segunda-feira, 5 de maio de 2008

Artes intersticiais, New Weird e Ficção Científica Mundana



Nunca houve um tempo melhor do que este para se escrever Ficção Científica.
(Michael Swanwick)

Sendo assim, vamos focar em 3 movimentos literários que são hoje, os mais novos.
Somente uma pequena fração dos escritores conhecidos pertence a estes grupos, mas seus conceitos são representativos, pois tem algo a dizer sobre os dias de hoje.


ARTES INTERSTICIAIS

As artes intersticiais foram criadas por Ellen Kusher, que é prolífico em criar movimentos literários (este é o terceiro, se formos contar o Mannerpunk e Young Trollopes). Como o site oficial diz:

"O que são artes intersticiais? É a arte feita dos interstícios entre gêneros e categorias. O tipo de arte que floresce nas fronteiras entre disciplinas distintas, meios ou culturas. É uma arte que cruza barreiras, feita por artistas que se recusam a serem rotulados por categorias... Como na natureza, as maiores áreas de biodiversidade ocorrem nas margens entre ecossistemas; acredito que alguns dos trabalhos mais vitais, inovadores e desafiadores podem ser encontrados nestas margens, entre categorias, generos e disciplinas."

Por estes trabalhos serem tão difíceis de se classificar, quase sempre geram incompreensão em uma cultura que se tornou enormemente dependente de comprar e vender arte através de rótulos. Obras literárias que atravessam estas barreiras, por exemplo, que conscientemente mesclam orientações e temas, são classificadas de um jeito ou de outro, e são criticadas de acordo com os termos de sua classificação - ao invés dos próprios termos - em detrimento do trabalho em questão. De todos os movimentos literários, a arte intersticial é o mais ambicioso, pois não se atém a limites literários, mas inclui (ou deseja incluir) todas as artes, incluindo pintura, teatro e música. Não ficou ainda claro se existe um publico leitor para as artes intersticiais, apesar da certeza absoluta de que há grande demanda por ela por parte dos escritores.

Nos anos recentes, pequenas editoras publicaram várias antologias dedicadas ao que podemos chamar de histórias não-exatamente-FC; quase todas têm um nome próprio para isso - slipstream, new wave fabulists, cross-genre, e todos me dizem que estas histórias são mais difíceis de vender do que digamos, Asimov, que tem muitos leitores, já que tantos escritores novatos estão tentando conquistar o público.

Se você ainda está um pouco confuso sobre o que são as artes intersticiais, então seja bem vindo ao clube.

Poucos anos atrás, estive na primeira conferência de artes intersticiais, e lá eles eram persistentemente indagados por críticos pouco amigáveis, e nenhum deles sequer conseguiu uma definição.

A Fundação de Artes Intersticiais recentemente publicou sua primeira antologia, Interfictions - e ainda é cedo para dizer como os leitores vão reagir a isso. Todavia, este desejo por parte dos escritores de expandir seus limites é a maior tendência na atual ficção científica. Com ou sem um movimento organizado, parece que vieram para ficar.

NEW WEIRD

O estilo New Weird é uma criação de M.John Harrison, cujos livros da serie Viriconium foram os ancestrais do movimento. Um exemplo é o escritor China Mieville, com seu livro 'Perdido Street Station', um hit da FC, igual a 'Neuromancer' de Gibson, ou 'Snow Crash' de Neal Stephenson.

A ação se passa em New Crobuzon, uma cidade habitada por inumanos, homens-pássaro, cabeças de escaravelho, pessoas-sapo, pessoas-cactus e muitas outras raças. Soa estranho, mas o livro (e todos que Mieville escreveu desde então) é muito, muito mais estranho do que parece. A obra de Mieville é tão inovadora e original que parece não ter precedentes ou comparações. Mas não é como ele vê:

'Algo está acontecendo na literatura fantástica. Uma fuga. Uma liberação. E a qualidade surpreende. Noções estão se partindo e se unindo interna e externamente, através de fronteiras. Particularmente na Inglaterra, onde somos resenhados nos jornais, e vendemos e somos lidos e reescritos por outros escritores. Estamos escrevendo livros despreocupadamente, ignorando limites entre FC, fantasia e horror. Justina Robson, M. John Harrison, Steve Cockayne, Al Reynolds, Steph Swainston, para mencionar alguns escritores, e, apesar de todas nossas diferenças, compartilhamos algo. E vindos de outras áreas, escritores como Toby Litt e David Mitchell utilizam as armadilhas da FC com reverência e facilidade, que há muito se perderam no panorama condescendente literário.

O que isso tem em comum com as artes intersticiais é o descontentamento com os gêneros atuais e uma indisposição para respeitar seus limites. O que o faz radicalmente diferente das artes intersticiais é que não existe o desejo de se expandir através da fantasia, da FC e do horror. O New Weird simplesmente pretende quebrar todas as divisões, os muros entre gêneros e reformular o aspecto da ficção. Sem nenhum desejo de se tornar uma tendência.

Isso reflete um desejo poderoso por contemporaneidade de se escrever FC e ser mais estranho e intenso do que o que temos hoje. Escrever, em resumo, uma ficção que tem tudo que gostamos e ainda algo mais.

A antologia de New Weird, intitulada apropriadamente de 'The new weird anthology', foi editada por Jeff Vandermeer, que foi um crítico do movimento no princípio e depois foi vencido por ele. Vai ser lançada em 2008.

FICÇÃO CIENTÍFICA MUNDANA

A Ficção Científica mundana é o mais novo dos movimentos e o que menos tem para mostrar. Ninguém o levaria a sério a não ser por dois motivos: o primeiro é por ser uma criação de Geoff Ryman, mais conhecido por 'The unconquered country', 'The child garden' e aquele que foi nosso livro predileto de 2004, 'Air'. O segundo é um ótimo argumento:

"Toda aquela história de viagens interestelares é muito improvável. Warp drive, buracos de minhoca e outras formas de se viajar além da velocidade da luz é mais realização das fantasias do que um especulação séria sobre um futuro possível. A viagem interestelar pode nos levar à ilusão de um universo abundante em mundos hospitaleiros, iguais à Terra. Isso é inverossímel. Este sonho de abundância pode encorajar uma atitude de desperdício com a abundância que temos aqui em nosso planeta."

Existem outras trivialidades da FC que os Mundanos rejeitam, incluindo civilizações alienígenas e inteligência artificial. Significa que, para que a FC se torne uma influência positiva para o mundo, eles pretendem escrever apenas histórias que possam se passar aqui, de um futuro promissor e que podemos ter, ao invés daquele que gostaríamos de imaginar ser possível . Seria legal tomar um gole de vinho alienígena a beira de um antigo canal de Marte com a princesa marciana, dizem. Mas isso simplesmente não vai acontecer.

O ponto interessante a respeito dos Mundanos é como vários escritores respondem com ojeriza a esta retórica, enquanto concordam com suas premissas. Um dos comentários que se fazem sobre este fenômeno é que os Mundanos fazem objeção não à liberdade de brincar com a imaginação, mas ao que chamam de 'third-hand fiction' - histórias escritas por pessoas que, por não terem idéias próprias, criam imitações da FC do tipo que gostavam de ler quando eram jovens. Os mundanos ainda não montaram uma antologia própria, mas um número futuro da Interzone será dedicado a eles.

Então, são três movimentos, um tenta levar a FC além dos limites que tradicionalmente a definem, estabelecendo-se dentro daquilo que chamamos de mainstream. Outro pretende ficar dentro de seus limites, mas criando um híbrido mais vigoroso entre FC, fantasia e horror. O terceiro quer concentrar a FC dentro de conceitos mais tradicionais, o futuro será como atualmente somos.

E o que todos eles têm em comum?

O arrebatamento pelo prazer de escrever FC

http://floggingbabel.blogspot.com

http://www.interstitialarts.org/wordpress/

http://interfictions.blogspot.com/