quarta-feira, 11 de março de 2009

A Coisa - Stephen King


Agora, ali estava ele, perseguindo seu barco que descia pelo lado esquerdo da Rua Witcham. Corria depressa, mas a água era ainda mais rápida e seu barco avançava velozmente. Ouviu um forte rugido e viu que, cinqüenta metros além, na descida da ladeira, a água na sarjeta encachoeirava-se para um bueiro que ainda estava aberto. Era um comprido semicírculo escuro, recortado na cantaria e, enquanto George espiava, um galho solto, de casca tão escura e lustrosa como pele de foca, foi abocanhado pelo bueiro. Pairou sobre ele um instante e depois deslizou para o interior. E era para lá que o barco se encaminhava.

— Oh, que droga, que droga! — gritou ele, agoniado.

George acelerou a corrida e, por um momento, pensou que alcançaria o barco.

Então, um de seus pés escorregou e ele caiu, escarrapachado, esfolando um joelho e gritando de dor. De sua nova perspectiva, ao nível do piso da rua, viu seu barco balançar duas vezes, momentaneamente apanhado por outro redemoinho, para em seguida desaparecer.
— Droga e droga! — tornou a gritar, dando um soco no chão. Isso também doeu e ele começou a chorar um pouco.

Que maneira imbecil de perder o barco! Levantando-se, caminhou até o bueiro. Ficou de joelhos e espiou. A água fazia um ruído surdo e oco, ao despencar nas profundezas escuras. Era um som esquisito. Fez com que ele se lembrasse de...
— Huh!

O som pareceu ser arrancado de sua garganta, como que em uma fieira, e ele encolheu-se. Havia olhos amarelos lá dentro: o tipo de olhos que sempre imaginara no porão, mas que nunca vira. É um animal, pensou incoerentemente, é isso aí, um animal, talvez algum gato, que ficou preso lá dentro.

Ainda assim, ele estava pronto para correr — correria em mais um ou dois segundos, quando seu painel mental de instrumentos houvesse manejado o choque recebido por aqueles dois brilhantes olhos amarelos. George sentiu a superfície áspera do asfalto debaixo dos dedos e a fina camada de água fria fluindo por entre eles. Viu-se ficando em pé e recuando, mas foi então que uma voz — uma voz perfeitamente razoável e bem agradável — falou com ele, saindo de dentro do bueiro.

— Oi, Georgie!

George piscou e tornou a olhar. Mal podia crer no que via. Era como algo de uma
história inventada ou de um filme onde sabemos que os animais falarão e dançarão. Se
ele fosse dez anos mais velho, não acreditaria no que viam seus olhos. Entretanto, não
tinha dezesseis anos, tinha apenas seis.

Havia um palhaço no bueiro.



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