sábado, 14 de fevereiro de 2009

Uma noite de verão - Ambrose Bierce (1906)


Dizer que Henry Armstrong estava enterrado não era motivo suficientemente convincente para acreditar que estava morto. Sempre havia alguém difícil de se convencer.
O testemunho de seus sentidos o obrigava a admitir que estava realmente enterrado.
Sua posição, estendido com a boca para cima, as mãos cruzadas sobre o estômago e presas com algo que se rompeu facilmente, sem que se alterasse a situação - e o estrito confinamento, a negra escuridão e o profundo silêncio constituíam uma evidência impossível de contradizer, e Armstrong aceitou sem perder-se em outros pensamentos.

Mas morto... não. Apenas doente, muito doente, assim que com a apatia de um inválido, não se preocupou em demasiado com tal estranha sorte. Não era um filósofo, mas uma pessoa comum, e naquele momento de uma patologia, o órgão que em certa ocasião deveria inquietar-se estava agora quieto. De modo que, sem nenhuma apreensão quanto ao seu futuro imediato, se pôs a dormir e tudo foi paz para Henry Armstrong.

Mas algo se movia na superfície.

Era uma noite escura de verão, rasgada por freqüentes relâmpagos que iluminavam nuvens prenhas de tempestade. Aqueles breves e relampejantes fulgores revelavam uma cidade fantasma, os monumentos e lápides do cemitério.
Não era uma noite adequada para que uma pessoa normal andasse vagabundeando ao redor de um campo santo, de modo que os três homens ali, cavando a tumba de Henry Armstrong, se sentiam razoavelmente seguros.

Dois deles eram jovens estudantes de uma Faculdade de Medicina, que ficava a alguns quilômetros de distância dali, o terceiro era um negro chamado Jess.
Jess fora contratado pelo cemitério para trabalhar como coveiro fazia muito tempo , e sua pá predileta conhecia todas as almas do lugar. Pela natureza do que naquele momento estava sendo feito, podia-se crer que o lugar não estava tão 'povoado' como o livro de registros do cemitério fazia supor.

Do outro lado do muro, ao largo da estrada, podia-se ver um cavalo e uma carroça, esperando.

O trabalho de escavação não foi difícil, a terra com a qual havia sido coberta a tumba, algumas horas antes, oferecia pouca resistência e não tardou a quedar-se amontoada do lado de fora.
Erguer o ataúde requereu mais esforço, mas Jess era experiente na tarefa e terminou por colocar o caixão sobre o monte de terra cuidadosamente, deixando a descoberto o cadáver vestido com calça negra e camisa branca.

Naquele preciso instante um raio ziguezagueou no ar, arrancando a escuridão, e quase imediatamente explodiu um trovão.

Arrancado de seu sonho, Henry Armstrong ergueu a metade superior de seu corpo, até ficar sentado.

Proferindo gritos inarticulados, os homens fugiram possuídos pelo terror, cada um em uma direção diferente.

Dos fugitivos, dois não regressariam por nada deste mundo.
Já com Jess a coisa era diferente.

Com as primeiras luzes do amanhecer, os dois estudantes, pálidos de ansiedade e com o terror de sua aventura pulsando em suas veias, chegaram na Faculdade.

-Você viu aquilo? Exclamou um deles.
-Deus! Sim... o que vamos fazer?

Se encaminharam à parte dos fundos do edifício, onde havia uma carroça presa a um cavalo, que por sua vez, fora amarrado em frente da sala de dissecação.
Lentamente os dois jovens entraram na sala.

Sentado em um dos bancos no escuro, estava o negro Jess.
Ele pôs-se de pé, sorrindo, todo olhos e dentes.
- Estou esperando meu pagamento, disse.

Nu, sobre a mesa larga, jazia o cadáver de Henry Armstrong.
Tinha a cabeça manchada de sangue e terra, por ter recebido um golpe de uma pá.


FIM.