade.
De costas para a parede, Ripley começou a esgueirar-se de lado, em direção à porta.
Ainda sorrindo, Ash voltou-se para encará-la:
— Lealdade? Não vejo porquê — era todo encanto, agora, pensou ela. — Penso que temos feito, todos, o melhor que podemos. Lambert começa a ficar um tanto pessimista, mas sempre soubemos que ela pende para o emocional. É muito boa para planejar o rumo da nave, mas não os seus próprios.
Ripley continuava a avançar de lado, colada à parede, afastando-se dele, e obrigou-se a devolver-lhe o sorriso.
— Não me preocupo com Lambert no momento, preocupo-me com você.
Começou a dar-lhe as costas, para sair pela porta, sentindo a tensão dos músculos do estômago, na expectativa.
— É a velha paranóia que recomeça — disse, com tristeza. — Você precisa descansar um pouco — e deu um passo, tentativo, para ela, com a mão estendida.

Ripley abaixou-se para escapar aos dedos dele, e fugiu, numa carreira desabalada pelo corredor. Subiu depois à ponte. Não gritava porque não tinha tempo e porque queria poupar o fôlego.
Não havia ninguém na ponte. De algum modo, ela lhe escapou uma segunda vez, apertando botões pelo caminho, enquanto corria. Botões de emergência, que fechavam portas atrás dela, infelizmente um minuto tarde demais para livrá-la dele, para deixá-lo do outro lado. Finalmente, ele a alcançou na sala comum. Lambert e Parker chegaram segundos depois. Os sinais dados pelas portas de emergência os tinham alertado de que algo de excepcional ocorria naquela área e estavam a caminho da ponte quando deram com perseguida e perseguidor.

Embora não fosse aquele o tipo de emergência que esperavam, reagiram bem.
Lambert foi a primeira a entrar. Lançou-se às costas de Ash. Aborrecido, ele soltou Ripley, agarrou a navegadora e atirou-a para o fundo da sala antes de retomar o que estava fazendo antes: estrangulando Ripley,

A reação de Parker foi menos imediata, porém mais bem pensada. Ash teria apreciado o raciocínio do engenheiro. Parker apanhou um dos compactos rastreadores e, colocando-se atrás de Ash, que continuava a sufocar Ripley, deu-lhe um golpe na cabeça com toda a força. Houve um som curioso, contundente.
O rastreador completou seu arco e a cabeça de Ash pulou fora.
Não houve sangue. Do pescoço cortado, apontaram fios de todas as cores e circuitos pintados. Ash, decapitado, soltou Ripley. Ela caiu no chão, ainda sem respiração,
segurando a garganta com as mãos, a tossir.
As mãos de Ash fizeram uma pantomima macabra no ar, à procura da cabeça perdida. Depois ele vacilou, endireitou-se e, cego embora, começou a procurar pelo soalho, às apalpadelas, a peça que lhe faltava...






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