segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Exegesis - Jorge M.Rosa


«Emptiness is loneliness
And loneliness is cleanliness
And cleanliness is godliness
And God is empty
Just like me»
Smashing Pumpkins, «Zero», Mellon Collie and the Infinite Sadness

«The woods of Arcady are dead,
And over is their antique joy;
Of old the world on dreaming fed;
Grey Truth is now her painted toy;
Yet still she turns her restless head
[...]
But ah! she dreams not now; dream thou!
For fair are poppies on the brow:
Dream, dream, for this is also sooth.»
W. B. Yeats, «The Song of the Happy Shepherd»

«GOD IS NOWHERE
GOD IS NOW HERE»
Philip K. Dick, VALIS

Entre Philip K. Dick e os mundos que criou poder-se-ia dizer que parecem concretizar, mesmo que no plano da ficção, a conhecida sugestão de Descartes acerca do demónio maligno que se compraz em iludir os seres que, aliás, criou com esse fito perverso. A realidade é aí ilusória; é um tapete que desliza por debaixo dos pés para revelar que nada há sob eles (porventura nem mesmo os pés). As personagens descobrem que não são seres humanos e sim andróides [«Impostor» e «The Electric Ant»], o mundo objectivo revela-se uma encenação [Time out of Joint], um acto volitivo [«The World she Wanted»] ou um delírio de outra mente [The Three Stigmata of Palmer Eldritch] ou de uma mente colectiva [A Maze of Death]; o próprio estatuto da realidade deriva muito rapidamente para a possibilidade de não ser mais do que um mero sonho ou alucinação alheios [Eye in the Sky, Flow my Tears, the Policeman Said]. Por vezes - pensamos essencialmente na sua produção da década de 50 e início da de 60, apesar das muitas excepções - o desenlace é um regresso a terreno firme; em casos mais tardios e mais problemáticos esta solução é deliberadamente evitada.
Dostoievsky anunciava, em Crime e Castigo, que «Se Deus morreu, então tudo é possível»; em Dick, aparentemente, «Se tudo é possível, então Deus morreu» (e flutua agora no espaço).
Só aparentemente, contudo. Philip K. Dick era um crente, ainda que bastante idiossincrático, e embora nunca tenha deixado de questionar essas mesmas crenças por via da ficção, a presença de alguma forma de religiosidade assombrou desde o início a sua obra, acabando gradualmente por se tornar a temática dominante. Já em The Cosmic Puppets, a primeira novela aceite para publicação e a única claramente enquadrável no género fantasy, um vilarejo esquecido é o palco da milenar e insolúvel luta entre Ormazd (Ahura Mazda) e Ahriman, as divindades do mazdeísmo zoroastriano. Ainda nos anos 50, Solar Lottery aborda uma forma de messianismo à la space opera e The World Jones Made refere a ascensão de uma seita cujo líder prevê o futuro próximo, mas a temática tem de modo geral um valor secundário para a evolução da narrativa.
Na década seguinte, altura em que, incentivado pela sua terceira mulher, começa a frequentar mais assiduamente a Igreja Episcopaliana, o tratamento ficcional da religião ganha em importância - ao que os nem sempre confiáveis relatos de Dick indiciam, por via de uma visão do Mal absoluto sob a forma de um rosto no céu, um rosto coberto por um elmo metálico que viria a tornar-se o Palmer Eldritch de The Three Stigmata.... Outros contos e novelas, como «The Little Black Box», The Unteleported Man, Counter-Clock World, «Faith of our Fathers», Do Androids Dream of Electric Sheep? e, acima de tudo, Ubik e A Maze of Death confirmam a ascensão desta temática. É contudo ainda difícil descortinar uma unidade, por mais que a sua sempiterna obsessão com a questão «O que é a realidade?» ajude a perceber a aparente oscilação no tratamento do tema.