domingo, 1 de junho de 2008

Iain M. Banks, a corrida espacial, Culture - entrevista




Iain M. Banks, ficou conhecido como uma das cabeças iluminadas da Ficção Científica (FC), através da sua saga"Culture", onde em um universo utópico, naves espaciais robóticas altruístas cuidam de humanos geneticamente aperfeiçoados, onde não falta nada e todos estão libertos das tarefas de uma vida normal para expressarem-se conforme queiram.
Banks, que também escreve não-ficção, encontrou inspiração para escrever FC, quando ainda era criança, por causa da corrida espacial.

CNN: Para alguém que escreve tanto FC quanto, na falta de uma palavra melhor, ‘mainstream’, qual é o interesse pela FC como um gênero?

Ian M.Banks: Acho que devido à liberdade que encontramos na FC, onde você pode basicamente ir para qualquer parte. Acho que há uma ligação muito próxima com o prazer que eu sentia ao ler FC quando jovem - quando você abre um livro de FC, especialmente os de contos, você simplesmente não sabe para onde será levado. Pode ser o passado, ou o futuro distante, pode estar no espaço, pode inclusive ser contado pelo ponto de vista de um alienígena. Eu amo esta liberdade. E é tão excitante para o escritor quanto para o leitor.

No ‘mainstream’ é mais ou menos como tocar piano. Um piano convencional é um instrumento fabuloso para se expressar, um instrumento clássico.
A FC é como um órgão reverberando dentro de uma catedral, você tem três teclados, não apenas um, você tem lingüetas, chaves para usar, tem um teclado extra nos pés, pode tocar como quiser! Não dá para ser sutil, como um piano é, e acho que existe um sentimento épico que é fácil de se achar na FC.

CNN: Que autores o inspiraram quando era jovem, aqueles que você se espelhou?

Banks: Imagino que os suspeitos de sempre, pois quando eu era jovem, caras como Heinlein e Asimov, mais provavelmente Arthur Clarke e Brian Aldiss um pouco mais. Ainda acho que Aldiss era para mim a maior influencia como escritor. Tinha um cara chamado Mike Harison, M John Harrison, que eu admirava muito, ele ainda está por ai, escrevendo coisas incríveis. Mas não há nenhuma grande surpresa, são as pessoas que se esperam. Sou péssimo com nomes. Dan Simmons, gostava dele, ele está muito bem hoje.

CNN: Uma coisa que nos chama atenção em seus livros é sobre a sua forma de escrever sobre tecnologia, é tão convincente. De onde tira suas idéias?

Banks: Acho que a maior parte são desejos realizados, para ser honesto. Algo que é ótimo em FC, especialmente o tipo que eu escrevo, é que não se trata de um futuro próximo, não é necessariamente plausível, é apenas imaginar ‘Não seria legal se fosse assim?’ . Não estou denegrindo, apenas não dá pra confundir com a realidade, sendo assim, está tudo bem.
Acho que é assim ‘Não seria legal se a responsabilidade moral fosse tirada de nós por máquinas incrivelmente inteligentes e espertas e estivéssemos livres para seguir como seres humanos dentro de uma estrutura moral benigna, e não seria bom se fossemos mais inteligentes?’ Esta é minha teoria particular, de qualquer modo.

CNN: Você gostaria de viver lá?

Banks: Com certeza, sim, oh, é o meu paraíso...sim, eu gostaria, absolutamente. Novamente, tem a ver com realização de um desejo. Nunca fiz um estudo, nunca tive uma resposta do que seria para a humanidade, o que seria a utopia pessoal de cada um. Esta é a minha. Eu penso nela, consigo me imaginar dentro dela - é absolutamente maravilhosa!

CNN: E como é ser um humanóide nesta cultura ?

Banks: Muito bom, com glândulas de drogas e orgasmos enormes e longos. Você pode trocar de sexo quando desejar, tem total controle sobre a dor, nem tem calos. Esta não é uma das minhas, mas de Ken MacLeod, meu camarada e também escritor de FC - ‘Um bom aperfeiçoamento no corpo humano, eu acho, seria não ter calos.’ então eu aproveitei...

CNN: Nesta sociedade sem necessidade de se abastecer, onde ninguém precisa fazer coisa alguma, você está removendo muito da batalha do dia-a-dia. Não estaria removendo também um ponto central de se viver?

Banks: Penso que muito desta batalha será algo sem sentido e apenas chata. A batalha por existir para a maioria das pessoas na maioria do tempo, especialmente em uma sociedade pós-agrícola e industrial, é um pouco desgastante. As pessoas precisam trabalhar e dedicam longas horas para ganhar pouco dinheiro. Se não for assim, você não consegue nada. A vida não tem lá tanta graça, francamente, então eu ficaria bem feliz de escapar desta batalha.

CNN: Quais os efeitos dos pousos na lua tiveram em você enquanto crescia?

Banks: Oh, a coisa toda teve um efeito enorme. Nasci em 54 e quando aconteceu, em 69, eu estava na idade certa para apreciar aquilo tudo. Já tinha idade suficiente para lembrar de JFK, em seu primeiro pronunciamento sobre como chegaríamos à lua, a coisa toda era bastante excitante. Eu adorava o SATURN 5 (o foguete lançador) e toda aquela tecnologia.
Foi triste a forma como a NASA lidou com a coisa toda até transformá-la em algo chato, as pessoas perderam o interesse e precisou que a Apollo 13 quase chegasse ao desastre para trazer novamente a atenção delas.
Todas estas advertências sobre como devíamos ter feito as coisas, antes de mandar pessoas para qualquer parte, mas ainda acho que valeu a pena. Voltar à lua deve ser o primeiro passo, depois Marte e então veremos.

CNN:Acha realmente que o futuro da humanidade está entre as estrelas?

Banks: Bem, é lá ou então em parte alguma. Acho uma insanidade ter a capacidade de sair do planeta e não usá-la. Ainda não temos nenhuma defesa real contra meteoros e cometas ou qualquer ameaça que venha a atingir o planeta. Você tem todos os ovos em uma cesta, somos sete bilhões em um só lugar, e somos potencialmente vulneráveis, algo grande pode vir e nos arrancar da face do planeta. Não parece loucura, parece? Sou de uma geração que não tinha comida industrializada, nem jatos e eletricidade à vontade e todas estas coisas nos eram prometidas - onde estão nossas cidades flutuantes, e naves espaciais e bases lunares e marcianas e por ai vai - mas sou um otimista, ainda acho que chegaremos lá.
Mas estamos tornando a vida mais difícil para nós neste momento, com toda esta coisa do aquecimento global e toda a bobagem associada. Veremos, acho que continuaremos errando. Seria ótimo se pudéssemos gastar um pouco menos com os militares e mais com a exploração espacial: dirigir fundos para algo que valesse a pena ao invés de desenvolver novas maneiras de nos matar.

CNN: Um dos aspectos mais atraentes desta sua sociedade é que não há necessidade de gerar matéria prima, ninguém tem fome, todos tem roupas. Acha que é da natureza humana construir uma sociedade assim?

Banks: Indiscutivelmente não. É por isso que não somos nós. Eu pensei muito nisso antes de publicar os livros e decidi que não seria nosso futuro, mas seriam humanóides, poderiam se passar por nós, por que não estou bem certo o que somos. É algo bem pessimista de dizer, que somos ligados à guerra e a destruição, e a tortura e o racismo, e o sexismo - todas estas coisas horríveis, esta xenofobia - devemos ter um gene xenófobo. Penso que deveríamos modificarmos-nos geneticamente, francamente - se pudéssemos identificar aquela pequena parte que causa tudo isso, nós poderíamos eliminá-la e assim sermos pessoas melhores.

CNN: Se existe um elemento desta sua sociedade (Culture) que você pudesse passar à humanidade, qual seria?

Banks: Oh caramba! Certamente não seria o envelhecimento lento e o potencial de nunca morrer, por que isso seria desastroso, pode estar certo que os ricos iriam querer ter isso apenas para eles, ninguém mais poderia ter acesso.
Talvez as glândulas de drogas. Não pela razão trivial que permitiria você ficar chapado sem ter que pagar por isso o tempo todo, mas se você tivesse realmente boas drogas que pudesse fabricar dentro de seu corpo, somente pensando nela, resolveria todos os problemas com as drogas: você teria um entorpecente melhor do que cannabis, muito mais excitante do que crack ou cocaína e muito mais prazerosa do que heroína.
Mas enquanto isso, sendo como somos, devemos passar nossas vidas intoxicados, caídos por ai, vendo a civilização deteriorar-se. Não é o que eu queria, francamente. Eu preferia não ter calos.

Entrevista concedida a Linnie Rawlinson da CNN durante o festival do livro de Lincoln.

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