domingo, 12 de outubro de 2008

Jornadas nas Estrelas - Episódios originais - Livro 3



A equipe de produção consistia de Gene Roddenberry como produtor/ escritor e John D. F. Black como editor de roteiro/escritor. Bob Justman virou produtor associado da série. Bill Theiss permaneceu responsável pelos figurinos e Matt Jeffries tornou-se o diretor de arte. Quase to dos os outros envolvidos eram novos na equipe.
Nessa época, já não trabalhava apenas para Gene como sua secretária de produção, mas sim continuava com minha carreira de escritora, que começara em 1960 com a venda de vários roteiros para uma série chamada The Tall Man. Outros roteiros seguiram-se (lentamente) até que, no início de 1966, eu tinha nove títulos com meu nome. Quando a produção da série teve início, Gene me perguntou se eu queria fazer um roteiro para ele.
Escolhi uma história que o Guia dos Escritores e Diretores da série intitulava "O Estranho Charlie".

A série já estava em produção quando alguém (acredito que Bob Justman) percebeu que os novos roteiros referiam-se ao capitão como James T. Kirk - e a lápide que Gary Mitchell fez para o capitão em Onde Nenhum Homem Jamais Esteve claramente mostrava James R. Kirk. Gene pensou a respeito e decidiu que, se perguntassem o por quê da discrepância, a resposta seria: "Gary Mitchell tinha poderes divinos, mas basicamente era um humano. Ele cometeu um erro".

Nunca arranjamos uma explicação plausível para o fato de a nave auxiliar não ter sido usada no roteiro de Richard Matheson, O Inimigo Interior . O enredo indicava que os membros da tripulação ficavam presos num planeta glacial devido a um defeito no teletransporte. A verdade é que a nave auxiliar ainda não havia sido construída. A companhia AMT finalmente entregou o modelo da nave já com um terço do primeiro ano da série em andamento, a tempo de ser usada no Primeiro Comando, roteiro de Oliver Crawford. Uma vez estabelecido que havia uma nave auxiliar a bordo da Enterprise, os fãs começaram a escrever apontando a discrepância. Finalmente tivemos de admitir nosso erro. Não tínhamos visto necessidade para uma nave auxiliar até que uma história surgiu exigindo sua utilização.

De fato, a Enterprise precisou cresceu com o desenvolvimento das histórias e novos cômodos e áreas foram criadas para essa necessidade. À medida que a temporada passava, novos corredores eram acrescidos; os tubos Jeffries e a sala de controle auxiliar surgiram. A enfermaria e a engenharia mudaram e foram expandidas. "Como isso podia acontecer durante uma missão de cinco anos no espaço?", alguém perguntaria.
"A Enterprise é colocada numa doca espacial num planeta da Federação para manutenção e reforma", nós respondíamos com a maior seriedade.
Um executivo da NBC uma vez disse: "O problema com o pessoal de Star Trek é que vocês acreditam mesmo que aquela maldita nave está lá em cima".
Bob Justman o encarou fixamente e se saiu com um:
— "E está".

Em setembro, John D. F. Black, que estava atuando como editor de roteiro, recebeu uma oferta para escrever um filme e optou por deixar Star Trek. Ele foi substituído por Steven Carabatsos. Ao mesmo tempo, Gene L. Coon juntou-se à série como produtor, e Gene Roddenberry assumiu o título de produtor executivo. Eu deixei minha função de secretária de produção para escrever como free-Iancer e completar meu segundo roteiro, Amanhã é Ontem.

No início de novembro, Gene já sabia que não renovaria o contrato de Carabatsos por mais treze semanas. Entregou-me um roteiro intitulado O Caminho dos Esporos, que, segundo ele, não estava funcionando direito. Se eu pudesse reescrevê-lo de forma que agradasse a ele, à Desilu e à NBC, eu seria contratada como editora de roteiro. Comecei a reescrever a história, e reformulei todo o enredo. Em princípio, a história envolvia o encontro de Sulu com um antigo amor, Leila Kalomi, o exótico nome da personagem de Jill Ireland. Depois de pensar a respeito, disse para Gene Roddenberry: "Isso deveria ser uma história de amor... para o sr. Spock".
Gene concordou e me disse para escrever dessa forma. O resultado foi Deste Lado do Paraíso, que acabou agradando a Gene, à Desilu e à NBC, de forma que comecei a trabalhar com a equipe de escritores. Em meados de dezembro de 1966, fui contratada como editora de histórias de Star Trek.

Os dezoito meses seguintes foram os mais deliciosos que já vivi.
Trabalhando nos roteiros em associação com Roddenberry e Coon era estimulante e desafiador. Todos os atores eram maravilhosos e queriam ajudar a desenvolver seus personagens. Interpretando a mesma pessoa semana após semana numa série pode tornar-se algo muito aborrecido para os atores e a audiência se o personagem for o mesmo todas as semanas.
O segredo de manter o interesse das pessoas é como descascar lentamente uma cebola.
Cada vez que uma camada é retirada, algo novo é revelado sobre o personagem.
É como dividir um presente surpresa com a audiência — algo fresco e especial.
Os atores davam a seus personagens um pensamento real e isso servia de trampolim para que novas histórias fossem desenvolvidas. Às vezes era apenas uma situação (como o duelo verbal de Spock e McCoy) ou um gesto (como o Famoso Toque Neural de Spock, mencionado nos roteiros como "FTNS"), mas tudo isso coloria e dava um sabor especial aos roteiros e personagens.

A equipe era talentosa e engenhosa em poupar tempo (e, portanto, dinheiro) e em colocar as melhores imagens possíveis na tela. Todos estavam orgulhosos com o fato de que nenhuma equipe era tão rápida em movimentar-se de um cenário para o outro e deixar tudo pronto para o início da filmagem. Mesmo os carpinteiros, os pintores e todos que criavam os cenários tinham orgulho por estarem trabalhando em Star Trek. Acima de tudo, eles eram a única equipe em Hollywood a construir toda semana um planeta diferente no Estúdio 10.

E, é claro, todos experimentávamos um certo prazer em ver como Bill Theiss iria se sair com suas novas criações. Havia vezes em que seus trajes faziam Jean Messerschmidt, o censor da NBC, subir pelas paredes. A "Teoria Theiss de Estimulação" consistia em pegar uma parte não muito sensual do corpo (como as costas ou as coxas) e exibi-la escancaradamente. Acrescentava-se a isso a promessa de que uma parte do traje poderia cair a qualquer momento e revelar tudo. Aqueles que acreditavam na promessa morriam de frustração.
Os vestidos nunca falhavam... e as atrizes praticamente tinham de ser coladas a eles!

Apesar dos índices de audiência do seriado não serem os mais altos, nós nos sentíamos recompensados pessoalmente pelo fato de que os fãs aos milhares estavam escrevendo todas as semanas e nos dizendo que amavam Star Trek. As cartas começaram a chegar depois que o primeiro episódio foi exibido. No princípio, era pilhas de cartas, depois uma sacola e, então, montes de sacas cheias de correspondência. Embora algumas das cartas mais curiosas e interessantes merecessem uma resposta pessoal da equipe, á maioria era respondida por um serviço de correspondência. Curiosamente, pela primeira vez que se tinha conhecimento, os escritores do seriado estavam recebendo cartas de fãs. Isso indicava o nível de inteligência dos telespectadores. Eles tomavam o cuidado de ler os créditos e sabiam que eram os escritores que faziam os roteiros e que os atores não apenas "falavam e faziam as coisas acontecerem". Mas a NBC não ficou impressionada com isso. E, no fim da primeira temporada, decidiu cancelar o seriado.

Os fãs, contudo, tinham outras idéias. Eles simplesmente não aceitaram o fato de que a NBC planejava cancelar Star Trek.
Uma campanha de cartas teve início, uma campanha que acabou se tornando uma verdadeira enxurrada de cartas de protesto. Uma vez que as emissoras tradicionalmente acreditavam que cada carta recebida expressava a opinião de cem outros telespectadores que não tinham tempo para escrever, o número de cartas recebidas os convenceu de que Star Trek tinha audiência suficiente para merecer uma segunda temporada.
E quando o seriado mais uma vez estava sob ameaça no fim da segunda temporada, a correspondência começou novamente. Eles mantiveram a série.
E, ao mesmo tempo, decidiram acabar com ela.

A maioria das pessoas sabe o que aconteceu com a terceira temporada.
O seriado foi colocado num horário péssimo, que naquela época representava morte certa, especialmente para uma série com o tipo de audiência que Star Trek possuía: sexta-feira, às 22 horas. O público leal a Star Trek não era apenas um grupo de fãs de ficção científica ou crianças, mas geralmente consistia de estudantes de segundo grau e universidade, jovens casais, homens de negócios e outros profissionais liberais. Infelizmente, eles não possuíam o aparelho medidor de audiência em seus aparelhos de tevê (Vários anos depois de Star Trek sair do ar, uma análise da audiência demonstrou que era esse exatamente o tipo de audiência que a NBC mais queria conquistar).

Gene Roddenberry, que voltara à série como produtor ativo, decidiu novamente afastar-se das funções, inclusive da produção executiva. A série tornou-se menos filosófica e começou a seguir a fórmula "um monstro por semana". Os índices caíram muito abaixo do nível e do ponto que qualquer campanha de cartas pudesse lazer alguma coisa e Star Trek foi retirada da programação em 1969.

Fiz muitos amigos em Star Trek.
Escrevi oito roteiros e duas histórias e iniciei com êxito minha primeira experiência como editora de história. O seriado era bastante reconhecido dentro da indústria e, portanto, seus créditos eram uma espécie de passaporte para novos empregos.

Mas era triste ver uma série tão querida morrer por um caso terminal de negligência executiva.
(continuação da Introdução de D.C.Fontana)

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