sábado, 3 de janeiro de 2009

A AMBIÇÃO DE UM HOMEM - Bertrand Chandler


A sala estava silenciosa, a não ser pela música suave, vinda do rádio ligado.
A sala estava silenciosa, o silêncio que só é possível quando se tem duas pessoas juntas.
Contudo não se tratava da calma afetiva de amantes, mas a serenidade da decepção que tinha como fundo a música, que apagava o passar do tempo; o ruído de uma vagarosa disputa.
Estavam lendo - ela sentada em sua poltrona de braços, ele na dele. Ele colocou o livro aberto sobre o colo, para encher seu cachimbo. Ela tossiu, quando a fumaça a alcançou.
'Você precisa, fumar esta coisa?' Ela pergunta.
'Eu gosto.' Ele responde.
'Outros homens fumam tabaco.' Ela completa.
'Eu fumo o que posso pagar.'
'Barato! Ela queixou-se. 'Barato, barato! Desde que fui tola o bastante para me casar com você, tem sido assim, tudo tem que ser barato! Um apartamento barato numa cidade barata. Comida barata. Bebidas baratas. Roupas baratas. Um carro barato ...'
'Nós vivemos na medida das nossas posses. '
'Se fosse apenas uma questão de coisas materiais eu não me importaria tanto, mas você é uma pessoa barata. Seu gosto para filmes é barato, seu gosto para música. E seu gosto para livros... '
'Não é barato... ' ele disse de súbito.
'Ah, não? Barato e adolescente, eu diria. Deixe-me ver. '
Levantou de sua poltrona, agarrou o livro dele, leu em tom de escárnio:
'Foguetes do Amanhã. Vai me dizer que isso não é coisa barata?'
'Não é. É uma boa antologia. '
'Escapismo barato. '
'Não é escapismo. Quantas vezes tenho que dizer a você, que a boa ficção científica não é escapismo – não posso dizer o mesmo sobre os romances históricos que você lê.'
'Não é escapismo? Foguetes na lua, homens verdes de Marte, discos voadores... '
'É a boa Ficção Científica. Ela lida com problemas que homens e mulheres precisarão encarar algum dia. Talvez em breve, quem sabe.'
'Certo.' Ela disse. 'Vou deixar você continuar tentando me convencer. Você parece estar na metade de uma história chamada "Julgamento de Eva". Do que se trata?'
'Você deveria ler'. Ele disse. 'É muito boa.'
'Ler este lixo! Me diga do que se trata, é tudo que eu quero saber.'
'Tudo bem. O autor assume que o sol está perto de se tornar uma Nova, o que significa é claro, que a Terra e todos seus habitantes serão incinerados. O povo já foi avisado sobre o que está prestes a ocorrer. A história trata de como homens e mulheres passam suas últimas horas de vida'.
'Ah, isso é muito útil. Suponho que depois de ler, você estará bem preparado para uma emergência deste tipo. Agora me diga, o que você faria se soubesse que o mundo acabaria amanhã?'
Ele encheu novamente o cachimbo. Sobre a pequena chama, mirou sua esposa.
'Deixe-me voltar ao meu livro'. Pediu.
'Ah não, não até que responda a minha pergunta. O que você faria?'
'Depende...'
'Depende do que? Uma resposta tipicamente evasiva. Depende, eu suponho, se você tem ou não tem habilidade e conhecimento para construir uma nave espacial para escapar para Marte ou Júpiter ou para onde quer que as pessoas estão fugindo, nesta sua história estúpida. E você ainda tem a coragem de dizer que não é escapista? Vamos, me responda!'
'Com tempo, uma nave poderia ser construída. '
'Mas não por você. '
'Não. '
'Então, o que você faria?'
'Me deixe em paz. ' Resmungou.
'Por que eu deveria? Você sempre diz que não conversamos mais e agora que eu me desvio dos meus interesses, para dar atenção aos seus interesses juvenis, você não quer conversar?'
'É impossível falar com você, logo você insiste em tornar a coisa toda pessoal, maldição!' Se não podemos conversar sobre algo de maneira objetiva, nós não podemos discutir coisa alguma!'
'Por que não?'
'Por que você leva tudo para o lado pessoal. A próxima coisa que você irá me dizer é que você conheceu no passado, pelos menos três homens maravilhosos que poderiam construir uma nave espacial com dois tambores de óleo e um aquecedor a querosene, e que te levariam para o cinturão de asteróides fácil.'
'Talvez eles pudessem mesmo. Mas você não respondeu a minha pergunta. O que você faria?'
'Eu não sei. ' Disse se levantando da cadeira.
'Aonde você vai?'
'Pegar uma cerveja na cozinha. Se importa? '
'Você poderia perguntar se eu quero uma também. '
'Quer?'
'Não. '
Foi até a cozinha. Pegou um copo da prateleira do armário. Abriu a geladeira e tirou uma garrafa de cerveja. Tinha o abridor à mão quando foi interrompido por alguns estalos baixos no rádio.
'Dê um jeito nesta estação. ' Disse a esposa. 'Parece que tem algo errado. '
'Espere um pouco. ' Ele respondeu.
Então, ao invés da música, ouviu uma voz assustada, falando afobada, a transmissão desaparecia e voltava segundos depois.
'Chamado de emergência... mísseis intercontinentais...hidrogênio...Nova Iorque foi... Londres... Washington destruída... Moscou... acredita-se que...cobalto...'
Você ouviu isso? Ela gritou. 'O que isso significa?'
Ele colocou a garrafa sobre a mesa e foi até o armário.
'Significa o fim do mundo. ' Abriu a gaveta de talheres.
'O que faremos?'
Ele caminhou de volta a sala de estar, carregando uma faca em sua mão.
'Voltando a sua pergunta, minha querida. Aqui está a sua resposta.'

FIM