domingo, 1 de junho de 2008

Considerações sobre escrever Ficção Fantástica por H.P. Lovecraft

Arkan23

A razão de escrever histórias é dar para mim mesmo, a satisfação em poder visualizar mais claramente e detalhadamente, aquela vaga,ilusória e fragmentada impressão do fantástico, do belo, e experimentar o excitamento que transmitem-me certas coisas (cênicas, arquitetônicas, o clima, etc), idéias que ocorrem e imagens com que nos deparamos, na arte e na literatura.

Eu escolhi o gênero fantástico pois é o que melhor se encaixa com minhas inclinações - um dos meus desejos mais persistentes e intensos é criar momentaneamente, a ilusão de uma estranha suspensão ou violação dos limites do tempo, espaço e das leis da natureza, que sempre nos aprisionam e frustram nossa curiosidade sobre o infinito dos espaços cósmicos, além do raio de alcance de nossa visão ou análise. Estas histórias freqüentemente enfatizamo elemento do horror por que o medo é nossa emoção mais forte e profunda, e a que melhor se permite criar ilusões sobre outra natureza desafiadora.

O horror e o desconhecido ou o estranho estão sempre conectados, de forma que é difícil criar uma imagem convincentearrancada de uma lei natural ou de um espaço alienígena ou fora deste mundo, sem usar da emoção do medo. A razão pela qual o tempo interpreta um papel importante em muitos dos meus contos é por que este elemento tece em minha mente como a mais profunda e dramática e inflexivelmente força do universo.

Conflitos com o tempo me parecem o mais potente e frutífero tema de toda a expressão humana.

Como a minha escolha, por uma forma de escrever ser tão obviamente especial e restrita, não é menos um tipo de expressão tão velha quanto a própria literatura. Sempre houve uma pequena porcentagem de pessoas que sentem uma ardente curiosidade sobre o desconhecido, um desejo de escapar da casa-prisão, do que é conhecido como real, para estas terras encantadas de aventuras incríveis e infinitas possibilidades, que os sonhos nos oferecem, coisas como densas florestas, torres urbanas fantásticas e que fulgurantes ocasos momentaneamente nos sugerem.

Estas pessoas incluem grandes autores, como também insignificantes amadores como eu mesmo -Dunsany, Poe, Arthur Machen, M. R. James, Algernon Blackwood, e Walter de la Mare são mestres neste campo.

Cada história que escrevo é diferente da outra.
Uma vez ou outra eu escrevo sobre um sonho, mas usualmente eu costumo começar com uma sensação, uma idéia ou uma imagem que tento expressar e que só se resolve na minha cabeça quando consigo pensar em uma boa maneira de dar corpo a ela, dentro de uma cadeia de acontecimentos dramáticos, capazes de serem descritos em termos concretos.

Costumo me utilizar de uma lista mental, de condições básicas ou situações que melhor se adaptam a esta sensação, idéia ou imagem, e então começo a especular logicamente e sobre explicações naturalmente motivadas por aquela sensação ou idéia ou imagem, em termos da condição básica ou da situação escolhida.

O processo de escrita, é claro, varia conforme a escolha do tema e do conceito inicial, mas se analisarmos todas as minhas historias será possível perceber que seguem uma lista de regras em sua maioria.Preparo uma sinopse ou cenário de eventos, na ordem das ocorrências - não necessariamente na ordem da narração.
Descrevo cobrindo todos os pontos vitais e determino todos os incidentes planejados. Detalhes, comentários e as conseqüências são desejadas neste esboço. Preparo uma segunda sinopse, desta vez na ordem da ocorrência, com mais detalhes e mais notas, mudando a perspectiva, criando o clímax.Mudo então a sinopse original para se adequar, se uma mudança for criar uma ocorrência dramática intensa e efetiva na história.

Insiro ou retiro incidentes à vontade - nunca estando preso à concepção original, mesmo se o resultado final seja uma história totalmente diferente daquela primeiramente planejada.
Agora escreva - rápida e fluentemente e não de forma crítica - seguindo a segunda sinopse. Mudo a trama sempre que o processo de desenvolvimento parecer sugerir tal mudança, não se prendendo a nenhum desenho prévio. Se o desenvolvimento revelar novas oportunidades para efeito dramático, volte depois para reconciliar as partes antigas com o novo plano.
Insira e retire seções inteiras se necessário ou desejável, tente inícios e términos diferentes, até encontrar aquele que melhor se apresente.
Mas certifique-se que todas as referências sejam reconciliadas com o desenho final.
Remova palavras desnecessárias, sentenças e parágrafos ou mesmo elementos, observando a precaução de sempre conciliar as referências.
Revise o texto inteiro, prestando atenção ao vocabulário, a sintaxe, o ritmoda prosa, a proporção das partes, harmonize refinadamente, de forma convincente as transições (cena a cena), certifique-se do início, do fim, dos climaxes, etc., garantindo suspense dramático, o interesse, a plausividade e atmosfera, e vários outros elementos. Prepare uma cópia limpa (próxima do apresentável) mas não hesite em acrescentar seus toques e revisões onde achar preciso. O primeiro desses estágios é sempre puramente mental - um cenário de condições e acontecimentos na minha cabeça, e que nunca se fixam até eu estar pronto para preparar uma sinopse detalhada de eventos na ordem da narração. Também, por vezes, começo a escrever antes que saiba como vou desenvolver aquela idéia - este inicio cria um problema para ser explorado.

Existem, penso, quatro tipos de histórias fantásticas, uma expressa um sentimento ou sensação, outra expressa uma concepção pictorial, a terceira expreessa uma situação geral, uma condição, lenda ou concebida intelectualmente e a quarta um quadro bem definido ou uma situação dramática ou um clímax.

Estes contos podem ser categorizados em dois tipos, aquele em que se mostra pelo terror, devido a algum tipo de condição ou fenômeno e aqueles em que existe uma ação por parte dos personagens, em conexão com uma condição bizarra ou um fenômeno.
(continua...)

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