segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A Ficção Científica está morrendo?

A Ficção Científica está morrendo?
Marcus Chown - New Scientist - 12/11/08


Anos atrás, em uma das minhas matérias para a New Scientist, fui entrevistar o astrônomo americano Carl Sagan em Londres. Carl Sagan, conhecido por seus livros de ciência e a popular série Cosmos feita para televisão, e seu romance ‘Contact’ (Contato), que acabou virando um filme estrelado por Jodie Foster.

Ao encontrar o homem em pessoa, perguntei-lhe o que preferia - Ciência ou Ficção Científica?
‘Ciência’. Disse sem hesitar. ‘Por que a ciência é bem mais estranha do que a Ficção Científica’.

De lá pra cá, descobrimos que 73% da massa-energia do universo se encontra na forma de ‘energia negra’ (dark energy), responsável por acelerar a expansão cósmica, descobrimos micro-organismos vivendo na escuridão das profundezas debaixo da terra e mesmo dentro de reatores nucleares, e vemos o crescimento da teoria da super-corda, onde a matéria, como pequenas cordas, vibram na décima dimensão espacial.

Se a ciência é mais estranha do que a Ficção Científica (FC), como Sagan me disse décadas atrás, então hoje é ainda bem mais estranha.

Isso leva muitas pessoas a reinvidicarem que a ciência - e a tecnologia - estão mudando tão rapidamente que é difícil para a FC manter-se à frente dela.

No passado a FC falhou em predizer o transistor, que a cada ano com a miniaturização, permitiu existirem computadores que dominassem o mundo moderno. No futuro, seguindo este argumento, será ainda mais difícil para os escritores de FC predizer os desenvolvimentos tecnológicos que irão mudar as nossas vidas.

Ficção Científica (FC), dizem os profetas do apocalipse, está morta, ou se ainda não está morta, se encontra em estado terminal.

‘A discussão sobre se a ciência está tornando a FC obsoleta está ocorrendo nas convenções de FC desde que eu as freqüento.’ diz John Cramer, um escritor de FC e físico da Universidade de Washington em Seatle.
‘Me lembro de 15 anos atrás, um proeminente editor de livros de FC, dizer que o programa espacial fizera a FC baseada em viagens espaciais (ficção espacial) desnecessária. ’

Tais reclamações são reminiscentes das perenes alegações de que a ciência está morta ou morrendo, quando o proeminente físico Lord Kelvin em 1900, declarou ‘Não há nada de novo para ser descoberto na física hoje. Tudo que sobrou é medição mais e mais precisa’. Isso, é claro, foi bem antes de o átomo ser partido e de todos os cientistas serem apresentados ao quantum. No caso da FC, a premissa dos profetas do apocalipse é que o gênero trata de predizer o futuro.

Na verdade pouco se trata disso.

A pergunta ‘o que é Ficção Científica’ é costumeiramente objeto de acalorados debates.
De qualquer maneira, em um nível bastante básico, a ciência e a extrapolação dela provêem mundos alternativos nos quais a história ocorre.

Contadores de história têm invocado mundos diferentes desde os tempos antigos para entreter seus ouvintes, com lendas que os levavam para longe da realidade, dando significado aos eventos de sua existência cotidiana.

Também como instrumento para se contar uma história, a FC freqüentemente articula nossas preocupações e ansiedades atuais - paradoxicalmente, se trata do aqui e agora, mais do que o futuro.

Como Stephen Baxter aponta no romance de 1895, ‘The time machine’(A máquina do tempo) de HG Wells, famoso por popularizar a idéia da viagem no tempo, ela fala mais propriamente sobre o que a seleção natural de Darwin fez com a raça humana. Em 1968 o romance ‘Stand on Zanzibar’, de John Brunner já imaginava as conseqüências da superpopulação. ‘The Lion of Comarre’ de Arthur C.Clarke, explora realidades artificiais criadas por computadores, que levariam as pessoas a desprezar a realidade pouco interessante.

Todos estes livros tratam de imaginar onde os dias atuais, freqüentemente preocupantes, e suas tendências cientificas e tecnológicas poderão nos levar.
Eles podem agir como um sinal de aviso ou no mínimo servir, nos preparando para o que o escritor americano Alvin Toffler chamou de ‘choque do futuro’.

Ficção Científica é literatura sobre mudança. Não é coincidência de que tenha surgido como gênero reconhecido com escritores como Jules Verne no final do século 19, uma era em que pela primeira vez na história, as crianças poderiam crescer em um mundo radicalmente diferente daquele dos seus pais. E esta mudança acelerou no século 20.

Enquanto que a mudança é uma parte das nossas vidas, FC se parece com sobreviver. Mesmo que de fato, a ciência seja bem mais estranha que a FC, isso não deveria deter os escritores.

‘Nós precisamos que nosso processo cerebral esteja bem lubrificado, para impedir que a imaginação atrofie.’ diz Cramer. ‘É algo que nós, escritores de FC hard, sempre fizemos.’

Existe também a idéia de que ao invés de estar morrendo, a FC está mudando.

De 1930 a 1950, a FC viveu no triste gueto das revistas populares (pulp magazines), cujas capas exibiam alienígenas com olhos de inseto, aterrorizando indefesas heroínas. Após batalhar para se ver livre destas correntes, a FC moderna, semi-respeitável, nasceu.

Mais tarde nós vimos não somente os romances de SCI-FI alcançarem as listas dos mais vendidos, o gênero alcançou audiências gigantescas através dos games e filmes como Star Wars (Guerra nas Estrelas) e The Matrix.


Os temas de sci-fi também se infiltraram na ficção comum.

Malorie Blackman, em seu best-seller ‘Noughts and Crosses’, uma trilogia para adolescentes, explorou um mundo onde negros e brancos trocavam de cor. Kazuo Ishiguro, em seu belo romance ‘Never let me go’, reconta a triste história de pessoas que foram clonadas especificamente para doar seus orgãos. E o que dizer sobre a vencedora de um Prêmio Nobel, Doris Lessing e sua ‘ficção espacial’, com seus maravilhosos livros sobre Shikasta. E Haruki Murakami, o mais famoso escritor do Japão, a quem a crítica atribuiu temas de FC em livros como ‘The wind-up Bird Chronicle’?

A linha entre FC e a literatura comum, se tornou incrivelmente imperceptível, contudo o gênero continuará sem dúvida, a ter sua própria seção nas livrarias, mesmo que para alguns, aquilo chamado de sci-fi, não seja leitura para qualquer um.

Como os dinossauros, longe de terem desaparecido da Terra, transformaram-se em pássaros que ainda povoam grande parte do planeta, a FC se metamorfoseou em uma multiplicidade de formas, muitas delas ainda bastante atuantes. A velocidade das mudanças, enfatizada por Sagan, simplesmente colocou a FC em um nível de imaginação superior para os escritores da atual geração. Não há por que não acreditar que também não aumentou o desafio.

Seis importantes autores de FC nos dizem o que pensam sobre para onde o gênero está indo.
Margaret Atwood, Stephen Baxter, William Gibson, Ursula K Le Guin, Kim Stanley Robinson e Nick Sagan.