sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O dia em que a Terra parou (Adeus ao Mestre - Harry Bates ) Parte 7/7


ADEUS AO MESTRE - HARRY BATES

Parte 7

Total silêncio e escuridão.
Cliff não se movia.
Sentiu que Gnut estava por perto, logo à frente e foi isso.
Sua mão metálica agarrou-o pela cintura, puxando-o contra seu corpo gelado e o levou consigo.
Luzes escondidas banhavam-nos com uma luz azulada.
Sentou Cliff e ficou observando-o.
O jovem já lamentava aquela sua atitude, mas o robô, exceto por seus olhos sempre assustadores, não parecia estar com raiva.
Apontou para um banco em um canto e Cliff rapidamente obedeceu e sentou-se quieto, sem sequer se atrever a olhar ao redor.
Estava em algum tipo de laboratório. Um aparato complexo de metal e plástico cobria as paredes e mesas, sem que ele reconhecesse sua utilidade.
Dominando o centro da sala havia uma longa mesa em cujo topo se via uma caixa larga, quase como aquela junto do caixão lá fora, mas conectada por fios com um aparelho mais distante.
Do alto descia um cone de luz brilhante projetada por vários tubos.
Uma coisa, meio coberta sobre uma mesa próxima, lhe pareceu familiar e bastante deslocada em relação ao resto. Pareceu-lhe, de onde estava, ser uma pasta comum. Ficou a pensar o que seria aquilo.
Gnut não lhe dava atenção. E, de uma vez só, com o topo de uma ferramenta fina, arrancou o topo da pequena caixa de registros. De dentro retirou o filme e por quase meia hora ajustou-o ao aparato no fim da mesa maior.
Cliff olhava tudo fascinado com a habilidade do robô em manusear tudo com aqueles dedos metálicos. Concluída esta tarefa, Gnut trabalhou por algum tempo em um aparato semelhante em outra mesa, então parou pensativo por um instante e puxou o que parecia ser uma alavanca.
Uma voz se ouviu como se vinda de dentro de uma caixa – a voz do embaixador morto.

‘Eu sou Klaatu e este é Gnut.’

Era a gravação! As primeiras e únicas palavras que o embaixador havia proferido.
Mas logo, no segundo seguinte, ele viu que não estava mais só. Havia um homem na mesa.
O homem sentou-se e Cliff viu o rosto lívido de Klaatu.

Klaatu pareceu surpreendido e falou algo rápido em uma língua desconhecida para Gnut, que pela primeira vez pelo que Cliff se lembrava, respondeu. As sílabas ditas por Gnut eram carregadas de emoção e a expressão em seu rosto mudou de surpresa para alegria.
Conversaram naquela língua por muitos minutos.
Klaatu, aparentemente fatigado, estava se deitando quando viu Cliff e parou no meio do caminho. Gnut falou de novo.
Klaatu então acenou para Cliff com uma das mãos e foi até ele.
‘Gnut me contou tudo’, disse com a voz gentil e então ficou olhando Cliff em silêncio, com um sorriso cansado no rosto.
Cliff tinha milhões de perguntas a fazer, mas mal se atrevia a abrir a boca.
‘Mas você’ começou a dizer, respeitoso mas ainda bastante excitado ‘não é o Klaatu que estava no túmulo?’
O sorriso desapareceu e ele balançou a cabeça.
‘Não’. Então virou-se para Gnut, disse algo em sua língua e suas palavras pareceram cheias de sofrimento. E voltou-se para Cliff e disse:
‘Eu estou morrendo.’ Novamente sua face mal segurava o fraco sorriso.
Cliff não sabia o que dizer.
Esperou desejando entender o que se passava. Klaatu parecia ter lido sua mente.
‘Percebo que não compreende. Apesar disso, diferente de nós, Gnut possui grandes poderes. Quando a ala foi construída e as apresentações começaram, isso serviu para ele como uma inspiração. Agindo apenas a noite, ele concebeu este aparato – e agora ele pode me fazer vivo de novo, a partir da minha voz gravada por seu povo. Como deve saber, um corpo possuiu uma voz característica. Ele construiu a maquina a partir do processo reverso de gravação, a partir do som ele fez o corpo característico.
Cliff engasgou. Então fora isso.
‘Mas você não precisa morrer. A sua voz foi gravada assim que saiu da nave, quando você estava bem! Tem que me deixar levá-lo para o hospital. Nossos médicos são talentosos!’
Klaatu balançou a cabeça negativamente.
‘Você ainda não entende. Sua gravação tem imperfeições. Talvez não tão grandes, mas acabam por arruinar o produto. Todos os experimentos de Gnut não viveram mais do que alguns minutos, ele me disse... e assim deve ser comigo também.’
Cliff de repente compreendeu a origem dos experimentos.
Lembrou-se de que no dia em que a ala foi aberta, um operador de som do Smithsonian perdera uma pasta contendo vários filmes com gravações de animais da fauna mundial. E ali estava a valise sobre a mesa. E os Stillwells foram feitos das gravações retiradas da mesa de controle de som.

Sentiu seu coração pesado. Não queria que o estranho morresse. Pouco a pouco uma idéia sensacional lhe ocorreu. Explicou com excitação crescente.
‘Você diz que a gravação tinha imperfeições, e é claro que sim. Mas a causa disso se deve ao uso de aparelhos imperfeitos para a gravação. Mas se Gnut puder reverter o processo, usando os mesmos pedaços do aparelho onde sua voz foi gravada, a imperfeição pode ser analisada, retirada e você viveria e não morreria.’
Assim que acabou de falar, Gnut começou a andar pelo lugar e então o abraçou. Uma reação verdadeiramente humana se via nos músculos de metal sua face.
‘Me traga o aparelho então’ disse ele em perfeito inglês e começou a empurrar Cliff para a porta, mas Klaatu ergueu sua mão e disse:
‘Não há pressa. É tarde demais para mim. Qual é seu nome meu jovem?’
Cliff respondeu.
‘Fique comigo até meu fim.’
Klaatu fechou os olhos e deitou-se, depois sorrindo um pouco, mas sem abrir os olhos, falou:
‘E não fique triste se eu não puder viver novamente... não é seu dever. Não sinto dor.’
Sua voz mais e mais ia enfraquecendo.
Cliff, apesar de tantas dúvidas, só conseguia olhar calado.
Klaatu parecia perdido em seus pensamentos.
‘Eu sei, eu sei. Você tem muitas perguntas para fazer. Sobre sua civilização, sobre Gnut...’
‘E sobre vocês.’
‘E sobre Gnut. Talvez... algum dia, talvez eu possa voltar.’
Ficou um longo tempo imóvel até Cliff entender que ele havia morrido. Lágrimas encheram seus olhos, levara apenas poucos minutos para aprender a amar aquele homem.
Olhou para Gnut. O robô sabia disso também, que ele estava morto, mas não havia lágrimas em seus olhos vermelhos e Cliff sabia agora o que ele pensava.
‘Gnut. Eu trarei o aparelho original. Eu o pegarei. Cada peça dele.’
Sem uma palavra, Gnut o conduziu até a porta. Fez os sons que a abririam e, uma vez aberta, o som de uma multidão de humanos entrou e uma onda de espanto correu pelo prédio.
As luzes estavam acesas e Cliff saiu descendo a rampa.
As duas horas seguintes sempre na memória de Cliff seriam como um sonho.
Como se aquele misterioso laboratório e seu homem pacífico e morto repousando nele fosse a parte central de sua vida, e aquela cena com aqueles homens barulhentos com quem falava fosse apenas um grosseiro e bárbaro interlúdio.
Não se afastou muito da rampa.

De onde estava contou apenas parte da história.
Eles acreditaram.
Aguardou quieto enquanto toda a pressão caía sobre os mais altos oficiais na terra que não mediam esforços para obter os aparelhos requisitados pelo robô.
Quando chegaram, Cliff o carregou para o chão junto da porta. Gnut estava lá, esperando, em seus braços trazia o corpo sem vida do segundo Klaatu.
Com gentileza, passou o corpo para Cliff, que o recebeu sem uma palavra, como se tudo tivesse sido combinado.
Pareceu para ele uma despedida.
De todas as coisas que Cliff queria dizer para Klaatu, uma permanecia imperativa em sua cabeça. Agora, com o robô à porta da grande nave verde, ele achou que era o momento apropriado.
‘Gnut, você precisa fazer uma coisa por mim. Ouça com atenção. Eu quero que diga ao seu mestre, aquele que ainda irá surgir – que o que aconteceu com o primeiro Klaatu foi um acidente e que todos na Terra nos sentimos terrivelmente mal por aquilo. Você o fará?’
‘Eu já sabia disso.’ Disse o robô gentilmente.
‘Mas me prometa dizer ao seu mestre estas palavras – assim que ele surgir?’
‘Você não compreende’ disse Gnut e ainda gentilmente disse apenas mais quatro palavras.
Ao ouvi-las Cliff sentiu-se atordoar e todo seu corpo estremeceu.
Assim que se recobrou e seus olhos se focaram, viu a grande nave desaparecer.
Tão subitamente quanto aparecera, já não estava mais lá.
Caiu. Em seus ouvidos, como sinos, as últimas palavras de Gnut ainda ressoavam.
Nunca as esqueceria até o dia de sua morte.
‘Você não compreende’ o poderoso robô havia dito. ‘Eu sou o mestre.’


FIM