domingo, 3 de fevereiro de 2008

Porque somos todos ciberpunks ? Entrevista com William Gibson



A 'The Observer' fez uma lista das 300 pessoas mais influentes em nossas vidas.
O escritor de FC canadense William Gibson aparece no 288º lugar.Um dos motivos de aparecer na lista foi ter cunhado a palavra 'ciberespaço' em um pequeno conto no ano de 1981. Gibson garantiu um rodapé na história lexicográfica, e também seria verdadeiro afirmar que nas duas últimas décadas, suas ficções visionárias influenciaram genuinamente a nossa definição e nosso relacionamento com as tecnologias emergentes e substancialmente modelaram nossa percepção do futuro próximo.

Seus romances e dúzias de contos podem ser legitimamente categorizados como Ficção Científica, mas nunca utopias ou distopias em sua aparência.
Gibson extrai mais do que simplesmente uma visão pragmática, existe a chuva, lá está a sujeira em seu futuro, e a parafernália modernosa, as vezes, não funciona como deveria.

'O futuro não é uma coisa completamente nova e brilhante, saida daquilo que o precedeu', diz Gibson, 'ele será feito a partir do que existe hoje'.

Como o adolescente crescendo numa área rural, começo dos anos 60 na Virgínia, Gibson se lembra com prazer dos 'anos devorando grande quantidade de FC e mais nada'. Ele sabia que seria alguma coisa ligada as artes, algum tipo de artista, mas achava que seu talento estava mais para o visual do que para o literário.

'Mas eu era um tremendo leitor. Se alguem pudesse passar uma vida lendo livros, eu estava pronto para tal.'

Estudou Literatura na Universidade (li mais D H Lawrence do que devia) mas foi apenas com vinte e tantos anos que percebeu que escrever era algo que ele podia fazer.

'Quando eu olho para trás, para minha estratégia de início de carreira, acho que tive muita sorte ao publicar um romance nos EUA, que iria desaparecer logo, sem deixar sinal.'Mas' acrescenta 'imaginar que décadas depois, um pequeno grupo se reuniria num bar, na França ou na Inglaterra, em torno dele. Um monte de escritores que eu admiro - como John Sladek - começaram assim.'

Suas primeiras histórias apareceram em revistas bem desconhecidas.

'Eu preferi dar as histórias ao invés de tentar vendê-las. Eu morria de medo de ser rejeitado pelo mercado. Mas quando comecei a ser pago por elas, fiquei perplexo. Era a única coisa que eu sabia fazer em casa , na mesa da cozinha, e que valia centos e poucos dólares'.

O grande momento de Gibson chegou em 1984 ao publicar seu romance de aventura sobre hackers de computadores, Neuromancer.

'Assim que saiu, começou a ganhar imediatamente todos os prêmios de FC e atraiu a atenção de todos, mas não foi de uma hora de outra, o sucesso foi mais como uma surpresa contínua. Ainda acho estranho. É como se apenas o primeiro dos filhos fosse o prodígio ou algo assim. Eu fico olhando com certo distanciamento.'

Ele diz que descobriu ter feito algo interessante quando leu um dos capítulos de Neuromancer em uma convenção de Ficção Científica no Texas.

'Alguns conheciam meu trabalho e lá pela metade da leitura, comecei a perceber as pessoas envolvidas com aquilo, eu era como Dylan eletrificado ou algo assim. foi demais!'

Gibson sempre escreveu contra a expectativa do público tradicional de FC.

'Eu escrevo para uma espécie de mercado diferente. Inicialmente assumi que eu saberia que estava na trilha certa se as pessoas da FC mais popular odiassem meu trabalho. Eu nunca esperei que muito deles fossem gostar.'

Gibson diz que o real inimigo do escritor é seu lado técnico.

'Já escrevo há tanto tempo que as vezes me preocupo por não me lembrar se estou me repetindo. A coisa assustadora nisso é ter todo seu trabalho numa base de dados e realizar uma pesquisa por uma frase. Eu odiaria saber quantas vezes eu usei a frase wet neon.'

Seu romance, 'All tomorrow's Parties' é a última parte da trilogia que começou em 1993 com 'Virtual Light' (no qual óculos de realidade virtual tinham a chave do futuro de São Francisco), continuou com Idoru (quando na Tokyo do século 21 se apresenta uma celebridade virtual).Em 'All tomorrow's parties' Gibson preconiza o fracasso dos holocautistas, antecipando que o bug do milenio (Y2K) não ocorreria.

'De alguma forma é cruel para mim saber que aquelas pessoas viverão o pior tempo de suas vidas quando em primeiro de janeiro, emergirem de seus bunkers em Iowa. Essas pessoas venderam tudo que tinham, gastaram tudo comprando feijões e rifles.'

Gibson diz que o romance que está atualmente escrevendo está longe de ser um simples romance.

'Mas eu me lembro ao fim de Neuromancer, de tentar puxar o plugue e evitar qualquer possibilidade de incluir uma linha que dissesse que os dois protagonistas jamais se veriam novamente. Mas o processo que rola no quarto escuro do meu cérebro e que me leva à próxima coisa a vir a escrever mudou, estou embaraçado com a possibilidade de estar voltando numa versão da mesma coisa.Vamos ver no que vai dar.'


Nicholas Wroe - The Guardian - 2 Dezembro de 2000.