sábado, 28 de fevereiro de 2009

O que é esperado de nós - Ted Chiang




Este é um aviso. Por favor, ouça com atenção.

Neste instante você está provavelmente olhando para um Predictor, milhões deles foram vendidos. Para quem nunca viu, trata-se de um aparelho pequeno, como um controle remoto do portão da garagem, com um botão e um led verde.
A luz pisca quando você pressiona o botão.

Na verdade, ela pisca um segundo antes de você apertar o botão.

A maioria das pessoas diz que quando pela primeira vez o experimentaram, sentiram como se estivessem jogando um tipo estranho de jogo, um onde o objetivo fosse pressionar o botão após ver a luz se acender, e assim ficava fácil.

Mas quando se tenta quebrar as regras, você descobre que não consegue.
Se tentar apertar o botão sem ter visto a luz esta imediatamente se acende, não importa o quão rápido seja o movimento, Não dá para apertar o botão sem que um segundo tenha decorrido.
Se você esperar pela luz, esta nunca se acende. Não importa o que faça, a luz se acende sempre antes de pressionar o botão. Não há como enganar o Predictor.

No interior de cada Predictor há um circuito de atraso negativo que envia um sinal de volta no tempo. As implicações completas de tal tecnologia irão se tornar claras mais adiante, quando um atraso negativo maior do que um segundo ocorre, mas não é sobre isso que quero falar.

O problema mais grave é que o Predictor demonstra que não há tal coisa chamada livre arbítrio.
Sempre existiram argumentos demonstrando que o livre arbítrio é uma ilusão, alguns deles baseados na física, outros baseados na lógica. A maioria das pessoas concorda que tais argumentos são irrefutáveis, mas ninguém realmente aceitou a conclusão.

A experiência de livre arbítrio é tão poderosa que não bastam argumentos, é necessária uma demonstração, e é isso que o Predictor faz.

É comum que uma pessoa brinque com o Predictor compulsivamente por muitos dias, mostrando-o para os amigos, bolando esquemas para vencer o aparelho. A pessoa pode parecer perder o interesse nele, mas ninguém consegue esquecê-lo nas semanas seguintes; as implicações de estar naufragado em um futuro imutável.

Alguns, percebendo que suas escolhas não importam, passam a se recusar a fazer qualquer escolha, como uma legião de Bartleby, ‘o escrivão’ (personagem bizarro de um livro de H.Melville, que se recusa a trabalhar ou tomar qualquer atitude.), não mais realizando qualquer ação espontânea.

Eventualmente um terço daqueles que brincam com o Predictor precisam ser hospitalizados, pois não mais se alimentam. O estado final é o mutismo e a imobilidade total, um tipo de coma desperto. Seus olhos são capazes de seguir um movimento e eventualmente mudam de lugar, mas nada mais. A habilidade de se mover permanece, mas a motivação se perdeu.

Antes das pessoas começarem a brincar com os Predictors, tal manifestação era bastante rara, o resultado de um dano na região do cérebro chamada cingulate córtex. Agora se parece mais como uma praga cognitiva. As pessoas especulam sobre como se destrói um pensamento, algo saído do terror de Lovecraft ou como se uma frase secreta fosse capaz de destruir a lógica do ser humano. Isso apenas demonstra aquilo que recusamos a crer, que o livre arbítrio não existe.
Não é fácil, até que se passa a acreditar nisso.

Médicos tentam argumentar com seus pacientes enquanto estes ainda podem interagir em uma conversa. Todos nós estivemos vivendo felizes em nossas vidas ativas antes disso, e nunca tivemos livre arbítrio também, então por que algo precisaria mudar? 'Nenhuma ação que você executou no último mês foi mais espontânea do que qualquer que venha a ter hoje' poderia dizer um medico. 'Você ainda pode se comportar assim agora'.
Os pacientes invariavelmente respondem: 'Mas agora eu sei. '
E jamais voltam a falar novamente.

Alguns irão dizer que o fato do Predictor causar esta mudança de comportamento significa que nós temos livre arbítrio. Um autômato não pode por si só tornar-se desencorajado, apenas uma entidade livre para pensar poderá fazê-lo. O fato de que algumas pessoas contraem os sintomas mais graves enquanto outras não, apenas ressalta a importância de fazer uma escolha.

Infelizmente tal racionalidade é falha; cada forma de comportamento é compatível com o determinismo, um sistema dinâmico pode funcionar como esperado enquanto outro exibe comportamento caótico indefinidamente e ambos são completamente determinísticos.

Estou transmitindo este alerta para você de um ano além, de seu futuro.

É a primeira mensagem longa recebida quando circuitos com atraso negativo num espaço de mega-segundo foram usados para construir equipamentos de comunicação.
Outras mensagens virão em seguida, falando de outros assuntos.

Minha mensagem para você é essa: finja que você tem livre arbítrio.

É essencial que você se comporte como se suas decisões importassem, mesmo sabendo que não importam. A realidade não é importante: O que importa é acreditar, e acreditar na mentira é o único jeito de se evitar o coma desperto.

A civilização agora depende de seu auto-engano. Talvez, sempre dependeu.

E mesmo sabendo disso, que o livre arbítrio é uma ilusão, está predeterminado quem irá ser acometido pelo coma desperto e quem não irá. Não há nada que possamos fazer - você não pode escolher o efeito que o Predictor terá em você. Alguns irão sucumbir e outros não, e enviar esta mensagem não irá alterar estas proporções. E por que então eu estou fazendo isso?

Por que eu não tive escolha.


Fim.




Ted Chiang mora em Bellevue, Washington (EUA). Ocasionalmente escreve contos de Ficção Científica (FC), reconhecidamente distintos e bem trabalhados.
'Stories of Your Life and Others' seu livro de coletâneas foi publicado em 2002.

Ted Chiang disse: 'A extensão de um trabalho de FC reflete a ciência; é Hard FC. E refletir a ciência não necessariamente significa ser consistente com uma série de fatos; essencialmente significa ser consistente com certa estratégia para se entender o universo. A ciência procura um tipo de explicação diferente daquela fornecida pela arte ou pela religião, uma explicação onde a objetividade abre precedentes para experiências subjetivas.

'O que é esperado de nós' ("What's Expected of Us") foi publicado na revista Nature.