sábado, 2 de fevereiro de 2008

Futuro tenso - Kim Stanley Robinson


Futuro tenso*
'Fifty Degrees Below', o romance de Kim Stanley Robinson, se passa em um EUA varrido por enchentes, consequências do aquecimento global.
Sarah Crown do Guardian Unlimited (Inglaterra) , conversou com o autor sobre mudanças climáticas, o poder da ciência e sobre 'o pior Presidente americano da história'.

Kim Stanley Robinson: 'Será um século difícil e feio, mas penso que as pessoas não são tão estúpidas a ponto de se matarem'.
Na esteira de uma tempestade tropical, uma cidade america está arrassada.
Prédios foram demolidos e pontes cairam, dez milhões de pessoas estão sem eletricidade ou água potável, hospitais repletos de doentes e mortos.
Parece familiar? É claro que sim. Mas não se trata dos eventos (o Katrina em 2005) que assombraram os EUA, mas é o inicio de'Fifty Degrees Below', o segundo volume da trilogia de Kim Stanley Robinson sobre mudanças climáticas.
E a cidade destruida não é Nova Orleans, mas Washington DC.
Passado nos EUA, praticamente dos dias de hoje, este livro (assim como 'Forty Signs of Rain', o primeiro da trilogia) conta a história dos esforços de um grupo pouco formal de cientistas, ativistas e políticos, em provocar uma resposta nacional à crise do aquecimento global.
Infelizmente para eles, como diz o ambientalista Charlie Quibler no livro:
'É mais fácil destruir o mundo do que mudar o capitalismo, mesmo que apenas um pouco'.
Não até que a combinação de duas tempestades colidindo, somado a uma onda sem precedentes, apareça causando um crescimento do rio Potomac (em Washington) ao ponto de submergir a capital, como o clímax do primeiro livro. Mas neste ponto, as calotas de gelo polar já teriam começado a derreter, afetando o aquecimento das águas do Golfo e criando condições metereológicas capazes de trazer a próxima idade do gelo.
A última, onze mil anos atrás, e a próxima levaria apenas 3 anos para começar.
Este perturbante e convincente romance é um dos últimos trabalhos do escritor de FC mais bem sucedido em seu gênero, nos dias de hoje. Famoso por sua trilogia, merecedora de todos os prêmios que arrebatou, sobre a colonização de Marte, tem na imaginação poderosa de Robinson, baseada na Ficção Científica, e presenteada por um poder arrebatador narrativo, não apenas o poder capaz de criar cenários apurados, mas também de abordar observações socias, arrebatando muitos devotos, não apenas aficcionados pelo gênero.
O objeto de seu último trabalho, particularmente em vista dos fatos assustadores que a natureza proporcionou aos EUA, sem dúvida lhe renderá mais leitores.

'Li anos atrás sobre a possibilidade do aquecimento global afetar a camada de gelo antártico e que o nível do mar iria crescer. Comecei a pensar, bem, o que nós faremos? Seria possível fazer alguma coisa? É neste ponto que entra a terraformação e a Ficção Científica'.
O conceito de terraformação - transformar a paisagem de um planeta para que adquira caracteristicas da Terra, é o centro da trilogia escrita por Robinson, na qual os personagens tentam mudar o clima de Marte em grande escala, a fim de trazer o planeta para uma temperatura habitável. Robinson usou este conceito para mais do que interferir na paisagem alienígena, até fazê-la se parecer com a Terra, mas na manipulação do nosso próprio planeta, a fim de desfazer os danos ambientais.
Mas o que parecia possivel na vastidão marciana é infinitamente mais complexo em um planeta que já comporta uma complexa biosfera povoada. Qualquer proposta de ação, poderia produzir não apenas uma tragédia mas reações, algumas inesperadas, o que um dos ecologistas do livro chamou de, 'a lei das consequências não intencionais'.

Parece tão fácil em Marte e tão dificil na Terra, o que é certamente irônico, Kim Robinson concorda: 'É infinitamente mais difícil quando já existe uma ecologia estabelecida. Não há lugar para erros. Alguns enganos não podem ser corrigidos.'

'Como?'
'A redução da acidez nos oceanos. É um problema no qual eu comecei a pensar ao final do segundo livro e que toma praticamente para si o terceiro livro. A maior parte do dióxido de carbono da atmosfera acaba no mar, aumentando sua acidez e causando dificuldades para as criaturas mais simples da vida marinha. E elas são a base da cadeia alimentar, na qual nós estamos no topo. Mas existem coisas que podemos fazer e creio que no futuro estaremos envolvidos em enormes projetos de terraformação, aqui mesmo, na Terra.'

A crença fundamental no poder da ciência, de reverter certas condições é a matéria dos livros de Robinson. Mas o quanto de fé podemos colocar na habilidade da humanidade de resolver os problemas que criou para si propria?

'Até agora, eu creio, as possibilidades são favoráveis, mesmo que estejamos causando pequenas extinções em massa, acredito que a razão vai ter que prevalecer. Se o dinheiro aplicado na economia de guerra fosse investido para restaurar a natureza, estariamos numa situação ainda melhor. Quando nações prósperas como os EUA, perceberem que estão condenando à morte suas crianças, haverá uma mudança mosntruosa de valores. Vai ser um século difícil, mas não imagino que as pessoas possam ser tão estúpidas ao ponto de se matarem'.

O livros de Robinson, um americano, tratam quase que exclusivamente do mundo americano. Com as evidências que as mudanças climáticas, disparadas pelo homem, já são perceptiveis ao longo de quase uma década, e a contínua política americana de ignorância e desrespeito, em não ouvir a comunidade internacional, pergunto para Robinson se ele culpa seu país pelos atuais níveis de aquecimento global.
'Os EUA estão sempre negando tudo! Pior do que isso, é admitir que preferimos que o mundo se consuma em chamas, ao invés de admitir que precisamos mudar nosso estilo de vida e que estamos errados. Aqui na Califórnia, 50% dos carros na estrada são SUV's (grandes veículos blindados) o que é uma declaração politica! Estão dizendo que vamos levar o resto do mundo pro buraco conosco e não damos a mínima! Essencialmente, são veiculos republicanos, quando você vê um SUV passar, pode apostar que o motorista votou em Bush. Existe uma pequena parte, uma minoria que está preocupada em reduzir emissão de gases aqui, mas o processo político é controlado por uma administração republicana, que praticamente serve aos intereses da indústria de petróleo. E vamos para as próximas eleições, sabendo que nas duas últimas, de formas diferentes, fomos roubados, não podemos mesmo esperar por um Estado democrático nunca mais! É bem apavorante!'
A desilusão de Robinson com o processo eleitoral americano fica clara em 'Fifty degrees below', quando ele especula sobre a existência de uma manipulação nos programas de computador para falsificar resultados eleitorais. Um número de paralelos entre o presidente republicano do livro de Robinson e a atual liderança dos EUA (Bush), leva a imaginar que existe nele uma sátira intencional da atual situação política.

'Sim, um pouco', admite. 'Mas é duro brincar com isso, a não ser através de humor negro. Em termos da caracterização do presidente, existem similiaridades, mas eu queria que o meu presidente parecesse um cara melhor do que o que temos hoje. Nosso presidente não presta, é provavelmente o pior de toda a história americana. Não é só estupido, mas tem uma capacidade reduzida, um idiota patológico, e acho que ele gosta de fazer coisas más. E penso que muitos do que o apoiam igualmente dão apoio a suas ações. São contra a ideía de progresso, contra o futuro, contra o resto do mundo. Este é o pior momento de nossa historia. Cruzo os dedos esperando uma eleição honesta em 2008.'
Dificilmente poderemos saber se o aquecimento global voltará as manchetes, assim como não é possível saber, se a atual administração americana acordará para os riscos das mudanças climáticas ou predizer os efeitos do abuso ao planeta em nós e em nossos filhos. Com o livro final da trilogia chegando ao fim no próximo ano, Robinson agora encara a tarefa de projetar como as mudanças climáticas se darão ao redor do globo nos próximos anos. Alguma sugestão?

'Bem', diz ele voltando ao otimismo do início da entrevista, 'Quero que as coisas terminem bem, que seja uma comédia e não uma tragédia. Eu quero no final, casamento e filhos'.

Entrevista para o GuardianUnlimited em Setembro de 2005.
* (O título 'Future tense' ou, 'Futuro tenso', é uma brincadeira com a forma do verbo no inglês, o futuro, o que está por vir, e o 'tenso', da situação dramática que a matéria aborda.)