domingo, 17 de fevereiro de 2008

ALAN MOORE e STEAMPUNK - Entrevista



O seu ‘League of Extraordinary Gentlemen’ fez mais por popularizar a estética steampunk do que qualquer outro livro. Como surgiu o livro?

De uma forma estranha, a estética steampunk não veio de fora. Já tinha lido alguns expoentes do gênero, como Tim Powers, KW Jetter e outros - não sabia se ‘Diamond Age’ de Neil Stephenson poderia se qualificar como tal, ou se era ‘nanopunk’. Me interessei pelas histórias, gostei mesmo.

Mas a ‘League of Extraordinary Gentlemen’ surgiu, eu acho, de ‘Lost Girls’.
Nós estamos nos divertindo tanto, eu e Melinda Gebbie, utilizando pornografia com três personagens literários conhecidos (Dorothy, Alice e Wendy), que subitamente me ocorreu:
‘Você poderia fazer a mesma coisa com um livro de aventuras.’

Tinhamos o homem invisível, e Mr.Hyde, o Capitão Nemo e depois de muito pensar chegamos a Mina Murray (de Drácula), como a principal personagem feminina. Então começamos a escrever com esta idéia bem simples, um tipo de Liga da Justiça Inglesa-Vitoriana.

Mas foi quando Kevin O’Neill começou a trabalhar na arte da coisa, e começou a fazer coisas como desenhar a mais fiel e mais exótica versão do Nautilus - que Kevin então começou a sentir como se esta história se passasse em um mundo onde várias fantasias e ficções vitorianas verdadeiramente aconteceram. Isso acabou se espelhando no tipo de arquitetura que Kevin criava, o tipo de tecnologia, em termos de carro e outros veículos do período.

Acho que estava a meio caminho da coisa, quando me dei conta de que eu tinha Mr.Hide de Stephenson assassinando Nana de Emile Zola na Rua Morgue de Edgar Alan Poe, subitamente percebi a fantástica possibilidade de tornar este livro algo sem precedentes, se fizéssemos cada personagem do livro um personagem previamente existente da ficção, então o livro tornou-se um amalgama louco de toda ficção mundial que já existiu.

Com o segundo volume nos ocorreu que nos poderíamos talvez estendê-lo, como um almanaque de lugares fictícios, no qual nós tentaríamos amarrar tudo junto, cada lugar deste mundo ficcional.

No número seguinte, ‘The Black Dossier’ (que será o último da parceria DC/Wildstorm), exibimos uma linha do tempo, das origens da humanidade até os dias de hoje, uma linha do tempo da totalidade deste planeta fictício. Muito disso está retratado na vida de Orlando, um personagem imortal que encontramos no século 12 antes de Cristo, na antiga Tebas. O que isso faz é acrescentar um incrível mundo tri-dimensional, em que cada história, fantástica ou não, que você possa ter lido na sua vida, provavelmente coexiste ali.

E esta não é uma idéia nova para mim, desde ‘Jason and the argonauts’ (Jasão e os argonautas) as pessoas pensam ‘o que aconteceria se meus heróis de ficção favoritos estivessem todos juntos?’ No século 19 isso acontecia bastante, com Jules Verne escrevendo a sequência de ‘The narrative of A Gordon Pym’ de Edgar Alan Poe. Teve um monte de ‘crossovers’ (cruzamentos entre idéias, conceitos, obras, universos), tudo que fizemos com a ’League’ foi levá-la até ao extremo, onde tudo potencialmente se cruza em algum lugar das páginas da ‘League’
E assim surgiu a idéia e foi assim que foi desenvolvida.

Os dois primeiros volumes são aqueles que os entusiastas do steampunk mais vão gostar, por que com o volume 3 subsequente, saímos da era vitoriana. A maioria das cenas se passa em 1958, que achamos ter sido uma época tão distante e peculiar, quanto a era vitoriana, se pararmos para pensar.

O volume 3 por sua vez, está dividido em 3 partes, cada qual com 72 páginas e num período de tempo especifico. A primeira em 1910, com eventos que se relacionam com a Ópera, então temos ‘Mack The Knife’ e ‘Pirate Jenny’ surgindo, assim como outros personagens do final da era vitoriana e alguns do inicio da eduardiana. A segunda ocorre toda em 1958 e a terceira em 2008.


Não pretendíamos fazer um fetiche da era vitoriana. Temos outras histórias ocorrendo em algum ponto dela, e outras antes ainda, no passado.

Ainda assim é um período inacreditavelmente rico o que nos favorece, acho que depois de ‘From Hell’, ‘The League’ e ’Lost Girls’, que eu suponho ser eduardiana, sinto que estive em perigo - porque amo tanto aquele período - de ser classificado como um tipo de maluco vitoriano-eduardiano. De fato me interesso por quase todos os períodos, todos tem algo para ensinar.



O que acha do steampunk como estética e seu potencial como uma cultura?

Se estou entendendo direito, é um tipo de manifestação de um ‘ethos’ que se torna mais prevalecente na cultura atual. Me parece que neste momento do século 21, estamos mais conscientes de nós mesmos - de nosso passado - do que nunca antes. Por conta da Internet, por conta dos monstruosos arquivos que geramos, a cultura do passado está disponível para nós.


E quando olhamos para ela, percebemos que existe um fabuloso depósito de idéias que podem ser incrivelmente belas - e que ainda podem ter muita vida pela frente - e que foram descartadas impiedosamente pra fora de nossa cultura, devido a nossa insistência de querer coisas novas todos os dias.

Acho que estamos numa posição, onde podemos olhar para trás, para as maravilhosas e gloriosas lembranças de nossas culturas antigas - de nosso intelecto - e podemos usar elementos deste tesouro para construir nosso futuro.

Penso que em muitos aspectos seja a definição de ‘decadência’(estilo literário marcado pela artificialidade, pela valorização da arte como única forma de redenção humana) dada pelo escritor decadente Théophile Gautier, que disse que um escritor decadente deve sentir-se livre para apropriar-se das mais deslumbrantes e suntuosas lendas antigas e, ao mesmo tempo, deveria sentir-se livre para emprestar dos vocabulários técnicos - a forma mais atual possível - ser capaz de trazer o passado e o futuro e o presente tudo em um glorioso caldeirão.


E eu penso que é isso que talvez o steampunk esteja tentando fazer. Tomar aqueles elementos abandonados que provavelmente nada tem de errado e são perfeitamente funcionais, mas apenas foram deixados de lado, por nossa cultura apressada, e colocá-los juntos, de uma maneira nova, a fim de criar idéias que nos ajudarão a projetar nós mesmos em direção ao futuro.

É o que parece para mim, que o steampunk, conscientemente ou não, está fazendo.


Acho que a arte, a tecnologia e a mídia, isso tudo está mudando a maneira básica com que vemos nosso tempo. Até pouco tempo atrás víamos a progressão do tempo como um tipo de esteira transportadora, onde estávamos presos, indo do passado para o futuro, e não havia nada que pudéssemos fazer sobre isso, e o passado, uma vez que a esteira o deixasse para trás, tinha desaparecido para sempre.

Contudo não era uma verdade, todas as idéias do passado ,talvez o mais precioso bem do passado, ainda podiam ser alcançadas. E acho que algumas pessoas, talvez os escritores de steampunk, estão percebendo que podem abraçar o passado como um meio de progredir para o futuro.


Não se trata de simples nostalgia. Ou ficaríamos cansados dela rapidamente.
É essencial que haja algum progresso, um aspecto de avanço na maneira que utilizamos estes magníficos fragmentos da cultura antiga.

Da minha perspectiva, embora não seja conscientemente um, é o que penso que o steampunk se trata.




Primeiro trabalho (revista Embryo)

O senhor do Caos

Bibliografia


Resumo da história - Alan Moore

Alan Moore nasceu em 18 de Novembro de 1953 em Northampton, Inglaterra, uma cidade industrial entre Londres e Birmingham. Filho mais velho de um cervejeiro, o jovem Moore enfrentou a pobreza e foi bastante influenciado pelo ambiente em que viveu (alem das excentricidades religiosas de sua avó). Foi expulso de uma escola conservadora e não foi aceito em nenhuma outra. Em 1971, Moore estava desempregado e não possuía qualificações para tentar qualquer emprego. Casou-se em 1974 e deste casamento, nasceram suas filhas Amber e Leah. Em 1979 começou a trabalhar como cartunista com o pseudônimo Curt Vile. Depois de algum tempo, chegou a conclusão que era péssimo desenhista e passou a se dedicar a escrever. Escreveu roteiro para a famosa série de FC, Doctor Who e na revista 2000 AD, para a qual criou várias séries populares como ‘The Ballad of Halo Jones’, ‘Skizz’ e ‘D.R. & Quinch’.
Trabalhou depois para a revista inglesa Warrior, onde começou duas de suas séries mais famosas: Marvelmen (conhecida também como Miracleman), uma espécie de revisão do conceito do super-herói tradicional e ‘V For Vendetta’ (V de Vingança), uma obra arrasadora, sobre a luta por liberdade e dignidade em uma Inglaterra distópica e fascista. Ambas ganharam (em 1982 e 1983) o prêmio British Eagle Award.
Graças a este reconhecimento, ganhou sua primeira série americana, ‘Saga of the Swamp Thing’, ao mesmo tempo que contribuía com seu estilo único, profundo e provocador, escrevendo para outros títulos da DC, como ‘Tales of the Green Lantern Corps’, ‘Batman Annual’ e vários ‘Superman’. Em 1986, quando a DC Comics se reestruturava, Moore apareceu com Watchmen, que junto com o ‘Batman: The Dark Knight Returns’ de Frank Miller, redefiniu o conceito dos quadrinhos. Watchmen tornou-se o primeiro comic a receber o prestigiado prêmio Hugo, de Fantasia e Ficção Científica.
Atualmente Moore possui sua própria empresa, a America’s Best Comics (ABC), na qual está desenvolvendo suas novas séries: ’The League of Extraordinary Gentlemen’, ‘Promethea’, ‘Tom Strong’, ‘Tom Strong's Terrific Tales’, ‘Tomorrow Stories’ e ‘Top Ten’.
Outros projetos de Moore incluem gravar um disco e tornar-se um mágico.
Alan Moore vive em Northampton, Inglaterra.