domingo, 27 de abril de 2008

Por que a Ficção Científica Brasileira é invisível e marginalizada?



Marcello Simão Branco - 16/04/2008

Creio ser interessante iniciar esta conversa procurando responder ao título provocativo de um artigo do crítico e escritor Fausto Cunha, intitulado: “A Ficção Científica no Brasil – Um Planeta Quase Desabitado”.

O texto, publicado no livro 'No Mundo da Ficção Científica', do professor universitário americano L. David Allen, em 1975, faz uma recapitulação das origens do gênero no Brasil, situando-o como de importância marginal na literatura brasileira e intermitente quanto ao volume de sua publicação, baseada em sua maioria em autores estrangeiros.

Veja que o texto é de 33 anos atrás. Na época ainda havia algumas editoras publicando o gênero, até com séries específicas, como a Hemus, a Expressão e Cultura, a José Olympio e a Francisco Alves, fora outras editoras importantes que o publicavam também como a Nova Fronteira, a Brasiliense e a Record.

E anda assim, Cunha dizia que a ficção científica no país era um planeta quase desabitado, se referindo principalmente aos autores brasileiros, que ele situa como tendo o melhor momento nos anos 60, por meio das coleções de livros editadas por Gumercindo Rocha Dorea, na GRD, e Álvaro Malheiros, na Edart.

Nesse sentido, agora no início do século 21, a ficção científica brasileira ainda seria um planeta quase desabitado?

Creio que com o movimento de fãs e escritores do início dos anos 80, naquilo que já foi identificado como a Segunda Onda da FCB, o gênero no Brasil começou a ser mais habitado, para usar o termo de Cunha, mas mesmo com mais de 20 anos de vida, ainda seria de uma espécie difícil de ser encontrada. Como se vivesse no subterrâneo, no fundo de um oceano ou uma região de difícil acesso.

E quais as razões desta ‘marginalização’ e desta ‘invisibilidade’? Certamente há várias, creio que relacionadas com aspectos internos à ficção científica e externos a ela.

Para aqueles que a cultuam e praticam o discurso de preconceito e marginalização é recorrente, procurando situar o problema fora de seus muros. Desta perspectiva, o gênero seria discriminado porque
1) as pessoas não gostam de ciência e a tomam como uma leitura difícil;
2) as pessoas acham que é uma literatura escapista ou alienada, que reproduz valores estranhos à sociedade brasileira, sendo não mais do que um sub-produto da
indústria cultural capitalista e
3) seria difícil levar a sério uma ficção científica escrita por brasileiros, já que o país tem problemas de educação e falta de investimento em ciência e tecnologia muito graves.

É possível defender que ao menos parte destas três razões apontadas principalmente pelo fã do gênero, tenha perdido um pouco de seu vigor.

Primeiro, porque os assuntos científicos estão inseridos no cotidiano das pessoas, num país quase totalmente urbanizado e integrado internacionalmente como o Brasil.

Segundo, porque a ficção científica não é apenas entretenimento, podendo discutir e refletir sobre grandes questões do nosso tempo e a partir de uma perspectiva ora distanciada, ora metafórica.

Terceiro, porque embora o país ainda tenha um longo caminho a percorrer em direção a uma educação básica de qualidade, o parque industrial brasileiro é o maior do Hemisfério Sul, as universidades brasileiras possuem algumas conquistas científicas importantes e, mais do que um símbolo, o Brasil é um dos poucos países do mundo que já enviou um homem ao espaço.

Estes são os chamados problemas externos ao gênero no Brasil, principalmente do ponto de vista dos fãs, mas haveria também alguns que estão situados em seu interior. Estes mais controversos e difíceis de serem comparados com os externos, pois se referem a uma realidade particular de uma pequena, mas combativa comunidade de fãs e escritores forjados em seu meio.

Em todo caso, os tais problemas externos de certa forma justificariam uma postura mais defensiva e auto-centrada por parte daqueles que cultuam e praticam o gênero no Brasil. Desta forma, criam sua própria sub-cultura, não por acaso utilizando o nome estrangeiro de fandom (domínio do fã) para se auto-intitular.

É uma marca desta geração em sua criação e desenvolvimento ser muito semelhante às suas congêneres estrangeiras, especialmente no que diz respeito às suas instituições, como clubes, fanzines, prêmios e convenções.

Por pelo menos uma década todas funcionaram relativamente bem, algumas com muito boa qualidade. É possível dizer que a comunidade brasileira de ficção científica tem procurado se integrar e participar de uma comunidade internacional dedicada ao gênero.

Ler na íntegra o artigo no site da Scarium