sábado, 1 de março de 2008

O que matou a Ficção Científica (Lost Pages)



"O que matou a Ficção Científica
por Doutor Josiah Carberry, Professor de Inglês na Brown University de San Diego.

Resumo: O extinto gênero literário e cinemático, conhecido certa vez como 'Ficção Científica', nasceu em 1926 e alcançou seu auge em 1966, depois disso, uma série de catástrofes, tanto literárias quanto não, levaram o gênero ao seu declínio e virtual desaparecimento.

É difícil acreditar hoje em dia, em nosso atual panorama desprovido de trabalhos de especulação fantástica, que no passado, a literatura e o cinema fossem dominados por um agora esquecido, gênero de entretenimento, chamado ‘Ficção Científica’.

Alguns poucos aficcionados podem muito bem encontrar suas obras favoritas de ‘FC’, como era comumente chamada, nas quase desintegradas primeiras edições, revistas bolorentas e baratas, e em filmes deteriorados. Porém, descobertas recentes revelaram que – longe de conhecer as peculiaridades dos clássicos fora de catálogo deste gênero – aqueles que nasceram a partir de 1966 eram na maioria ignorantes, quanto a verdadeira noção de FC.
Este abismo de gerações de fato, representa o principal obstáculo para a ressurreição do gênero.

Talvez devamos falar brevemente sobre os dias gloriosos da FC, antes de examinar os fatores que a levaram ao seu infame aniquilamento.

Quando um empreendedor imigrante galês de nome Hugh Gormsbeck lançou sua revista Amazing Stories, em 1926, ele juntou uma profusão de histórias disparatadas e uma variedade de escritores, sob o rótulo ‘cientificação’, um termo que posteriormente se tornaria ‘ficção científica’ (FC). Criando regras e colocando a FC em campo, digamos assim, Gormsbeck pavimentou a estrada que sustentaria o crescimento, a popularidade e a camaradagem entre leitores e escritores.
Nos quarenta anos seguintes, por toda parte, o gênero adquiriu complexidade e sofisticação, estabelecendo padrões de excelência.
Saindo das revistas para os livros de capa dura (entre 1950 e 1960) a FC começou a produzir genuínas obras primas, como ‘Other Than Human’ (Theodore Sturgeon - 1953), ‘The Galaxy My Destination’ (Alfred Bester - 1957) e ‘The Nova Mob’ (Henry Kuttner - 1961).

Ao mesmo tempo, a FC começava a se infiltrar em outras mídias.
Rádio-dramaturgias como ‘The Shadow Lady’ e ‘Dimension X Squared’ empolgava milhares de ouvintes. Nos jornais, os quadrinhos como ‘Flashman Gordon’, ‘Buckminster Rogers’ e ‘The Black Flame’ disputavam a preferência com as revistas de quadrinhos mensais ‘Captain Marvelous’, ‘Kimball Kinnison’, ‘Galactic Lensman’, e ‘Superiorman’, para leitores não interessados em literatura.

Hollywood em peso aderiu ao gênero, com uma variedade de produções —‘Things that Might Come’ (1936) e ‘Destination Orbit’ (1950) —além do execrável ‘I Married a Martian’ (1949) e o muito esperado e decepcionante ‘Eye in the Sky ‘(1958).

A metade final dos anos 50 foi um período excitante para a FC, e o lançamento do primeiro satélite chinês, aumentou o interesse no gênero, refletindo-se em dezenas de novas revistas, publicações e peças televisivas (como ‘The Twilight Zone’, de Orson Welles).
Ao final dos anos 60, a FC já explodira como fenômeno popular de massa.
Clássicos cultuados como ‘Drifter in a Strange Land’ (Robert Heinlein - 1961), ‘Vril Revival’ (Thomas Pynchon - 1963) e ‘Dunebuggy’ (Frank Herbert - 1965) conquistaram os corações e as mentes de leitores adultos e jovens, flertando com as listas de best-sellers (o mesmo destino feliz foi vaticinado por especialistas para o triunvirato em progresso, sobre os romances de fantasia britânicos - a fantasia havia sido um aliado de longa data, de seu primo mais cientificamente respeitável. Mas a morte precoce do autor JRR Tolkien em 1955, depois de um único livro lançado, ‘The lord of the rings’, impediu sua realização.)

Adicionalmente, uma nova geração de escritores surgiu com uma visão literária mais sofisticada (H.Ellison, S.Delany, R.Zelazny, B.Malzberg, U.Le Guin) e começou a se tornar conhecida.

Tudo parecia correr bem para a FC até a metade desta década, porém sua ruína, como todos sabemos, estava próxima.

E o nome de sua nêmesis era JORNADA NAS ESTRELAS.

8 de Setembro de 1966, 8:30 da noite.
Raramente se pode apontar com tanta precisão, um momento de mudança histórica, mas retrospectivamente, este foi certamente o momento que marcou o fim da Ficção Científica.

Um todo-poderoso homem de Hollywood, mais famoso por seu anteriormente citado ‘Destination Orbit’, George Pal, acabara de chegar ao meio televisivo após seu gigantesco fracasso teatral, com o não intencionalmente cômico, ‘A Clockwork Orange’, de 1965.
Concebendo uma viagem imaginária, de um cruzador inter-estelar no século 23, chamado The Ambition, foi uma maneira bastante esperta de utilizar uma boa quantidade de cenários já existentes.

O primeiro e grande erro de Pal foi ao escolher o elenco.
Nick Adams interpretava o histriônico Capitão Tim Dirk, como uma espécie de James Dean de terceira categoria. O oficial alienígena de nome Strock foi concebido sobre um Bela Lugosi narcotizado. O médico de bordo ‘Bones’ LeRoi foi risivelmente interpretado por Larry Storch. O engenheiro ‘Spotty’ (chamado assim pelos fãns) encontrou o veterano Mickey Rooney longe de sua melhor forma. E para os elementos femininos- bem, uma definhante jovem modelo chamada Twiggy (no papel de Yeoman Sand) e uma bastante volupta Jayne Mansfield (como a Tenente de comunicações Impura).

O erro seguinte de Pal foi insistir em escrever ele mesmo, todo o roteiro da primeira temporada, por contenção de gastos. Se usando de todos os clichês encontrados na FC assim como em westerns, filmes de guerra e uma dúzia de outros gêneros, os roteiros de Pal foram qualificados pela crítica, como os piores já escritos na história da televisão.

Com dois enganos pesando contra ele, os outros fatores são menores, como primitivos efeitos especiais, vilões ridículos, vestimentas saídas de O Mágico de Oz no espaço, um tema musical enlouquecido e inconveniente - era apenas a cobertura no bolo do desastre.

Basta perguntar a qualquer pessoa de certa idade e que assista televisão, onde ela ou ele estava, quando o infame primeiro episódio de Jornada nas Estrelas (um ultra-confuso episódio de viagem no tempo intitulado ‘When did we go from then?’) foi ao ar.
Aproveitando-se de um momento de queda na programação de outono e garantindo que todos os seus competidores exibiam reprises, os minutos da estréia desta bomba televisiva, encontrou milhares de televisores ligados.

Queixos começaram a cair por todo o país e os telespectadores começaram a ligar uns para os outros, erguendo uma onda de atenção sobre a série.
Na época, a costa oeste dos Estados Unidos era o foco das séries que estreavam, e o episódio recebeu os índices mais altos de audiência já registrados.
Contudo, isso não era um bom sinal.

O dia seguinte trouxe um unânime e cruel linchamento.
Colunistas e editores dos jornais tiveram um ótimo dia com o espetacular fracasso, assim como os comediantes de tevê (Johnny Carson, por exemplo, dedicou seu monólogo de abertura de 9 de setembro, a este episódio).
Na semana seguinte, uma edição especial do Guia da TV, dedicou uma arrasadora avaliação de Jornada nas Estrelas e da FC televisiva em geral.
Imprudentemente, o canal NBC, empolgado pelo prestígio de Pal, já o havia contratado para mais 36 episódios. E preferindo, ao invés de fugir ou buscar auxilio, Pal agarrou-se à carta de autorização da emissora e partiu para a briga em face da desonra.
Semana após semana, o publico era jogado de um episódio horroroso para outro.
Inúmeras falas retiradas da série (‘Ele está... ele está morto Tim!’, ‘Eu sou um médico do século 23, maldição, e não um cientista cristão!’, ‘Um para subir Spotty’, ‘Pouco axiomático, Capitão.’) tornaram-se uma ironia nas conversas diárias.

E então o inevitável ocorreu.

Os escritores de FC passaram a levar a sério aquela porcaria.

O prejuízo embutido por toda aquela coisa do tipo ‘Buckmisnster Rogers’, nunca deixou a consciência do público. Ser visto lendo um livro de FC publicamente era o equivalente a usar nas costas, um cartaz escrito ‘ME CHUTE’.
Tudo que a literatura séria de FC tinha laboriosamente conseguido, desvaneceu de uma noite para outra.
As vendas dos livros e revistas de FC caíram vertiginosamente, leitores esporádicos e escritores começaram a deserdar do gênero em bandos. Falências - tanto pessoais quanto financeiras - proliferaram. Filmes ainda em produção foram cancelados.
Em uma espiral decrescente, um malogro seguia ao outro para o fundo.
Finalmente em 1968, muito depois da morte de Jornada nas Estrelas - surgiria uma campanha organizada por verdadeiros fãs de FC - enquanto a memória da tragédia estava viva, e alguns ferrenhos leitores e autores sobreviveram, de uma reminiscência miserável e esfarrapada do legado vital.

Persistia uma pequena dúvida, se a FC teria a capacidade literária de recuperar-se de uma tragédia desta dimensão. O cenário sempre fora propício a ciclos de sucessos que logo se transformavam em fracassos. Bastava um novo acontecimento de grande magnitude, um cataclisma extra-literário, para finalmente matar este gênero, testamento do vigor e do inerente encanto da natureza humana.

Primeiro e, antes de tudo, veio o desastre da Apollo 11 em 1969.
Quando o modulo de excursão lunar falhou ao tentar pousar na superfície lunar, o mundo assistiu a tragédia que solapou qualquer otimismo tecnológico deixado intacto após a guerra do Vietnam e o crescente alerta sobre a poluição ambiental.
(Os distúrbios pelo Dia da Terra 1972-1975).

A perversão da tecnologia para manutenção da ‘Big Nurse’, um banco de dados de contra-inteligência pelo FBI, sob a terceira administração Nixon e a subseqüente aprovação das leis que limitavam a manufatura de computadores de baixo desempenho, contribuíram para diminuir o fascínio por um futuro de máquinas sofisticadas.

O prego final no caixão da Ficção Científica ocorreu com o derretimento incontrolável da usina de Three Mile Island, em 1979.
Querendo ou não, a FC há muito estava relacionada com a energia nuclear na cabeça das pessoas, e esta catástrofe que contaminou toda orla marítima, transformou a FC em sinônimo de mortandade em massa.

Um último golpe de má sorte surgiu na forma de um filme underground de 16 milímetros, que teve a infelicidade de ganhar notoriedade na cena pornográfica de San Francisco, ‘Close Encounters of the Stars Wars Kind’ era uma aventura classificada como proibida para menores de 21 anos, dirigida pela dupla, George Lucas e Steven Spielberg, estrelado por desconhecidos atores e atrizes ( Charlie Sheen, Rob Lowe, Hugh Grant, Louise Ciccone, Janet Jackson, Hilary Rodham, Sly Stallone, Arnie Schwarzenegger, etc). Nesta repugnante pantomima, representantes de um império inter-estelar decadente, fizeram da Terra seu parque de diversões sexual, recebendo apenas a resistência de rebeldes nus, que se esforçavam para serem mais libidinosos e repreensíveis do que os tiranos.
Após a Corte Suprema acabar com Lucas e Spielberg, nenhuma outra pessoa em sã consciência iria se atrever a aproximar-se da FC.

Duas décadas após estes incidentes, a FC permanece como uma forma praticada somente por um punhado de amadores excêntricos, aparecendo em publicações mimeografadas, limitada a circulação entre cento e poucas pessoas no máximo.
(pelo menos nos EUA. A situação da FC no Reino Unido tem uma outra e complexa história. Procure pelo título "O Império da Mídia de Moorcock e Ballard, Ltda”.).

Que esta, certa vez orgulhosa tradição literária, termine desta forma, parece inevitável
devido a cadeia de circunstâncias aqui relatadas. Ainda que, por um minuto, podemos imaginar - se não fosse abusar de uma herética vertente da velha FC, conhecida como ‘realidade alternativa’ - como as coisas poderiam ter sido diferentes.”


Introduction—"What Killed Science Fiction?" - Paul Di Filippo - Lost Pages

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