quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Um processador de textos acionado por vapor - Arthur C. Clarke - Parte 2/2

[Parte 1]

A princípio acreditava que simplesmente aumentando a potência disponível poderia lhe dar uma
aceleração à máquina. A versão definitiva absorvia toda a energia de uma enorme debulhadora, tosco antecedente de nossos tratores e colheitadeiras.

Este é um bom momento para resumir o pouco que se sabe a respeito da mecânica do tear de
palavras.

Para isso, temos que confiar na informação, algo tendenciosa, aparecida no Totterings
Bulletin, do qual só se conservam alguns exemplares do período compreendido entre 1860 e 1880, anos cruciais para nosso estudo; e das notas esporádicas e fragmentos da correspondência ainda existente do reverendo.

Ironicamente, em 1942 ainda se conservava uma boa quantidade de peças da máquina definitiva,
mas foram destruídas quando uma bomba incendiária da Luftwaffe reduziu a cinzas a ancestral
mansão Tottering Towers.

A «memória» da máquina se apoiava nos cartões perfurados de um tear Jacquard para tapeçarias, coisa nada estranha, pois não existia outra alternativa possível naquela época.

Ao que Cabbage gostava de dizer que teceria pensamentos, igual aquele tear tecia tapeçarias.

Cada linha de saída constava de vinte, e posteriormente trinta, caracteres que o operador via
através de uns guichês, e que foram colocados sobre umas rodas giratórias.
Os princípios que regiam o SOT(Sistema operacional por Cartões) da máquina não chegaram até nós e parece, o qual não é nada surpreendente, que o maior problema ao que se enfrentava Cabbage era o de colocar, retirar e pôr os diferentes cartões.

Terminado o texto em questão, era fundido em tipos de chumbo para sua posterior impressão. Este surpreendente clérigo construiu um linotipo rudimentar, pelo menos dez anos antes de que o patenteasse Mergenthaler em 1886.

Antes de que a máquina estivesse pronta para ser utilizada, Cabbage se encontrou com a enorme
tarefa de perfurar nos cartões, além da Bíblia inteira, todo o Concílio do Cruden, mas
encarregou deste trabalho, em troca de uns trocados irrisórios, às velhinhas do Lar de Descanso
para Vizinhos de Idade Avançada, hoje discoteca e clube de breakdance, do Far Tottering.
Outra desconcertante primícia que se antecipa em uns doze anos à famosa mecanização do Censo
dos Estados Unidos, idealizada pelo Hollerith em 1890.

Mas nesse mesmo momento chegou a ruína.
Tendo ouvido, e não pela primeira vez, estranhos rumores sobre a paróquia do Far Tottering,
nada menos que o arcebispo do Canterbury em pessoa visitou o já obcecado pastor. Compreende-se que ficasse atônito ao descobrir que o órgão da igreja, tinha ficado incapacitado para desenvolver sua função original, ao menos por uns cinco anos.

O arcebispo, indignado, lançou um ultimato: ou desaparecia o tear de palavras ou partia o reverendo Cabbage (melhor que se fossem os dois; falava-se já de exorcismo e de voltar a consagrar a igreja).

O dilema provocou uma crise no já desequilibrado clérigo, que tentou uma última prova com a
enorme e incontrolável máquina, que já ocupava todo o lado oeste do St. Simians.

Face aos protestos dos fazendeiros, pois era a época da colheita, a imensa máquina de vapor, com
suas peças de cobre reluzentes, foi rebocada até a igreja e uma vez ali, passaram a correia de
transmissão através do oco que havia surgido ao se retirar algumas das vidraças.

O reverendo tomou assento ante o irreconhecível console (não posso resistir à idéia de imaginá-lo
ativando o sistema a golpe de pedal) e começou a teclar.
As rodas com os caracteres começaram a dar voltas ante seus olhos, formando frases lentamente, linha a linha. Na sacristia, os crisóis com o chumbo fundido aguardavam as ordens que lhes chegariam trabalhosamente com cada jorro de ar procedente do órgão.

— Mais rápido, mais rápido! — gritava o pastor, impaciente, enquanto os operários arrojavam
pazadas de carvão naquele monstro que vomitava fumaça no pátio da igreja.

A correia, como uma larguíssima cobra apanhada na janela, retorcia-se sobrecarregada, acima e
abaixo, bombeando um cavalo de vapor atrás de outro, para o forçado mecanismo do tear.
O resultado era previsível.
Algo, em alguma parte das entranhas do imenso aparelho, rompeu-se.
Em um segundo, a máquina desgraçada se fez em pedaços.

Segundo testemunhas presenciais, o pastor teve sorte de escapar ileso.
O posterior desenlace foi tão rápido como inesperado.
O reverendo Cabbage abandonou a Igreja, a sua mulher e seus treze filhos e fugiu a Austrália com seu primeiro ajudante, o ferreiro do povo.

O nome do Charles Cabbage foi banido da sociedade elegante e se desconhece qual foi seu destino
final, embora chegaram algumas notícias segundo as quais se feito capelão do Botany Bay.

E também é certamente apócrifa a lenda que corre sobre sua morte no deserto australiano,
provocada por uma máquina tosquiadora, de sua invenção, que se revoltou contra ele.

Epílogo

A seção de livros estranhos do Museu Britânico possui o único exemplar conhecido dos "Sermões a Vapor", do reverendo Cabbage, que, conforme vem tradicionalmente alegando sua família, foram elaborados pelo tear de palavras.
Contudo, um estudo em profundidade basta para ver que não é assim.
À exceção das últimas páginas, 223-4, resulta evidente que o volume se imprimiu em uma imprensa plana.

Mas as páginas 223 e 224 são uma interpolação bastante clara.
A impressão é muito desigual e o texto está repleto de faltas de ortografia e enganos tipográficos. Trata-se, acaso, do único produto existente do mais notável e pior desenvolvido esforço tecnológico da era vitoriana.
Ou é uma fraude deliberadamente criada para nos fazer acreditar que o tear de palavras funcionou de verdade, uma vez pelo menos, embora o fizesse mal?

Nunca saberemos a verdade.
Mas, como inglês que sou, sinto-me orgulhoso de que um dos inventos mais importantes de nossa época fora idealizado pela primeira vez, nas Ilhas Britânicas.
Se tivesse tido um desenlace mais feliz, Charles Cabbage provavelmente seria agora tão famoso como James Watt, George Stevenson, ou Isambard Kingdom Brunel.


FIM


Título original: 'The Steam-Powered Word Processor' (1985)
Tradução parcial: Santiago Jordão.
Prêmios Nebula 1985 - Ed. Bruguera, 1987