quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Um processador de textos acionado por vapor - Arthur C. Clarke - Parte 1/2


Prólogo

É escasso o material existente em torno da notável carreira, do hoje quase esquecido gênio da engenharia, reverendo Charles Cabbage (1815-188?), que foi pastor da paróquia do St. Simians, no povoado Far Tottering, Sussex.

Entretanto, depois de muitos anos de busca exaustiva, tenho descoberto alguns dados novos que, no meu entender, deveriam ficar em conhecimento de um público mais amplo.

Queria expressar minha gratidão a miss Drusilla Wollstonecraft Cabbage e às boas senhoras da Sociedade Histórica do Far Tottering, cujos prementes desejos de desvincular-se de muitas de minhas conclusões, eu respeito e compreendo.

Já em 1715, The Spectator faz menção da família Cabbage (ou Cubage) como ramo menor dos Coverley (gente sinistra, infelizmente, embora o próprio sir Roger fique à margem).
Conseguiram rapidamente uma enorme fortuna, como outros muitos membros da aristocracia britânica, graças a seus investimentos no negócio dos escravos.
Por volta de 1800, os Cabbage eram a família mais opulenta do Sussex e da Inglaterra, conforme diziam alguns, mas, dado que Charles era o menor de onze irmãos, não teve outra alternativa a não ser entrar para Igreja, sem muitas esperanças de herdar algo da fortuna dos Cabbage.

Não obstante, antes de cumprir os trinta anos, o titular da paróquia do Far Tottering experimentou uma importante mudança de fortuna, devido ao prematuro falecimento de cada um de seus dez irmãos, em uma série de trágicos acidentes. Este ponto de sua vida, que os comentaristas contemporâneos gostam de chamar de "a maldição dos Cabbage", guardava uma relação muito estreita com a magnífica coleção de armas medievais, venenos orientais e répteis mortíferos do pastor.

Logicamente, estes desventurados acidentes deram pé a numerosos comentários maliciosos e poderiam ser a razão de que o reverendo Cabbage optasse por conservar-se no amparo de suas Ordens Sagradas, ao menos até sua brusca partida de Inglaterra.

Também caberia perguntar pela razão que moveu a um homem de tão grande riqueza, e tão escassas obrigações públicas, a dedicar a maior parte de seus anos férteis, à construção de uma máquina de incrível complexidade, cuja finalidade e manejo só ele compreendia.

Felizmente, o recente achado da correspondência Faraday-Cabbage nos arquivos da Royal Institution lança nova luz sobre esse ponto. Lendo entre linhas, pode-se deduzir que o reverendo odiava a tarefa de redigir as duas horas de sermão semanal, jogando sempre com os mesmos temas fundamentais, cento e quatro vezes ao ano.
(O reverendo dirigia, além disso, a paróquia do Tottering-in-the-Marsh.)

Em um momento de inspiração, por volta de 1851, provavelmente depois de visitar a Exposição Universal, aquela maravilhosa mostra do saber vitoriano, Cabbage concebeu a idéia de uma máquina que organizasse automaticamente massas de textos diferentes, em qualquer ordem que se desejasse. Desta forma poderia compor qualquer número de sermões a partir do mesmo material básico.

O projeto, muito tosco em seu começo, foi adquirindo com o tempo uma grande sofisticação. Embora, como veremos, não chegasse nunca a terminar a versão definitiva de seu "Tear de palavras", planejou com todo detalhe uma máquina que não só funcionasse com parágrafos por separado, mas também com frases independentes.
(Não passou nunca para a fase seguinte: a de palavras e letras, embora faça referência à possibilidade de levá-la adiante em sua correspondência com Faraday, considerando-a seu objetivo último.)

Uma vez terminado o projeto do tear de palavras, o criativo clérigo iniciou sua construção.
Sua habilidade mecânica nada habitual, mas bem deplorável segundo alguns, tinha ficado bem patente nas engenhosas armadilhas como as que protegiam seus imóveis, e que eliminaram ao menos, a outros dois pretendentes da herança familiar.

Chegado a este ponto, o reverendo Cabbage cometeu um engano que pode ter mudado o curso da tecnologia, se não da história.

Agora, graças à perspectiva que nos oferece o tempo, resulta-nos óbvio que seu problema só podia ser resolvido pela eletricidade.
Fazia já vários anos que se vinha utilizando o telégrafo do Wheatstone, e Cabbage mantinha correspondência precisamente com o gênio que tinha descoberto as leis fundamentais do eletromagnetismo.

Que estranho nos parece agora que não visse a resposta, quando a tinha ante seu próprio nariz!

Entretanto, devemos recordar que o bom Faraday entrava nesse momento na década de senilidade, que precedeu a sua morte em 1867. Muitas das cartas que sobreviveram até nossos dias giram em torno de seu extravagante credo, a já extinta religião «sandemanista», que era algo que tirava Cabbage do sério.

Do mesmo modo, o pastor mantinha contato diário, ou pelo menos semanal, com uma tecnologia bastante desenvolvida e aperfeiçoada ao longo de mais de mil anos.
A igreja do Far Tottering gozava entre seus pertences, de um magnífico órgão construído pelo mesmo Henry Willis, que em 1875, fabricou sua obra máxima, que se encontra no Palácio Alexandra, ao norte de Londres, e que Marcel Dupre elogiou como o melhor órgão de concertos do mundo.

Cabbage não o tocava mal de todo, e conhecia com perfeição seu intrincado mecanismo.
Estava convencido de que, unindo uma série de tubos pneumáticos, válvulas e bombas, poderia controlar todas as operações de seu futuro tear de palavras.
Foi um engano fatal, embora compreensível.

Cabbage havia passado por cima do fato de que a lenta velocidade do som, uns insignificantes trezentos e trinta metros por segundo, reduziria a velocidade operativa da máquina a um nível de rendimento virtualmente nulo. No máximo, a versão definitiva poderia ter alcançado assim um índice de transmissão de dados de 0,1 por dia, com o que a elaboração de um só sermão, iria requerer nada menos que dez semanas.

Passaram vários anos antes que o reverendo Cabbage se desse conta desta limitação fundamental.

[ Parte 2]