domingo, 27 de abril de 2008

Ficção Científica às cegas - Parte 2/2


Stross e Doctorow estão sentados do lado de fora no bar do hotel Chequers em Newbury, uma pequena cidade a oeste de Londres.
O hotel está repleto por uma espécie distinta de fãs de FC, membros de um grupo chamado Plokta (Press lots of keys to abort = ‘Pressione um monte de botões para abortar’)

Stross e Doctorow só se encontraram quatro vezes, mas possuem a intimidade confortável de amigos de longo tempo, o que só é possível na era do email. (Escreveram juntos inúmeras e aclamadas histórias e romances muito antes de se conhecerem pessoalmente.)

Stross, 39 anos, natural de Yorkshire, mora em Edinburgo, parece uma mistura de monge Shaolin e um balconista barbudo de uma videolocadora, com a cabeça raspada - exceto por um rabo de cavalo.

Doctorow, um canadense de 33 anos, parece um jovem escritor de moda, jaqueta de couro e óculos fashion, também ao modo dos geeks, com um laptop G4 (Mac) sempre à postos.

Parecem ter o mesmo background, Stross trabalhou nos anos 90 como desenvolvedor de software para duas firmas 'dot-com' inglesas; então virou jornalista e começou a escrever uma coluna sobre Linux para uma revista de computadores. Doctorow, que recentemente se mudou para Londres, saiu da faculdade aos 21 anos direto para seu primeiro emprego como programador, começou uma empresa 'dot-com' e foi co-fundador de um conhecido blog sobre tecnologia, o Boingboing.net.

Apesar de estarem já a algum tempo longe da programação, isso continua a influenciá-los e a infectar suas idéias.

No Chequers, Doctorow menciona o título original de um de seus romances, uma história sobre um filtro de spam que se torna inteligente e tenta comer o universo. 'Pensava em chamá-lo de /usr/bin/god ''Genial.' diz Stross."Há um público que sabe que /usr/bin significa o repositório para programas Unix e que god (Deus) seria o nome do programa, mas parece um pouco abstrato para o restante do público.

Esta tendência pode tornar difícil para um leitor desavisado de Stross; para compreendê-lo, as pessoas precisariam de uma overdose de Slashdot (um blog que se auto-intitula 'Notícias para Nerds'). Ainda assim, é esta fluência em computação que permite a estes escritores se aproximarem tanto, do futuro.

'Stross e Doctorow são os tipos certos para isso, com a cabeça cheia de bits' disse o romancista Bruce Sterling, um dos ciperpunks original.

Nesta tarde de sábado, o pessoal do Plokta convergiu para o bar, para trocar idéias e opiniões. Alguns sacaram seus laptops para aproveitar do hotspot Wi-Fi (área de banda larga de internet sem fio)local.Eles me lembraram o que acontece quando Manfred Macx, um personagem de 'Accelerando', chega em uma nova cidade no início do livro:o seu traje-computadorizado começa a trocar dados e ele pensa 'ah, a banda (internet) daqui é boa'. Eu me sinto mais como Donna, a jornalista da Field Circus, aproveitando um belo dia de conversas e drinques, questionando sobre a Singularidade.

Na mesa do bar com Stross e Doctorow, tiro vantagem de uma rara pausa na conversa para perguntar:'Será a Singularidade o evento mais notável da história humana?

'Numa resposta em dupla, os dois revolucionários dizem que será como o nascimento de uma linguagem, o ocaso da agricultura; mas logo concordam que a Singularidade irá muito além de tudo isso em intensidade.

'A singularidade é bem termonuclear em sua finalidade' diz Doctorow 'É apocalíptica, no sentido exato da palavra'.

A dramatização de Doctorow é fácil de digerir perto do que Vinge diz da Singularidade:

'Logo depois dela ocorrer, a era humana chegará ao fim. A Singularidade marcará o início da era 'pós-humana'.

Vinge espera que a Singularidade ocorrerá quando a inteligência da máquina sobrepujar a dos homens. A vida na Terra sempre avançou por simulação e adaptação, pondera. A vida animal conseguiu sua evolução desta forma. Os homens são os únicos animais que aprenderam a fazer isso mais rápido, através da solução de problemas. Uma máquina sapiente o fará ainda mais rápido.

Há uma sensação de expectativa do Plokta enquanto Doctorow se prepara para entrevistar Stross na sala de conferência da Chequers. Esta entrevista de escritor-para-escritor é um dos pontos altos da semana: duas das mentes mais avançadas dentro da FC trocando idéias livremente entre eles e a audiência, discutindo sobre tudo, desde o progresso da inteligência artificial até as tênues relações entre FC e a ciência em si.

Doctorow destila esta última questão com uma simples pergunta:

'Frankenstein seria um romance melhor se Mary Shelley usasse de detalhes biológicos corretos?'

Debatem por um pouco, então Stross sugere: 'Talvez ela estivesse correta - para seu tempo.'

Escritores de FC costumam dobrar as leis da física em prol da história, algumas vezes, Einstein que se dane, você precisa viajar mais rápido que a luz para que nosso herói consiga atravessar a galáxia de uma ponta a outra. Mas o comentário de Stross sobre os escritos de Shelleyse aplica diretamente àqueles que escrevem sobre a Singularidade: tentam ser acurados o máximo que conseguem ser em relação ao seu tempo, extrapolando tendências atuais.

Doctorow diz que só trapaceia se for forçado pela narrativa. Em 'Down and Out', por exemplo, quando as pessoas precisam ser restauradas de suas cópias de backup, os doutores baixam seus cérebros para corpos recém-clonados. A idéia de clones instantâneos é quase mágica, (na realidade clones começam como embriões e crescem até a fase adulta em tempo normal), mas o invento não funciona e permite que um personagem recentemente assassinado volte à sua velha vida para encontrar seu assassino.

O respeito pela precisão é algo natural para os geeks, mas também é um jeito de evitar aquilo que Doctorow chama de 'correções pedantes' dos fãs, que são tão exigentes quanto leais.

O escritor Larry Niven sabe disso mais do que todos. Durante a convenção mundial de FC de 1971, estudantes do MIT protestaram contra a física usada no livro Ringworld gritando:
'O Ringworld é instável!'

Stross, Doctorow e seu público não se limitam aos seus próprios interesses ou mesmo à tecnologia. Para eles, escrever textos futurísticos de FC não significa ter que entender relatividade ou estimar com proximidade a área de superfície de uma vela solar capaz de impulsionar uma espaçonave à metade da velocidade da luz.

O resultado desta obcecada atenção por detalhes gera idéias fabulosas.

Greg Egan, um cientista de computadores e escritor, é um dos inovadores da ficção sobre Singularidade e desenvolveu uma teoria inteiramente nova de cosmologia para este universo pós-Singularidade em seu livro 'Schild's Ladder'. Ele a chama de Teoria Quantum Gráfica, e seu trabalho deixou alguns de seus colegas escritores, alguns deles físicos, confusos, coçando suas cabeças. (Stross brinca dizendo que Egan, pode ser na verdade uma inteligência artificial, pois ele se recusa a dar entrevistas com medo de ser desmascarado no teste de Turing.)

'Apeals Court', uma história que Stross e Doctorow co-escreveram, se passa nos pântanos da Flórida, que sofreram reengenharia para gerar energia. 'Accelerando' é tão densamente tecnológico quanto a FC permite. Numa das passagens, Amber, a filha de Manfred Macx, recebe um pacote de seu pai há muito tempo desaparecido. O entregador da FedEx utiliza um seqüenciador de DNA rápido para que o pacote se abra e revele uma impressora 3D baseada nos condensados Bose-Einstein, uma forma altamente instável de matéria, citada primeiramente em 1995.

É uma técnica clássica de FC: Enquanto os físicos estão ocupados em descobrir uma maneira de criar e manipular esta forma de matéria e publicar seus resultados em ensaios, Stross se debruça sobre seu laptop em seu escritório, buscando artigos sobre estas idéias, concebendo o que aquele trabalho pode vir a criar em 20, 30 ou 100 anos.

Então, estes escritores estão predizendo o futuro ou apenas se divertindo inteligentemente?

Quando perguntei a Vinge, o poderoso-chefão da ficção, sobre a Singularidade, ele parafraseou Robert Heinlein:
(FC é uma grande e incestuosa família. Joan Vinge, ex-esposa de Vernor também é uma escritora de FC; então, sempre que você faz uma pergunta para um escritor, ele ou ela sempre lhe dará a resposta de outro.)

'Se você tiver 1000 macacos escrevendo FC, Heinlein disse, alguns deles poderão estar certos'.

As boas histórias, Vinge acrescenta, deveriam ao menos prover indicações úteis sobre o futuro.

'Ler uma história bem escrita de FC é como executar uma simulação com algum tipo de regra geral. Quando algo fica claro é como se pudéssemos dizer "olhe, este é um pré-sintoma do cenário Z." Então, você fica imediatamente ciente das possibilidades vindouras.

'Em 'Accelerando', as primeiras criaturas a receberem 'uploads' não são humanos, e sim lagostas. Stross disse que teve esta idéia a partir de um artigo de um grupo de cientistas da universidade de San Diego, que criou uma versão eletrônica funcional de uma pequena parte do cérebro de uma lagosta californiana. Stross resume o material publicado da pesquisa para mim, mas diz que não sabe o seu desenrolar.

Parte de mim, confesso, pensa que ele está exagerando, criando uma história como base para o seu trabalho.Poucos dias depois, volto para New York e encontro na internet as pesquisas dos caras de San Diego; pergunto a Stross se são os mesmos de quem ele me falou.
Sigo por um link desta pesquisa, faço perguntas e, algumas horas depois, um físico deste grupo, Henry Abarbanel, me liga. Ele está empolgado, mas também um pouco confuso.

Empolgado por seu trabalho em grupo ter inspirado um romance de FC, perplexo por que ele não consegue perceber uma referência de sua pesquisa na história, apesar de existirem várias referências a lagostas.Falamos um pouco sobre FC em geral: ele era um fã de Asimov quando criança;e então Abarbanel explica o que ele e seus colegas estão fazendo com estas lagostas.
A pesquisa, liderada pelo biólogo Allen Selverston, se concentra na lagosta californiana, porque apenas 14 neurônios são responsáveis por uma área do processo gástrico.
O número de neurônios é incrivelmente pequeno, o que faz com que esta área sirva como modelo. Ainda assim, entender a neurobiologia destes neurônios não é fácil.
Custou a Selverston 25 anos de estudos.

Então Abarbanel e seus colegas precisaram de mais dois anos para entender como recriar este sistema eletronicamente.Também é um trabalho difícil:
Abarbanel compara a ter todas as partes de um 747 no chão de um hangar sem o manual de instruções e tentar juntar as peças e construir um avião.
Tudo isso para simular apenas 14 neurônios.

Uma tarefa simples se comparada a simular os milhares de neurônios que compõem um cérebro humano.Naturalmente, imagino que Abarbanel iria rir sobre a idéia de 'uplodar' uma mente humana.

Mas isso não impede Stross de dar saltos em sua imaginação.

'Francamente, diz Abarbanel, não considero isso uma loucura. Mesmo que isso leve 5, 10 ou 500 anos, não tenho dúvida de queum dia descobriremos como fazê-lo'.

Esta nova tendência na FC, imagino, como todas as melhores que antes vieram, não se trata somente de predizer o futuro ou incrementar uma 'agenda' ou mesmo se trata daquele velho entretenimento com tecnologia.

É tudo isso mas também sobre explorar os limites do possível, construindo mundos distantes e povoando-os, trazendo estas grandes idéias à realidade, ao nosso mundo'.

'É o que supostamente se faz com a Ficção Científica, diz Abarbanel. Fazemos uma extrapolação absurda em magnitude, além daquilo que hoje podemos fazer e se não conseguimos fazê-lo é por que não podemos chegar lá'.

Gregory Mone (Popular Science, 2004) autor do livro 'The Wages of Genius'.


Charles Stross - Accelerando [ Download ]
Charles Stross - Singularity Sky [ Download ]
Cory Doctorow - Down and Out [ Download ]


Ficção Científica às cegas - Parte 1/2