domingo, 12 de outubro de 2008

Jornadas nas Estrelas - Episódios originais - Livro 4



Deixei Star Trek no final de sua segunda temporada para trabalhar como free-lancer de novo. Naquele ano, fiz roteiros para Big Valley, Lancer e Chaparral, assim como duas histórias e um roteiro para a terceira temporada de Star Trek. Nos anos que se seguiram estive muito ocupada como escritora e, inclusive, recebi uma indicação para um prêmio da Associação de Escritores. Star Trek agora vivia através das reprises em estações de tevê no interior do país. Por volta de 1971, as convenções de Star Trek tiveram início.

Star Trek passou a ser incluída nos programas das convenções de ficção científica em geral. Nessa época, contudo, convenções dedicadas apenas a Star Trek começaram a ser organizadas.

Acredito que elas não apenas prolongaram a vida das reprises do seriado, como também conquistaram novos fãs com a “Star Trek completa".

Se alguém tivesse visto apenas a série em reprise, certamente assistira apenas episódios editados. As estações locais costumavam editar uns cinco minutos de história para poder acomodar o grande número de mensagens comerciais. Geralmente era a apresentação do episódio que sofria a incisão, mas o editor de cada emissora podia muito bem cortar as passagens que achasse melhor. Portanto, o mesmo episódio exibido em, vamos dizer, São Francisco, Los Angeles e San Diego poderia ter sido cortado de três formas completamente diferentes. Os organizadores das convenções alugavam cópias diretamente da Paramount e as exibia na íntegra.

Os famosos "bloopers" (erros de gravação) também surgiram nessa época e tornaram-se uma grande atração das Convenções.

Fui convidada para algumas Convenções (os escritores eram muito apreciados pelos fãs de Star Trek, um fato que nós, escritores, adorávamos: podíamos contar histórias sobre a origem e o desenvolvimento dos roteiros, enquanto os atores contavam anedotas sobre a vida em estúdio).

Nessa época surgiu o Star Trek Welcommittee, uma organização nacional que fazia a coordenação e a troca de informações entre os fãs individuais e demais fãs-clube, mantendo-os a par das atividades das convenções. Fiz amizades com muitos desses fãs.

Um dos fãs que mais impressionava a qualquer pessoa ligada a Star Trek era o jovem George La Forge**. Portador de uma deficiência física de nascença, que o mantinha confinado a uma cadeira-de-rodas, George não perdia uma convenção de Star Trek. Numa delas, Gene Roddenberry chegou a formalmente promovê-lo a almirante da Frota. A mãe de George uma vez disse acreditar firmemente que o interesse do filho por Star Trek tinha dado a George força para viver mais anos do que talvez conseguisse. Star Trek podia orgulhar-se disso ou dos vários jovens que escreviam dizendo que o seriado (ou um episódio específico) os encorajara a seguir uma carreira produtiva, uma educação, ou então os incentivara a trocar um caminho destrutivo de vida para um mais positivo. Alguns deles chegaram a comentar a esperança proporcionada pelo seriado, que os tirara até mesmo de uma depressão suicida. Algumas vezes os episódios apenas os faziam pensar. Star Trek podia ter orgulho disso também.
** Gene Roddenberry posteriormente homenageou esse fã dando seu nome a um dos personagens da Nova Geração, o engenheiro-chefe Geordi LaForge. (N.T.)

As convenções naquele tempo eram grandes, reuniam milhares de pessoas. Algumas convenções doavam seus rendimentos para organizações beneficentes; outras apenas faziam dinheiro para seus promotores. Esse tipo de atração deve ter feito alguém pensar porque, na primavera de 1973, Gene Roddenberry e Lou Scheimer, presidente da Filmation, me convidaram para almoçar. Eles me disseram que a NBC estava interessada em fazer uma versão em desenho animado de Star Trek para sua programação de sábado de manhã. A Filmation faria a animação;

Gene seria o produtor executivo e eu fui convidada a me unir ao time. Assinei contrato como produtora associada e editora de histórias.

Gene estava determinado a fazer de Star Trek um desenho animado que não fosse apenas para crianças. Deveria ser fiel ao seriado original e deveria contar histórias adultas, independente do fato de que a audiência de sábado de manhã era constituída basicamente por crianças. Esperávamos atrair telespectadores mais velhos. Além disso, a animação permitia uma nova dimensão impossível aos filmes com atores de verdade. As histórias poderiam acontecer em ambientes hostis (debaixo d'água, por exemplo). Cenários mais variados e mais complexos poderiam ser criados e novos alienígenas poderiam surgir sem ter de esbarrar na dificuldade de máscaras, maquiagens ou zipers aparecendo.
Apenas nos desenhos animados poderíamos desenvolver tão bem os felinóides carnívoros de Larry Niven, os Kzin. A animação tornou possível a participação de tripulantes alienígenas regulares, como o navegador Arex, com seus três braços e três pernas, e a tenente M'Ress, outra felinóide.
Também permitia aos fãs verem pela primeira (e única) vez como um "ursinho de pelúcia vulcano", o sehlat, realmente se parecia. As vozes pertenciam aos atores da série, Bill Shatner, Leonard Nimoy, DeForest Kelley, George Takei, Jimmy Doohan, Nichelle Nichols e Majel Barret, com a participação especial ocasional de Mark Lenard, que interpretava Sarek.

Participei da Convenção de Ficção Científica Mundial em Toronto naquele final de semana que coincidia com o feriado do Trabalho levando, com muita ansiedade, uma pequena amostra do nosso trabalho. Não tínhamos concluído nenhum episódio ainda e tudo que podíamos exibir era uma breve (um minuto!) seqüência do novo seriado. Eu estava programada para a noite de sábado e durante todo o dia ouvi comentários nada favoráveis quanto à versão animada de Star Trek. Havia previsões terríveis e observações mordazes sobre os desenhos para crianças e o clima estava absolutamente frio quando pedi ao operador que projetasse meu pedaço de filme para um salão lotado de fãs.

Então foi pura magia. A música familiar tomou conta dos alto-falantes e a Enterprise cruzou a tela novamente contra o fundo escuro de estrelas. O título e o nome dos atores também invadiram a tela. Não importava que fosse animação. Não importava que, para os objetivos da animação, o brilho prateado da nave tivesse de ser um cinza escuro para proporcionar o "movimento" na animação. A fidelidade ao original já no primeiro minuto de desenho ganhou a confiança dos fãs. Quando a tela escureceu, a audiência aplaudiu em delírio.

Então começou a propaganda boca a boca. Star Trek - o verdadeiro Star Trek — estava de volta, mesmo que em desenho animado.

O fato de a Associação de Escritores estar em greve entre março e junho daquele ano nos ajudou em nossa insistência quanto a qualidade do material do desenho. Excelentes escritores que provavelmente não estariam disponíveis nesse período encontravam-se sem emprego e trabalhar para um desenho animado era um campo perfeitamente legal para eles, uma vez que isso não fazia parte do estatuto da Associação de Escritores. Por isso chamamos veteranos de Star Trek como Sam Peeples, David Gerrold, Margareth Armen, Stephen Kandel, Paul Schneider e David Harmon para fazer os roteiros da primeira temporada. Walter Koenig escreveu um roteiro para nós. E eu escrevi Yesteryar.
A NBC estava muito preocupada com Yesteryar. Afinal, lá estava eu falando em eutanásia de um animal de estimação em um desenho para as manhãs de sábado: "Não se preocupem!", disse Gene. "Confiem em Dorothy". O resultado da história é o que eu sinto em relação à morte com dignidade de animais sofrendo dores horrorosas ou ferimentos severos. Pelo que eu saiba, a NBC jamais recebeu qualquer carta de protesto a respeito do final do desenho.

Embora a série de desenhos tenha durado duas temporadas, eu trabalhei nela apenas na primeira. Devido à natureza da animação e a extraordinária quantidade de tempo e dinheiro dispensada a um episódio de meia hora, a primeira temporada teve apenas dezesseis histórias. A segunda foi originalmente exibida com apenas seis episódios inéditos misturados aos antigos. Esse curto seriado em desenho animado, assim como seu predecessor, teve sua vida revigorada através das reprises e, posteriormente, através do videocassete e videodisco.

Voltei a escrever para seriados de tevê, como São Francisco Urgente, O Homem de Seis Milhões de Dólares, Elo Perdido e Police Woman. Em 1976, fui editora de histórias da série Viagem Fantástica. Logo depois trabalhei para Logan's Run. Esses dois trabalhos foram conseqüência direta da reputação que adquiri com Star Trek. Roteiros para Os Waltons, Dallas e outras séries ocuparam meu tempo no final dos anos 70.

Durante esse tempo houve uma tentativa de produzir outra série Star Trek.
Não sei por que o projeto não foi avante, mas alguém da Paramount notou o enorme sucesso de Guerra nas Estrelas, em 1977, e lembrou que a empresa também era dona dos direitos de uma aventura de ficção científica. Todos nós sabemos até onde isso levou - especialmente agora que, enquanto estou escrevendo esse texto, um roteiro para um sexto filme de cinema está em preparação. Os filmes tornaram um sucesso tão popular quanto lucrativo e acredito que serviram de incentivo para o anúncio de uma nova série Star Trek, logo depois que a série clássica completou seus 20 anos de existência.

O novo conceito estabelecia uma nova tripulação, especialmente um novo capitão, e a expansão da visão de Star Trek para os anos 80 e 90. Os fãs mais leais odiaram a idéia desde o início. Pela primeira vez, a correspondência que começou a chegar era de protesto. Talvez eles tenham se sentido mais seguros quando souberam que Gene Roddenberry estaria encarregado da nova série, assim como outros nomes familiares à equipe, como Bob Justman, Bill Theiss, John Dwyer, Charles Washburn, David Gerrold e... D.C. Fontana.

Mas um capitão careca? Uma nave com mil tripulantes, inclusive famílias? Um adolescente considerado um gênio e sua mãe médica? Uma mulher como oficial de segurança? Um andróide? Um oficial klingon na ponte? Não me admira que os fãs tivessem lá suas dúvidas. Era algo tão diferente da Star Trek que eles apoiaram tão fielmente durante anos... Afinal de contas, os fãs tinham Star Trek como algo muito seu.

Todos nós envolvidos na evolução de A Nova Geração também tínhamos particularmente nossas dúvidas. A tarefa era difícil de ser feita uma vez, impossível de se fazer duas vezes. Mesmo assim a equipe, o elenco, e todos envolvidos com A Nova Geração estavam determinados a realizar o impossível.

Produzir uma série de tevê é um verdadeiro exercício de loucura. É muito divertido fazer, mas requer longas horas de trabalho exaustivo, inclusive noites e finais de semana. Demanda total dedicação da mente e de nossas energias. Pessoas de criação raramente são muito tensas e a produção de uma série pode significar relações personalidades em conflito. Todos querem que o projeto seja um sucesso, apenas não concordam nos caminhos trilhados para atingir esse sucesso. Quando chega o dia em que o seriado recém-nascido é apresentado à audiência, uma cosa é definitiva: ou cai em seus primeiros passos ou então continua engatinhando e em crescimento. A Nova Geração está agora em seu quarto ano de sucesso.

Deixei a produção da nova série depois dos treze primeiros episódios e agora estou concentrada em escrever roteiros para cinema. Estou muito orgulhosa do fato de ter contribuído para as três versões de Star Trek.
Também tenho orgulho do fato de que escrevi mais roteiros para Star Trek*** do que qualquer outra pessoa e a maioria deles foi bem recebido e é lembrado com carinho pelos fãs.

Aconteceu no outro dia: parei numa livraria para comprar um livro de referência. Quando entreguei meu cartão de crédito, o vendedor naturalmente conferiu o nome e, em seguida, o observou de forma mais atenta.
— É D.C. Fontana?
— Ah... sim
— Céus, eu amei seu trabalho em Star Trek...
Eu também, amigos, eu também.

(Fim da Introdução de DC Fontana) - Dezembro de 1990.

Jornada nas Estrelas - TOS - Livro 4 [ Download ]