domingo, 4 de janeiro de 2009

A Guerra e Matadouro Cinco



Com seu enorme bigodão e seu humor negro, Kurt Vonnegut era chamado de Mark Twain moderno.

De 1952 a 2005, Vonnegut escreveu dezenas de romances satíricos. A memória e a Segunda Grande Guerra Mundial, e seus efeitos sobre os indivíduos americanos e sobre seu pais, são os temas que prevalecem nos trabalhos de Vonnegut.

Kurt os encarou diretamente em sua obra prima, publicada em 1969, Matadouro Cinco, ou a Cruzada das Crianças.

Vários episódios dramáticos, como o suicídio de sua mãe no dia das mães, quando ainda jovem, e ter sobrevivido ao bombardeio aliado à cidade de Dresden, tiveram enorme impacto em seus trabalhos, principalmente em Matadouro Cinco.

Kurt Vonnegut era a quarta geração de uma família de descendentes de alemães.
Antes de se alistar para a Segunda Grande Guerra Mundial, formou-se em química e trabalhou como editor do jornal estudantil por dois anos, na faculdade de Cornell.

No Exército, serviu como tradutor de alemão na infantaria. Foi capturado durante a batalha de Bulge em 1944 e transportado para um campo de prisioneiros na cidade industrial de Dresden, na Alemanha.

Poucos dias após chegar em um campo de trabalhos forçados, Vonnegut sobreviveria e testemunharia o bombardeio a Dresden, que causou a morte de 135 mil civis alemães, quase o mesmo número obtido pelas duas bombas atômicas no Japão. Depois da Guerra, terminou a faculdade, obteve seu mestrado em antropologia na universidade de Chicago e trabalhou como repórter policial.

Em 1952, sua carreira de escritor começou, com a publicação de ‘Player piano’.



Matadouro Cinco é a historia de Billy Pilgrim. O protagonista é um fraco complacente.
Ele não tem medo de morrer, pois não tem paixão por viver.

Como um soldado americano na Segunda Grande Guerra, Billy tinha praticamente a mesma experiência de Vonnegut, - era um prisioneiro da Batalha de Bulge e tinha sobrevivido ao bombardeio de Dresden. Casara-se com uma mulher revoltante, pois o pai dela o faria rico.

Depois da queda de seu avião, Billy dizia ter sido raptado por Tralfamadorianos, seres extraterrestres que viajavam através do tempo e espaço.
Ele adotou uma atitude tralfamadoriana diante da morte – que era inevitável e previsível - e dizia uma frase, a cada vez que encontrava com a morte, incluindo a sua, algo como ‘coisas da vida’, fazendo a morte parecer rotineira.
Billy se tornara um prisioneiro dos extraterrestres, levado através do tempo.


Matadouro Cinco é tido como a obra prima de Vonnegut. Um marco da literatura pós-moderna.

Expondo a brutalidade da guerra e fazendo com que o bombardeio a Dresden ganhasse destaque, o romance transformou-se em uma ponderosa bandeira do sentimento pacifista.

Kurt fez do capítulo inicial do livro, um capitulo autobiográfico, escreveu sobre o começo da sua vida e dos eventos significantes que ocorriam durante o processo de escrever o livro, explicando os motivos de um veterano da segunda grande guerra ao escrevê-lo.

Seu impulso inicial fora de expor a atrocidade ocorrida em Dresden, e sobre esta experiência crucial escrevendo em seu próprio sistema, usando elementos de literatura, como repetição de frases e tempos. Em adição a isso, Vonnegut em pessoa, aparecia na história.
Desta forma, Vonnegut queria amplificar sua existência através da história contada.


A interação do personagem ficcional e do autor em pessoa, não somente mostra a intensa inter-relação dos períodos de tempo, como também demonstra certo tipo de paralelismo das vidas de Vonnegut e Billy Pilgrim.

Muitos críticos dizem que Matadouro Cinco seria uma semi-autobiografia de Kurt Vonnegut, mesmo se não existisse o primeiro capitulo.

‘Coisas da vida’ é a frase que mais freqüentemente assombra todo o livro.

A frase quase se tornou a marca registrada de Vonnegut. Ela se segue a cada morte da história, mesmo a morte de um simples homem, ou de uma multidão de civis, de uma bactéria ou mesmo de livros, e mesmo quando a morte é intencional, natural ou acidental.

‘Coisas da vida’, é a atitude que Billy Pilgrim adotou dos Tralfamadorianos.
Esta frase expressa sua particular atitude sedada diante da morte.

O autor utilize esta frase para transmitir sua opinião de como as atrocidades da guerra afetam as pessoas. A aparição rotineira de ‘coisas da vida’ não apenas ridiculariza a morte em seu livro, mas expõe o fato cruel de que na guerra a morte se torna algo banal. À medida que os leitores encontram mais e mais esta frase, mais e mais se tornam entorpecidos e distante da morte, assim como Billy Pilgrim.

O especialista Leslie Philips diz que ‘Billy parece querer que aceitemos a vida como ela é, e entender que a morte é inevitável, é algo que nós não devemos temer.’ Mas em vez disso, o objetivo de Vonnegut é instigar o medo nos leitores, levando-os a perceber o quão terrível é ser usado pela morte e através disso, desenvolver sua consciência sobre a devastação causada pela guerra.

Por exemplo, a descrição das velas e do sabão que os alemães fazem da gordura de seus inimigos mortos é assustadoramente suficiente para perturbar.

A mensagem nas entrelinhas e que Vonnegut tenta transmitir, não é somente contra as atrocidades de Dresden, mas contra todas as guerras.

Sem a amarga experiência prática de Vonnegut na segunda grande Guerra, não seria possível se gerar tão profundo sentimento sobre a vastidão da morte.



Poo-Tee-Weet?

'Poo-tee-weet' é outra misteriosa frase que aparece várias vezes no livro. É dita por pássaros.
No primeiro capitulo autobiográfico, Vonnegut escreve: ‘isto é tudo que se pode dizer do massacre, é algo como "poo-tee-weet?"’.

Ao final do livro, quando a guerra termina, Billy Pilgrim deixa a cocheira onde estava trancado e vê um pássaro falando com ele, dizendo ‘poo-tee-weet?’.
Não há significado literal, mas é de partir o coração. As ‘palavras’ do pássaro expressam a falta de palavras do autor diante da guerra sangrenta e das atrocidades humanas que testemunhou.

É de se notar que a frase é uma interrogação. Pode também ser interpretado como uma acusação do autor e uma indagação ao ato malévolo cometido pelos humanos uns contra os outros, perguntando ‘Por que isso aconteceu?’ .

De fato, este tipo de questionamento aparece por diversas vezes no livro – ‘Por que eu?’ – ‘Porque alguém?’. De outra forma, Vonnegut pode estar usando Billy Pilgrim como seu porta-voz através do livro. A frase ‘coisas da vida’ serve para Kurt Vonnegut, mostrando a relação indireta e interior entre Pilgrim e Vonnegut.

Escrever Matadouro Cinco, como Vees-Gulani aponta em seu estudo psiquiátrico sobre o livro, pode se tratar de um processo terapêutico para Kurt. Não é difícil imaginar o quanto a guerra e mais particularmente, a destruição de toda uma grande cidade como Dresden, devem tê-lo traumatizado.

A atrocidade que testemunhou teve significante impacto em seu físico e psicológico, assim como em sua fé. Vonnegut pensa em quão sem sentido a parte da sua memória de Dresden é para ele e ainda assim quanto incitante é Dresden, para lhe fazer escrever sobre ela. Podemos dizer que Vonnegut foi provavelmente evasivo quando trata de suas memórias do tempo da guerra, uma vez que ele observa que a maioria das experiências são imprestáveis.

Quando comparando Matadouro Cinco com Ardil 22 (Catch 22), outra obra fenomenal antibelicista, escrita por Joseph Heller, Alberto Cacicedo encontra nos dois autores, mais ou menos a mesma atitude de desdém diante da Guerra, como também sobre suas memórias traumáticas e que de alguma forma, fizeram seus livros ainda mais amargos.


Ao citar ao final do capitulo autobiográfico, a história bíblica da esposa de Lot (que se transforma numa estátua de sal), Vonnegut declara que as pessoas não devem olhar para trás.
Todavia, dando a chance de ele próprio de olhar para trás, Vonnegut na verdade realiza uma terapia efetiva de seu trauma de guerra. De fato, ele mesmo admitiu que seu romance tem um aspecto terapêutico, e que depois dele, ele era uma pessoa diferente, que ‘se livrou de um monte de porcarias’.

A despeito disso, Matadouro Cinco foi um dos livros mais perseguidos nos Estados Unidos.

Em alguns estados, ele faz parte do currículo do último ano escolar, enquanto que em outros, foi retirado das bibliotecas e do currículo de leituras.

Não termina ai, o livro já foi queimado, banido e contestado em inúmeros estados.
Várias razões são apontadas para a proibição do livro.
Linguagem repreensível, critica as ações do governo, manifesto contra a Guerra, antiamericanismo…etc.
Ironicamente o livro foi até alterado para servir à sua intenção inata, que era desencorajar adolescentes de lutar por seus países.

Em uma entrevista para Don Swaim, Vonnegut disse que não se importava com as pessoas que boicotavam seu livro por motivos pessoas, mas que as instituições públicas não tinham o direito de banir um livro que falava de algo real.

Respondendo as críticas de seu freqüente uso de profanações e redundâncias em seu livro, Kurt respondia com uma frase do mesmo livro:
‘Não há nada de inteligente que possa ser dito de um massacre.’
Ele tinha já declarado no começo de Matadouro Cinco, que seu livro era ‘curto, confuso e enervante’.

Kurt Vonnegut era um escritor profissional.
Ele poderia usar de palavras fáceis e fazer sua trama mais assimilável, a fim de agradar a mais pessoas. Mas não o fez. A experiência amarga da guerra determinou que Kurt Vonnegut deveria dizer sempre o que pensa sobre a guerra, e recusar-se a torná-la aceitável e bela, através de uma linguagem exuberante.

Binglong Yang – 17 de Maio de 2006